Análise do Twitter de Bolsonaro: desgaste politico frente à crise do coronavírus

NATHALIA HARCAR[1]

O presente texto tem como objetivo analisar a ação política de Jair Bolsonaro diante da pandemia da Covid-19 usando como fonte o seu perfil na rede social Twitter. É notório que o presidente conseguiu nesta mídia grande visibilidade devido à sua aptidão para provocar interações intensas e constantes de outros usuários com as suas postagens. Ele teve êxito, como candidato e como chefe do executivo, que sua imagem e seus ideais permaneçam repercutindo frequentemente no debate público, inclusive nas mídias tradicionais.

A importância desta análise se dá, para além do caso específico de Bolsonaro, porque o twitter se tornou uma ferramenta política notável desde a eleição presidencial de 2008 nos EUA. Naquele pleito, o então candidato Barack Obama – que sairia vencedor – fez uso da rede como parte de sua estratégia de marketing no processo de intensificação da propaganda política, de mobilização de apoiadores voluntários e doadores de recursos finanaceiros. Desde então, a plataforma vem se mostrando como um palco para grandes discussões em todo o mundo, assumindo, dessa forma, um papel relevante na construção dos conflitos entre os atores políticos.

Bolsonaro, por sua vez, faz uso dessa ferramenta com maestria, em um ranking feito pela “Twiplomacy” o presidente do Brasil aparece em 2° lugar entre os líderes mais influentes no mundo em 2019 só ficando abaixo de Donald Trump, contabilizando uma média de 104 milhões de interações em seu twitter.[2]

É a partir deste diagnóstico sobre a importância do Twitter do mandatário brasileiro e de seu protagonismo nos debates políticos em nosso país que a nossa análise se insere. Nossa hipótese é que, com a pandemia, Bolsonaro verificou, pela primeira vez, uma perda de força política devido a sua estratégia de minimizar a doença e priorizar a economia. Isso ocorreu porque esta rede social foi um instrumento fundamental – junto com os pronunciamentos oficiais e com as entrevistas exclusivas às redes de TV parceiras do governo – para que ele difundisse sua visão contra o isolamento social.

Deslegitimação das políticas de isolamento

Nossa análise das intervenções do presidente sobre o isolamento social encontrou uma variação de tom ao longo das semanas sem que isso significasse, contudo, uma mudança no conteúdo do que Bolsonaro pregava: seu descrédito às medidas de isolamento social. 

Dessa forma, em um primeiro momento, todo seu discurso parte de um movimento gerado por meio de uma lógica de causa e consequência, na qual aparece uma polarização entre economia e pandemia. Para Bolsonaro, o país não poderia arcar com as consequências econômicas das medidas para conter a doença. O mandatário enfatiza, sobretudo, a ideia do desemprego em massa. O dia 23 de Março e o dia 05 de Abril são exemplificações de postagens feitas via twitter presidencial, no qual ratificam a postura assumida pelo usuário. Tais publicações constam, respectivamente, uma postagem de um link com a frase: “nossa missão é proteger vidas e empregos”[3]; e na divulgação de uma entrevista com uma moradora de Jaguaré em São Paulo, região desprovida de recursos, constatando suas dificuldades financeiras, após isolamento social, devido ao caráter informal de sua atividade.[4]

Outra evidência dessa continuidade no discurso dele é o apoio explicito à formação de aglomerações. O primeiro momento foi em 15 de março, quando o presidente compareceu aos atos pró-governo em Brasília.[5] Neste momento, o cenário que se apresentava era o início das medidas de quarentena adotadas pelos governadores e em paralelo manifestações agendadas em todo o país em prol do Bolsonaro. Dessa forma, o presidente assume uma postura de não oposição a essas aglomerações, e sim de divulgação e de aparição em um desses movimentos, todos esses posicionamentos comprovados por vídeos postados em sua conta.

Um segundo momento foi em 29 de março, quando o cenário do isolamento social estava consolidado no país. Naquele período, o conflito entre o presidente e os governadores estava muito forte e Bolsonaro posta um vídeo entrando em contato direto com a população dentro de um supermercado.[6] Horas depois sua postagem foi apagada pelo Twitter, que tem essa prerrogativa quando avalia que o conteúdo promove desinformação.[7] Doze dias depois, 10 de abril, mais uma vez pública um vídeo confrontando as medidas de quarentena, em que mostrava uma aglomeração entorno do presidente por jornalistas ao sair de uma farmácia.[8]

Esses cinco exemplos demonstram como a política de Bolsonaro se baseia em uma lógica exemplar na deslegitimação do isolamento com o propósito de tentar passar uma imagem de tranquilidade e normalidade nas aglomerações. Seu objetivo, com isso, é de criar as condições para manter a economia em funcionamento a despeito das recomendações da OMS e das medidas dos governadores. O conflito com os chefes de executivo estadual é o nosso próximo tópico.

