A descoordenação do governo e o debate econômico sobre o financiamento dos gastos sociais

Por Pedro Guerra

O presente trabalho tem por objetivo discorrer acerca dos debates intelectuais que vêm ocorrendo entre economistas sobre as políticas econômicas do governo diante da pandemia do Covid-19.

Por isso, dessa vez, selecionamos quatro economistas: Marcos Lisboa, Marcos Mendes, Pedro Rossi e Laura Carvalho. A divisão ideológica persiste entre ortodoxos (Marcos Lisboa e Marcos Mendes) e heterodoxos (Pedro Rossi e Laura Carvalho). O objeto desta pesquisa girou em torno dos principais assuntos discutidos por estes especialistas no período estudado: a falta de liderança do Executivo para conduzir as estratégias de combate à crise; o aumento de tributos e suas conseqüências; o modo de financiamento das políticas públicas; a proposta dos empréstimos em dólar; a omissão de dados da pandemia por parte do Ministério da Saúde; o lockdown e suas implicações; o papel do Banco Central e a questão da renda básica universal. A investigação tomou como fontes os artigos publicados por estes economistas no jornal Folha de São Paulo, além de podcasts, vídeos do Youtube, portais de notícias variados e sites de opinião. O período abarcado pelo estudo compreende o intervalo que vai de 10 de maio de 2020 a 12 de junho de 2020.

Nossa hipótese é a de que os ortodoxos compartilham quatro premissas fundamentais: a primeira é criticar a descoordenação e a incapacidade do Executivo de lidar com a crise, cuja expressão máxima se encontra na figura do presidente; a segunda é apontar os efeitos perniciosos de um possível aumento dos tributos; a terceira é mostrar alguns exageros do Legislativo e do Judiciário; e a quarta é salientar a importância das reformas estruturais. Por outro lado, os heterodoxos parecem partir de quatro princípios: o primeiro é argumentar contra o discurso pró-austeridade, simbolizado no chavão de que “acabou o dinheiro”; o segundo é mostrar alternativas sustentáveis para o financiamento das políticas públicas; o terceiro é indicar a importância econômica, social e jurídica da efetivação da renda básica universal como política permanente; e o quarto é revelar o papel crucial que o Banco Central pode exercer nesse momento pandêmico

A descoordenação do governo, a tributação e as reformas

  Marcos Lisboa, economista, atual presidente do Insper (Instituto de Ensino e Pesquisa) e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda (2003-2005), em artigo publicado na Folha de São Paulo no dia 10 de maio de 2020, denominado “Quem semeia vento colhe tempestade” [1]·, afirma que o presidente parece estar perdido diante da crise, não conseguindo lidar com a complexidade do problema e nem entendendo o que seus assessores fazem. Além disso, diz que Bolsonaro profere frases de efeitos e chavões para o público como se fossem verdades absolutas. Perdido no meio de uma falsa polarização de botequim entre economia e saúde, o governo descuida de ambas. “Será que, em privado, ninguém lhe diz ser constrangedor um presidente saber tão pouco do que fala, incluindo as principais negociações conduzidas pelos seus mais importantes auxiliares?”. Em outro artigo, publicado no mesmo site dia 16 de maio de 2020, chamado “A falência do Estado” [2], o economista discorre sobre as conseqüências que esta descoordenação do governo causa para a população: “a sociedade assiste atônita à ineficiência do poder público, disfuncional e oportunista.” Ademais, elenca uma série de problemas tanto no seio do Estado quanto na sociedade que potencializam os efeitos danosos da crise: o egoísmo de alguns servidores públicos – com salário garantido e estabilidade de emprego – que pedem para não pagarem suas dívidas; a irresponsabilidade dos tribunais de justiça concedendo novos auxílios para aumentar a remuneração de juízes; a não aprovação de reformas da previdência dos servidores para reduzir o descontrole com gasto pessoal; e o perigo de parte do Legislativo e do Judiciário sucumbirem ao populismo à custa de quem trabalha, com pagamentos sendo interrompidos por liminares arbitrárias, prejudicando empresas em atividade.

