Contra a pandemia, contra o Bolsonaro e contra o Racismo: os movimentos sociais retornam as ruas

Por Cello Latini

O presente texto analisa ação dos movimentos sociais no terceiro mês de vigência da pandemia da Covid-19 no Brasil, abarcando o período de 12 de maio a 11 de junho. Nos dois primeiros meses, nossa análise mostrou que os movimentos sociais brasileiros reagiram à postura do presidente Bolsonaro de minimizar a doença e priorizar o funcionamento da economia com redes de solidariedade nas periferias e a ampliação do movimento político de oposição ao governo, especialmente com a bandeira do Fora Bolsonaro, embora nesse caso algumas divergências tenham aparecido.

Neste terceiro texto, nossa hipótese é que a continuidade da postura genocida por parte de Bolsonaro, aliada ao inicio de retorno das atividades nos Estados, levou alguns movimentos sociais a retomarem as mobilizações, de rua. Foi o caso das torcidas organizadas antifascistas e do movimento negro. Com isso, entendemos que a oposição ao governo ganhou uma nova dimensão ao recuperar o protagonismo das ruas, indo, portanto, além da dinâmica verificada nos dois primeiros meses de redes de solidariedade e ações virtuais pelo Fora Bolsonaro.

A pesquisa usou como fontes notícias de jornais, como Brasil de Fato, Diário de Pernambuco, Sul21, O Globo, Jornal Fato, Carta Campinas, BNC Amazonas, NE Notícias, Rede Brasil Atual, Nexo Jornal, Veja Rio, Diário do Nordeste, do jornal O Povo, El País, Brasil 247, Folha de Pernambuco, Tribuna Paraná Online, da página A Tarde, do GaúchaZH e do Jornal Estado de Minas.

Ações de solidariedade e oposições ao governo

Durante o mês de maio, as ações de solidariedade diante da pandemia do coronavírus se mantiveram. Citamos, por exemplo, a campanha Mãos Solidárias que realiza a distribuição de cestas básicas, assim como a formação de Agentes Populares de Saúde, em Recife.[1] Em Pernambuco, pescadores tomaram iniciativas para gerar renda e assistir comunidades pesqueiras.[2] Ações anteriores ao mês de maio de distribuição de cestas básicas e kits de higiene permaneceram atuando de modo independente ou em parceria com prefeituras.

Reações de movimentos sociais contra a postura do governo de “normalização” da rotina na pandemia também ganharam mais força: no dia 13 de maio, movimentos sociais, sindicatos e outras organizações elaboraram um documento contendo propostas emergenciais para lidar com a pandemia. O documento, já disponível na internet, se chama “Plataforma Emergencial do Campo, das Florestas e das Águas, em Defesa da Vida e para o enfrentamento da Fome diante da pandemia do coronavírus”, e recebeu apoio do PT e de outras 25 organizações.[3] No Acre, movimentos se manifestaram contra a reabertura do comércio e contra Bolsonaro, em reação a uma carreata de empresários demandando a reabertura do comércio na capital do estado. [4]

No dia 21 de maio, mais de 400 entidades, incluindo PT, PCdoB, PSol e PSTU, assinaram um pedido de impeachment contra Bolsonaro, devido a alegados crimes de responsabilidade, tanto em relação a sua postura perante o coronavírus como em relação ao exercício indevido de seus poderes constitucionais.[5]

No dia 02 de junho, no Espírito Santo, representantes do Movimento Negro, da Unidade Negra Capixaba De Combate À Covid-19, reivindicaram a construção de um hospital e o decreto de “Lockdown”. O grupo se determinou a entregar as 105 reivindicações, resultantes de reuniões virtuais com representantes de mais de 60 organizações, no dia 4 de maio.[6]

Já no Pará, o projeto “Perpetuar – Identidades, Ancestralidades e Territorialidades Quilombolas” distribuiu kits de higiene para 120 famílias quilombolas do Moju, além de oferecer atendimento psicológico gratuito por videochamada ou ligação.[7] Em Campinas, as redes de solidariedade permanecem na ativa, como ocorre pela União Nacional LGBT de Campinas, que criou um Banco de Alimentos para apoiar pessoas LGBT, priorizando travestis e transexuais. Mais de 150 pessoas já foram atendidas, mais de 1000 cestas de alimentos e mais de 1400 máscaras foram entregues.[8]

As reações não se limitaram a campanhas de solidariedade ou a protestos virtuais: no dia 07 de junho, uma carta foi emitida aos poderes do Amazonas por movimentos sociais regionais, em relação às ações contra o covid. Critica-se o pleno funcionamento das fábricas do polo industrial da Zona Franca de Manaus.[9] Em Sergipe, mais de vinte sindicatos e organizações (como a CUT, a CTB, a SINERGIA, SINDASSE, SINDTIC, entre outros) assinaram uma nota em apoio ao isolamento social e em defesa da saúde.[10] Os movimentos sociais se organizaram para realizar as tarefas que os governantes não estão enfrentando.

