As redes sociais de Bolsonaro durante a pandemia

Por Daniel Sousa

O presente texto tem por objetivo compreender como as redes sociais digitais do presidente Jair Bolsonaro foram afetadas pelo desenvolvimento da pandemia da Covid-19 no Brasil. Pesquisamos, entre os dias 11 de abril e 11 de maio, no Twitter e facebook do mandatário e nos apoiamos nos estudos das consultorias Arquimedes, Quaest e Bites, além de matérias da plataforma Aos Fatos e de jornais tradicionais. A hipótese que trabalhamos no texto é que o presidente utiliza as redes para se orientar politicamente, no sentido de combater seus oponentes, seja eles internos ao seu governo ou não.

Os exemplos analisados representam momentos de ápice do conflito político no período da pesquisa: as demissões de Luiz Henrique Mandetta da Saúde e de Sérgio Moro da Justiça. O primeiro saiu por conta de disputas em torno das orientações da OMS para o combate ao novo Coronavírus enquanto o segundo saiu por divergências políticas mais amplas, relacionadas ao tema da corrupção e às investigações que atingem o clã Bolsonaro. A saída de cada um deles foi por um motivo diferente, mas ambos conseguiram “arranhar” a imagem de mito que o presidente carrega para sua base bolsonarista.

“Getúlio Vargas inventou a campanha política no rádio no Brasil. Fernando Collor, na TV. E Jair Bolsonaro, nas redes sociais”[1], escreveu Felipe Nunes, cientista político da UFMG e sócio da Quaest | Consultoria e Pesquisa. Observamos a importância de analisarmos as redes sociais de Bolsonaro e por isso é fundamental entender o sentido que estas têm para ele. Destacamos uma declaração de Rodrigo Maia, liderança política constantemente atacada pelas redes sociais bolsonaristas, que ilustra bem a visão política do presidente: “Ao ser diplomado presidente no dia 10 dezembro, Jair Bolsonaro destacou em seu discurso que o poder público ‘não precisa mais de intermediação’ porque “as novas tecnologias permitiram uma relação direta entre o eleitor e seus representantes”[2]

O presente texto começa, portanto, com uma análise mais geral dessa relação entre Bolsonaro e redes sociais a partir da noção de bússola social e guerra de narrativas. Em seguida, analisamos o impacto das demissões de Mandetta e Moro nos seguidores de Bolsonaro.

Bússola virtual e guerra de narrativas

A consultoria de análise política com base em Big data Arquimedes constatou como o comportamento do presidente oscila conforme o apoio que ele recebe da internet. Durante suas transmissões ao vivo no facebook, religiosamente feitas às quintas-feiras, Bolsonaro costuma perguntar como está a audiência do dia — quando não o faz, um auxiliar o mantém informado a todo momento sobre o alcance da publicação. A preocupação com as redes sociais é constante.

A consultoria acompanha diariamente todo o volume de publicações vinculadas ao governo e, com base no conteúdo delas, criou um índice que avalia a popularidade da atual gestão. Na avaliação de Pedro Bruzzi, fundador da Arquimedes

O Bolsonaro se esforça para alimentar as redes. Ele fez um trabalho de semanas até a data da manifestação. Quando chegou o dia, colheu o resultado. No dia 15 de março (episódio do humorista e o pib), o presidente publicou mais de 40 vezes no Twitter. E temos de lembrar que ele claramente estava perdendo nas redes naquele momento frente o que já tinha sido. Isso é resultado da economia, que impôs uma trajetória de queda. O coronavírus veio depois, foi um elemento a mais.[3]

Ainda segundo a Arquimedes, os principais recuos feitos por Bolsonaro se deram justamente quando o apoio virtual despencou — como quando em um único dia ele perdeu dez pontos na avaliação digital após dizer que iria recriar o Ministério da Segurança Pública, o que esvaziaria as principais atribuições do popular ministro Sérgio Moro. Diante da rejeição, a ideia logo foi abandonada.