No que diz respeito ao vídeo da reunião ministerial[3], Lisboa tece duras críticas ao governo[4], realçando que a reunião não mostrou os resultados das medidas econômicas de combate à crise, como o incentivo à concessão de crédito ou as propostas do Legislativo, nem tampouco houve diagnóstico detalhado sobre os problemas das opções de política econômica. As coisas mais cruciais também não foram discutidas, isto é, os caminhos econômicos que devem ser adotados. “Não houve discussão estruturada a respeito da grave crise da saúde pública ou dos seus efeitos colaterais sobre a renda e a produção”. No dia 6 de junho de 2020, em artigo também publicado na Folha de São Paulo, diz que “é inaceitável a omissão de dados sobre a pandemia” [5]. O Ministério da Saúde do governo Jair Bolsonaro apagou do seu site oficial os números que revelam o alcance do novo coronavírus no Brasil [6], ficando fora do ar toda a sexta-feira do dia 5 de junho, somente voltando a ser republicado no dia seguinte (sábado), porém, apenas com as notificações registradas nas últimas 24 horas. Além disso, houve um sumiço na plataforma do número total de pessoas infectadas desde o início da pandemia e do número de mortos. Também foram apagadas tabelas que mostravam a curva de evolução da doença e gráficos sobre infecções e mortes por estado. O economista atesta que mudanças de metodologia são comuns tanto na área de saúde como de economia, entretanto, é sempre importante preservar o que foi acumulado antes, de maneira que possa haver uma continuidade entre o que foi descoberto nas pesquisas precedentes e os novos dados. Estas ações – interrupções das estatísticas, omissão de dados, mudanças abruptas de metodologia – são típicas de governos autoritários, não de democráticos. “Os ingênuos achavam que a presidência de Dilma Rousseff tinha sido o fundo do poço. Nada como a gestão do Bolsonaro para redimir o malfeito, incluindo a insegurança sobre os dados oficiais”.

Por fim, nos alerta que “propostas às cegas podem resultar em tiro no pé” [7], referindo-se ao perigo de se aumentar o tributo, pois pode causar efeitos inesperados. Segundo ele, o Congresso baseia-se em dados antigos para aumentar a tributação e não sabe medir os impactos para a população em geral. A renda do setor privado, com a pandemia, pode cair mais de 10%, incluindo o lucro das empresas, o que significa menos arrecadação para o Estado. A proposta de aumento de tributos, neste momento, não somente atrapalha a recuperação da economia, como também não leva em consideração seu efeito indireto sobre a produção. O estudo de Rodrigo R. Soares, professor titular adjunto na Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas e professor afiliado de Economia na Universidade Columbia e Daniel Haanwinckel, pesquisador no Becker Friedman Institute, Universidade de Chicago, e doutor em Economia na Universidade da Califórnia, Berkeley, estima que cada 1 p.p a mais de contribuição sobre a folha salarial aumenta em 0.27 p.p o número de trabalhadores sem carteira no Brasil[8] e que a redução da contribuição tem impacto maior sobre a formalização do emprego do que uma transferência de renda para os trabalhadores, como o abono salarial. Além disso, segundo estudos[9], o aumento da informalidade eleva o custo do capital em 30% e reduz a produtividade.

Nesta perspectiva, Marcos Lisboa nos alerta sobre os cuidados que o governo deve tomar para conduzir as políticas públicas na medida em que estas podem se transformar em uma catástrofe maior e aponta algumas saídas para a crise econômica e sanitária: uma maior coordenação por parte do Executivo para enfrentar a crise; maior capacidade de negociação de conflitos; não retomar a agenda de investimentos liderados pelo setor público (para evitar fracassos passados: Dilma e Geisel); não distribuir recursos aleatoriamente; aprovar urgentemente reformas da previdência dos servidores públicos para não inviabilizar as contas públicas; e fortalecer a agenda das instituições, traçando seus limites.

Marcos Mendes, economista, pesquisador associado do Insper e autor de “Por que É Difícil Fazer Reformas Econômicas no Brasil?”, em artigo publicado na Folha de São Paulo intitulado “Falta de liderança deixa governo e Congresso a deriva de ideais ruins” [10], publicado dia 19 de maio de 2020, aparenta concordar com a análise de Lisboa dizendo que a falta de liderança e a incapacidade do presidente de montar uma estratégia para contornar a dupla crise na saúde e na economia cria um vácuo decisório[11] que é preenchido por ideias ruins, como o perdão de dívidas a devedores que podem pagar e os benefícios aos mais ricos. O Legislativo avança com projetos embasados em diagnósticos errados. Um exemplo é o de aumentar de R$ 1,9 mil para R$ 5 mil o limite de isenção do Imposto de Renda, não levando em consideração que somente os 10% de maior renda pagam IR, sendo eles os maiores beneficiários de uma queda de arrecadação de mais de R$ 50 bilhões.

