A mídia brasileira em tempos de Covid-19: interesses e posicionamentos

Por Isabela Neves

Este texto pretende dar continuidade à análise de como a mídia reagiu a chegada da pandemia da Covid-19 no país. Nota-se um protagonismo dos veículos de comunicação, neste momento, na função de conscientizar a sociedade civil, razão pela qual se faz necessária uma constante identificação dos posicionamentos da grande mídia diante da pandemia e do governo federal.

A hipótese aqui desenvolvida aponta para a permanência da contradição entre as críticas das medidas sanitárias em relação ao apoio das medidas econômicas. Acredita-se que o oposicionismo da imprensa ao governo Bolsonaro teria maior frequência quando relacionado à questões de divergências políticas do presidente com ministros, ou a declarações do mesmo quanto a questões sanitárias. Todavia, identificamos que a imprensa em geral minimiza o debate das políticas econômicas que visam os mais vulneráveis. Este curso indica uma continuidade na validade da hipótese do boletim anterior, no qual percebemos uma adesão da grande mídia à agenda neoliberal. Isso aparece com frequência nos editoriais que pautam o debate austeridade fiscal versus aumento dos gastos públicos.

Para trabalhar essa hipótese foi feito um mapeamento dos principais assuntos dos editoriais da Folha de São Paulo e do jornal O Globo no período de um mês, compreendido entre 12 de abril a 12 de maio. Coletamos opiniões desses jornais sobre a política de isolamento, medidas econômicas, críticas e elogios aos modos como o governo federal e os diversos poderes lidaram com a pandemia.

A mídia e Bolsonaro: acordos nas pautas econômicas e conflitos nos temas políticos

Sabe-se que tanto a Folha de São Paulo como o jornal O Globo, como parte de grandes empresas de telecomunicações, operam sob o crivo de interesses de classe. Por isso, defendem os interesses do empresariado, como afirmamos no boletim anterior.

 Foi deixado nítido esse posicionamento a partir de duas posturas dos jornais quanto à renda básica emergencial: o apelido de “coronavoucher” – que mascara a política como obrigação do estado – e a omissão de críticas nos noticiários a respeito da proposta inicial do governo, que seria de apenas R$ 200 em um período de três meses. Após o auxílio emergencial ser efetivado, poucos foram os editoriais que se referiam a essa política.

Ainda se tratando de economia, no segundo mês da pesquisa, além de omissões a respeito da necessidade de políticas que atendam os economicamente mais vulneráveis, houve o debate nesses dois periódicos sobre a decisão de Guedes de permanecer com o teto de gastos e ser favorável a reformas liberais. Posicionamentos que acabam sendo alinhados às concepções econômicas de O Globo e da Folha.

Encontramos também os mesmos posicionamentos antagônicos a Bolsonaro que analisamos no primeiro texto, tais como os elogios ao STF e a preocupação com a liberdade de imprensa. Além disso, a imprensa, a imprensa se posicionou contra a a demissão dos ministros e as agressões a jornalistas em manifestações pró-governo. Por conta destas duas questões, concluímos que a postura de combate da mídia ao presidente se intensificou na comparação com o primeiro mês da pandemia.

O oposicionismo midiático: as demissões e agressões a jornalistas

Se entre 11 de março e 11 de abril os editoriais expuseram sua oposição sobretudo a partir dos pronunciamentos polêmicos do presidente quanto ao combate à pandemia, no no segundo mês o foco passou a ser as demissões dos ministros Luiz Henrique Mandetta, ocorrida em 16 de abril e Sérgio Moro, que aconteceu em 24 de abril.

Um editorial de O Globo de nome “Mandetta sai, coronavírus permanece”[1], do dia 17 de abril, afirmou que a mudança de ministros nesse momento onde a gestão da saúde é central é muito arriscada. A Folha de São Paulo foi no mesmo sentido, porém ponderou que se o ex-ministro conseguiu operar em “ambiente hostil” devido à posição negacionista do presidente, não seria uma troca de ministro que colocaria “tudo a perder”. O jornal, neste textode 16 de abril, intitulado “Bárbaros no portão”[2], atribui ao ex-ministro uma imagem assertiva na crise, enquanto Bolsonaro estaria associado a incompetência.

A demissão de Moro repercutiu fortemente nos dois jornais, notórios apoiadores do ex-juiz e da lava-jato. No dia em que saiu do governo, o agora ex-ministro fez um pronunciamento pela manhã, enquanto Bolsonaro respondeu pela tarde. Moro afirmou que a independência da Polícia Federal não estaria sendo respeitada, alegando ainda que o documento em que constaria a assinatura do mesmo, certificando o afastamento do ex diretor da PF Valeixo, seria falso. Bolsonaro, por sua vez, reagiu à fala do ministro, defendendo-se de suas acusações.