Para entender as redes sociais de Bolsonaro, é preciso ter em mente que o presidente pode muitas vezes não convocar manifestações diretamente, mas comparece aprovando ou participando nas mesmas, o que demonstra alinhamento entre ele e seus seguidores. Isso pode ser observado facilmente em grupos de apoio ao presidente, embora seja calculado que 30% seja feita do que chamam de milícia digital, ou seja, robôs que alimentam o algoritmo e borram a noção de realidade dos participantes de tais grupos pelo engajamento que geram. Segundo a empresa Arquimedes, “Não há, fora do isolado grupo bolsonarista, apoio ao presidente”, aponta o relatório da empresa.[4]

Dois exemplos desta lógica estão nos retuítes do presidente e no modo como ele se relaciona com as manifestações de rua em apoio ao seu governo.

No dia 12 de abril o atual presidente retuita em suas redes “Se Bolsonaro ou Trump dissesse que a Cloroquina faz mal, a mídia apoiaria a Cloroquina. Se dissessem que o oxigênio faz bem, mandariam prender a respiração. Paporra.”[5] Isso foi compartilhado para mais de 6,5 milhões de seguidores. O que os indivíduos falam ou compartilham em suas redes sociais confirma sua visão de mundo. Por conta disso, as grandes empresas da internet têm sido cobradas tanto a democratizar seus algoritmos quanto a punir os disseminadores de fake news. Durante a pandemia, o Clã Bolsonaro teve diversas postagens excluídas ou mesmo contas excluídas por disseminar informação falsa.

Foi o que ocorreu em 01 de maio com o filho mais novo de Bolsonaro, Renan, que teve sua conta excluída na rede social por dizer em um vídeo: “Prefiro morrer transando do que tossindo”. Ele seguiu afirmando “Que pandemia? Isso é história da mídia aí, para trancar você dentro de casa, para achar que o mundo está acabando. É só uma gripezinha, irmão”.[6]

No período analisado, ele retuitou demonstrando alinhamento com EUA e  Israel[7], com as bandeiras desses países em uma manifestação,[8] responsabilizou governadores pelas mortes[9][10][11], questionou o índice de mortes no Brasil, mesmo o Brasil testando muito menos que outros países [12] e criticou a mídia tradicional, em referência ao repórter que foi agredido em uma manifestação pró governo[13]

Apesar das punições, Bolsonaro segue passando à diante informações falsas. Em 8 de maio, o site Aos Fatos publicou que o presidente somava mais de 1000 declarações falsas ou distorcidas:

“Nas postagens de Twitter e Facebook, o presidente faz, em média, mais afirmações classificadas como verdadeiras. Isso se deve principalmente ao fato de essas plataformas serem usadas para publicar balanços de ações do governo que, em geral, são reproduzidos do material institucional de divulgação de ministérios e secretarias. Isso não significa que o presidente não use dados falsos ou distorcidos em publicações nas duas redes sociais. Em abril, por exemplo, ele alardeou no Facebook que a OMS (Organização Mundial da Saúde) orientaria a masturbação infantil como política educacional. A alegação distorce um guia da seção europeia da entidade com orientações para educadores sobre abordagens de educação sexual em diferentes faixas etárias. O post do presidente foi apagado posteriormente.”[14]

Já com relação aos atos bolsonaristas, dentre os muitos exemplos, ficamos com o dia 03 de maio quando, na manhã daquele domingo, a rede bolsonarista mobilizou uma carreata contra Moro, STF, Presidente do senado Alcolumbre e presidente da Câmara, Rodrigo Maia e a favor de intervenção militar. À tarde, se aglomeraram em frente ao palácio da alvorada, desconsiderando recomendações da OMS de isolamento social, para ver Jair Bolsonaro, que foi saudar os apoiadores.