Outro equívoco que aponta nos planos do Poder Legislativo, apesar do momento, é a tentativa de suspensão de alguns pagamentos e perdões generalizados, como é o caso do Fies[12]. “Mecanismos de renegociação, inclusive com assistência jurídica pública, existem e funcionam”. Além disso, no que tange à tributação das “grandes empresas”, “grandes fortunas” ou dos dividendos, Mendes declara que não adiantará, pois estas empresas estão fortemente afetadas pela crise. “Imposto sobre grandes fortunas é um espantalho que nada arrecada. Tributação de dividendos já existe, e é feita antes de sua distribuição. Tributá-lo após a distribuição requererá uma reforma do modelo atual, e não resultará em ganho fiscal relevante”.

A crise irá se prolongar[13] e é necessário dar continuidade aos pacotes de ajuda por parte do governo[14], contudo, a análise do economista é que não será possível prorrogar o conjunto de medidas de socorro para todos, ou seja, para as famílias, empresas, estados e municípios. “O custo fiscal é muito alto” [15], afirma. Por isso, como o auxílio de 600 reais é a maior categoria dentro do pacote de ajuda (R$ 142 bilhões, em três meses, maior até que o apoio financeiro aos estados e municípios[16], que é de R$ 60 bilhões), ele deve ser privilegiado. É nos mais pobres que o governo deve focar no momento, gastando conscientemente os recursos. Neste sentido, defende uma reforma estrutural que viabilize a prorrogação do socorro, extinguindo programas como o abono salarial, salário-família, seguro-defeso, canalizando os recursos para uma Bolsa Família ampliada; dessa maneira, dando continuidade ao auxílio emergencial e evitando desvios e fraudes[17].

O economista acredita que o amparo aos mais pobres via um amplo programa de transferência de renda exige definir de onde virá este dinheiro[18]. Uns acreditam em aumentar excessivamente os impostos ou em tributar lucros e dividendos (esperando-se arrecadar uns R$ 30 bilhões ou 40 bilhões), outros apostam no consumo dos pobres para aumentar a arrecadação ou dar fim ao BPC (Benefício de Prestação Continuada). A saída, segundo Marcos Mendes, é, em conjunto com a extinção destes programas citados anteriormente, que o custo seja sustentado por pessoas de alta renda, dando fim aos descontos permitidos no Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF), pois os 10% mais ricos são responsáveis por 90% da receita de IRPF, extinguindo as deduções por dependentes e dos gastos com educação e saúde (o que representaria R$ 28 bilhões), acabando com os descontos no IRPF para pessoas maiores de 65 anos e com a isenção total para aposentados que tem ou tiveram doenças graves (o que daria R$ 25 bilhões) e praticando um congelamento da folha de pagamento por um ano, sem posterior reajuste (o que geraria R$ 14 milhões).

Tudo somado, contado a despesa da Bolsa Família, chegaríamos a R$ 142 bilhões ao ano. “É pouco para programas ambiciosos. Não paga três meses de auxílio emergencial. Mas dá para fazer muita coisa (…). Para gastar mais que isso, só elevando imposto ou redobrando esforço para cortar outros gastos ou benefícios tributários. O essencial é não criar programas que não se possa pagar”.

O mito da austeridade, o financiamento das políticas públicas e a renda básica universal

Por outro lado, Pedro Rossi, professor doutor do Instituto de Economia da Unicamp e pesquisador do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica (CECON), afirma que a tese de que o “dinheiro acabou” é balela. O discurso pró-austeridade parece ter caído por terra; se antes o Estado brasileiro estava quebrado, ele passou a ser o agente mais importante na luta contra o coronavírus, e o dinheiro que tinha acabado, reapareceu. “Mitos sobre a questão fiscal caíram por terra e dogmas foram deixados de lado diante de uma realidade impositiva. Assim, a crise postergou o debate sobre as reformas e criou um “quase consenso” entre os economistas de que é preciso gastar com saúde, assistência social e apoio às empresas e trabalhadores” [19]. Nesta ótica, identifica três mitos de alguns discursos neoliberais que estão recorrentemente sendo evocados no debate público: 1) o orçamento do governo não se assemelha ao orçamento familiar; 2) a procura única e exclusiva por fontes orçamentárias, patrimoniais e empréstimos externos para financiar o gasto social é insustentável e falsa; 3) não existe conta “Coronavírus” a ser paga.

