Empresariado e pandemia: o lucro à frente da vida

KEMILY MELLO[1]

Este texto busca investigar a ação de grupos empresariais brasileiros diante da pandemia da Covid-19. A pesquisa analisou notícias na grande mídia, pronunciamentos oficiais e posicionamentos informais do empresariado nacional e seus representantes. A pesquisa se deu entre 11 de março a 11 de abril, compreendendo um mês da pandemia. Duas hipóteses norteiam a reflexão: a primeira é que os setores do “novo empresariado”, representados pelo Movimento Brasil 200, se alinharam rapidamente à postura bolsonarista de minimizar a doença e priorizar a questão econômica. A segunda hipótese incide sobre os grupos tradicionais de empresários ligados a associações patronais tais como a Federação das Indústrias de São Paulo (FIESP) e a Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (FIRJAN). As entidades demoraram a se manifestar sobre possíveis ações do governo diante do coronavírus e, quando fizeram, buscaram reconhecer a gravidade da doença, em convergência com o discurso dos governadores e do Congresso.. Todavia, sua ação prática teve como foco prioritário defender os interesses das empresas.

Entendemos, portanto, que apesar de uma postura pública distinta, os dois grupos se encontram na ação política para priorizar seus interesses em detrimento dos trabalhadores.

O empresário bolsonarista: ação política radical e desprezo às vidas

Enquanto todos os países mais afetados pela crise alertavam sobre medidas como isolamento social e quarentena, o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, optou por um comportamento oposto, de minimizar a gravidade da doença e afirmar que a economia não deveria parar. Imediatamente os empresários ligados ao movimento Brasil 200 como Luciano Hang e Junior Durski, vieram a público sustentar e posição de Bolsonaro e convocar o povo para ir às ruas em uma ‘manifestação’ pró-governo.

Em vídeos publicados em suas redes sociais, Junior Durski, dono da rede de restaurantes Madero, conclamou a população a comparecer nos atos do dia 15 de março contra o Congresso[2]. Já Luciano Hang se fantasiou de “Captião Brasil” e chamou as pessoas para a manifestação bolsonarista.[3] Ambos ignoraram, na ocasião, as recomendações da OMS e dos governadores para evitar aglomerações. Embora tais atitudes configurarem crime de atentado à saúde pública, nada aconteceu com eles do ponto de vista institucional. No debate público, ao menos, este empresariado se viu na defensiva, especialmente nas redes sociais: a tag #MaderoNuncaMais foi um dos assuntos mais comentados no Twitter em dia 16 de março[4] e a empresa Smart Fit, do fundador Edgard Corona, sofreu uma campanha de boicote.[5]

Na semana seguinte, em entrevista ao Estadão[6], Durski diz que os boicotes não tiveram impacto nenhum na prestação de contas de sua rede. Mesmo que isso seja verdade, o tom do “chef” já era outro, muito mais neutro e ponderado do que havia mostrado nos vídeos. A pressão pública impactou na conduta do empresário bolsonarista. O mesmo aconteceu com Luciano Hang, que, após a enxurrada de críticas sobre o seu posicionamento favorável aos atos, resolveu ‘baixar o tom’ e cobrar uma posição mais lúcida do presidente sobre a pandemia.[7]

Nossa pesquisa demonstra, contudo, que tratou-se apenas de um recuou formal, pois o empresário varejista manteve uma prática alinhada ao presidente, reiterando que o fechamento dos comércios é uma medida tomada a partir de pura histeria. Em Santa Catarina, por exemplo, lojas da Havan continuaram abertas mesmo com o decreto do Estado que pedia o fechamento dos comércios. Foi necessário que o Ministério Público fizesse uma intervenção junto a Polícia Militar para que o decreto fosse cumprido[8]