Suas redes sociais foram utilizadas para transmissão do ato e, cercado de apoiadores, voltou a atacar governadores e prefeitos por medidas de isolamento como prevenção ao coronavírus: “sabemos hoje o efeito do vírus, mas infelizmente, muitos serão infectados, muito perderão suas vidas também, mas é uma realidade. Nós temos que enfrentar. Não podemos fazer com que o colateral do tratamento do combate ao vírus seja mais danoso do que o próprio vírus”. Ao final da transmissão, afirmou: “Chegamos no limite. Não tem mais conversa. Daqui pra frente, e não só exigiremos, faremos cumprir a constituição. Ela será cumprida a qualquer preço. E ela tem dupla mão, não é de uma mão de um lado só não. Amanhã nomeamos outro diretor da PF e o Brasil segue o seu rumo”[15]

Apesar dos protestos institucionais, no dia 18 de maio – novamente um domingo, e fora do nosso período de pesquisa – Bolsonaro compareceu a mais uma mobilização em seu favor[16], gerando polêmica extra ao postar um vídeo em que seus apoiadores fazem um gesto similar à saudação nazista.[17]

Mandetta e Moro e o impacto entre os seguidores de Bolsonaro

No dia 16 de abril Luiz Henrique Mandetta foi demitido por Bolsonaro do Ministério da Saúde, após uma disputa entre os dois sobre como combater a pandemia. No dia 30 de abril, Bob Fernandes publica a reportagem que embasava a hipótese de que as redes bolsonaristas operam em ação coordenada no Facebook, Twitter e Whatsapp.  Sua equipe observou como as notícias ganham fôlego e obtém engajamento buscando desmoralizar os dois ex-ministros. As publicações repercutem fakenews que, muitas vezes, são conflitantes entre si, e que funcionam com a lógica de engajar pelo ódio solapando. No exemplo anexado, pode ser observado em tempo real por sua equipe esse processo.[18]

No caso de Mandetta, que contrariava Bolsonaro nas medidas de isolamento social, o a lógica de destruição começou no final de março. O monitor de debate público da USP mapeou como autoridades participam dessa dinâmica. Os mais ativos foram os deputados federais: Carla Zambelli, com 111 tuítes no, Daniel Silveira, com 100; José Medeiros com 75 e Osmar Terra com 70 tuítes. Os influenciadores que colaboraram para a disseminação de narrativas paralelas que favoreciam o presidente, como a campanha do governo “o brasil não pode parar” foram os influenciadores @renovamidia (452) @conexaopolitica (272) @leandroruschel (184) e @jornalbsm com 130 tuítes no período anterior a demissão do ex-ministro.[19] O processo foi colaborou para alimentar as redes bolsonaristas no intuito de manter monopólio de narrativa em seus principais grupos de facebook, whatsapp e Twitter.[20]

Se por um lado Mandetta foi o principal alvo de mobilização das redes bolsonaristas, a empresa Bites analisou que ele ganhou de 98 mil seguidores no Twitter, Facebook e Instagram[21] O impacto nas redes sociais resultou em figuras políticas de ponta a ponta do espectro político lamentando sua saída. de Haddad, FHC a Joice Hasselmann e Kim Katagiri manifestaram apoio no Twitter pelas suas ações alinhadas com a OMS.[22]

Já a demissão de Moro surpreendeu a rede bolsonarista na Internet. No final da manhã do dia 24 de abril, quando a saída já estava confirmada, os grupos nas redes sociais ou mesmo no Whatsapp estavam paralisados sem entender as consequências do rompimento. No meio da tarde, antes da coletiva do presidente Jair Bolsonaro, seus aliados começaram a construir uma narrativa: não atacaram Moro, mas reforçaram que a decisão de demitir no governo é uma prerrogativa do chefe do Poder Executivo. Após o evento no Planalto, esse argumento ganhou força. Mesmo assim, os bolsonaristas não conseguiram superar a oposição. O Sistema Analítico BITES começou a acompanhar as publicações de Jair Bolsonaro no Twitter, Instagram, Facebook e YouTube em 1º de setembro de 2017. Desde então, o presidente ampliou sua base em 30,8 milhões de fãs. Nesses 967 dias, não houve um único ciclo de 24 horas sem a adição de novos aliados nessas contas. Sexta-feira, 24 de abril, a partir das 11h, a trajetória foi interrompida com a saída de Sergio Moro. Presidente e família perderam 86 mil e 45 mil deixaram de seguir Bolsonaro. Sérgio Moro ganhou 160 mil seguidores. As hashtags positivas criada para defender Bolsonaro foram utilizadas em 306 mil posts, produzidos por 85.713 perfis, enquanto as negativas somaram 773 mil impulsionadas por 331.658 perfis.[23]

