A mídia brasileira em tempos de Covid-19: interesses e posicionamentos

ISABELA NEVES[1]

Este texto analisa como a mídia brasileira reagiu a chegada pandemia da COVID-19 no país. Os grandes veículos de comunicação têm papel central neste processo pois cumprem a função de construir um canal de intermediação entre o Estado e a sociedade civil, agindo também com uma política de conscientização das pessoas diante da doença. Entretanto, a hipótese que será aqui desenvolvida é que a mídia brasileira, embora tenha tido um posicionamento firme quanto as consequências sanitárias e humanas da pandemia, hesitou no debate sobre as medidas econômicas que tem como objetivo proteger as pessoas mais vulneráveis nesse período de crise gerada pelo covid-19. Essa hesitação aparece no debate austeridade fiscal versus aumento dos gastos públicos e reafirma a adesão da grande mídia à agenda neoliberal mesmo em tempos de crise.

Para trabalhar essa hipótese foi feito um mapeamento dos principais assuntos dos editoriais da “Folha de São Paulo” e do jornal “O Globo” no período de um mês, compreendido entre 11 de março a 11 de abril. Coletamos opiniões desses jornais sobre a política de isolamento, medidas econômicas, críticas e elogios aos modos como os governos federal e estaduais lidaram com a pandemia.

Novo contexto político aberto com a pandemia

Neste momento de pandemia, ficou evidente a importância da ação estatal intervencionista em detrimento das políticas de austeridade. A Covid-19 escancarou a necessidade de uma saúde pública e abriu um cenário que pode culminar em uma futura (ou até mesmo presente) crise do neoliberalismo.

A OMS decretou estado de pandemia no dia 11 de março. Dia 10 de março havia 34 casos no Brasil, e nenhuma morte. Algumas medidas foram tomadas no país após ser anunciado que os casos não estavam mais isolados; escolas e universidades suspenderam as aulas, os programas de auditório não puderam ter mais público e algumas atividades esportivas (como jogos de futebol em alguns estados) foram canceladas ou também ocorreram a “portas fechadas”.

No plano econômico, além de medidas como a ampliação do bolsa família, antecipação do décimo terceiro e do INSS, entre outras, destacamos o debate da renda básica emergencial. No dia 18 de março foi anunciado pelo governo federal uma ajuda emergencial para os trabalhadores autônomos, desempregados e micro empresas.[2] Quando anunciado, o valor era de R$ 200,00 por três meses para esses grupos. Graças à ação do Congresso Nacional, o valor subiu para R$ 600,00 mensal, podendo chegar a R$ 1200,00 para mulheres chefes de família. Contudo, o benefício – chamado pelos jornais de “coronavoucher”, o que já indica uma visão neoliberal –foi sancionado somente dia 2 de abril, e o acesso a este auxílio começou a ser pago em 9 de abril.

A mídia e Bolsonaro: acordos na pauta econômica e conflitos nos temas políticos 

Sabe-se que o grupo Globo segue sendo umas das principais fontes de notícia e informação para a população brasileira[3]. Por sua vez, como uma empresa de telecomunicações (o mesmo vale para o grupo Folha, que controla o jornal de mesmo nome, além do portal UOL, entre outras empresas de comunicação), vai atuar para proteger os interesses de sua classe: o empresariado.

Essa relação classista explica, por exemplo, a sistemática oposição da mídia aos governos petistas, mesmo com as contradições que a experiência do lulismo apresentou. Já com o bolsonarismo, contudo, a relação dos veículos de comunicação não é tão linear, apresentando convergências e divergências.

O fenômeno do bolsonarismo opera com duas vertentes: há o conservadorismo, formado por setores religiosos fundamentalistas (especialmente evangélicos, mas não somente), setores ligados ao militarismo, um novo empresariado dos serviços (Havan, Madero, etc); e há o neoliberalismo, que protege os interesses do grande empresariado, tendo como pauta o não intervencionismo estatal (principalmente ao que concerne a proteção dos direitos de trabalho) e as privatizações de serviços públicos. A grande mídia se alia à agenda neoliberal bolsonarista e, por outro lado, se opõe a agenda conservadora que pode descambar em autoritarismo, o que seria prejudicial à liberdade de imprensa e aos negócios de mídia. Essa relação ambígua se aprofundou com a pandemia.

A mídia contra a censura e o autoritarismo do presidente

Primeiro, as discordâncias. Começaremos com dois editorais sobre censura. Em 29 de março o jornal O Globo publicou um editorial intitulado “Coronavírus é usado pelo autoritarismo”[4], no qual repudia a intenção do presidente de colocar em execução a medida provisória que limita a amplitude da Lei de Acesso à Informação. A medida foi descartada pelo STF. O editorial faz uma comparação entre Bolsonaro e o primeiro ministro húngaro Victor Orban, que tomou várias atitudes autoritárias com o cenário pandémico. A Folha de São Paulo foi no mesmo sentido em um editorial no dia 2 de abril com o título “Vírus autoritário”[5]. Nele, o jornal fez um mapeamento das medidas de alguns países desde a chegada do coronavírus e criticou as saídas autoritárias, entre elas aquelas que promoveriam a censura a imprensa.

