EDITORIAL | A política brasileira e a pandemia: Avança a crise da democracia

Por Josué Medeiros e Pedro Lima

É com enorme satisfação que apresentamos o segundo Boletim do Núcleo de Estudos Sobre a Democracia Brasileira (NUDEB) em 2020, no qual damos continuidade à pesquisa sobre como a política brasileira reagiu a pandemia da Covid-19. Nessa edição apresentamos o resultado da pesquisa das e dos estudantes de graduação em ciências sociais do IFCS/UFRJ durante o segundo mês de vigência da pandemia, entre 12 de abril e 11 de maio. Novamente, nosso orgulho e agradecimento a cada uma/um é gigante, pois sabemos que as condições de pesquisa e escrita ficaram ainda mais difíceis na medida em que a doença avança, com o aumento do número de casos e mortos e com a radicalização irresponsável e autoritária de Bolsonaro.

No segundo número, conseguimos dar conta de analisar os seguintes temas: o presidente Jair Bolsonaro (1); suas redes sociais (2); a nova configuração do seu ministério (3); a ala militar do governo federal (4); o Congresso Nacional (5); o Supremo Tribunal Federal (6); os governadores de Estado (7); a mídia empresarial (8); o debate intelectual entre economistas (9); os movimentos sociais (10);

Os textos convergem no esforço de responder às seguintes questões: qual foi o desenvolvimento dos conflitos que identificamos na política brasileira no primeiro mês da pandemia? Tiveram algum desfecho? Radicalizaram-se? Houve alguma mudança substancial? Pretendemos, com isso, seguir contribuindo tanto com a análise mais imediata da conjuntura quanto com as reflexões de fundo sobre a crise da democracia brasileira iniciada com o processo de questionamento das eleições de 2014 e que levou ao golpe parlamentar de 2016.

No primeiro boletim, nossa conclusão foi que a pandemia não produziu nenhum conflito novo na política brasileira, mas radicalizou a dinâmica de crise da democracia, colocando-a em um novo patamar: afirmamos, ao final do editorial de estreia, que “Bolsonaro não mudará, não recuará, não deixará de agir contra as instituições e de mobilizar sua base. Cabe às forças democráticas reagirem a altura”. Acertamos, infelizmente.

Na mesma proporção em que a tragédia do novo coronavírus se amplia em número de vidas perdidas, Bolsonaro radicaliza sua postura de assalto às instituições, aumentando seu controle sobre postos chaves da estrutura estatal – Ministério da Justiça, Polícia Federal. Os militares ampliam a presença na Esplanada, buscando dar alguma estabilidade à gestão. Mas não agem para desautorizar o processo de mobilização social do bolsonarismo contra as instituições. Os apoiadores mais radicais do presidente seguem promovendo atos e carreatas semanais contra as medidas de isolamento social. Estão, é verdade, em número cada vez menor, assim como a popularidade de Bolsonaro. Esta, embora tenha baixado do patamar de 1/3, segue próxima dos 30%. Mesmo que mantenha seu viés de queda (o que acreditamos), não há indícios de que isso se dará em uma velocidade suficiente para resolver os impasses ainda em 2020.

Insistimos na hipótese de que nada em nossa democracia será como antes. No primeiro editorial, apontamos para o problema da ação dos atores políticos nesses tempos pandêmicos, entendendo que todos eles mantinham seu padrão de estratégia e tática anterior, mas que isso seria inviável com o desenvolvimento da pandemia. De fato, para alguns, essa impossibilidade de seguir agindo do mesmo jeito já se manifestou no segundo mês da pandemia: o pedido de demissão de Sérgio Moro aponta para um rearranjo na composição das direitas, podendo significar uma ruptura entre o lavajatismo e o bolsonarismo; e o gesto do deputado Marcelo Freixo, que desistiu de sua candidatura a prefeito do Rio de Janeiro por não conseguir a unidade da esquerda, pode ter o mesmo efeito de recompor as relações no campo progressista, servindo como impulso para a tão necessária frente entre partidos e movimentos que supere, finalmente, as divergências que vêm do pleito presidencial de 2018.

Sumário

Bolsonarismo está mais forte ou mais fraco depois de dois meses da pandemia no Brasil? por Josué Medeiros

Análise do Twitter de Bolsonaro: o desgaste político diante dos ápices de uma política de confronto por Nathalia Harcar

As redes sociais de Bolsonaro durante a pandemia por Daniel Sousa

A pandemia e a nova configuração do ministério de Bolsonaro por Luiza Soares

Bolsonaro: o presidente que está “enquadrando” os militares por Victor Pimentel

As reações do Congresso Nacional à pandemia e ao presidente por Nívea Baltar

O STF diante dos ataques de Bolsonaro à democracia durante a pandemia por Pedro Silveira

Acordos e disputas entre os governadores durante a pandemia por Maíra Tura

A mídia brasileira em tempos de Covid-19: interesses e posicionamentos por Isabela Neves

Caminhos e descaminhos para as políticas econômicas do governo diante da pandemia por Pedro Guerra

A pandemia e os movimentos sociais: da solidariedade e resistência ao Fora Bolsonaro por Cello Lantini

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s