Conclusão

O segundo mês da pandemia, com sua série de crises políticas, se configurou como um excelente laboratório sobre a ação de Bolsonaro nas redes sociais. Vimos, nos estudos sobre análises de dados, que o presidente se orienta com base em métricas digitais, as quais influenciam suas decisões, judando-o a confirmar ou confrontar uma determinada narrativa.

No período analisado, o presidente utilizou seu twitter para atacar a mídia tradicional, confrontar o depoimento de Moro, mostrar alinhamento com EUA, responsabilizar os governadores, questionar o índice de mortes no Brasil, mesmo o país sendo um dos que menos testam no mundo, e tenta criar crises para deslocar a centralidade do debate no meio da pandemia. Podemos concluir que cada vez mais é preciso trazer a análise de dados e mídias sociais para entender o fenômeno político do bolsonarismo.


[1]https://www.cartacapital.com.br/politica/se-sua-maquina-nas-redes-sociais-cair-bolsonaro-acaba-diz-especialista/

[2]https://oglobo.globo.com/brasil/governo-bolsonaro-recuos-coincidem-com-rejeicao-temas-nas-redes-sociais-1-23495533

[3] https://veja.abril.com.br/politica/pesquisa-bolsonaro-se-move-pela-bussola-das-redes-sociais/

[4]https://oglobo.globo.com/brasil/analistas-veem-uso-de-robos-grupos-de-whatsapp-na-rede-de-apoio-ao-governo-24384213

[5] https://twitter.com/jeffs_araujo35/status/1249503198718672896

[6]https://g1.globo.com/pop-arte/games/noticia/2020/05/01/filho-de-bolsonaro-diz-que-foi-banido-da-twitch-plataforma-de-transmissao-de-games.ghtml

[7] https://twitter.com/secomvc/status/1257711508546629633

[8] https://twitter.com/jairbolsonaro/status/1257476289017131008

[9] https://twitter.com/jairbolsonaro/status/1251653731646607360

[10] https://twitter.com/jairbolsonaro/status/1249404019845541894

[11] https://twitter.com/jairbolsonaro/status/1259457190773088257

[12] https://twitter.com/jairbolsonaro/status/1250519568788881408

[13] https://twitter.com/jairbolsonaro/status/1257277107857735682

[14]https://www.aosfatos.org/noticias/bolsonaro-chega-1000-declaracoes-falsas-ou-distorcidas-com-492-dias-de-mandato/

[15]https://oglobo.globo.com/brasil/da-rampa-do-planalto-bolsonaro-adere-protesto-contra-moro-stf-congresso-diz-que-chegou-no-limite-24408096

[16]https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2020/05/18/bolsonaro-muda-tom-e-vai-a-ato-com-ministros-militares.htm

[17]https://revistaforum.com.br/blogs/blogdorovai/video-com-grito-de-bolsonaro-somos-nos-adaptacao-de-heil-hitler-paraquedistas-fardados-fazem-saudacao-nazista-ao-presidente/

[18] https://www.youtube.com/watch?v=MQarECGYgHc

[19] https://abrilexame.files.wordpress.com/2020/04/unnamed-9.png

[20] https://docs.google.com/document/d/1TIi0o0tmtwNH-pqzzst_P–Zo6NBXK6v2EZlhlD2YoQ/edit

[21]https://politica.estadao.com.br/blogs/coluna-do-estadao/quase-demitido-mandetta-ganha-98-mil-seguidores-em-menos-de-24h/5

[22] https://catracalivre.com.br/cidadania/demissao-de-mandetta-repercute-nas-redes-sociais/

[23]http://blogs.correiobraziliense.com.br/denise/bolsonaro-perde-seguidores-nas-redes-sociais-apos-saida-de-moro/

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