No mesmo dia, foram publicados editoriais sobre os ocorridos. A Folha, em “O que teme o presidente?”[3], questionou exatamente o que estaria por trás da exoneração do diretor-geral da PF. O Globo, em um editorial nomeado “Explicação confusa de Bolsonaro reforça investigações”[4] afirmou que o presidente, como um ditador, desejaria corromper a PF em polícia pessoal e que teria destruído seu capital político com a demissão do ex-juiz. Posteriormente, um novo editorial  da Folha, “Apostas de Bolsonaro”[5], de 26 de abril, argumentou que Moro seria o ministro mais popular da administração do mandatário, e que Bolsonaro, em contrapartida, o teria tratado como mentiroso, desleal e oportunista.

Outro tema que gerou contundentes críticas desses jornais foram as manifestações pró Bolsonaro em frente ao Planalto, que começaram no dia 26 de abril. Em 3 de maio, enquanto a Folha tornou público um editorial de título “Marcha dos covardes”[6], o jornal O Globo expos seu posicionamento em “Bolsonaro insiste na desobediência institucional”[7].

Os dois jornais criticaram, nos textos acima, os episódios de agressão aos profissionais da mídia. Para O Globo, tratou-se de uma violência contra a liberdade de imprensa e a Folha de São Paulo citou o caso de um jornalista que teve sua câmera empurrada pelos manifestantes bolsonaristas. Ambos os jornais atribuem ao presidente um aval para os casos de agressões à imprensa. O Globo ressaltou a participação de Bolsonaro no protesto antidemocrático.

A questão da pandemia voltou à pauta depois da fatídica entrevista em que Bolsonaro, quando foi perguntando sobre o Brasil já ter ultrapassado o número de mortes da China pelo Covid, disse “E daí?.  A Folha de São Paulo publicou um editorial no dia 2 de maio, intitulado “E daí”[8]. O Globo também repercutiu a declaração em um editorial titulado “Presidente desrespeita famílias dos mais de 5 mil mortos pela covid-19”[9], de 30 de abril.

Por fim, os jornais mantiveram o tom de elogios ao STF, dando continuidade ao que vimos no primeiro boletim. A Folha de São Paulo, no texto “Transparência na crise”[10] de 2 de maio, celebrou a decisão de derrubar as retrições à Lei de Acesso à Informação impostas por Bolsonaro. Já o Globo saudou o Supremo por vetar a nomeação do delegado Alexandre Ramagem ao cargo de diretor geral da PF, no editorial “STF cumpre papel pedagógico perante Bolsonaro”[11] do dia 30 de abril. O texto expunha a proximidade dos filhos de Bolsonaro com Ramagem, que foi chefe de segurança em sua campanha eleitoral. Isto, segundo o editorial, beneficiaria Bolsonaro ao conceder a ele um poder de acesso e interferência nas investigações.

 A mídia e a economia: a adesão ao teto de gastos e reformas liberais

No debate econômico, o destaque ficou por conta da reunião em que Paulo Guedes afirma que irá manter o teto de gastos e reafirmou a necessidade das reformas liberais, propondo suspensão de reajuste a servidores por um ano e meio e suspensão de concursos públicos. Os jornais mantiveram uma postura favorável ao ministro.

A Folha de São Paulo publicou um editorial de título “O papel de Guedes”[12], de 30 de abril, que por mais que apontasse falhas na gestão do ministro quanto a políticas para mitigação dos efeitos econômicos que agem sobre o emprego e renda das famílias, considerou que o economista teria acertado em reafirmar a pauta econômica. O jornal O Globo se posicionou de um modo semelhante no editorial “Guedes vence a batalha mas haverá outras”[13], do dia 28 de abril: ao narrar partes da mesma reunião, O Globo considera que o ministro está tendo uma boa gestão de acordo com suas declarações nessa plenária.

 Além disso, esses dois editoriais abordaram – rejeitando – o programa Pró-Brasil, projeto apresentado no dia 23 de abril pelo ministro da Casa Civil, Walter Braga Netto, que prevê investimentos estruturantes e ações estratégicas com protagonismo do setor público, embora conte também com a parceria do setor privado. O projeto ainda está em desenvolvimento e a projeção é de R$ 30 bilhões em investimentos públicos para a retomada de 70 obras. O noticiário, além de mencionar que o plano não está bem estruturado, destacou o descontentamento de Guedes – que sequer participou da apresentação – com a proposta, por prever uma participação maior do Estado na economia e, assim, projetar um maior gasto federal.

