A mídia brasileira em tempos de Covid-19: interesses e posicionamentos

Por Isabela Neves

Este texto tem como pretensão dar continuidade a análise de como a mídia reagiu a chegada da Covid-19 no país neste terceiro mês da pandemia no Brasil. Apontamos, nos textos anteriores, que a necessidade de enfrentar o novo coronavírus e a postura de Bolsonaro de minimizar a doença e contestar as recomendações da OMS resultou em um protagonismo dos veículos de comunicação na função de conscientizar a sociedade. Isso se deu em uma crescente dinâmica de confronto com o presidente que, conforme analisamos nos dois primeiros textos, não fez com que a mídia empresarial deixasse de apoiar as medidas econômicas do governo.

A hipótese aqui desenvolvida é que permanece válida a contradição entre o modo como a mídia se relaciona com as medidas sanitárias, com a postura do presidente e com as medidas econômicas do governo Bolsonaro. Os jornais O Globo e Folha de São Paulo seguem criticando o apoio presidencial às medidas de flexibilização do isolamento e também combatem as constantes agressões à imprensa, especialmente no caso da ocultação dos casos de Covid-19.

Em contrapartida, foi possível identificar que os jornais pesquisados se posicionam favoravelmente à agenda econômica neoliberal do bolsonarismo, sempre pautando a análise dessas medidas pela austeridade fiscal responsável versus gastos públicos irresponsáveis.

Para trabalhar essa hipótese foi feito um mapeamento dos principais assuntos dos editoriais da Folha de São Paulo e do jornal O Globo no período de um mês, compreendido entre 12 de maio a 13 de junho. Coletamos opiniões desses jornais sobre a política de isolamento, medidas econômicas, a questão dos dados referentes aos mortos e total de casos, bem como as críticas e elogios às ações dos diversos poderes diante da pandemia. Nesse mês, foi importante também registrar o modo como a mídia empresarial lidou (ou deixou de lidar) com as manifestações de rua organizadas pela sociedade civil, tanto com a pauta antifascista quanto com a pauta antirracista.

A mídia e Bolsonaro: acordos nas pautas econômicas e conflitos nos temas políticos

Nos boletins anteriores argumentamos que os jornais pesquisados agiam sob o crivo de interesses de classe, como alinhados ao seu próprio setor: o empresariado. Esse contexto se apresentou em março e abril no debate sobre o auxilio emergencial (primeiro mês) e na defesa do teto de gastos (segundo mês).

Na análise desse mês, o debate econômico nos editoriais mirou nas reformas liberais novamente, porém com o foco na reforma administrativa, que atinge o funcionalismo público, e que pode afetar mais alguns setores que outros. Nesse contexto, os dois jornais se posicionaram como apoiadores da reforma, além de fazerem um comparativo entre trabalhadores do setor público e privado, alegando sempre que o primeiro seria beneficiado em relação ao segundo. Esses cortes que a reforma administrativa propõe, por sua vez, se inserem na filosofia de austeridade fiscal. Isto consta tanto em um editorial de 30 de maio do jornal O Globo, intitulado “Manobra aumenta desigualdades entre setores público e privado”[1], tanto como em um do dia 6 de junho, na Folha de São Paulo, de título “Elite intocada”[2].

O oposicionismo midiático: ocultação de casos e ameaças a liberdade de imprensa

Em ordem cronológica, o primeiro debate que tomou os editoriais foi a saída de Nelson Teich do ministério da saúde, motivado por um desalinhamento com o presidente quando este antecipou a decisão de liberar o uso da cloroquina a pacientes leves de Covid-19. A Folha de São Paulo emitiu um editorial intitulado “A queda”[3] de 15 de maio, afirmando que as saídas dos, até então, três ministros mostra que o presidente nega a impessoalidade em sua administração. E concluiu apontando Bolsonaro como “crise a ser enfrentada”. Já O Globo publicou um editorial de título “Radicalismo domina Saúde e a Cultura”[4] no dia 21 de maio, que argumenta que o movimento de radicalização que Bolsonaro vem tendo afeta a Saúde e a Cultura, e a demissão de dois ministros da saúde seria uma evidência disto.

Em seguida, o tema que mais repercutiu foi o vídeo da reunião ministerial do dia 22 de abril, na qual, de acordo com Moro, comprovaria que Bolsonaro quis interferir na PF. Mesmo antes do STF autorizar a divulgação pública do vídeo, O Globo, no editorial “Vídeo de Bolsonaro parece uma confissão”[5] de 13 de maio, já atentava para que o mesmo capturasse o momento em que o presidente se referiu a intervenção na PF para proteger seus filhos, conforme apuração dos bastidores da política.

Quando o vídeo veio a público, em 22 de maio, O Globo publicou outro editorial denominado “Bolsonaro tem que explicar o projeto armamentista”[6] que se refere a fala do presidente, onde este havia pronunciado que queria que o povo se arme. Para o jornal, essa fala pressupõe que o distanciamento social poderia ser quebrado com imposições pelo uso de arma, rompendo com a ordem vigente. Esse entendimento se sucedeu também porque, segundo o jornal, o ministro da Educação teria feito uma reverência à possibilidade de reação armada contra as decisões de prefeitos e governadores.