Crise entre Bolsonaro e governadores

Outro aspecto vital na composição do desgaste político de Bolsonaro é seu embate direto com os governadores. Respaldado pela centralidade levantada acima sobre o desacordo com as medidas de isolamento, a partir do dia 24 de Março o presidente eleva o tom da discussão e ancora seu posicionamento no salvamento dos empregos. Em resposta a intensificação do isolamento adotado pelos governadores de São Paulo e do Rio de Janeiro, estados com os maiores números de casos de covid-19 no determinado momento, Bolsonaro faz um pronunciamento oficial elevando as tensões, partindo de uma contínua lógica de deslegitimação da doença, fazendo, assim, o uso de termos como “gripezinha” (referência ao covid-19) e “terra arrasada” (referência ao isolamento horizontal).

Esse posicionamento inflamado acarreta em um efeito inesperado, em que ocorre a união entre os não alinhados e a esquerda em oposição ao discurso presidencial. Em um estudo feito pela DAPP-FGV[9], podemos ver nitidamente como o jogo político se remodelou a partir das interações via Twitter dos respectivos atores representantes de cada espaço.

https://lh3.googleusercontent.com/VPaPmmFBtu1eOh1S8Jk18IvUbV6OL-SJoOXt-aenLy6E4fpcmwiT4yhRC0LlEolxqnu8Q3w-oPcOK-6g3oQ8fpIWEaHHiozeS1nefxM7j6oQ6UbmqwtQ5otyxmhiDIdT5IUWMUkU

Mesmo após o diagnóstico de que seu discurso contra os governadores e contra o isolamento estava repercutindo mal, Bolsonaro manteve a prática de atacar os chefes de executivo estadual. No dia 1° de abril o presidente usa seu twitter para dar continuidade ao seu discurso, alfinetando de forma não explicita, porém compreendida por aqueles que acompanham seus discursos, o governador João Doria, entre outros mandatários: “Se todos colaborarem, inclusive aqueles que trabalham mais interessados em poder do que na vida das pessoas (…)”[10]  

Conclusão

O cenário político intenso vivenciado no período de um mês da pandemia é sem duvidas único na contemporaneidade. Diante desta situação, Bolsonaro, apostou na continuidade de uma política polar, no qual conseguia manter o controle principalmente sobre a base aliada. No entanto essa estratégia, que vinha funcionando muito bem no tempo político normal, se rompeu uma vez que o quadro social em todo o mundo se modificou drasticamente. Antes da pandemia, Bolsonaro conseguiu construir essa polarização com o PT, com Lula, com a esquerda. Com a chegada da Covid-19 no Brasil ele procurou fazer o mesmo a partir de uma oposição entre a crise de saúde, que não seria assim tão grave versus e crise econômica, está sim importante, porque desembocaria no em desemprego em massa. A síntese dessa polaridade apareceu na polêmica sobre o isolamento social amplo e geral proposto pela OMS e pelo Ministério da Saúde contra um isolamento seletivo – só dos idosos – defendido pelo presidente, mesmo que nenhum outro país tenha feito esta opção.

Essa é a lógica antagônica criada por Bolsonaro, ou seja, quanto mais se prega o isolamento social, priorizando a crise sanitária, mais se gerará uma crise econômica, não o que prejudicaria, em sua opinião, muito mais a população.

Como vimos, o Twitter foi um instrumento central do presidente para trabalhar essa polarização na sociedade. Sua derrota nesta rede social indica que, ao menos nesse primeiro mês, ele fracassou em sua estratégia.


[1] Nathalia Harcar é graduanda em ciências sociais da UFRJ do 4° período e pesquisadora do Nudeb

[2] Twiplomacy, “50 word leaders with the most interactions” Disponível em: https://twiplomacy.com/ranking/50-world-leaders-interactions-twitter/

[3] https://twitter.com/jairbolsonaro/status/1242111112889487360

[4] https://twitter.com/jairbolsonaro/status/1246866054065897472

[5] https://twitter.com/jairbolsonaro/status/1239284761643925505.

[6] https://twitter.com/jairbolsonaro/status/1244271496543035400

[7] https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/03/29/twitter-apaga-publicacoes-de-jair-bolsonaro-por-violarem-regras-da-rede.ghtml

[8] https://twitter.com/jairbolsonaro/status/1248714714525446144

[9] https://g1.globo.com/economia/blog/ana-flor/post/2020/03/25/pronunciamento-de-bolsonaro-e-repudiado-nas-redes-sociais-aponta-levantamento-da-fgv.ghtml

[10] https://twitter.com/jairbolsonaro/status/1245537973669634048

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