As redes sociais de Bolsonaro durante a pandemia

Por Daniel Sousa

O presente texto tem como objetivo analisar os impactos e consequências da utilização das redes sociais do presidente no terceiro mês da pandemia da COVID-19, que abrange o período de 11 de maio de 2020 a 11 de junho de 2020. Como é sabido, Bolsonaro adotou uma postura de desafiar as recomendações da OMS, minimizando a gravidade da doença e defendendo que a economia deveria funcionar normalmente nos Estados e municípios. O presidente fez das redes sociais um poderoso instrumento de propagação dessa postura junto aos seus apoiadores.

Nossa hipótese é que na medida que cresce a oposição a seu governo, Bolsonaro vem radicalizando ainda mais sua postura nas redes sociais.

Trabalharemos essa radicalização em duas dimensões: uma primeira política-institucional, que se relaciona com a demissão de Teich e com o vídeo da reunião ministerial de 22 de abril. Uma segunda é de mobilização política, que aparece com o uso de símbolos extremistas nas redes, com consequências graves tais como o aumento dos grupos neonazistas ao redor do Brasil.

Como fontes desta pesquisa, além da nossa análise no Twitter do Bolsonaro, recorremos aos estudos das consultorias FGV-DAPP, Quaest e Safernet.

Dimensão política-institucional 

No primeiro dia de análise, 11 de maio de 2020, Bolsonaro assinou portaria que inclui academias de ginástica, salões de beleza, cabeleireiros e barbearias entre serviços essenciais.[1] O então ministro da saúde Nelson Teich não sabia e foi pego de surpresa durante coletiva de imprensa. Iniciava-se um processo de fritura parecido com aquele que viveu Mandetta e que mostramos no boletim anterior. Contudo, desta vez foi mais rápido, pois em 15 de maio Teich pediu demissão. A nova baixa na Saúde fez com que a base da oposição aumentasse em até 160% no Twitter em comparação com o dia anterior.

O mesmo padrão se verificou no WhatsApp, outra rede fundamental da estrutura bolsonarista. De acordo com levantamento feito em 216 grupo públicos, identificou-se que, entre 12h e 15h, o pedido de demissão de Teich foi tema de quatro entre os cinco link mais compartilhados no aplicativo. O quarto link mais compartilhado também se relaciona com o tema de saúde, sendo um artigo científico, ainda sem revisão por pares, que não encontra evidências entre a adoção de lockdown e a diminuição de casos de COVID-19.[2]

Após a saída de Sergio Moro do governo, o STF decidiu liberar o vídeo da reunião ministerial no dia 22 de maio de 2020, onde o ex-ministro alegou que haveria provas de que o presidente tentou interferir politicamente na Polícia Federal. O conteúdo da reunião gerou quase 5 milhões de postagens em repúdio ao governo no Twitter em apenas 24 horas. Foi o maior volume de debate político diário desde a demissão de Moro. Ocorrida em 24 de abril, somando 58,4% do total de postagens. A base de oposição foi reforçada com críticas vindas de ex-aliados e ex-apoiadores do governo, além do posicionamento público de influenciadores celebridades tais como, Anitta, Felipe Neto e mais recentemente  Whindersson Nunes[1], com peso equivalente ao presidente nas redes sociais, segundo pesquisa realizada pela Quaest.

Dimensão de mobilização política

Neste terceiro mês da pandemia verificamos uma radicalização nas redes bolsonaristas, com o apoio do presidente, no uso dos símbolos típicos da extrema direita, tais como o copo de leite (que simboliza uma suposta supremacia branca).

O apelo aos símbolos extremistas não é novidade para o bolsonarismo. Ainda em janeiro, antes portanto da pandemia, o então Secretário Nacional de Cultura, Roberto Alvim, publicou um vídeo com evidente estética nazista.[2] Foi demitido diante da repercussão negativa. Outro exemplo ocorreu já no contexto da pandemia, quando em 10 de maio, a Secretaria de Comunicação da presidência “o trabalho, a união e a verdade libertarão o Brasil”. A expressão “o trabalho liberta” estava inscrita na entrada do campo de concentração de Auschwitz, na Polônia [3].

Nos estudiosos sobre a ação da extrema-direita nas redes sociais, esse tipo de postura é chamada de “Dog-whistling”[4]: trata-se do som de apito que apenas os cães conseguem ouvir; no jargão da política norte-americana, o termo alude ao som que só um determinado grupo militante é capaz de ouvir. É essa postura de mobilização permanente da sua base social que o bolsonarismo apela, imitando assim Donald Trump.

