Bolsonarismo, pandemia e a política brasileira: por que ninguém tem maioria?

JOSUÉ MEDEIROS

Em 26 de março de 2020 publicamos um texto no portal Horizontes ao Sul tentando explicar porque Bolsonaro desafiava a pandemia da Covid-19.[1]  Na ocasião, argumentamos que a eleição do atual presidente se deu por uma mudança radical nas configurações da política brasileira: de 1988 até 2014, todas as forças políticas se organizavam para fazer maioria política nas instituições e com isso viabilizar políticas públicas que garantissem uma maioria eleitoral nas disputas majoritárias.

Foi assim com Collor em 1989 e sua caça aos marajás; com Fernando Henrique em 1994 e 1998 com o plano real e estabilidade econômica; Com Lula e Dilma entre 2002 e 2014 com as políticas sociais e continuidade da ação em favor dos mais pobres.

Ora, mas Bolsonaro também precisou de maioria dos votos para se eleger. Obviamente que sim. Mas desde que tomou posse, ele se recusou a construir uma maioria política nas instituições – Congresso Nacional, Governadores, partidos, mídia – optando desde o primeiro momento pela mobilização incessante do que chamamos de sua base mais fiel, os tais 30% do eleitorado. Em termos sociais, trata-se do que as ciências sociais vêm entendendo como o fenômeno político e social do bolsonarismo.

É fundamental entender que esse método não começou com Bolsonaro presidente: todo o processo eleitoral de 2018 se desenvolveu com essa lógica do menos poder ser mais. Reforçando o que já estava no primeiro texto: a última eleição presidencial foi paradigmática. Depois dela, nem as forças políticas nem as instituições podem seguir agindo da mesma forma, como se vivêssemos uma situação normal.

Não há, no discurso e na ação do Bolsonaro candidato a presidente em 2018, absolutamente nenhum esforço de produzir uma estratégia que aponte para a necessidade de formar uma maioria política após a conquista da maioria eleitoral e que tenha a função de representar essa maioria eleitoral até as próximas eleições.

Bolsonaro apresentou uma candidatura de combate, contra tudo e contra todos, contra o sistema. Não era oposição a um governo, era “contra tudo que está aí”. Sua narrativa não estava amparada em nenhuma política publica. Seu programa não continha nenhuma proposta concreta.

Sua vitória não pode ser explicada por uma variável principal, tal como ocorreu com todos os presidentes eleitos desde 1989. Nem mesmo o antipetismo, muitas vezes usado como tábua de salvação das análises. A hipótese de que a rejeição ao PT resultaria na eleição de qualquer candidato que chegasse ao 2o turno contra um petista só poderia ser comprovada se o ex-presidente Lula tivesse concorrido nas eleições de 2018. Sua injusta prisão tirou do páreo o candidato que liderava as pesquisas e que é a principal referência tanto do petismo quanto do antipetismo.

O fato é que muitos fatores contam para explicar a vitória de Bolsonaro. Sem dúvida, há o peso da rejeição ao PT. Mas é preciso colocar na balança com igual importância o processo de criminalização da política levado a cabo pela grande mídia através da Lava-Jato. E, no mesmo sentido, o profundo descontentamento popular contra todos os governos desde que Dilma traiu sua promessa eleitoral e começou o ajuste fiscal e, com o golpe de 2016, com o avanço de Temer contra os direitos trabalhistas e contra a saúde e a educação, piorando ainda mais a vida do povo.

É preciso também destacar o papel da facada. Foram impactantes as cenas protagonizadas por Bolsonaro no anúncio do novo Ministro da Saúde, Nelson Teich. O que vimos foi um presidente acabado, abatido, sem energia, esgotado. Este triste espetáculo é a contraprova perfeita do que seriam as eleições sem a facada. O atentado deu ao então candidato tudo que ele precisava: além de ser vítima, ganhou o privilégio de não se expor ao debate público. A pandemia da Covid – 19 tirou isso dele e o resultado está à vista de todos:  temos na presidência um completo incapaz, alguém que não tem nenhuma condição de enfrentar a arena pública.

