EDITORIAL: A pandemia desaparece da política brasileira. E a democracia?

Por Josué Medeiros e Pedro Lima

Pelo terceiro mês de seguido de 2020 manifestamos nossa satisfação em apresentar o Boletim do Núcleo de Estudos Sobre a Democracia Brasileira (NUDEB), no qual damos continuidade à pesquisa sobre como a política brasileira reagiu a pandemia da Covid-19. Nesta terceira edição temos, mais uma vez, o resultado da pesquisa das e dos estudantes de graduação em ciências sociais do IFCS/UFRJ durante o mês três de vigência da pandemia, entre 12 de maio e 11 de junho. Novamente, nosso orgulho e agradecimento a cada uma/um é gigante, uma vez que não está sendo fácil para qualquer um de nós manter o foco nas atividades acadêmicas enquanto o número de mortos e casos do novo coronavírus bate recordes a cada dia.

No terceiro número, conseguimos dar conta de analisar os seguintes temas: o presidente Jair Bolsonaro (1); suas redes sociais (2); uma análise comparativa entre Argentina, Brasil e Chile (3); a ala militar do governo federal (4); o Congresso Nacional (5); o Supremo Tribunal Federal (6); os governadores de Estado (7); os partidos de oposição à esquerda (8); as eleições municipais de 2020 (9); a mídia empresarial (10); o debate intelectual entre economistas (11); os movimentos sociais (12); e o debate sobre democracia presente nas frentes amplas (13). 

Os textos convergem no esforço de responder às seguintes questões: qual foi o desenvolvimento dos conflitos que identificamos na política brasileira no terceiro mês da pandemia? Tiveram algum desfecho? Radicalizaram-se? Houve alguma mudança substancial? Pretendemos, com isso, seguir contribuindo tanto com a análise mais imediata da conjuntura quanto com as reflexões de fundo sobre a crise da democracia brasileira iniciada com o processo de questionamento das eleições de 2014 e que levou ao golpe parlamentar de 2016.

No primeiro boletim, nossa conclusão foi que a pandemia não produziu nenhum conflito novo na política brasileira, mas radicalizou a dinâmica de crise da democracia, colocando-a em um novo patamar: afirmamos, ao final do editorial de estreia, que “Bolsonaro não mudará, não recuará, não deixará de agir contra as instituições e de mobilizar sua base. Cabe às forças democráticas reagirem a altura”. Acertamos, infelizmente.

Já no segundo boletim, constatamos que ” na mesma proporção em que a tragédia do novo coronavírus se amplia em número de vidas perdidas, Bolsonaro radicaliza sua postura de assalto às instituições”. Tanto a tragédia humanitária quanto a democrática estavam normalizadas. E concluímos que o enfraquecimento do presidente, embora fosse nítido, não seria o suficiente para tirá-lo do poder.

Neste terceiro mês, o principal diagnóstico que emerge da nossa pesquisa é que a pandemia saiu da cena da política brasileira. Com raras exceções – por exemplo, a reação contra a iniciativa do governo em esconder os dados do alcance da Covid-19 no país – os conflitos políticos se deram em torno dos temas da democracia versus a crescente disposição autoritária de Bolsonaro, dos seus apoiadores e de parte das forças armadas. A diferença desse quadro para os nossos vizinhos na Argentina é evidente. Outra evidência disso é que os governadores, um a um, vão flexibilizando as medidas de isolamento simplesmente por não terem mais condições de sustentar essa posição.

Sem a pandemia na linha de frente, as atenções se voltam para a questão democrática. As novidades do terceiro mês estão presentes nesse boletim: o retorno dos movimentos sociais às ruas (especialmente com as pautas antirracista e antifascista), o surgimento dos manifestos de frente ampla e a questão das eleições de 2020. Conforme analisamos nos editorais anteriores, os atores políticos são forçados, cada vez mais, a agir com novas coordenadas neste quadro de pandemia e crise da democracia.

Se, por um lado, é inegável que Bolsonaro segue em sua marcha autoritária, por outro é inquestionável que as resistências a isso foram encorpadas nesse terceiro mês da pandemia. As ruas e os manifestos indicam um estágio mais promissor das oposições do que vimos nos dois primeiros meses. 

Sumário

Bolsonaro venceu a batalha conta a pandemia. Vencerá também a luta contra democracia? por Josué Medeiros

As redes sociais de Bolsonaro durante a pandemia por Daniel Sousa

A pandemia e a política na América do Sul: comparando Argentina, Brasil e Chile por Julia Paresque

Para crise, altas doses de cloroquina e farda verde-oliva por Victor Pimentel

Acordos e conflitos entre o Congresso Nacional e o Bolsonaro por Nívea Baltar

A radicalização do conflito entre STF e Bolsonaro por Pedro Silveira

Governadores contra Bolsonaro no combate a pandemia por Maíra Tura

A oposição e a pandemia: entre o agravamento da crise sanitária e a intensificação do ataque a democracia por Maria Luiza de Freitas

Eleições municipais em meio ao caos da pandemia por Luana Calzavara

A mídia brasileira em tempos de Covid-19: interesses e posicionamentos por Isabela Neves

A descoordenação do governo e o debate econômico sobre o financiamento dos gastos sociais por Pedro Guerra

Contra a pandemia, contra o Bolsonaro e contra o Racismo: os movimentos sociais retornam as ruas Por Cello Latini

O debate da frente ampla: qual democracia queremos? Por Sofia Gardel

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