No dia 28 de maio, Bolsonaro faz o “desafio do leite” em sua live no facebook.[5] No dia 29 de maio, o jornalista investigado no inquérito de fake news, Allan dos Santos, postou em seu canal no YouTube; terça livre, um vídeo tomando um copo de leite antes de dizer “entendedores entenderão”.[6] No dia 30 de maio, a ministra dos direitos humanos, Damares Alves postou em seu perfil no Twitter “vai um leitinho aí?”  [7]No dia 31 de maio, Sara Winter, ativista bolsonarista e também investigada no inquérito de fake news, publicou vídeo no Twitter com estética do grupo supremacista estadunidense KKK, avançando com tochas contra o STF[8]. No mesmo dia 31 de maio, Bolsonaro posta vídeo em seu perfil no facebook com frase popular por Benito Mussolini “É melhor um dia como leão do que 100 como ovelha”, frase que já existia antes do fascismo, mas que foi propagandeada por Mussolini em sua escalada autoritária.[9] Por fim, no 8 de junho, Bolsonaro e Heleno postam em foto no facebook lema do Integralismo: “Deus, pátria, família”, equivalente ao fascismo brasileiro[10]

Todos esses exemplos podem ser enquadrados na postura Dog Whistle e mostram que ao menos uma parte mais fiel da base bolsonarista está cada vez mais radicalizada e que isso aumenta conforme o presidente fica mais isolado.

É importante ainda conjugar essa análise sobre uma base minoritária e extremista com dinâmicas de violência estatal mais amplas, como é o caso das práticas estatais racistas, especialmente com o assassinato de pessoas negras pela polícia. Isso é válido tanto para o Brasil quanto para os EUA.  Trump, conhecido por seus discursos que podem ser dúbios em relação a movimentos supremacistas[11], representa um aspecto sensível na sociedade americana que nunca cicatrizou. A morte de um homem negro, George floyd, diante das câmeras, por um policial branco, foi o estopim para o desencadeamento de uma onda de protestos país a fora.

No Brasil, não foi diferente. As sucessivas mortes por parte da PM a jovens negros e negras nos últimos meses, ganharam notoriedade como uma das faces mais importantes nas manifestações que tomaram corpo no país.No dia 31 de junho de 2020, parte da população brasileira, mesmo contrariando as recomendações da OMS, por conta do covid-19, foi às ruas.

Em resposta, tanto presidente americano[12], quando brasileiro se posicionaram categorizando o movimento antifa como terrorista.[13] A hashtag #blacklivesmatter e #vidasnegrasimportam inundaram as redes sociais. Cerca de 6,5 milhões de hashtags foram geradas no debate 81,5% dos perfis engajados eram críticos à direita, segundo a análise feita pela FGV.[14] Convocações de torcidas organizadas, historicamente rivais como Gaviões da Fiel e a torcida do Palmeiras foram feitas também pelo Twitter. Houve confusão, quando manifestantes com a bandeira da pravy sektor, de extrema direita[15],  entraram em conflito com manifestantes antifascistas.

As manifestações do dia 31 que ocorreram em todo o país, no âmbito digital, provocaram o ressurgimento de um grupo hacktivista, conhecido como Anonymous, que vazou informações pessoais do presidente bolsonaro e aliados, como Douglas Garcia, Damares Alves e Arthur Weintraub. Além de vazar uma empresa registrada no nome de Bolsonaro chamada “Bolsonaro Digital” do qual seria responsável por uma arquitetura digital com mais de 500 mil disparos de mensagens por mês.

Outra consequência foi o 385% de crescimento de grupos neonazi no brasil, se comparado com o mesmo mês no ano anterior ou 628% se comparada ao mesmo período de 2018. Segundo levantamento realizado pela Safernet, organização não-governamental que promove os direitos humanos na rede e monitora sites radicais, em maio de 2020 foram criadas 204 novas páginas de conteúdo neonazi, ante 42 no mesmo mês do ano passado e 28 em maio de 2018. Segundo a organização, há uma relação de causalidade entre o que diz e faz o presidente e esta radicalização nas redes. Em nota, a entidade afirmou ser “inegável que as reiteradas manifestações de ódio contra minorias por membros do Governo Bolsonaro têm empoderado as células neonazistas no Brasil”.[16]

Conclusão

Demonstrado o processo de desmoralização aplicado ao ex-ministro da saúde, Nelson Teich, observamos a receptividade negativa na rede perante o governo. Nos baseamos nos pontos que obtiveram maiores picos em crescimento da base de oposição para efetuar nossas análises.

A partir das postagens no mês de junho a maio com fundo radical, explicitamos como Bolsonaro utiliza-se de uma técnica sofisticada, mas danosa para a democracia a fim de alimentar sua base eleitoral mais radical.

Contudo, as consequências de seus atos, motivados por uma onda de protestos, ocasionou em uma grande manifestação que mobilizou grande parte da oposição a irem às ruas. As reações nas ruas tiveram impacto nas redes e vice versa. Por mais que Bolsonaro esteja encaminhando mensagens que não são retidas pela maioria da população, grande parte dela ainda se vê presa a problemas reais como emprego e saúde.