Por sua vez, na Folha de São Paulo os editoriais fizeram críticas ao ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles e ao ministro da Educação, Abraham Weintraub, alvo constante de crítica dos jornais. Em um editorial intitulado “Passar a boiada”[7] de 24 de maio, a Folha caracteriza o ministro do Meio Ambiente como anti-ambientalista. Em outro editorial, de 25 de maio, denominado “A ficha de Weintraub”[8], o mesmo jornal critica o modo como o ministro se refere ao STF. O Globo também repercutiu a fala do ministro do Meio Ambiente no editorial de título “Radicalismo antiambiental estimula lobby contra o acordo Mercosul- UE” de 3 de junho, que atenta para como o radicalismo antiambientalista do governo bolsonaro, e presente na fala de Salles, afeta a economia de exportação, que se relaciona a acordos ambientais

Além disso, o que tem sido tema de muitos editoriais dos dois jornais foi a questão da flexibilização, em que ambos se mostram contrários. Isso ocorreu por exemplo em um editorial do O Globo de título “Flexibilização precoce poderá levar a aumento de casos de coronavírus”[9] de 2 de junho. Já a Folha, no editoal “Devagar com o andor”[10], entende que a flexibilização é prematura, ainda que busque amenizar essa crítica com elogios ao governo paulista comandado por João Dória.

Como esperado, a liberdade de imprensa também voltou a pauta. A Folha de São Paulo, em editorial de título “Fascismo de segunda”[11] no dia 26 de maio, que relata as ameaças sofridas por William Bonner por setores bolsonaristas, além da ocorrência de uma agressão, em que a haste de uma bandeira foi atirada contra uma repórter da BandNews na manifestação bolsonarista. Ainda, o editorial, ao repercutir a fala do presidente sobre armar a população, compara a um populismo típico do que pregava o fascista Benito Mussolini. O conteúdo fez menção, ainda, as agressões verbais e o clima de insegurança que a imprensa tem sofrido em meio as manifestações bolsonaristas.

Por fim, o centro do embate entre a mídia empresarial e o governo Bolsonaro foi a decisão do Ministério da Saúde de alterar a divulgação de casos e mortos. Primeiramente, em 05 de junho, foi estabelecido que a divulgação dos casos ocorreria apenas após às 22 horas, para evitar a repercussão do crescimento da doença no Jornal Nacional. Em seguida, em 06 de junho, o Ministério passou a divulgar somente os casos e óbitos registrados nas últimas 24 horas e não o total de casos, o que indicava estatísticas bem mais amenas.

O STF terminou por impor, em decisão liminar, que o governo voltasse a divulgar plenamente os casos e mortos[12] Além disso, os veículos de comunicação organizaram um consórcio para fazer a contabilidade de modo independente, a partir dos dados das secretarias estaduais de saúde.[13]

Todo esse processo foi duramente criticado pelos jornais. A Folha de São Paulo publicou um editorial de título “Golpe estatístico”[14] de 7 de junho, que, mais uma vez, desprezava o negacionismo do presidente. O Globo, no editorial intitulado “É grave a decisão de ocultar dados sobre a Covid-19”[15] de 8 de junho, argumentou que, com a saída dos dois ministros na Saúde, foi se acabando a transparência com informações sobre o número de casos da doença. Termina afirmando, que felizmente as instituições estariam funcionando e, graças a isto, as tentativas de manipulação dos números não surtirão efeito.

A mídia e a economia: reforma administrativa em foco

O foco principal dos jornais na pauta econômica foi o apoio à reforma administrativa a partir de uma falsa equivalência entre servidores públicos e trabalhadores do sistema privado. A Folha de São Paulo publicou um editorial de título “Atraso conivente”[16] de 21 de maio, em que critica Bolsonaro por ter desautorizado Guedes  no tema da suspensão de aumentos para o funcionalismo até 2021. No dia 6 de junho, o mesmo jornal emitiu um editorial intitulado “Elite Intocada”[17] em que se criticava o fato das esferas políticas (o presidente Jair Bolsonaro, os presidentes da Câmara dos deputados, ministros do Poder Executivo e outros poderes) manifestaram-se contra a ideia de cortes ao próprio salário e do funcionalismo público em geral.

O jornal O Globo também emitiu um editorial denominado “Manobra aumenta desigualdades entre setores público e privados”[18] em 30 de maio, que utiliza “elite do funcionalismo” para se referir aos funcionários públicos, mencionando ainda que foi aprovado redução entre 25% e 70% do trabalhador do setor privado mas foi rejeitado o corte de 30% na área pública, preferindo o congelamento no salário, que outrora foi mencionado. O jornal critica Bolsonaro por não avançar nessa pauta: em 20 de maio, em um editorial de título “Bolsonaro constrói seu estelionato eleitoral”[19], O Globo acusa o presidente de abandonar seu “disfarce de liberal” ao não lutar contra a “injusta” diferença entre segmentos privilegiados do setor público quanto ao setor privado.