Além disso, há na grande mídia a crítica direta a postura pessoal de Bolsonaro pela sua forma de lidar com a pandemia. Esses textos buscam repercutir os pronunciamentos oficiais à nação feitos pelo presidente. A partir de sua primeira aparição, no seu pronunciamento de 12 de março, mas especialmente após o segundo pronunciamento, em 24 de março, o presidente obteve críticas tanto ambos os impressos. A Folha afirmou, em um editorial de título “Presidente, retire-se”[6] de 26 de março, que o presidente estimula uma divisão (ao se opor a aqueles que atribuem a devida importância a medida de isolamento) que atrapalha uma coordenação de estratégias estaduais, municipais e federais para lidar com o Covid-19. Já o Globo entendeu, em um editorial intitulado “Bolsonaro minimiza a epidemia e coloca Brasil em risco”[7] de 25 de março que o presidente utilizou a política de enfrentamento em vez de unificar o país, o que não seria pertinente nesse contexto. O jornal afirma ainda que, após seu primeiro pronunciamento, o mesmo pareceria não ter escutado o Ministro da Saúde, ao desconsiderar a importância das medidas de isolamento e também pontuar que o vírus seria apenas nocidos aos idosos, o que é uma falsa informação.

O passar dos dias e a evolução da doença pareceu dar esperança aos jornais quanto ao presidente. Em 2 de abril, a Folha apresentou um editorial com o título “Procura-se estadista”[8] no qual o jornal comemora o tom de Bolsonaro em seu segundo pronunciamento, classificado como “um sopro de normalidade do presidente”. O globo, por sua vez, também prestou elogios em um editorial de mesma data, donominado “No pronunciamento de Bolsonaro, o tom de que o país precisa”[9]. Este conteúdo evidencia que, neste discurso do presidente, houve atenção para a necessidade de união das instituições que pede esse momento. E conclui afirmando que este pensamento de Bolsonaro tem que ser mantido.

Contudo, como sabemos, depois dessa aparente normalidade ele continuou desafiando as orientações da OMS e espalhando Fake News em seu Twitter (especificamente sobre o desabastecimento do Ceasa de Belo Horizonte).

Contra o presidente, ambos os jornais expressam confiança nas instituições e em alguns ministros para conter a propagação do vírus. O editorial de título “Presidente confinado”[10] de 16 de março na Folha, ao criticar Bolsonaro diante da situação, aposta em uma articulação de ministros que seriam lúcidos – considerando o da economia um deles, – com o STF e os presidentes da Câmara e do Senado. No O Globo, saiu um editorial de título “Congresso mostra eficiência em decisões na crise”[11] em 6 de abril. Este pressupõe que há um protagonismo do Legislativo frente ao desacerto do presidente, cujas decisões, em movimento coordenador com o STF, estariam acontecendo com consenso e rapidez necessários para conter a crise.

Quanto aos ministros, ambos os jornais buscaram fortalecer a posição de Luiz Henrique Mandetta, da Saúde, movimento que se fortaleceu com as especulações de sua demissão. Em O Globo, um editorial de título “Ameaça a Mandetta reflete o que é Bolsonaro”[12] de 7 de abril , correlaciona a pressão sobre o ministro com o fracasso do presidente em gerir o contexto de crise. O texto apresenta o comportamento de Mandetta como satisfatório aos olhos da maior parte da sociedade brasileira em contraponto ao do presidente que, por isso, passou a ameaçar seu subordinado com a demissão. O mesmo motivo – disputa de popularidade visando as eleições de 2022 – explicaria, para o Globo, os ataques de Bolsonaro aos governadores. O jornal conclui repudiando esse cálculo político em momento de pandemia. A Folha também se posicionou favorável ao ministro no editorial “O subalterno”[13] de 5 de abril, citando a pesquisa do Datafolha que atesta que 76% das pessoas aprovam a operação de massas comandada pelo ministro, enquanto Bolsonaro possuiria 39% de desaprovação sobre seu desempenho na crise.

A mídia e a economia durante a pandemia

Passada a análise das discordâncias, é chegado o momento de analisar a segunda parte da nossa hipótese, que versa sobre o debate econômico e a necessidade de, neste momento de pandemia, de políticas antineoliberais tais como a intervenção do Estado na economia e a importância de um sistema de saúde pública e universal.

O que vimos na pesquisa foi uma valorização do SUS na grande mídia, o que é algo novo no posicionamento da mídia brasileira. O posicionamento tradicional das empresas de comunicação no Brasil é de estigmatizar o nosso sistema de saúde como ineficiente, fomentando um discurso que responsabiliza a gestão e os servidores pelos problemas e não a falta de verbas. Agora, com a crise, esse ponto do não funcionamento do SUS deu lugar a diversos elogios ao SUS. Um exemplo é o editorial do jornal O Globo do dia 30 de março com o título “País precisa fixar a ciência e o SUS como prioridade”[14].