O que de fato mais grave nessa conduta não são os impropérios ditos por parte desses bilionários, mas sim a sua representação na vida da classe trabalhadora: a Madero possui mais ou menos 8 mil funcionários em todo país e seu dono afirmou publicamente que “não podemos parar por conta de 5 ou 7 mil pessoas que vão morrer por conta do coronavírus”[9].  Já Luciano Hang, que emprega 22 mil pessoas em suas lojas, afirmou nas redes sociais que:

Pra mim, Luciano, é muito simples. Então, eu simplesmente fecho as lojas, cancelo os pedidos de todos os meus fornecedores. Tenho dinheiro para pagar tudo e vai sobrar dinheiro no meu bolso. E aí eu vou pegar e vou pra praia. Né? E quem sabe eu tenha que mandar 22 mil colaboradores embora. E 1 emprego no comércio é cinco para trás (na indústria). Então, se eu tenho 22 mil colaboradores, eu tenho 120 mil pessoas dependendo da Havan.[10]

Esses dois empresários são lideranças destacadas do Movimento Brasil 200, uma articulação empresarial surgida em março de 2018 para sustentar a pré-candidatura a presidente de Flávio Rocha, dono da Riachuelo. Rapidamente o grupo se alinhou com o então pré-candidato Bolsonaro, que se comprometeu com uma agenda radical de reformas contra os direitos sociais e trabalhistas.[11] O lema do hoje presidente era “é difícil ser patrão no Brasil”. Ao longo do primeiro ano da gestão Bolsonaro, esse grupo foi um dos mais influentes junto ao governo federal. [12] Trata-se de um “novo empresariado” muito atuante na política e nas redes sociais, que usa táticas agressivas de mobilização da opinião pública, em um padrão distinto daquele verificado na ação de entidades patronais tradicionais, conforme veremos a seguir.

As entidades empresariais tradicionais: moderação e convergência com as instituições

Quando se trata das entidades patronais mais tradicionais, como a FIESP e a FIRJAN, nota-se um silêncio inicial por parte de seus representantes, que não endossaram o desafio de Bolsonaro às recomendações da OMS, embora tenham apoiado tanto a candidatura do ex-capitão em 2018[13] quanto a própria gestão ao longo de 2019. Em dezembro de 2019, tanto a CNI quanto a FIRJAN encheram o presidente de homenagens e medalhas de “Mérito Industrial”.[14] Além disso, Paulo Skaf, presidente da FIESP, é cotado para ser um nome a concorrer à prefeitura de São Paulo pelo partido do Bolsonaro.[15]

Assim, em 16 de março a FIESP soltou seu primeiro comunicado cobrando “medidas para reduzir os efeitos negativos da pandemia na economia”[16]. Percebe-se que, assim como o empresariado bolsonarista, a defesa das empresas veio antes da questão sanitária. Não há, contudo, um desafio ao isolamento social por parte da FIESP e nem a minimização das perdas de vidas humanas. Em 20 de março, finalmente Skaf demonstra preocupação com a saúde, oferecendo ao governo a ajuda dos empresários e apresentando um tom distinto do presidente.[17]

O presidente da FIESP se manteve na mesma direção nos pronunciamentos seguintes: no dia 28 de março, em reunião com o Ministro da Economia Paulo Guedes, ele afirmou que “nenhum brasileiro será deixado para trás” – em uma nítida demarcação com o discurso do empresariado bolsonarista – e que “não vai faltar recursos para a saúde”. [18] Por fim, no começo de abril, o empresário paulista apresentou uma posição de apoio às medidas de isolamento implementadas pelo governo de São Paulo, porém com ressalvas de que a partir de 22 de abril a economia deveria voltar a funcionar gradativamente caso a situação esteja controlada.[19]

No mesmo sentido foi o presidente da FIRJAN, Eduardo Eugênio, que no dia 16 de março envia ao Congresso Federal[20] o “Programa de Apoio à Resiliência Produtiva”[21], que são propostas similares às plano de medidas da FIESP[22]. Indo de acordo ao posicionamento da federação paulista, Eugênio prioriza as questões econômica em detrimento à saúde pública sem, todavia, desafiar as recomendações sanitárias. Assim como Skaf, ele busca legitimar seu posicionamento enquanto presidente de uma federação demonstrando que leva a sério as previsões dos especialistas.

