Análise do Twitter de Bolsonaro: o desgaste político diante dos ápices de uma política de confronto

Por Nathalia Harcar

O presente texto dá continuidade à análise do twitter de Jair Bolsonaro durante a pandemia da Covid-19, com o objetivo de captar as consequências políticas da postura do presidente de minimizar a doença e confrontar as recomendações da OMS pelo isolamento social. No primeiro boletim trabalhamos a hipótese de que o resultado do enfrentamento permanente foi uma perda de força política de Bolsonaro nesta rede social.

Os conflitos políticos no segundo mês de vigência da pandemia, que vai de 12 de abril e a 11 de maio, além da questão do Coronavírus, foi abalado pela demissão de Sérgio Moro do Ministério da Justiça. Assim, no que se refere ao Twitter presidencial, soma-se ao agravamento da crise sanitária e econômica, o debate se ramifica e consolida-se na questão da corrupção e da possibilidade de Bolsonaro ser envolvido em malfeitos.

No segundo mês, usando como fonte os dados fornecidos pela DAPP-FGV[1], identificamos dois momentos de pico dos conflitos políticos no Twitter, ambos com perda de força para Bolsonaro: o primeiro, em 16 de abril, com a demissão de Mandetta, e que é diretamente relacionado com a pandemia; e o segundo, em 24 de abril, com o pedido de demissão, Moro que se relaciona com o debate da corrupção. Ambos os ex-ministros ocuparam papel central na construção do desgaste político presidencial.

Por fim, é preciso registrar que, mesmo com essa perda de força política, Bolsonaro conservou apoio significativo nessa rede social ao longo do segundo mês de pandemia.

Demissão de Mandetta

No segundo mês, observamos a continuidade e intensificação política de descrédito por parte das medidas de isolamento e de priorizar  a economia por parte de Bolsonaro. A demissão de Mandetta significou, até aqui, o momento de maior radicalização do presidente no tema da pandemia.

Analisando o twitter presidencial, é mais que notório o desacordo do mandatário diante do protagonismo do então ministro. Na véspera da troca de comando na saúde, em 15 de Abril, Bolsonaro publica em seu perfil um vídeo de Guilherme Fiusa com o título “Os Sócios da Paralisia”, cujo conteúdo versava sobre ineficácia do isolamento, fazendo referencia ao ministro da saúde como apoiador de traficante e nomeando o panorama mundial de crise do corona vírus como “show mórbido”[2].

 Nesse mesmo dia, Mandetta dá entrevista a revista Veja e ao ser questionado sobre uma possível mudança nas políticas contra o vírus responde: “O vírus não negocia com ninguém, não negociou com o Trump e não vai negociar com nenhum governo”[3].   Esse é o cenário de tensão que se estabelece dentro do Alvorada, chegando ao ápice no dia 16 de Abril, quando Bolsonaro, além do pronunciamento oficial, apresenta em sua live semanal o novo ministro da saúde Nelson Teich[4].

Com a demissão consumada, a oposição ao governo ganhou força no Twitter. Buscamos analisar porque a saída de Mandetta produziu um desgaste tão grande em  Bolsonaro. Nossa hipótese é que, Mandetta dentro do governo Bolsonaro, assumia um papel de porta voz da sensatez do governo federal, no que diz respeito a seu alinhamento com as OMS e a comunidade científica, enquanto o presidente era colocado no posto de imprudente e radical. A trajetória dos discursos do ex-ministro mostra que suas diretrizes estavam em oposição ao discurso neoliberal do presidente, mesmo que isso não tenha se dado de forma declarada durante todo o período.

Dessa maneira, a exoneração de Mandetta não só representou uma demonstração de força como também ampliou espaço para o prosseguimento do discurso contra o isolamento social e de menosprezo das vidas perdidas devido ao vírus. A declaração de Bolsonaro no dia 28 de abril exemplifica bem isso: “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê?”; “Sou Messias, mas não faço milagre”[5]. Contudo, o desgaste politico foi novamente enorme, tanto que essa entrevista não foi postada no twitter do presidente, como é de costume.