Porém, isso não se fez desaparecer, nos impressos, a adesão às políticas neoliberais. Em 20 de março um editorial de O Globo chamado “Funcionalismo tem que dar sua contribuição”[15] defendeu que os servidores públicos deveriam aceitar a redução de salários assim como ocorreu os trabalhadores da iniciativa privada. Muitos economistas criticaram essa proposta (por exemplo, Monica de Bolle)[16], argumentando que em um país tão desigual como o Brasil não faz sentido tirar a renda de quem trabalha (seja no setor público ou privado) e que a solução seria cobrar mais impostos dos superricos. Esta proposta, contudo, não é apoiada em nenhum editorial, confirmando que a mídia atua em favor dos interesses do empresariado.

Outro tema em que a adesão neoliberal aparece com força é a renda básica emergencial aprovada pelo Congresso Nacional. Os jornais estão usando o termo “coronavoucher” para se referir a esse benefício, que tem como objetivo dar uma proteção mínima às pessoas mais vulneráveis. Neste caso, não encontramos o termo nos editoriais, mas sim em notícias veiculados tanto no Globo – que, em 30 de março, anunciou que “Senado tem acordo para aprovar coronavoucher e preparar projeto para incluir mais trabalhadores”[17] – quanto na Folha, que em 2 de abril mencionou o apelido coronavoucher em matéria sobre a demora do governo para pagar o benefício.[18]

Reafirmamos que o uso desse termo é problematizável e indica uma adesão ao neoliberalismo, pois mascara que a renda básica é uma obrigação do Estado em face de uma crise sem precedentes e impede que se considere tal benefício como um direito.

Conclusão

É inegável que, neste momento, tanto a Folha como O Globo têm expressado a urgência das políticas públicas para fazer frente a pandemia do Covid-19. De fato, ambos os jornais fazem críticas contundentes a gestão do presidente pela demora em agir e por suas declarações e atos que contrariam as medidas de isolamento social.

Entretanto, em contraste a essa pressão, os impressos pesquisados, como empresas privadas e defensoras de seus interesses, não expressam a mesma conduta quando se trata da pauta econômica. Isso fica muito nítido quando, por exemplo, constatamos que os jornais não criticaram a proposta inicial de Bolsonaro e seu ministro da economia, Paulo Guedes, de conceder um “voucher” de apenas R$ 200,00 por um período de três meses para amparar os trabalhadores informais, plano que foi rejeitado por especialistas e pelo Congresso.

Concluímos, portanto, que a mídia brasileira é firme e rápida em apoiar as medidas de isolamento segundo as recomendações dos cientistas e da OMS. E, no mesmo sentido, é ágil e veloz para criticar as posturas de Bolsonaro que contrariam tais recomendações. Contudo, esta mesma mídia é ambígua, omissa e titubeante quando é preciso debater as medidas econômicas necessárias para enfrentar esta crise, pois elas não estão de acordo com a agenda neoliberal que favorece o empresariado a qual estes jornais se vinculam.


[1] Isabela Neves é graduanda de ciências sociais da UFRJ no 6o período e pesquisadora do NUDEB.  

[2] https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2020/03/18/com-decreto-de-calamidade-publica-governo-anuncia-r-15-bilhoes-para-pessoas-desassistidas.ghtml

[3] https://www.terra.com.br/diversao/tv/blog-sala-de-tv/covid-19-faz-globo-ter-melhor-audiencia-dos-ultimos-10-anos,d638f21eaa4d74d10ef17664f066cb91wzru9spx.html

[4] https://oglobo.globo.com/opiniao/coronavirus-usado-pelo-autoritarismo-1-24334683

[5]   https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2020/04/virus-autoritario.shtml

[6] https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2020/03/presidente-retire-se.shtml

[7]  https://oglobo.globo.com/opiniao/bolsonaro-minimiza-epidemia-poe-brasil-em-risco-24326172

[8] https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2020/04/procura-se-estadista.shtml

[9] https://oglobo.globo.com/opiniao/no-pronunciamento-de-bolsonaro-tom-de-que-pais-precisa-24345136

[10] https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2020/03/presidente-confinado.shtml

[11] https://oglobo.globo.com/opiniao/congresso-mostra-eficiencia-em-decisoes-na-crise-1-24350132

[12]  https://oglobo.globo.com/opiniao/ameaca-mandetta-reflete-que-bolsonaro-1-24355359

[13] https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2020/04/o-subalterno.shtml

[14] https://oglobo.globo.com/opiniao/pais-precisa-fixar-ciencia-o-sus-como-prioridades-1-24334088

[15] https://oglobo.globo.com/opiniao/funcionalismo-tem-de-dar-sua-contribuicao-1-24316691

[16] https://twitter.com/bollemdb/status/1244995204693856266

[17] https://oglobo.globo.com/brasil/senado-tem-acordo-para-aprovar-coronavoucher-prepara-projeto-para-incluir-mais-trabalhadores-24338641

[18] https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2020/04/mesmo-sem-publicar-bolsonaro-diz-que-auxilio-emergencial-comeca-a-ser-pago-na-proxima-semana.shtml

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