No que tange ao primeiro mito, há três maneiras de desmistificá-lo: a) o orçamento familiar não pode equiparar-se ao orçamento do governo, pois este último define seu orçamento, determinando o quanto ganha, quem paga, quem recebe, quanto paga e quanto recebe. Com as famílias isto não ocorre. Significa dizer que o governo é responsável por formular suas decisões políticas, as quais servirão para toda a sociedade: ele pode escolher, por exemplo, tributar grandes fortunas e bens importados para aumentar o investimento em educação, as famílias não podem; b) ao contrário das famílias, quando o governo gasta, parte dessa renda retorna em forma de impostos.

Dessa maneira, o gasto público para o combate à crise, como o próprio FMI recomendou[20], é crucial não apenas do ponto de vista do crescimento econômico, mas também da redução do desemprego; c) somente o governo (através do BC) pode emitir moeda, títulos (Tesouro Nacional) e definir a taxa de juros das dívidas que paga. O segundo mito, o da procura exclusiva por fontes orçamentárias, patrimoniais ou externas para financiar os gastos públicos, repetida por alguns neoliberais, é contraproducente. Rossi publicou em seu site[21] um artigo chamado “Por Que Não Faz Sentido Financiar O Auxílio Emergencial Com Empréstimos Em US$ E Reservas Cambiais?” [22], explicando que tomar empréstimos externos para financiar o auxílio emergencial não faz sentido nenhum.

O que o economista quer dizer é que o empréstimo do exterior é em dólar e o governo irá gastar em reais, de modo que tal gasto irá aumentar a base monetária, gerando uma operação de venda de compromissadas pelo Banco Central, aumentando no final, a dívida externa e interna. O governo, porém, pode fazer o movimento contrário: vender estes dólares no mercado e gastar em reais, trocando a dívida interna pela externa. Rossi ainda nos adverte que a política de venda de reservas cambiais com políticas de endividamento externo só aumenta a vulnerabilidade externa e causa tragédia. “Esses empréstimos parecem mais uma tentativa de reforçar a retórica falsa de que não tem dinheiro para gastos sociais e de que é necessário buscar fontes patrimoniais e até fontes externas para financiar o gasto social diante da pandemia. Mentira, tem dinheiro”. A emissão de moeda vai contra a idéia de que o dinheiro acabou, pois apesar de não evitar o aumento da dívida, é o melhor caminho para o financiamento dos gastos sociais.

O terceiro mito é que, após a pandemia, teríamos uma conta a ser paga por causa do combate ao Coronavírus. Supostamente toda sociedade teria que pagar esta conta, para assim não deixá-la para as gerações futuras. Contudo, isto é falso por duas razões: a primeira é que a dívida pública não precisa ser reduzida, uma vez que seguindo o padrão das dívidas soberanas, dívida pública não se paga, se rola. Um exemplo é o que ocorreu na Inglaterra durante a Segunda Guerra Mundial, quando não somente a dívida de 250% do PIB não foi paga, como também ela não comprometeu o país de expandir gastos. A segunda razão é que o gasto público pode impulsionar o crescimento econômico, pois se o governo não gasta, a economia simplesmente desaba; ao gastar, o governo aumenta a renda do setor privado e realoca recursos, melhorando a eficiência do sistema e elevando os recursos do conjunto da sociedade.

Outra manifestação interessante do economista apareceu no YouTube[23], dia 29 de maio de 2020, no canal chamado “DCM” (Diário do Centro do Mundo), onde debateu com Eduardo Fagni, também professor da Unicamp, acerca das relações entre economia e  pandemia. Pedro Rossi deixou bem claro que um cenário econômico adequado, pós-crise, passa pelo abandono da agenda pró-austeridade e pela retomada da importância do Estado como coordenador e indutor dos investimentos. Passa ainda, pela adoção prolongada da renda básica emergencial¸ em virtude da perda de renda da população e da diminuição da produção em geral. Além disso, pela manutenção do atendimento às demandas da saúde pública, já que será necessário um acompanhamento continuado dos pacientes com Covid-19. Por fim, pela estabilização da dívida pública via crescimento econômico, afastando-se dos cortes sociais e do aumento da carga tributária.

