Bolsonaro: o presidente que está “enquadrando” os militares

Por Victor Pimentel

O presente texto tem como objetivo dar continuidade às reflexões desenvolvidas no boletim anterior, publicado no final do mês de abril. Naquele trabalho, começamos a analisar a relação entre o setor militar (representado, sobretudo, pelos militares que estão mais diretamente ligados ao governo) e o presidente da República, Jair Bolsonaro, durante a crise do novo coronavírus através da observação crítica de diversas matérias e reportagens de diferentes jornais e portais de notícia.. O período contemplado pela investigação iniciou-se no dia 11 de março – dia em que a OMS estabeleceu a propagação da Covid-19 como uma pandemia – e foi até o dia 11 de abril.

Dessa vez, prosseguimos desta data até o dia 11 de maio. Durante o último mês, diversos acontecimentos relevantes atravessaram a conjuntura política nacional. Dentre eles, podemos destacar a demissão de Henrique Mandetta do Ministério da Saúde, as manifestações dos dias 19/04 e 03/05 apoiadas por Bolsonaro e a saída de Sérgio Moro do Ministério da Justiça acompanhada de graves acusações do mesmo contra o chefe do Executivo. No que diz respeito à relação entre presidente e ala militar, tais eventos reforçaram o dilema da atuação dos fardados no governo, escancarando o claro teor político de suas movimentações.

Uma breve recapitulação e a saída de Mandetta

No primeiro relatório, buscamos explicitar a visão majoritariamente adotada pela mídia sobre a relação entre Bolsonaro e o setor militar, bem como intentamos fundamentar as bases de nosso argumento principal. A narrativa comumente disseminada pelos portais de notícia afirma que a composição da atual gestão governamental conta com duas alas de caráter distinto (e, muitas vezes, de atuação antagônica): a ala ideológica, composta, dentre outros, pelos filhos do presidente, o escritor Olavo de Carvalho, o embaixador Ernesto Araújo, o ministro da Educação Abraham Weintraub, a ministra da Cultura Regina Duarte e a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos Damares Regina Alves; e a ala militar, representada principalmente pelos ministros fardados (como Augusto Heleno e Braga Netto), grupo de caráter supostamente técnico, cujos membros teriam como principal objetivo atuarem visando a eficácia administrativa. Neste sentido, o primeiro grupo estaria a frente da promoção de uma “guerra cultural” contra a esquerda através da constante valorização e aplicação de ideias radicalmente conservadoras na gestão governamental. Já o segundo, por sua vez, representaria o setor voltado para ações de caráter puramente administrativo – isto é, suas preocupações se resumiriam a como lidar com determinados problemas da maneira mais técnica, isenta e pragmática possível. Alguns embates entre os membros de cada uma das alas – como a troca de farpas entre o general e ex-ministro da Secretaria de Governo Carlos Alberto dos Santos Cruz e o escritor Olavo de Carvalho[1] ocorrida no primeiro semestre de 2019 – forneceram as bases empíricas para a elaboração de tal narrativa[2].

Nossa hipótese, contudo, caminha em uma direção contrária: argumentamos que esta divisão entre “ala ideológica” e “ala técnica” não condiz com as movimentações reais dos atores políticos em questão. Isso significa que o setor militar não age motivado apenas por preocupações técnicas, visando as soluções mais eficazes para certas questões administrativas ou a garantia da governabilidade eficiente em prol das reformas econômicas. Na verdade, entendemos que as ações dos ministros oriundos das Forças Armadas possuem, não raras vezes, um forte teor ideológico – isto é, são impulsionadas por determinadas crenças e valores representados por seus pares.

A partir de uma análise crítica das notícias veiculadas a respeito das atitudes e posturas adotadas por parcelas importantes do setor militar (como os ministros ligados diretamente a Bolsonaro e demais militares de alto escalão) durante o primeiro mês do período de crise do coronavírus, observamos que tais valores são objetivados, principalmente, na preocupação com a manutenção da “ordem” social e política do país (independentemente da situação crítica da saúde pública), na conservação do prestígio da ala militar frente à opinião pública (contando até com uma espécie de cálculo a respeito do desempenho eleitoral nos próximos anos) e na supervalorização da organização hierárquica[3].