Outro tema de oposição ao governo em maio que repercutiu brevemente nas redes sociais foi a luta antimanicomial. O dia 18 de maio é conhecido como o Dia Nacional da Luta Antimanicomial. O lema “Por uma sociedade sem manicômios” repercutiu nas redes, opondo-se à Política Nacional de Saúde Mental do governo Bolsonaro, que defende a prática de internação.[11] Outro alvo de oposição nos meios virtuais foi a Medida Provisória (MP) 910, conhecida como “MP da Grilagem”. De acordo com os movimentos virtuais, essa Medida defendida pelo governo Bolsonaro incentivaria o desmatamento, a ocupação ilegal e conflitos com populações locais. A hashtag #MP910NÃO está sendo usada para convocar a população contra a proposta governamental.[12]

Além disso, lançado ao fim de maio por diversas organizações, o manifesto “Estamos Juntos” pede que “os representantes e lideranças políticas exerçam com afinco e dignidade seu papel diante da devastadora crise sanitária, política e econômica que atravessa o país”.[13] O manifesto não recebeu apoio de Lula, que afirmou haver “pouca coisa de interesse da classe trabalhadora”, mas foi assinado por mais de 200 mil pessoas, como Fernando Henrique Cardoso (PSDB), Fernando Haddad (PT) e Marcelo Freixo (PSOL) e a campanha “Somos 70%” recebeu apoio indireto de Ciro Gomes.[14]

Contudo, o que mais recebeu atenção foram as ações de solidariedade em favelas – como as promovidas pelo AfroReggae e pela Frente CDD, que já chegaram a ser interrompidas por conta de invasões policiais – e protestos antirracistas e antifascistas. A Coalizão Negra por Direitos – resultante da organização de movimentos negros pelo Brasil – recolheu mais de 800 assinaturas de outras organizações e mais de 2.000 assinaturas individuais em repúdio ao assassinato do menino João Pedro, vítima da violência policial.[15]

Mobilizações de Rua do Movimento Negro

No início de junho, em diversos países ocorreram manifestações antirracistas organizadas por movimentos negros a partir do assassinato brutal de George Floyd, nos Estados Unidos, por um policial. No Brasil, o assassinato de João Pedro já havia ocorrido algum tempo antes e foi motivo de revolta, mas os protestos organizados não foram tão massivos e se concentraram mais nos meios virtuais. Os protestos nas ruas organizados no Brasil somente se fortaleceram após as manifestações nos Estados Unidos, em revolta ao assassinato de Floyd.

Com isso, forças de esquerda em todo o mundo coordenaram diversas manifestações antirracistas nas ruas e nas redes sociais. No Brasil, esses movimentos abarcaram os assassinatos de João Pedro, pela polícia, e de Miguel, de cinco anos, pela chefe de sua mãe, em Pernambuco. Apesar das políticas de isolamento social, as manifestações ocorreram e algumas foram reprimidas pela polícia.[16] As movimentações antirracistas se somaram à oposição contra o governo Bolsonaro, garantindo a adesão de outros grupos.[17]

Torcidas organizadas antifascistas

Essas manifestações receberam o apoio não somente de movimentos sociais declaradamente antirracistas e/ou partidários, como também de torcidas organizadas esportivas, que possuem um histórico de militância datado desde os anos 1980, como nos atos das Diretas Já e da Democracia Corinthiana.[18]

Assim, no dia 31 de maio, em São Paulo, ocorreu a primeira manifestação de torcidas organizadas contra o governo Bolsonaro. A manifestação, que contou com cerca de 500 torcedores de diversos clubes, foi convocada por Danilo Passaro, membro da Gaviões da Fiel (Corinthians), que declarou que “Quando vimos as manifestações de apologia à ditadura, exaltação à tortura, agressões a jornalistas e profissionais da saúde, amadurecemos a ideia de assumir o risco de travar esse embate”. Como a Gaviões da Fiel não declarou apoio oficial ao ato, a manifestação foi organizada de maneira autônoma pelos torcedores do grupo. Houve confronto entre defensores de Bolsonaro, que chegaram ao fim do ato, e a polícia.[19]

Após esse primeiro ato, outros coletivos organizados de torcidas de futebol também se somaram aos protestos em defesa da democracia e contra o racismo, em ao menos 15 cidades. A Associação Nacional das Torcidas Organizadas apoiou os protestos e assumiu uma posição declaradamente antifascista. As torcidas enfrentaram confrontos com bolsonaristas, bem como repressão policial, a exemplo das manifestações de Curitiba[20], e receberam apoio de partidos de esquerda, como PT e PSOL.