A omissão diante das manifestações

O terceiro mês da pandemia foi marcado por manifestações de rua contra o governo Bolsonaro, enquanto nos meses anteriores apenas os apoiadores do presidente faziam atos públicos. Duas pautas dominaram os protestos: a questão racial e a luta antifascista.  A mobilização “Vidas negras importam” foi puxada por movimentos negros e de favela antirracistas e critica a violência policial sistêmica e marcada nesse momento pelas mortes de crianças pretas pelo racismo institucional, influenciado por manifestações estadunidenses com o assassinato de George Floyd. Já os protestos antifascistas foram liderados por torcidas organizadas que caracterizam Bolsonaro como fascista.

Os jornais optaram por minimizar a importância dos protestos. A Folha de São Paulo em um editorial dia 8 de junho, intitulado “Novo ingrediente”[20] sugeriu que o protesto de 7 de junho era apenas uma articulação contra os rompantes autoritários de Bolsonaro, reduzindo as mobilizações às pautas que já são  defendida pelos jornais, tais como a liberdade de imprensa. A Folha alegou ainda que os protestos teriam resultados ambíguos ao estimular as pessoas a ocuparem as ruas durante a pandemia. Já o Globo, por seu turno, se absteve de opinar sobre o protesto

Conclusão

Vimos, portanto, mais uma vez, a lógica de defesa desses jornais aos interesses empresariais, e que se manifesta tanto pela omissão e redução dos atos de rua antifascistas e antirracistas quanto pela adesão a pauta neoliberal da austeridade fiscal e do Estado mínimo, o que se evidenciou pela continuidade do ataque ao funcionalismo público. O serviço público passa a ser alvo principal, pois o único modo de legitimar o teto de gastos é demonizando tudo que é público.

Já a defesa da democracia por parte dos jornais se limita as pautas da liberdade de imprensa e informação. Nos editorais, não há um apoio às demandas pelo fim do racismo e da violência policial.

Para o próximo mês, além de investigarmos como esses jornais vão lidar com a continuidade das manifestações, a tendência é que, no debate econômico, ganhe espaço a proposta da chamada “Renda Brasil”, projeto de Guedes para substituir o Bolsa Família e que será uma renda mínima permanente no pós pandemia. Tanto o editorial de título “Governo cria seu próprio Bolsa Família”[21] no jornal O Globo em 11 de junho, quanto o intitulado “Bolsa ou renda”[22] de 9 de junho da Folha de São Paulo, questionam o caráter clientelista da medida. Apesar de não se manifestarem contra o projeto, constou, em ambos os editoriais, a preocupação com a austeridade fiscal.


[1] https://oglobo.globo.com/opiniao/manobra-aumenta-desigualdades-entre-os-setores-publico-privado-24452616

[2] https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2020/06/elite-intocada.shtml

[3] https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2020/05/a-queda.shtml

[4] https://oglobo.globo.com/opiniao/radicalismo-domina-saude-a-cultura-1-24437466

[5] https://oglobo.globo.com/opiniao/video-de-bolsonaro-parece-uma-confissao-24423767

[6] https://oglobo.globo.com/opiniao/bolsonaro-tem-de-explicar-projeto-armamentista-1-24445454

[7] https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2020/05/passar-a-boiada.shtml

[8] https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2020/05/a-ficha-de-weintraub.shtml

[9]https://oglobo.globo.com/opiniao/flexibilizacao-precoce-podera-levar-um-aumento-de-casos-de-covid-19-1-24456851

[10] https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2020/06/devagar-com-o-andor.shtml

[11] https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2020/05/fascismo-de-segunda.shtml

[12] https://oglobo.globo.com/sociedade/apos-decisao-do-stf-governo-volta-divulgar-dados-totais-da-covid-19-no-brasil-24470756

[13] https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/06/08/veiculos-de-comunicacao-formam-parceria-para-dar-transparencia-a-dados-de-covid-19.ghtml

[14] https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2020/06/golpe-estatistico.shtml

[15] https://oglobo.globo.com/opiniao/e-grave-decisao-de-ocultar-dados-sobre-covid-19-1-24467491

[16] https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2020/05/atraso-conivente.shtml

[17] https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2020/06/elite-intocada.shtml

[18] https://oglobo.globo.com/opiniao/manobra-aumenta-desigualdades-entre-os-setores-publico-privado-24452616

[19] https://oglobo.globo.com/opiniao/bolsonaro-constroi-seu-estelionato-eleitoral-1-24435411

[20] https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2020/06/novo-ingrediente.shtml

[21] https://oglobo.globo.com/opiniao/governo-cria-seu-proprio-bolsa-familia-24473416

[22] https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2020/06/bolsa-ou-renda.shtml

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