A última perspectiva a ser analisada é a de Laura Carvalho, doutora em economia pela New School for Social Research (N.S.S.R.) e professora de economia da USP. Abordando aspectos econômicos da nossa realidade, divide um podcast com Renan Quintanilha, professor de direito da Unifesp, que aborda os temas jurídicos. No episódio postado dia 12 de maio de 2020, intitulado “A emissão de moeda diante da crise e a requisição de leitos para o SUS” [24], a economista discute sobre a eficácia da emissão de moeda para combater a crise, afirmando que de acordo com a legislação brasileira é proibido que o Tesouro Nacional seja financiado diretamente pelo Banco Central, o que significa que o BC não pode comprar títulos do Tesouro, por conseqüência, bancar os gastos públicos.

O debate público que se apresenta, e que Carvalho defende, é uma mudança na legislação para que seja possível ao BC não apenas comprar os títulos do TN, como também, eletronicamente, creditar e aumentar o saldo na conta única do Tesouro, ampliando a circulação de moeda na economia (já que a moeda é criada do nada) e assim dar conta dos gastos sociais. Muitos acreditam que emitir moeda pode gerar inflação.Estamos, todavia, vivendo momentos de deflação[25], razão pela qual não há o que temer, pois  já ocorre a emissão da dívida pública mediante venda de títulos e ela funciona. Em outro episódio denominado “O lockdown e seus aspectos jurídicos e econômicos” [26], postado dia 19 de maio de 2020, a professora inicia explicando que a origem da crise é a pandemia e não as medidas quarentenárias que a combatem; isto parece óbvio, mas é importante ressaltar, já que há argumentos que falam ao contrário.

Esta crise se difere de outras, pois não se dá apenas do ângulo da oferta – restaurantes fechando, proibição do turismo, entretenimento, etc – mas também do ângulo da demanda, já que a população está com medo de sair na rua e consumir. Por isso, afirma que a resolução do problema econômico depende diretamente da solução do problema sanitário, cabendo aos epidemiologistas e profissionais da área da saúde resolverem, de maneira que a decisão pelo lockdown se restrinja ao critério dos especialistas da saúde e adotado localmente, respeitando a especificidade de cada estado, os quais têm contágio e graus de transmissão diferentes entre si; entretanto, parece ficar claro que a não adoção de medidas restritivas, como na Suécia[27] que terá PIB caindo de 7% a 10%, não tem gerado situações de crises econômicas mais brandas.

No tocante ao empréstimo em dólar para financiar os gastos sociais, o diagnóstico de Carvalho converge para o de Rossi, pois de acordo com informações, os empréstimos são muito supérfluos[28] e não cobrem nem o auxílio emergencial que levará a um gasto da ordem de R$ 154 bilhões[29], em três meses; não faz o menor sentido tomar empréstimo do exterior, porque já estamos nos endividando, as regras fiscais já estão flexíveis e os investidores continuam querendo comprar títulos da dívida. Há a impressão de que este movimento – de tomada de empréstimo do exterior – é uma ação política, no sentido de declarar que acabou o dinheiro, para paralisar os investimentos em gastos sociais[30]. A renda básica universal (RBU) é outro tema tocado por Laura Carvalho, que, se concretizada como política social, exercerá um papel fundamental sobre o direito à cidadania, assim como acontece com o SUS. Assim, se por um lado, o auxílio emergencial foi bastante amplo, ele difere da RBU, pois foi um benefício concedido para quem já estava no “Cadastro Único” de políticas sociais do governo, para os informais, os micro empreendedores individuais e etc. Havia critérios específicos para as pessoas participarem, não cumprindo um parâmetro universal. O ideal seria tributar a população para sustentar a renda básica universal, como fazem os países que adotam o modelo de Estado de bem-estar social.

Conclusão

Os acontecimentos políticos que abrangem a segunda metade da quinzena do mês de maio e o início do mês de junho – período em que a pesquisa foi realizada – serviram para revelar de vez os valores anti-republicanos do governo Bolsonaro, no sentido original da palavra, de cuidar do “interesse coletivo” e da “coisa pública”. A falta de liderança e a incapacidade do governo em coordenar e conduzir as estratégias de combate à crise – vide a reunião ministerial e outros episódios[31] – e a omissão de dados por parte do Ministério da Saúde confirmam nosso diagnóstico. No que concerne às medidas econômicas propriamente ditas, é indispensável emitir moeda através do BC (assim como o próprio Paulo Guedes[32] admitiu) para o financiamento das políticas públicas, bem como elevar o endividamento, deixando para depois da crise as discussões de como reduzir a dívida acumulada. Há também que prolongar a RBU como política social pós-crise, em razão do desemprego e da perda de renda da população, e não aumentar a carga tributária, tendo em vista a queda de produtividade do setor privado.