O que vimos então, a partir de junho, foi uma convergência dos protestos antirracistas com os protestos antifascistas e em defesa da democracia. O dia 02 de junho foi o primeiro grande momento deste encontro. Diante das polêmicas que atravessaram a própria esquerda[21] sobre os riscos de fazer esses atos – seja pela curva ainda ascendente da Covid-19 no país, seja pelo perigo de Bolsonaro usar os atos como pretexto para um golpe – os organizadores intensificaram as orientações sanitárias e de segurança.

Em 02 de junho, Manaus recebeu uma mobilização antifascista e antirracista, convocada pela Frente Antifa Manauara e pelo Amazonas Pela Democracia, que ocupou a maior avenida do Centro da cidade, com faixas “Amazonas pela democracia”, “vidas negras importam” e gritos de “Fora Bolsonaro”.[22] No protesto antirracista e contra Bolsonaro ocorrido no Paraná, a bandeira nacional foi hasteada e queimada por manifestantes. Isso gerou comoção entre apoiadores do governo, que prometeram organizar uma manifestação em defesa do símbolo nacional. Ao fim do primeiro protesto, houve vandalismo e depredação de patrimônio público, o que não foi defendido pelos organizadores do ato.[23]

Na semana seguinte, em 07 de junho, o quadro se repetiu em algumas cidades. Na Bahia, atos convocados para o dia 7, pelo grupo “Reação Antifascista Salvador”, também se opõem ao governo Bolsonaro e são motivados pelos protestos de São Paulo e Rio de Janeiro e pelas manifestações antirracistas ao redor do mundo.[24] Em Belo Horizonte, artistas e ativistas de movimentos sociais e do movimento negro e estudantil se articularam para organizar uma manifestação no dia 07 em defesa da democracia e contra o racismo. A articulação foi realizada virtualmente, através de um movimento chamado “Vidas Negras Importam”, conhecido como “Black Lives Matter” nos Estados Unidos. Os organizadores recomendaram que somente pessoas fora do grupo de risco participassem do ato e reforçaram a necessidade de se usar máscaras e manter distanciamento físico entre si.[25] Em São Paulo, também no dia 7 de junho, foi convocado um ato pela Frente Povo Sem Medo, MTST e UNE, em defesa da democracia e em repúdio ao racismo e ao fascismo.[26] Este foi o caso de maior presença dos movimentos sociais tradicionais, embora nas outras cidades eles também tenham participado dos atos, só que sem estar na linha de frente.

Nas redes sociais, uma campanha para que os usuários postassem uma foto com fundo preto, representando o movimento “Black Lives Matter”, também chegou com força ao Brasil.

Conclusão

Sendo assim, observamos o crescimento da oposição a Bolsonaro manifestando-se em contextos que abarcam a pandemia, a democracia e o racismo. O resultado disso foi a continuidade dos protestos virtuais, como já ocorrera nos meses de março, abril e maio, porém encorpados pela novidade dos protestos presenciais nas ruas das capitais e grandes cidades Brasil a fora.

É preciso registrar que, embora as manifestações de rua tenham ocorrido, não há um consenso entre as esquerdas sobre a continuidade e as consequências desse tipo de ação. As manifestações físicas antirracistas – convocadas por movimentos negros – receberam críticas – por parte de organizações majoritariamente brancas – por serem pontos de propagação do coronavírus. Já as manifestações antifascistas suscitam o medo de confronto violento com a polícia e com apoiadores bolsonaristas, o que poderia ser usado pelo governo para reprimir ainda mais. Além desta importante divergência, há a discordância sobre as dinâmicas de frente ampla, como exemplificado pela rejeição de Lula ao manifesto “Estamos Juntos”.

De todo modo, acreditamos que a oposição ao governo Bolsonaro se fortalecerá na medida em que se somar ao repúdio contra as práticas estatais racistas, tais como os assassinatos de João Pedro, Miguel e Floyd.