Desde o começo da pesquisa nesse segundo mês os jornais vêm questionando como o país faria para se recompor economicamente no pós-pandemia. O editorial de 12 de abril intitulado “Pagar pela guerra”[14], da Folha de São Paulo, ao mesmo tempo em que observa que haveria uma necessidade da participação estatal na proteção das pessoas nesse momento, considera que o auxílio de R$ 600 custará caro ao PIB. E mais, retoma a pregação pela agenda de reformas econômicas, afirmando que a pandemia não deveria inviabilizar essas mudanças. O jornal defendeu, mais uma vez, a preservação do teto de gastos. Dentro dessa lógica de pensar a reconstrução do país após a pandemia, o jornal O Globo menciona no editorial “A chance de reerguer o país e evitar uma repetição de erros”[15], de 13 de abril, que será preciso controlar os gastos públicos.

Os posicionamentos de ambos os jornais, assim como consta no primeiro boletim, são alinhados a uma agenda neoliberal. A imagem que Guedes tem para esses jornais exemplifica bem esse pertencimento ao neoliberalismo. O Pró Brasil seria, até então, um plano adverso às reformas liberais e o teto de gastos, na medida em que o projeto tem como foco gerar empregos – ainda que seja questionável de que modo serão as configurações dos empregos – e recuperar a infraestrutura do país (com obras públicas, mesmo que com parceria do setor privado). Esta perspectiva propõe o intervencionismo estatal que é contrário à ortodoxia econômica que segue o ministro da Economia e que orienta a visão de mundo dos dois jornais.   

Conclusão

No segundo mês da pandemia, tanto o Globo quanto a Folha seguem criticando o Bolsonaro pela condução da crise sanitária e por atentar contra a democracia, tais como os ataques contra a imprensa, pela presença do mandatário nas manifestações que pedem um novo AI-5 e o fechamento do Congresso e STF ou pela oposição à medidas concretas do presidente a exemplo da restrição à Lei de Acesso à Informação.

A transição na troca de ministros foi ponto muito explorado pelos editoriais. Ambos os impressos entenderam as demissões de Luiz Henrique Mandetta e Sérgio Moro como negativas e comprometedoras para o governo, tanto no combate ao novo coronavírus quanto na pauta do combate à corrupção.

Por outro lado, as reformas liberais e o teto de gastos seguem sendo amplamente defendidos pelos dois jornais. A estratégia econômica defendida pelos militares – o programa Pró-Brasil – que aumenta a intervenção do Estado na economia e os gastos públicos – é rejeitada por esses jornais.

Concluímos, portanto, que houve uma continuidade, do primeiro mês da pandemia para o segundo, nas contradições no modo como O Globo e a Folha de São Paulo tratam as medidas econômicas e as medidas sanitárias. Para esses veículos, o Estado deve ser forte ao estipular as medidas, porém deve ser mínimo nos gastos públicos para ajudar a sociedade, mantendo com isso a preocupação prioritária com a austeridade fiscal.


[1] https://oglobo.globo.com/opiniao/mandetta-sai-o-coronavirus-permanece-1-24376730

[2] https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2020/04/barbaros-no-portao.shtml

[3] https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2020/04/o-que-teme-o-presidente.shtml

[4]https://oglobo.globo.com/opiniao/explicacao-confusa-de-bolsonaro-reforca-investigacoes-1-24392822

[5] https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2020/04/apostas-de-bolsonaro.shtml

[6] https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2020/05/marcha-dos-covardes.shtml

[7] https://oglobo.globo.com/opiniao/editorial-bolsonaro-insiste-na-desobediencia-institucional-24408585

[8] https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2020/05/e-dai.shtml

[9] https://oglobo.globo.com/opiniao/presidente-desrespeita-familias-dos-mais-de-5-mil-mortos-pela-covid-19-24402196

[10] https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2020/05/transparencia-na-crise.shtml

[11] https://oglobo.globo.com/opiniao/stf-cumpre-papel-pedagogico-perante-bolsonaro-24402176

[12] https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2020/04/o-papel-de-guedes.shtml

[13] https://oglobo.globo.com/opiniao/guedes-vence-batalha-mas-havera-outras-1-24396890

[14] https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2020/04/pagar-pela-guerra.shtml

[15]https://oglobo.globo.com/opiniao/a-chance-de-reerguer-pais-evitar-uma-repeticao-de-erros-24364497

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