Bolsonaro venceu a batalha contra a pandemia. Vencerá também a luta contra a democracia?

Por Josué Medeiros

Neste terceiro mês de vigência da pandemia da Covi-19 no mundo, não deve restar dúvidas que Bolsonaro ganhou a briga contra o novo coronavírus. Sua vitória não vem de um recuo substantivo no número de casos e tampouco pela redução significativa dos mortos. Por esses critérios, ao contrário, seu governo (e a sociedade como um todo, por consequência) sofre uma derrota gigantesca: somos o epicentro da doença no mundo. Caminhamos para um total de 45 mil mortos e dos 900 mil casos.

Contudo, a despeito dos números assustadores, a pesquisa feita pelos estudantes de graduação em em ciências sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e de mestrado que fazem parte do NUDEB mostra que a pandemia praticamente desapareceu dos conflitos que pautaram a política brasileira de 12 de maio a 11 de junho. Depois de triunfar no segundo mês ao naturalizar as mortes, Bolsonaro amplia sua vitória ao simplesmente fazer com que a Covid-19 deixe de ser um assunto relevante para as nossas instituições.

Um breve passeio pelos textos que compõem esse boletim comprova essa conquista do presidente:

  • Nas redes sociais, ele pautou a agenda com o uso dos símbolos da extrema-direita;
  • Os militares do governo saíram em defesa do presidente, alegando que os demais poderes não podem usurpar as prerrogativas do executivo, que os manifestantes de esquerda são baderneiros e que a oposição não pode esticar a corda. A única menção a pandemia foi na anedótica fala do general Panzuello, Ministro da Saúde, sobre o inverno no norte brasileiro;
  • No Congresso Nacional, os presidentes de ambas as casas demonstraram disposição de dialogar com o executivo em nome das ditas reformas estruturais (sem mencionar que são neoliberais, por óbvio)
  • No STF, os ministros combates o presidente no tema da Polícia Federal e das Fakenews e não há mais ações relativas à pandemia
  • Os governadores de Estado, um a um, flexibilizam as medidas de isolamento social, aderindo em maior ou menor grau à proposta bolsonarista de “isolamento vertical”, agradando assim o empresariado industrial e do comércio
  • Os partidos de oposição à esquerda batem cabeça sobre como enfrentar o presidente enquanto seus governadores também flexibilizam a quarentena
  • A organização das eleições avança, com o TSE permitindo convenções virtuais e cogitando, no máximo, um adiamento de um mês na data do pleito, independente do quão forte ou fraca a doença estiver no Brasil
  • A mídia empresarial segue sua posição pendular de criticar o governo na política e defender na economia, sem que o número de mortos abale esse apoio
  • O debate econômico entre os intelectuais se concentra no pós-pandemia 

 Do ponto de vista institucional, a única exceção relevante a esse quadro de desparecimento da pandemia do centro dos conflitos políticos foi a reação unificada do Congresso, STF, governadores e da mídia à tentativa, por parte do Bolsonaro, de esconder os casos e óbitos da Covid-19.

Assim, sem a pandemia para incomodar, Bolsonaro pode seguir no seu processo de reorganização política, depois do baque sofrido em março e abril, o que lhe custou alguns pontos de popularidade.

                                   Reorganização bolsonarista junto às instituições

Já no segundo mês ele reorganizou um discurso para sua base com a saída de Mandetta e consolidou esse movimento no terceiro mês ao entregar o ministério para os militares. A cloroquina é o carro chefe dessa narrativa, que tem na radicalização da postura negacionista seu ponto forte: a recente convocação para que os militantes filmem as UTIs vazias, provando, finalmente, que a doença não é tão grave como dizem.

Outro movimento iniciado no mês 2 da pandemia (abril/maio) e que seguiu pelo mês 3 (maio/junho) foi a retomada de iniciativa junto ao parlamento, tanto pela agenda econômica quanto pela aproximação com o centrão – grupo de partidos tidos como “sem-ideologia”. A recriação do Ministério da Comunicação, que será dirigido por um deputado que, além de ser genro do empresário midiático Silvio Santos, é de um dos principais partidos desse bloco, foi a jogada mais recente desse movimento.