Não é por acaso que esta candidatura de combate teve na militância de redes sociais – que vai muito além das fakenews e dos bots – sua principal ferramenta. Sem precisar ir a debates e confrontar seus adversários, Bolsonaro usou os celulares e a internet para mobilizar o seu um terço e elevá-lo a outro patamar no momento certo, ao final do 1o turno.

Seu objetivo era fazer o mesmo no governo. Entre 2019 e 2022, ele manteria seus 30% mobilizados e ativados, ora recuando um pouco a depender da conjuntura, ora avançando para 40% se as notícias fossem boas. O importante era chegar competitivo no próximo pleito, para então repetir o movimento.

São muitas as evidências desse plano e citamos somente uma: o desprezo absoluto de Bolsonaro pelas eleições municipais de 2020. Uma vez que ele não quer constituir uma maioria política que represente uma maioria eleitoral, pode ignorar as disputas nas cidades, desde que tenha, em municípios chaves, aliados com 30% para manter a base mobilizada.

Eis então que a fortuna o abandona e a pandemia inviabiliza esse plano. A presente crise – que será mais forte quando a doença for controlada, com a maior recessão econômica do século – exige que Bolsonaro governe, que ele elabore propostas que tenham o apoio da maioria e que lidere uma concertação capaz de viabilizar a retomada econômica.

Ele não fará nada disso e banca sua aposta. Está, no presente momento, mais enfraquecido do que nunca. Porém, segue totalmente no jogo porque, diante da sua fragilidade, nenhum outro setor consegue agir para fazer maioria. Nem à direita, nem à esquerda.

É inegável que as forças de direita saem na frente. João Dória, do PSDB, surge como a principal liderança que defende a vida na frente da economia. Não é surpresa, afinal, ele governa o Estado mais rico do país. Ao seu lado, Rodrigo Maia e David Alcolumbre, do DEM, apareceram como as lideranças institucionais que o país precisa, ponderadas e mediadoras.

O problema é que a nossa direita segue na mesma toada de 2014, quando o finado Aécio Neves contestou o resultado eleitoral. Seu principal objetivo segue sendo o de desmontar todos os direitos sociais inscritos na constituição de 1988. O episódio mais recente desta sanha neoliberal foi a aprovação da MP da Carteira de Trabalho Verde e Amarela, fragilizando ainda mais a maioria trabalhadora. No mesmo sentido, essas lideranças ameaçam retirar direitos dos servidores públicos e se recusam a abrir um debate sobre criar direitos permanentes para os trabalhadores informais, o que poderia ocorrer com a transformação da renda básica emergencial em permanente. Mantida a adesão incondicional ao programa neoliberal que, aliás, vem sendo abandonado pelo mundo a fora, é improvável que essa direita chegue em 2022 em condições de formar uma nova maioria eleitoral e política. É exatamente o que Bolsonaro precisa para se manter vivo politicamente.

Pelo lado das esquerdas, embora exista um programa capaz de atender aos anseios da maioria, impressiona como seus partidos e lideranças estão, na quase totalidade, fora do jogo político. Com exceção de Flávio Dino, todos parecem mais preocupados em manter suas bases já conquistadas – e que representam, somadas, 30% do eleitorado, do que em reorientar as estratégias para conseguir ampliar este contingente. Mantida as atuais táticas de autoconstrução, é improvável que as esquerdas consigam chegar em 2022 em condições de formar uma nova maioria eleitoral e política. Novamente, é tudo que Bolsonaro quer para chegar competitivo na disputa pela reeleição.

Afinal, se ninguém tem maioria, volta a vigorar a lógica de 2018, em que menos pode ser mais. E, neste caso, Bolsonaro levará larga vantagem, por ser presidente e controlar o Estado e por já saber usar as táticas e métodos necessários para este tipo de processo.


[1] https://www.horizontesaosul.com/single-post/2020/03/26/POR-QUE-BOLSONARO-DESAFIA-A-PANDEMIA

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