Um exemplo relevante deste último fator pode ser encontrado em um dos acontecimentos recentes mais importantes da atual conjuntura: a demissão de Henrique Mandetta do cargo de ministro da Saúde[4] no meio do mês de abril. A postura de algumas parcelas do setor militar em relação aos atritos entre o último e o presidente mudou quase repentinamente. No dia de 7 de abril, por exemplo, era possível ver diversas notícias ratificando a manutenção de Mandetta no referido ministério, a despeito dos embates cada vez mais frequentes com o chefe do Executivo[5]. Muitas dessas matérias, inclusive, explicitavam que o então ministro da Saúde possuía amplo apoio e suporte do general Walter Braga Netto, ministro da Casa Civil[6].

Após uma entrevista concedida por Mandetta ao Fantástico, realizada uma semana depois, na qual ele criticou indiretamente a circulação do presidente em vias públicas e atacou a dubiedade promovida pelas falas de Bolsonaro em relação à necessidade de isolamento social (“não sabe se escuta o ministro, [ou] o presidente”)[7], começaram a surgir algumas manifestações de rechaço ao discurso do ex-ministro da Saúde por parte do setor militar. Talvez a mais significativa delas tenha sido a do vice-presidente Hamilton Mourão, que afirmou que o mesmo “cruzou a linha da bola”[8]. A avaliação de que Mandetta se “excedeu” ao criticar publicamente as atitudes do presidente reverberou nos ouvidos dos militares do Palácio do Planalto e colaborou decisivamente para a sua retirada do cargo[9].

Contudo, as justificativas por parte da ala militar para o endosso da proposta de demissão de Mandetta do Ministério da Saúde não se pautaram em argumentos técnicos ou pragmáticos. Inclusive, o ex-ministro era uma das figuras do atual governo que mais tentava se aproximar das recomendações preventivas proferidas pela OMS em relação a disseminação da Covid-19. Na verdade, Mandetta caiu em descrédito com os fardados pelo fato de que os mesmos julgaram suas falas como uma clara demonstração de desrespeito à hierarquia e de insubordinação[10]. Considerando o papel central que estruturas hierárquicas desempenham na dinâmica organizacional das Forças Armadas, torna-se evidente que os militares optaram, nesse caso, por fechar os olhos para questões de técnica e eficiência administrativa e enquadrar a crítica do ex-ministro como uma atitude de enfrentamento a um posto de alto escalão hierárquico, fortalecendo princípios e valores ideológicos que estruturam sua identidade de grupo.

Dessa forma, neste trabalho continuamos reforçando que as posturas do setor militar – assim como de qualquer outro grupo político – são fortemente motivadas por valores e princípios ideológicos, sobretudo quando membros desta ala estão estreitamente associados ao governo (como é o caso dos ministros fardados). No último mês, diversos acontecimentos colaboraram para reforçar tal hipótese. Comentaremos sobre alguns deles em seguida.

A manifestação do dia 19/04

No dia 19 de abril, dia do Exército, vários apoiadores do presidente se reuniram em frente ao Quartel-General do Exército em Brasília e outros se aglomeraram em diferentes pontos de diversas capitais do país (como São Paulo, Manaus, etc). Nas faixas e reivindicações constavam o pedido por uma intervenção militar, promulgação de um novo AI-5, fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal, a retirada de Rodrigo Maia do cargo de presidente da Câmara dos Deputados e o fim das medidas de isolamento social[11].

Bolsonaro compareceu à manifestação de Brasília e discursou para seus apoiadores em cima de uma caminhonete. Além de não ter rechaçado em momento algum as diversas reivindicações antidemocráticas dos manifestantes, o chefe do Executivo ainda reforçou críticas à “velha política” e afirmou que seu governo “não negociaria mais nada”[12]. A junção dos diferentes aspectos dessa (terrível) cena – Bolsonaro, dia do Exército, quartel-general, pedidos de intervenção militar – colaborou para a construção de uma simbologia potente em torno deste acontecimento. Isso significa que, ao se deparar com tal cenário, não é difícil criar uma associação automática entre as reivindicações autoritárias dos manifestantes, o aval do presidente e o apoio do setor militar. É como se Bolsonaro, ao se aproximar do quartel-general numa manifestação marcada exatamente nessa data comemorativa, tivesse tentado ratificar o suposto apoio dos militares a eventuais “arroubos autoritários”[13] vindos de sua parte.