[1]https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marcos-lisboa/2020/05/quem-semeia-vento-colhe-tempestade.shtmll

[2]https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marcos-lisboa/2020/05/a-falencia-do-estado.shtml

[3] https://www.youtube.com/watch?v=TjndWfgiRQQ

[4] https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marcos-lisboa/2020/05/manifestacoes-do-executivo-sao-assustadoras.shtml

[5]https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marcos-lisboa/2020/06/e-inaceitavel-a-omissao-de-dados-sobre-a-pandemia.shtml

[6] https://brasil.elpais.com/brasil/2020-06-06/governo-bolsonaro-impoe-apagao-de-dados-sobre-a-covid-19-no-brasil-em-meio-a-disparada-das-mortes.html

[7]https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marcos-lisboa/2020/06/propostas-as-cegas-podem-resultar-em-tiro-no-pe.shtml

[8]https://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=3579086

[9]  https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1111/j.1475-4991.2011.00450.x

[10]https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marcos-mendes/2020/05/falta-de-lideranca-deixa-governo-e-congresso-a-deriva-de-ideias-ruins.shtml

[11]https://www1.folha.uol.com.br/colunas/painel/2020/05/bolsonaro-indica-a-aliados-que-pode-demorar-para-escolher-novo-ministro-da-saude.shtml

[12]https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2020/05/senado-aprova-suspensao-do-pagamento-do-fies-durante-calamidade-do-coronavirus.shtml

[13] https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/coronavirus/

[14]https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2020/05/guedes-admite-prorrogar-auxilio-emergencial-por-um-ou-dois-meses-mas-com-valor-de-r-200.shtml

[15]https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marcos-mendes/2020/05/auxilio-emergencial.shtml

[16]https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2020/05/veto-pedido-por-guedes-gera-novo-impasse-com-governadores-em-plano-de-socorro.shtml

[17] https://f5.folha.uol.com.br/celebridades/2020/05/william-bonner-diz-que-nome-e-cpf-do-filho-foram-usados-em-fraude-no-auxilio-emergencial.shtml

[18]https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marcos-mendes/2020/06/auxilio-aos-pobres-fazendo-contas.shtml

[19]https://pedrorossi.org/que-a-austeridade-fiscal-nao-volte-da-quarentena/

[20] https://blogs.imf.org/2020/03/16/policy-action-for-a-healthy-global-economy/

[21] https://pedrorossi.org/

[22] https://pedrorossi.org/por-que-nao-faz-sentido-financiar-o-auxilio-emergencial-com-emprestimos-em-us-e-reservas-cambiais/

[23]  https://www.youtube.com/watch?v=YLwOy3D-5iM&t=498s

[24] https://www.listennotes.com/podcasts/entretanto/10-a-emiss%C3%A3o-de-moeda-diante-ZtCWsq7OLDJ/

[25]https://g1.globo.com/economia/noticia/2020/05/08/em-meio-a-pandemia-pais-tem-a-deflacao-de-031percent-abril.ghtml

[26]https://podtail.com/pt-BR/podcast/entretanto/-11-o-lockdown-e-seus-aspectos-juridicos-e-economi/

[27]https://valor.globo.com/mundo/noticia/2020/05/08/sem-lockdown-suecia-tem-pouco-ganho-economico.ghtml

[28]https://g1.globo.com/economia/noticia/2020/05/27/para-pagar-auxilio-emergencial-governo-busca-emprestimo-de-quase-us-4-bilhoes-no-exterior.ghtml

[29] https://www12.senado.leg.br/noticias/audios/2020/05/ifi-estima-despesa-com-auxilio-emergencial-em-r-154-bilhoes

[30]https://podtail.com/pt-BR/podcast/entretanto/-13-emprestimos-em-dolar-e-o-inquerito-das-fake-ne/

[31] http://umbrasil.com/videos/falta-de-coordenacao-estremece-relacao-entre-executivo-e-legislativo/

[32] https://oglobo.globo.com/economia/guedes-admite-que-governo-pode-emitir-moeda-para-financiar-custos-da-crise-24403277

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