Além disso, sua postura mostra que a sua preocupação não é apenas a questão econômica: No dia 2 de abril ele afirma que “A pandemia atinge todo mundo. Como indivíduos, empresas e instituições temos obrigação moral de nos engajar”[23]. Sendo coerente com seu discurso, a FIRJAN atua junto às indústrias com a doação de materiais para hospitais do Estado. Além disso, no dia seguinte, 3 de abril, promove com o apoio da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), testes de Covid-19 para todos os 556 mil trabalhadores da indústria. Em sua fala reitera que “Nós todos somos responsáveis uns com os outros. Nós, cidadãos e cidadãs do Brasil e do temos que colocar as nossas capacidades para ajudar a comunidade.”[24]

Em comum às entidades, além do tom ponderado e da ação em favor das empresas, encontramos o apoio às Medidas Provisórias editadas pelo governo para proteger as empresas durante a pandemia. A FIESP elogia o governo e cobra novas medidas[25] enquanto a FIRJAN, além de manifestar seu acordo com as propostas[26], faz um mapeamento do que já avançou e daquilo que ainda deve melhorar.[27]

Conclusão

Nossa pesquisa mostrou uma distinção no comportamento político destes dois grupos empresariais e uma aproximação no que tange aos objetivos políticos juntos ao governo. Enquanto Luciano Hang e Junior Durski infestavam as redes sociais com vídeos chamando à população para o ato bolsonarista contra o Congresso, Skaf e Eugênio buscaram o caminho de reuniões formais com o governo para apresentar propostas manifestar uma disposição institucional de colaborar. O empresariado do Movimento Brasil 200 atua, portanto, em uma relação imediata junto à sociedade civil como um todo e, em especial, com a base mais fiel do bolsonarismo. Já as entidades tradicionais buscam a mediação estatal, principalmente através da relação com o Ministro da Economia, Paulo Guedes.

As propostas elaboradas e cobradas pela FIESP e FIRJAN incluem adiamentos dos tributos, pedido de ampliação do acesso ao crédito e redução da jornada de trabalho e redução dos salários, o que beneficia também o empresariado bolsonarista[28]. Neste sentido, estão juntos no apoio as MPs do governo federal que fragilizam os trabalhadores.

Apesar da divergência nos métodos, o apoio ao governo mostra como os setores empresariais diversos se unem dentro suas particularidades para atingir o mesmo fim: a maximização dos lucros. Asssim, até o dia 15 de Abril, mais de 1 milhão de trabalhadores ou tiveram seus salários reduzidos ou tiveram seus contratos suspensos[29]. O apoio tanto de um setor quanto de outro às medidas provisórias deixa em evidência que, mais uma vez, a vida da classe trabalhadora não está acima dos interesses econômicos do empresariado.


[1] Kemily Mello é graduanda em ciências sociais da UFRJ do 5º período e pesquisadora do NUDEB

[2] https://www.instagram.com/p/B9Sbg-DFs2H/>

[3] https://www.instagram.com/p/B9Ww8jOgU4E/>

[4] https://www.cut.org.br/noticias/boicote-a-empresas-ligadas-a-bolsonaro-ganha-as-redes-161ao>

[5]  https://www.cut.org.br/noticias/boicote-a-empresas-ligadas-a-bolsonaro-ganha-as-redes-161ao>

[6] https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,manifestacoes-ficaram-pequenininhas-diante-do-coronavirus-diz-dono-do-madero-que-apoiou-atos,70003231709>

[7] https://www.instagram.com/p/B94IOh2gTtd/>

[8] https://congressoemfoco.uol.com.br/saude/policia-militar-fecha-loja-da-havan-em-sc-por-descumprimento-da-quarentena/>