Pouco tempo depois de tais imagens serem veiculadas, diversos ministros e deputados rechaçaram publicamente a postura de Bolsonaro[14]. Alguns oficiais-generais também manifestaram descontentamento com a participação do chefe do Executivo em tais manifestações, afirmando que tal episódio causou grande desconforto na cúpula militar, uma vez que representou uma “provocação desnecessária” e “fora de hora”[15]. Alguns dias depois, integrantes do Alto Comando do Exército demonstraram surpresa ao assistir o presidente da República utilizando simbolicamente o Exército em prol de interesses privados. Curiosamente, da ala militar ligada diretamente ao governo – isto é, os ministros fardados -, houve uma verdadeira escassez de posicionamentos: apenas o ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva, afirmou, um dia depois, que as Forças Armadas operam “sempre obedientes à Constituição”[16]. Considerando o papel decisivo que os mesmos desempenham no que diz respeito à representação de sua “classe”, é de se estranhar a ausência de mais declarações. Somado a isso, a ala militar já havia indicado que corroborava com a irritação do presidente em relação a um possível “cerceamento” de suas ações por parte do Congresso e do STF. Após a manifestação do dia 19/04, alguns atores políticos demonstraram preocupação com os possíveis desdobramentos da atual crise[17].

Sobre tal episódio, há um aspecto bastante relevante para a composição de nossa análise. Além da ausência de posicionamento por parte dos demais ministros da caserna, é interessante observar que até mesmo as críticas de fardados não diretamente ligados à atual gestão governamental não se pautam por argumentos de caráter técnico. O descontentamento e o receio em relação a associação de discursos autoritários do presidente, reivindicações antidemocráticas de apoiadores e a ala militar diz respeito a uma preocupação a respeito da imagem deste mesmo grupo frente à opinião pública. Ou seja, as críticas explicitadas acima à participação de Bolsonaro no ato de 19/04 possuem um claro teor político e ideológico – como trabalhado no primeiro relatório, os militares, como qualquer outro grupo político, também se preocupam com o seu prestígio em relação à maior parte da população. Afinal de contas, como disse o general Villas Bôas ano passado, “a fatura de uma má gestão cairá no colo dos militares, ainda que em parte”.[18] Na verdade, a principal crítica de caráter técnico não foi sequer mencionada: os atos de 19/04 foram compostos por pessoas que furaram a quarentena e colaboraram para a criação de aglomerações, desrespeitando assim as recomendações da OMS e aumentando a possibilidade de disseminação e contágio do novo coronavírus. Mesmo tendo representado o exato exemplo do que não se deve fazer durante uma pandemia, os posicionamentos públicos de importantes parcelas do setor militar divulgados por grande parte da mídia não continham qualquer menção a esse aspecto.

Além disso, nessas manifestações já era possível observar um certo dilema que será aprofundado algumas semanas depois. Como mencionado acima, ao participar de protestos em frente ao QG do Exército no dia em que se comemora a existência da instituição junto a um grupo que pede intervenção militar, Bolsonaro reforça uma simbologia incendiária responsável por agrupar, no mesmo conjunto, militares, o poder Executivo e posturas antidemocráticas. Assim, o presidente da República joga no colo dos fardados uma situação extremamente delicada.

Por um lado, o silêncio da ala militar pode passar a impressão de uma postura aquiescente em relação às ações do presidente – afinal, como já dizia o ditado popular, “quem cala, consente”. Por outro lado, a manifestação de críticas por parte dos ministros militares provavelmente seria interpretada por Bolsonaro como um ato de indisciplina e como uma afronta aos valores hierárquicos tão caros à instituição. Em suma, o dilema exemplifica claramente a hipótese trabalhada aqui: posicionando-se ou não, as ações do setor militar são imbuídas de valores e princípios ideológicos, o que desmente a ideia de que tal grupo representa um setor puramente “técnico” ou “pragmático”.


