EDITORIAL | A política brasileira e a pandemia: Nada será como antes

POR JOSUÉ MEDEIROS (DCP/IFCS) E PEDRO LIMA (DCP/IFCS)

É com enorme satisfação que apresentamos o primeiro Boletim do Núcleo de Estudos Sobre a Democracia Brasileira (NUDEB) de 2020. Os textos que o compõem são resultado de um esforço coletivo de investigação em meio à pandemia da Covid-19. Orgulhamo-nos muito das e dos estudantes de graduação em Ciências Sociais do IFCS que, mesmo com o isolamento e as condições longe do ideal para pesquisa e escrita, passaram o primeiro mês de atividades presenciais suspensas na UFRJ dedicando-se a analisar a nossa democracia em tempos de pandemia.

Oferecemos aqui um conjunto de treze pequenos textos sobre como os variados atores e instituições da política brasileira reagiram ao decreto de pandemia feito pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 11 de março de 2020 diante da rápida e incontrolável disseminação do novo coronavírus pelo mundo. O período pesquisado vai até 11 de abril de 2020, compreendendo, portanto, um mês de vigência da pandemia.

Nosso esforço abarcou os seguintes temas: uma análise mais geral sobre Bolsonaro (1); uma análise sobre o Twitter de Bolsonaro (2); alguns de seus principais ministros (Mandetta, Guedes, Moro e Weintraub (3); a ala militar do governo (4); o Congresso Nacional (5); o Supremo Tribunal Federal (6); os partidos de oposição de esquerda (7); os governadores de Estado (8); a mídia empresarial (9); o debate intelectual entre economistas (10); os empresários (11); os movimentos sociais (12); e, por fim, porém não menos importante, as universidades públicas (13).

Toda a investigação se deu com o objetivo de responder à seguinte questão: que conflitos da política brasileira se sobressaem no contexto da pandemia? Trata-se de uma análise conjuntural que pretende contribuir para uma reflexão mais aprofundada e de médio prazo sobre a crise que atinge a democracia brasileira desde o golpe parlamentar de 2016.

O que emerge da pesquisa é a constatação de que a eclosão da pandemia no Brasil e seu agravamento não produziu nenhum tipo de conflito novo em nossa política. Todas as divergências e contendas que aparecem nos textos já existiam em nossa democracia desde a posse de Bolsonaro. Mesmo com a Covid-19 e seus profundos impactos, todos os atores políticos seguem fazendo e atuando exatamente do mesmo modo que fizeram ao longo de 2019 (e alguns até mesmo desde antes). A começar por Bolsonaro, que manteve sua postura de pressionar as instituições para manter uma base fiel de 1/3 do eleitorado, o que garante a ele disputar de modo competitivo o pleito presidencial de 2022. O fato é que nada do que o presidente fez desde o seu primeiro pronunciamento em 12 de março de 2020 é surpreendente ou destoa do seu comportamento anterior.

Tais conflitos, contudo, não permaneceram do mesmo modo após a chegada do coronavírus no Brasil. A crise sanitária e econômica causada pela pandemia contribuiu, na verdade, para radicalizar o sentido destas disputas, acelerando o tempo histórico e político nacional. Viveremos em 2020 a maior recessão nacional e internacional desde a crise de 1929, o que exigirá novas respostas e produzirá novas composições no mundo e no Brasil. A Covid 19 é, afinal, o maior evento geopolítico do século XXI.

Parece-nos nítido, portanto, que nada será como antes em nossa democracia. Há, então, um aparente paradoxo: os atores políticos seguem agindo do mesmo jeito, porém é improvável que possam seguir assim com o fim da pandeia. Em política, os conflitos precisam de um desfecho, não permanecem eternamente abertos. Bolsonaro pretendia levar esse jogo até 2022, mas as relações de força exigirão uma resolução imediata.

Que resolução é esta? Não nos cabe fazer profecias, mas podemos apostar que Bolsonaro não mudará, não recuará, não deixará de agir contra as instituições e de mobilizar sua base, mesmo com a incontestável queda de popularidade que vem apresentando: pesquisa do instituto Atlas divulgada em 15 de abril mostra que apenas 23% consideram seu governo ótimo/bom, contra 29% que tinham essa posição em fevereiro de 2020. Já o número de entrevistados que consideram sua gestão ruim/péssima saltou de 38% para 43% no mesmo período.

No dia em que escrevemos esse editorial – 16 de abril de 2020 – o presidente comprovou que não vai mudar: demitiu o Ministro Mandetta, atacou o presidente da Câmara Rodrigo Maia e denunciou que parte do STF, do Congresso e alguns governadores (principalmente João Dória) articulam um golpe para tirá-lo da presidência. No final de semana seguinte, o presidente compareceu novamente a um ato contra o Congresso, estimulou carreatas barulhentas em frente aos hospitais com doentes graves da Covid-19 e anunciou que não obedecerá a decisão do STF – unanime no plenário – sobre o isolamento social. Bolsonaro quer a radicalização com a expectativa de contra-atacar e tentar um autogolpe. Caberá às forças democráticas reagirem a altura.


ÍNDICE

A política brasileira e a pandemia, por Josué Medeiros

O Twitter de Bolsonaro, por Nathalia Arcar

Os ministros de Bolsonaro, por Luiza Soares

Os militares, por Victor Pimentel 

O Congresso Nacional, por Nívea Baltar

O STF, por Pedro Silveria

A oposição, por Maria Luiza de Freitas de Souza 

Os governadores, por Maíra Tura

A mídia, por Isabela Neves

O debate econômico, por Júlia Paresque

O empresariado, por Kemily Mello

Os movimentos sociais, por Cello Latini Pfeil

As universidades, por Lucas Paz dos Santos

Sobre o NUDEB

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s