Demissão de Sérgio Moro

O segundo momento de crescimento da oposição ao governo no debate político via Twitter foi o dia 24 de Abril, data do colapso na relação entre Jair Bolsonaro e o ex-ministro Moro. Contribuindo para o cenário político social caótico até o momento, o ex-juiz, em coletiva de imprensa, assume uma postura declaradamente de combate ao presidente, acusando o chefe do executivo de dois graves crimes: primeiro, de tentar uma intervenção na polícia federal para cunhos particulares, devido a decisão de exoneração, por Bolsonaro, do então diretor da PF Mauricio Valeixo, para conseguir informações sobre inquéritos que envolvem seus filhos. Segundo, falsidade ideológica, uma vez que Moro afirma não ter assinado o Diário Oficial que continha a oficialização de tal demissão, embora seu nome apareça na edição. O governo publicou uma nova edição retificando a demissão, sem a assinatura do agora ex-ministro.

Bolsonaro, por sua vez, anunciou, via twitter, que faria um pronunciamento em resposta a Moro: “Hoje às 17h, em coletiva, restabelecerei a verdade sobre a demissão a pedido do Sr. Valeixo, bem como do Sr. Sérgio Moro”[6]. Na coletiva, o presidente defendeu-se negando todas as acusações feitas pelo ex-juiz. Bolsonaro variou o tom do seu discurso em duas dimensões: ora utilizava uma carga emocional no que diz respeito a relação que tinha com Moro e a sua moralidade como defensor da pauta anticorrupção; ora buscava uma reafirmação de seu poder, afirmando que como presidente, a indicação para o cargo de diretor da PF[7].

No dia 26 de Abril o presidente intensifica sua defesa, publicando em seu perfil no twitter um vídeo da Dra Susanna Val. Moore, presidente do sindicato dos policiais federais de SP, com o objetivo de demonstrar o caráter mentiroso das alegações feitas pelo ex-ministro.[8]

Diante desse embate de versões entre dois protagonistas do governo de extrema-direita no Brasil, Bolsonaro se vê diante de um cenário inédito até o momento: um consistente racha de sua base de apoio. Os dados elaborados pela DAPP-FGV[9] podemos observar como se expressou essa ruptura e como a oposição cresceu de forma abrupta e expressiva através da plataforma do Twitter.

Frente a esses gráficos, compreendemos que Sergio Moro atribuía ao governo Bolsonaro legitimidade, na visão de 26% da base aliada, ao discurso anticorrupção que o presidente vinha tentando confiscar e personificar sobre si próprio desde o período eleitoral. Assim, a saída brusca do ex-juiz promoveu sobre a base, até o momento sólida, a perda de um dos pilares centrais para o apoio constante ao governo federal, uma vez que tal figura representava um símbolo histórico no combate a corrupção por ter sido protagonista da prisão do ex-presidente Lula.

Conclusão

Posto esse cenário político de intensas radicalizações, nossa análise se deparou com simbólicos e expressivos conflitos no âmbito interno do governo de Bolsonaro. O mandatário, por sua vez, segue em sua política polar respaldada na oposição entre saúde e economia, mesmo que siga sem conseguir apoio majoritário quanto a isso. A demissão de Mandetta foi o ápice deste conflito.

Já a crise com o ex-ministro Sérgio Moro funcionou como um catalisador do cenário de desgaste presidencial para além da pandemia, visto que atinge de forma incisiva parte importante da sua base de apoio e que até o momento era o pilar central da força política de Bolsonaro.

Em síntese, o debate via Twitter demonstra picos no qual a oposição ganha força, porém a Bolsonaro mantém parte importante do seu apoio. Seguiremos acompanhando os desdobramentos para analisar se, no Twitter, Bolsonaro vai recuperar terreno ou se enfraquecer ainda mais.


[1] http://observademocraciadigital.org/posts/debate-sobre-o-novo-coronavirus-reconhece-a-importancia-da-quarentena/

[2] https://twitter.com/jairbolsonaro/status/1250403340061728778

[3] https://veja.abril.com.br/politica/o-desabafo-de-mandetta-a-veja-60-dias-de-batalha-ja-chega-ne/

[4] https://twitter.com/jairbolsonaro/status/1250916148255825921

[5] https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/04/28/e-dai-lamento-quer-que-eu-faca-o-que-diz-bolsonaro-sobre-mortes-por-coronavirus-no-brasil.ghtml

[6] ttps://twitter.com/jairbolsonaro/status/1253724196003295232

[7] https://twitter.com/jairbolsonaro/status/1253795629777764353

[8] https://twitter.com/jairbolsonaro/status/1254422610458312704

[9]http://observademocraciadigital.org/posts/saida-de-sergio-moro-do-governo-gera-repudio-de-70-e-divide-base-de-direita-no-twitter/

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