A saída de Sérgio Moro

No final do mês de abril e início do mês de maio, dois momentos políticos distintos geraram grande repercussão no país. Primeiro, a saída do juiz Sérgio Moro do Ministério da Justiça, no dia 24/04, acusando o chefe do Executivo de querer interferir em investigações da Polícia Federal. Em seguida, poucos dias depois (03/05), houve a realização de mais uma manifestação de apoiadores do presidente, que contou com a participação do mesmo e com a agressão de profissionais de imprensa. Ambos os acontecimentos constituem situações políticas relevantes para nossa análise.

A saída de Moro da composição governamental foi marcada por grande cobertura da mídia e várias polêmicas, a começar pelo fato de que o juiz acusou publicamente Bolsonaro de querer interferir em investigações da Polícia Federal, bem como de insistir na troca do superintendente da PF do Rio de Janeiro, levantando suspeitas de que o presidente estaria tentando dificultar alguma investigação operada em terras cariocas. Algumas horas depois do depoimento de Moro, o chefe do Executivo realizou um discurso em rede nacional, acompanhado de seus ministros, no qual afirmava que as acusações de Moro são caluniosas.

A despeito da ausência de provas e de maiores explicações por parte do juiz, alguns portais de notícia veicularam a informação de que parcelas do setor militar ficaram “perplexas” e “chocadas” com as acusações de Moro[19]. Houve quem especulasse sobre uma possível retirada de apoio dos militares em relação a Bolsonaro, o que poderia acelerar tanto um processo de impeachment quanto uma situação de renúncia[20]. Até a “bancada da bala” cogitou deixar o presidente ainda mais isolado nesta situação de crise[21]. Considerando a enorme credibilidade do ex-juiz da Operação Lava-Jato em relação a boa parte dos eleitores de Bolsonaro, o grande grupo de apoiadores do chefe do Executivo sofreu uma  importante divisão entre bolsonaristas e “lavajatistas”, cujas proporções, ainda que constituam material de difícil avaliação hoje, serão de grande relevância num futuro próximo.

No entanto, apesar de todas essas movimentações, a ala militar não esboçou qualquer tipo de retirada de apoio em relação ao presidente até o presente momento. Desta maneira, embora Moro muito provavelmente goze de bastante prestígio entre o setor militar devido à construção de sua imagem como “paladino da moral e da justiça” e um dos principais “combatentes” na luta contra corrupção, não é difícil pensar que a associação do alto escalão do grupo militar com Bolsonaro e, mais especificamente, com o aparato governamental, seja ainda mais estreita. Segundo uma matéria da UOL do dia 25/04[22], ainda que as acusações de Moro tenham gerado enorme decepção com o chefe de governo – sobretudo nas “camadas médias” militares -, o setor militar “vai até o fim” com Bolsonaro, uma vez que retirar o apoio agora representaria “abandonar a missão” e largar a gestão para os políticos do Centrão e para ala ideológica do governo. Desta forma, novamente, a avaliação de parcelas importantes do grupo militar em relação a seu comportamento frente à atual crise do governo não diz respeito a questões técnicas ou de eficácia administrativa, mas sim a problemas relacionadas ao prestígio e à imagem dos fardados como atores políticos “confiáveis” e “legítimos” para conduzir a máquina governamental.

Seguindo essa mesma linha de raciocínio, o cientista político João Roberto Martins Filho argumenta que o fato que mantém os militares “passivos” diante de Bolsonaro, a despeito de suas posturas antidemocráticas e da recente da saída de Moro, é exatamente o seu “gosto pelo poder”[23]. A escalada do ex-capitão reformado até o posto de presidente da República é a melhor oportunidade que os militares tiveram de reaproximação do aparato governamental desde a redemocratização do país ocorrida no final da década de 1980. Um dos exemplos mais significativos disso é a presença massiva de fardados na composição da gestão de Bolsonaro: além de 8 dos 22 ministros serem egressos da caserna[24], mais de 2.500 militares ocupam cargos de chefia ou assessoramento[25]. Na visão de Martins Filho, isso torna os limites do apoio dos militares em relação ao chefe do Executivo muito “extremos” – isto é, eles possuem uma extensão bastante abrangente, o que justificaria uma certa “tolerância” daqueles em relação a este.