A pura retórica bolsonarista, seja ela via Twitter ou Facebook e alinhadas a técnicas sofisticadas de manipulação, são insustentáveis perante as condições reais de vida e na política. Os mortos vão se somando e aos poucos a população vai retomando consciência de que a vida e mais importante que a retórica, seja ela forjada, distorcida ou agressiva. O Brasil aos poucos vai alcançando a marca de segundo país com mais óbitos no mundo, somando até o momento 40 mil pessoas.

O medo de um impeachment iminente faz com que o presidente crie alianças com o centrão, dando cargos, e assim distanciando-se das promessas eleitorais de redução de ministério e não alinhamento práticas da “velha política”. O mesmo medo o impele para um flerte com a ala militar, que aparentemente se recusam a entrar em outra aventura armada na medida que endurece o discurso contra O STF e Congresso que se veem pressionados e até mesmo paralisados pelas ameaças que mês passado foram presentes. Assassinato de reputações e mais recentemente, ameaças reais estão sendo postas na nossa democracia e as redes sociais são um terreno fundamental desta disputa.


[1]https://blogs.oglobo.globo.com/sonar-a-escuta-das-redes/post/como-whindersson-nunes-amplia-o-alcance-da-oposicao-bolsonaro-nas-redes-sociais.html?utm_source=aplicativoOGlobo&utm_medium=aplicativo&utm_campaign=compartilhar

[2]https://oglobo.globo.com/cultura/roberto-alvim-copia-discurso-do-nazista-joseph-goebbels-causa-onda-de-indignacao-24195523

[3] https://www.bbc.com/portuguese/brasil-52626218

[4] Safire, William (2008). Safire’s Political Dictionary Revised ed. New York: Oxford University Press. p. 190.

[5]https://catracalivre.com.br/cidadania/bolsonaro-toma-leite-em-live-enquanto-milhares-morrem-de-coronavirus/

[6]https://twitter.com/eliseuneto/status/1266496305699979264?ref_src=twsrc%5Etfw%7Ctwcamp%5Etweetembed%7Ctwterm%5E1266516855293988864&ref_url=https%3A%2F%2Frevistaforum.com.br%2Fbrasil%2Fvideo-entendedores-entenderao-diz-allan-dos-santos-sobre-o-leite-do-nazismo%2F

[7] https://twitter.com/damaresalves/status/1266849372517662727

[8]https://revistaforum.com.br/brasil/kkk-a-brasileira-milicia-de-sara-winter-protesta-com-tochas-em-frente-ao-stf

[9]https://www.terra.com.br/noticias/brasil/bolsonaro-publica-video-em-italiano-com-frase-de-mussolini,4ff31cd9b246f5f303e0b997e319c704vztno23s.html

[10]https://www.facebook.com/jairmessias.bolsonaro/photos/a.250567771758883/1966455223503454/?type=3

[11]https://valor.globo.com/mundo/noticia/2017/08/15/trump-diz-que-os-2-lados-tem-culpa-por-violencia-em-protesto-racista.ghtml

[12]https://twitter.com/realDonaldTrump/status/1267129644228247552?ref_src=twsrc%5Etfw%7Ctwcamp%5Etweetembed%7Ctwterm%5E1267129644228247552&ref_url=https%3A%2F%2Fg1.globo.com%2Fmundo%2Fnoticia%2F2020%2F05%2F31%2Ftrump-parabeniza-guarda-nacional-e-critica-midia-e-protestos-nos-eua.ghtml

[13]https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/06/03/bolsonaro-diz-que-antifas-sao-marginais-e-terroristas.ghtml

[14]https://www.cnnbrasil.com.br/politica/2020/06/02/fgv-criticos-a-direita-foram-80-dos-perfis-no-debate-do-twitter-no-domingo

[15] https://www.gazetadopovo.com.br/republica/ato-pro-bolsonaro-bandeira-extrema-direita-ucrania/

[16]https://brasil.elpais.com/brasil/2020-06-10/sites-neonazistas-crescem-no-brasil-espelhados-no-discurso-de-bolsonaro-aponta-ong.html?utm_source=Facebook&ssm=FB_BR_CM&fbclid=IwAR1D34U3dUqgUfpZCSokOlZ5wcoOOjQhR9s2DNEQRkt4GPiLmzQDnbpPAus#Echobox=1591761293


[1] https://twitter.com/jairbolsonaro/status/1259974126317559815

[2]https://www.jornalhoraextra.com.br/noticias/20714-saida-de-teich-reacende-debate-nas-redes-sobre-crise-politica-em-meio-ao-agravamento-da-crise-de-covid-19/

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