A relação com os governadores é uma terceira dimensão institucional na qual Bolsonaro completou, neste terceiro mês, o movimento iniciado anteriormente de recuperar terreno. Não somente com a flexibilização geral das medidas de isolamento, mas com o avanço da Polícia Federal contra governadores oposicionistas, com destaque para Helder Barbalho no Pará e Wilson Witzel no Rio de Janeiro. Este, inclusive, está em vias de ser defenestrado do Palácio Guanabara por um processo de impeachment, o que será uma grande vitória do presidente (embora não  só dele). Os próximos capítulos, neste caso, se darão na formação das chapas para disputar as eleições municipais.

Ainda neste plano, o único flanco que segue aberto contra Bolsonaro é o do STF, sobretudo pelo inquérito das Fakenews, mas também pelas investigações sobre a acusação de interferência na PF. Aqui, o presidente parece esperar até novembro, quando poderá indicar seu primeiro quadro para o Supremo. Até lá, manterá o apoio aos movimentos mais radicais de sua base – atestado, por exemplo, na presença do ministro Weintraub no ato contra o judiciário em 13 de junho de 2020 – enquanto oferece gestos de paz, um deles podendo ser a própria demissão de Weintraub, hipótese que ganhou força no noticiário do dia 15 de junho.

Acreditamos que, caso essa saída ocorre, Bolsonaro encontrará um outro lugar o seu “bolsonarista típico”: conforme escrevemos em fevereiro de 2020, Weintraub é peça chave da engrenagem de poder do presidente, não pelo que faz nas instituições, mas pelo seu papel de intelectual orgânico junto ao tecido social bolsonarista[1]

                                   A disputa na sociedade

Se no plano institucional a situação de Bolsonaro hoje é mais favorável, na dimensão social os ventos começaram a soprar em outra direção. O terceiro mês da pandemia foi marcado por uma novidade substantiva: a retomada das ruas pelos movimentos sociais e pela esquerda, com protagonismo da pauta antirracista e da pauta antifascista.

A onda de mobilizações dos movimentos negros dos EUA em protesto contra a brutal morte do segurança George Floyd por um policial se conectou com a recorrência do mesmo fenômeno no Brasil. O protagonismo dos movimentos de favelas é decisivo porque se trata de uma população que não teve o direito de fazer a quarentena e que, por esse motivo, viu os números trágicos da pandemia explodirem nas comunidades.

No mesmo sentido, as mobilizações antifascistas convocadas pelas torcidas organizadas – inicialmente em São Paulo e que depois se nacionalizaram – tiveram a virtude de dar concretude prática ao sentimento difuso de que algo precisava ser feito nas ruas contra o bolsonarismo. O ponto de virada foi a ação da torcida corintiana impedido uma mobilização bolsonarista na Avenida Paulista.[2] Com essa atitude, a resistência da oposição de esquerda conseguiu sair do imobilismo e da dinâmica totalmente infértil de notas de repúdio.

As ruas novamente em movimento serviram inclusive para dar uma nova energia aos manifestos e campanhas mais amplas, como é o caso do Somos 70 e Estamos Juntos. São iniciativas ainda incipientes, mas que podem germinar em campanhas mais amplas.

A disputa nesta dimensão social está em compasso de espera por conta do tempo represado das consequências econômicas na vida das pessoas. Bolsonaro colhe, por enquanto, os frutos da Renda Emergencial, que significou um alívio fundamental na vida de dezenas de milhões de pessoas. Seu governo não foi o responsável pelo benefício e agora se divide em prorroga-lo por mais três meses ou não, enquanto o Guedes prepara uma remodelação do Bolsa Família para tentar capturar os ganhos políticos desse tipo de ação social.

Nesse compasso de espera, as esquerdas avançaram na defesa da pauta da Renda Básica, mas é preciso ir além: é fundamental colocar essa pauta, ao lado da questão racial, no centro programático e organizativo dos movimentos e partidos. A defesa do seu caráter universal enquanto direito pode ser, aliado ao tema das Vidas Negras Importam, a substância que falta às frentes democráticas em gestação.


[1] https://www.adufrj.org.br/index.php/pt-br/noticias/arquivo/21-destaques/2821-weintraub-o-bolsonarista-tipico-no-poder

[2] https://catracalivre.com.br/cidadania/corintianos-impedem-manifestacao-de-bolsonaristas-na-paulista/

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