Considerando que tal hipótese seja verdadeira, não é preciso analisar de maneira muito aprofundada para perceber que a manutenção de uma certa proximidade do poder não é uma ação que guarde qualquer tipo de relação com preocupações técnicas ou pragmáticas. Ela diz respeito apenas à conservação ou ao aumento de influência e controle de um determinado grupo em relação a outros. Além disso, podemos pensar que, acreditando na validade da mesma hipótese, a relação entre militares e Bolsonaro seria sustentada não tanto pela compatibilização de princípios ideológicos do militarismo e do bolsonarismo, mas sim pelo caráter instrumental desse vínculo para os fardados – isto é, pela sua utilidade prática: ocupação de cargos públicos, aproximação do poder, etc.

O ato do dia 03/05

Pouco mais de uma semana depois dos depoimentos do juiz Sérgio Moro, uma nova manifestação de apoiadores do presidente foi organizada e realizada em frente ao Palácio do Planalto[26]. Assim como no ato do dia 03/04, as pessoas que lá compareceram reivindicavam o fechamento do Congresso e do STF, intervenção militar e fim das medidas de isolamento social, além de também terem promovido agressões a profissionais da imprensa[27]. De forma similar à primeira manifestação, Jair Bolsonaro compareceu, prestando apoio aos presentes. Dessa vez, o presidente da República gravou um vídeo durante sua participação no ato afirmando que seu governo não admitirá mais nenhuma “interferência” e que “não tem mais conversa”. Ademais, o chefe do Executivo garantiu – igualmente em tom de ameaça – que as Forças Armadas estavam ao lado deles e do povo pela lei e pela ordem[28].

Apenas um dia depois, o Ministério da Defesa, capitaneado pelo general Fernando Azevedo e Silva, publicou uma nota oficial manifestando repúdio às agressões realizadas a profissionais da imprensa, reforçando a exigência de independência e harmonia entre os três Poderes e afirmando que as Forças Armadas sempre estarão ao lado da democracia e da liberdade[29]. Esta ação do ministro foi considerada, por alguns portais de notícia, como um “raro gesto público” de indicação de um pequeno distanciamento da ala militar em relação ao presidente da República[30]. Contudo, assim como no ato do dia 19/04, além de ter havido uma certa escassez de pronunciamentos críticos dos demais fardados palacianos, a principal observação técnica não entrou em cena: mais uma vez, o presidente de um país cujas taxas de disseminação e morte pela Covid-19 não param de crescer[31] apoia a realização de uma aglomeração, postura que caminha em direção totalmente oposta às recomendações da OMS.

De acordo com alguns jornais[32], Bolsonaro realizou uma reunião um dia antes das manifestações com todos os ministros com assento no Palácio do Planalto, e que são generais, e todos os comandantes das três forças, além do ministro da Defesa[33]. Nela, ele expressou seu descontentamento em relação a atuação do Congresso e do STF, que estariam “cerceando” a atuação do Poder Executivo, e recebeu apoio dos fardados presentes. Segundo essas mesmas fontes explicitadas acima, as discordâncias do presidente em relação àquelas esferas se resumiam ao veto emitido por Alexandre de Moraes em relação à indicação de Alexandre Ramagem ao cargo de diretor geral da Polícia Federal e à suspensão da expulsão de 34 diplomatas venezuelanos do Brasil, expedida por Luís Barroso, ambos (Barro e Moraes) ministros do STF.

A despeito das eventuais polêmicas jurídicas em torno da nomeação de Ramagem à PF[34], o apoio dos ministros militares ao descontentamento de Bolsonaro em relação à atuação do STF e do Congresso deveriam ser melhor explicados. Considerando o discurso que desenha o grupo militar como a “ala técnica” do governo, não seria exagero esperar argumentos técnicos que justificassem pragmaticamente a posição de tais ministros. No caso da expulsão dos diplomatas venezuelanos, por exemplo, aparentemente não há qualquer tipo de motivação técnica por trás da reprovação dos militares em relação à ação do STF, mas sim uma discordância ideológica que remete aos embates políticos entre Bolsonaro e Maduro, presidente da Venezuela (ainda mais se considerarmos que, em plena pandemia, a exportação de um grupo de pessoas de um país para outro representa uma situação de risco para as mesmas).