[1]https://www.brasildefato.com.br/2020/05/26/segundo-bairro-de-recife-mais-afetado-por-covid-19-recebe-acoes-de-solidariedade

[2]https://www.diariodepernambuco.com.br/noticia/vidaurbana/2020/06/comunidade-pesqueira-distribui-cestas-basicas-e-refeicoes-em-comunidad.html

[3]https://www.sul21.com.br/ultimas-noticias/politica/2020/05/movimentos-do-campo-das-florestas-e-das-aguas-lancam-plataforma-emergencial-em-defesa-da-vida/

[4]https://g1.globo.com/ac/acre/noticia/2020/06/02/empresarios-fazem-carreata-pela-reabertura-do-comercio-em-rio-branco-e-movimentos-sociais-sao-contra.ghtml

[5]https://valor.globo.com/politica/noticia/2020/05/21/oposio-e-movimentos-sociais-apresentam-36-pedido-de-impeachment-de-bolsonaro.ghtml

[6]https://www.jornalfato.com.br/geral/movimento-negro-exige-implantacao-urgente-do-lockdown-no-espirito-santo,359952.jhtml

[7]https://www.brasildefato.com.br/2020/06/02/quilombolas-do-para-recebem-material-de-higiene-e-informacao-para-combate-a-covid-19

[8] https://cartacampinas.com.br/2020/06/movimento-lgbt-de-campinas-entrega-cestas-de-alimentos-durante-pandemia/

[9]https://bncamazonas.com.br/ta_na_midia/movimentos-sociais-do-am-cobram-acoes-urgentes-pelo-isolamento-social/

[10] https://www.nenoticias.com.br/movimentos-sociais-assinam-pacto-pelo-isolamento-social/

[11]www.brasildefato.com.br/2020/05/18/por-uma-sociedade-sem-manicomios-a-resistencia-de-um-movimento-de-acolhimento

[12]https://www.redebrasilatual.com.br/ambiente/2020/05/movimentos-sociais-e-ambientalistas-querem-derrubada-da-mp-da-grilagem-camara-vota-hoje/

[13]https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/05/30/personalidades-da-esquerda-a-direita-lancam-manifesto-a-favor-da-democracia.ghtml

[14]https://www.nexojornal.com.br/expresso/2020/06/01/Manifestos-em-s%C3%A9rie-o-que-une-e-o-que-separa-a-oposi%C3%A7%C3%A3o

[15] https://vejario.abril.com.br/blog/william-reis/movimentos-sociais-unem-joao-pedro/

[16] https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/mundo/cruzada-contra-a-discriminacao-1.2950956

[17]https://www.opovo.com.br/noticias/mundo/2020/06/02/manifestacoes-contra-fascismo-e-racismo-ganham-forca-e-engajamento-nas-redes-sociais.html

[18] https://www.bbc.com/portuguese/geral-52899944

[19] https://istoe.com.br/membros-de-torcidas-organizadas-se-unem-contra-bolsonaro/

[20] https://brasil.elpais.com/esportes/2020-06-01/torcidas-antifascistas-assumem-linha-de-frente-da-mobilizacao-contra-bolsonaro-e-atraem-oposicao.html

[21] https://folhape.com.br/noticias/noticias/noticias/2020/06/03/NWS,142702,70,1358,NOTICIAS,2190-CONVOCACAO-PARA-ATOS-PRO-DEMOCRACIA-GANHA-FORCA-MAS-IDEIA-DIVIDE-GRUPOS.aspx

[22] https://www.brasil247.com/brasil/manifestacao-toma-ruas-de-manaus-nesta-terca-feira-por-fora-bolsonaro-e-contra-o-racismo

[23] https://www.tribunapr.com.br/noticias/curitiba-regiao/quanto-custou-a-bandeira-do-brasil-trocada-apos-ser-queimada-em-ato-de-vandalismo/

[24] http://atarde.uol.com.br/bahia/salvador/noticias/2129148-grupo-marca-manifestacao-prodemocracia-neste-domingo-em-salvador

[25]https://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2020/06/03/interna_gerais,1153331/nas-redes-movimentos-contra-racismo-mobilizam-novas-manifestacoes-bh.shtml

[26] https://gauchazh.clicrbs.com.br/politica/noticia/2020/06/frente-povo-sem-medo-convoca-para-ato-na-paulista-ckay5oivy005101pa9kgsha7o.html

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