[9] https://www.cartacapital.com.br/sociedade/nao-podemos-parar-por-7-mil-que-vao-morrer-e-molecada-na-favela-nem-pega-os-bolsonaristas-sobre-o-coronavirus/ >

[10] https://www.cartacapital.com.br/sociedade/nao-podemos-parar-por-7-mil-que-vao-morrer-e-molecada-na-favela-nem-pega-os-bolsonaristas-sobre-o-coronavirus/

[11]https://www.gazetadopovo.com.br/politica/republica/eleicoes-2018/o-que-e-o-brasil-200-o-movimento-politico-do-dono-da-riachuelo-873631ha6wgl2zwue0vwwx833/

[12]https://www.terra.com.br/economia/grupo-de-empresarios-amplia-lobby-no-governo,ec420fdc799f7303a7b16b8800b19f634pqkapvp.html>

[13]https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/07/nao-temos-receio-algum-de-um-governo-bolsonaro-afirma-presidente-da-cni.shtml

[14]https://www.redebrasilatual.com.br/economia/2019/12/bons-servicos-prestados-cni-dara-medalha-de-merito-industrial-para-bolsonaro/

https://www.gazetadopovo.com.br/republica/bolsonaro-merito-industrial-firjan-classe-politica/

[15] https://www.bbc.com/portuguese/brasil-51777804>

[16]https://www.fiesp.com.br/noticias/skaf-defende-medidas-para-reduzir-os-efeitos-negativos-do-coronavirus-na-economia/

[17] https://www.fiesp.com.br/noticias/skaf-reune-empresarios-para-discutirem-com-bolsonaro-o-enfrentamento-ao-coronavirus/

[18] https://www.fiesp.com.br/noticias/nao-vao-faltar-recursos-para-a-saude-nem-para-a-economia-diz-paulo-guedes-em-reuniao-na-fiesp/

[19] https://www.istoedinheiro.com.br/skaf-defende-volta-gradual-da-atividade-economica/

[20] https://www.firjan.com.br/noticias/coronavirus-firjan-elabora-propostas-para-adaptar-relacoes-trabalhistas-e-manter-saude-financeira-de-empresas.htm?&IdEditoriaPrincipal=4028818B46EEB3CD0146FD70E994340B

[21] https://www.firjan.com.br/publicacoes/publicacoes-de-economia/programa-de-apoio-a-resiliencia-produtiva-acoes-em-ambito-trabalhista-e-previdenciario.htm#pubAlign

[22]https://www.fiesp.com.br/noticias/skaf-defende-medidas-para-reduzir-os-efeitos-negativos-do-coronavirus-na-economia/

[23]https://oglobo.globo.com/rio/doacoes-garantem-abertura-de-100-leitos-de-cti-em-hospitais-publicos-do-rio-24345520

[24]https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2020/04/03/federacao-das-industrias-do-rio-vai-fazer-teste-da-covid-19-em-mais-de-500-mil-trabalhadores.ghtml

[25]https://economia.uol.com.br/noticias/estadao-conteudo/2020/04/02/correcao-fiesp-elogia-medidas-trabalhistas-e-adiamento-de-tributos.html

[26]https://valor.globo.com/brasil/noticia/2020/03/23/mp-927-ajuda-a-preservar-capacidade-de-producao-e-emprego-diz-firjan.ghtml

[27]https://www.firjan.com.br/noticias-1/confira-o-avanco-do-programa-de-resiliencia-produtiva-da-firjan.htm

[28]https://www.bol.uol.com.br/noticias/2020/03/23/luciano-hang-medidas-governo-coronavirus.htm

[29]https://g1.globo.com/economia/noticia/2020/04/14/corte-de-jornada-e-salario-ou-suspensao-de-contratos-ja-atingiu-mais-de-1-milhao-de-trabalhadores.ghtml

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