Contudo, o saldo mais significativo desse acontecimento para a nossa análise é um fator que foi brevemente comentado acima. Ao associar mais uma vez Poder Executivo, posturas antidemocráticas e a figura das Forças Armadas, Bolsonaro coloca os militares em uma berlinda, uma vez que qualquer movimentação deste grupo será invariavelmente tomada como uma ação política. Por um lado, ao não manifestarem críticas, os fardados aproximam seu silêncio de um apoio tácito aos acenos autoritários do presidente. Por outro, a demonstração pública de críticas e discordâncias em relação a Bolsonaro pode facilmente ser entendida como uma atitude desrespeitosa e até mesmo conspiratória dos militares, que supostamente estariam “traindo” sua categoria e seu dever patriótico para com o povo brasileiro. Em qualquer uma das opções, as ações dos militares são profundamente apartadas de qualquer tipo de argumentação técnica ou pragmática. Desta maneira, Bolsonaro está verdadeiramente “enquadrando” os fardados – isto é, está colaborando decisivamente para retirar a “máscara técnica” que encobre a ala militar.

É claro que não podemos desconsiderar a enorme responsabilidade que os militares – em especial, os de alto escalão – possuem na criação de tal cenário. Como já explicitado acima, a caserna se enraizou profundamente na gestão governamental de Bolsonaro. Contudo, é de enorme relevância observar como o dilema entre “atitudes político-ideológicas” e “atitudes técnicas” no setor militar se aprofunda à medida que também se agudiza a crise do atual governo, ocasionada, sobretudo, pelos enormes impactos sociais da pandemia do novo coronavírus. Assim, Bolsonaro colabora para escancarar o argumento principal de nossa hipótese: não há ação dentro do governo que seja motivada puramente por questões técnicas e/ou pragmáticas. Toda ação gerada dentro da administração governamental é imbuída de valores e ideais políticos. Ao recearem a tomada de posição explícita, os militares comprovam o fato de que as suas ações não visam apenas questões de eficiência técnica ou administrativa.

Considerações finais

No presente relatório, buscamos dar continuidade às reflexões iniciadas no primeiro Boletim do NUDEB, publicado no final do mês de abril. Prosseguimos na hipótese de que, ao contrário do discurso majoritariamente adotado pela mídia, os militares – sobretudo aqueles associados diretamente ao governo – representam uma ala do governo que pauta suas ações não por justificativas técnicas, mas sim tendo em vista valores e princípios ideológicos, tais como hierarquia, manutenção da “ordem” social e política, conservação do prestígio de sua imagem frente à opinião pública e aproximação estratégica do aparato estatal. Identificamos que importantes acontecimentos políticos do último mês – como a saída de Mandetta, as manifestações dos dias 19/04 e 03/05 e saída do juiz Sérgio Moro do Ministério da Justiça -, bem como as posturas e falas recentes do presidente constituíram um aprofundamento do dilema “técnica vs. ideologia” que circunda a atuação política da ala militar no governo.

Da elaboração de tal dilema, podemos erigir alguns questionamentos importantes para a continuação do desenvolvimento de reflexões a respeito da relação entre o grupo militar e a atuação do presidente da República. É possível afirmar que a ala militar é “bolsonarista”? Ou, ao contrário, seria o “bolsonarismo” uma forma particular elaborada para dar suporte – isto é, para servir como meio de expressão – de toda uma “cultura institucional” profundamente enraizada na corporação militar? Provavelmente, as respostas a tais perguntas poderão ser melhor desenvolvidas nos próximos anos, a depender da natureza dos acontecimentos históricos.


[1]https://www.gazetadopovo.com.br/republica/santos-cruz-briga-olavo-carvalho-bolsonaro/

[2]https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2019/05/07/interna_politica,1051683/entenda-a-briga-entre-olavistas-e-militares-no-governo-bolsonaro.shtml

[3] Para conferir com mais detalhes o início dessa discussão, basta acessar o primeiro relatório do NUDEB publicado em abril.

[4]https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/04/16/mandetta-anuncia-em-rede-social-que-foi-demitido-do-ministerio-da-saude.ghtml

[5]https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2020/04/07/interna_politica,1136628/apos-rumores-de-demissao-mandetta-e-braga-netto-falam-em-uniao-no-g.shtml

[6]https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2020/04/07/braga-netto-presenca-de-mandetta-e-palavra-de-uniao-e-posicao-do-governo.htm

[7]https://oglobo.globo.com/brasil/pais-nao-sabe-se-escuta-ministro-ou-presidente-diz-mandetta-24367167

[8]https://oglobo.globo.com/brasil/mandetta-cruzou-linha-da-bola-em-entrevista-diz-mourao-1-24370222

[9]https://www.cartacapital.com.br/politica/mandetta-perde-apoio-de-militares-apos-criticar-bolsonaro-na-tv/

[10]https://noticias.uol.com.br/colunas/thais-oyama/2020/04/13/mandetta-perdeu-apoio-dos-militares-do-planalto.htm

[11]https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/04/carreatas-pelo-pais-pedem-fim-do-isolamento-apos-206-novas-mortes-por-coronavirus.shtml

[12]https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/04/19/bolsonaro-discursa-em-manifestacao-em-brasilia-que-defendeu-intervencao-militar.ghtml

[13]https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/04/ala-militar-nega-golpismo-mas-apoia-bolsonaro-no-embate-com-poderes.shtml

[14]https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/04/carreatas-pelo-pais-pedem-fim-do-isolamento-apos-206-novas-mortes-por-coronavirus.shtml

[15]https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/04/nao-queremos-negociar-nada-diz-bolsonaro-em-carreata-anti-isolamento-em-brasilia.shtml

[16]https://www.terra.com.br/noticias/brasil/politica/pandemia-escancara-racha-entre-militares-e-bolsonaro,634d6dfac805688faf69b39b1da4e525hmir6ppq.html

[17]https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/04/ala-militar-nega-golpismo-mas-apoia-bolsonaro-no-embate-com-poderes.shtml

[18]https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/05/militares-caem-na-armadilha-criada-ao-se-associar-a-bolsonaro.shtml

[19]https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/politica/2020/04/25/interna_politica,848294/bolsonaro-se-transformou-em-zumbi-dizem-militares-perplexos-e-ch.shtml

[20]https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/04/ala-militar-se-ve-traida-e-discute-se-segue-com-bolsonaro.shtml

[21]https://www.jornalcontabil.com.br/bolsonaro-militares-e-bancada-da-bala-pensam-em-retirar-apoio/

[22]https://noticias.uol.com.br/colunas/thais-oyama/2020/04/25/os-militares-irao-com-bolsonaro-ate-o-fim.htm

[23]https://www.brasildefato.com.br/2020/04/30/gosto-pelo-poder-mantem-militares-passivos-a-bolsonaro-avalia-cientista-politico

[24]https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/bbc/2020/02/26/brasil-de-bolsonaro-maior-proporcao-de-militares-como-ministros-do-que-venezuela-especialistas-veem-riscos.htm

[25]https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/bbc/2020/02/26/brasil-de-bolsonaro-maior-proporcao-de-militares-como-ministros-do-que-venezuela-especialistas-veem-riscos.htm

[26]https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/ansa/2020/05/03/bolsonaro-volta-a-apoiar-manifestacao-em-brasilia.htm

[27]https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/05/03/profissionais-de-imprensa-sao-agredidos-durante-manifestacao-antidemocratica-com-a-presenca-de-bolsonaro.ghtml

[28]https://g1.globo.com/df/distrito-federal/noticia/2020/05/03/manifestantes-fazem-carreata-pro-bolsonaro-na-esplanada-dos-ministerios-em-brasilia.ghtml

[29] https://www.defesa.gov.br/noticias/68495-nota-oficial-do-ministro-da-defesa-3

[30]https://brasil.elpais.com/brasil/2020-05-05/forcas-armadas-sinalizam-distancia-de-bolsonaro-na-crise-do-coronavirus-mas-divorcio-de-militares-com-governo-e-improvavel.html

[31] https://www.bbc.com/portuguese/geral-52553869

[32]https://g1.globo.com/politica/blog/valdo-cruz/post/2020/05/04/militares-concordam-com-criticas-de-bolsonaro-ao-stf-mas-nao-apoiam-qualquer-medida-de-forca-contra-judiciario-ou-legislativo.ghtml

[33] https://oglobo.globo.com/podcast/ate-onde-vai-apoio-dos-militares-bolsonaro-24410585

[34]https://www.brasildefato.com.br/2020/05/04/esquerda-nao-deveria-celebrar-ativismo-juridico-alerta-jurista-sobre-caso-ramagem

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