Para a crise, altas doses de cloroquina e farde verde-oliva

Por Victor Pimentel

O presente texto tem como principal objetivo dar prosseguimento às reflexões a respeito da relação entre o governo Bolsonaro e importantes parcelas do setor militar durante a crise do coronavírus no país através da observação crítica de diversas matérias e reportagens de diferentes jornais e portais de notícia. Este é o terceiro texto[1] no qual nos esforçamos para realizar uma breve investigação sobre as movimentações da ala militar nos principais acontecimentos políticos do Brasil nos últimos meses. Continuamos reforçando a hipótese trabalhada desde o primeiro relatório: indo na direção contrária à maneira como boa parte da mídia caracteriza a atuação dos fardados no governo, argumentamos que o setor militar não corresponde ao “grupo técnico” da atual gestão, uma vez que as ações práticas e manifestações públicas dos mesmos – expressas por atores destacados deste conjunto – demonstram que suas preocupações são baseadas fundamentalmente em valores, crenças e princípios ideológicos que informam a identidade deste grupo.

Assim, o presente relatório se debruça sobre alguns dos acontecimentos políticos ocorridos entre o início de maio e as primeiras semanas de junho. O enfoque é direcionado para quatro episódios de grande relevância do último mês: as movimentações do Ministério da Saúde (saída de Nelson Teich, atuação do ministro interino Eduardo Pazuello, mais indicações de militares para a pasta, protocolo de indicação do uso da cloroquina, etc.); a polêmica nota de Augusto Heleno, general e ministro do Gabinete de Segurança Internacional, que foi apoiada, em seguida, pela manifestação de diversas militares da reserva; os artigos escritos por Hamilton Mourão, general e vice-presidente da República, nos quais o autor teceu comentários positivos a respeito das críticas de Bolsonaro (e dos demais fardados palacianos) à atuação do STF e criticou duramente as manifestações antifascistas realizadas nas últimas semanas; e, por último, as recentes declarações do general e chefe da Secretaria de Governo sobre as ameaças de golpe. Por meio da observação crítica de tais fatos, argumentamos que a avaliação da ala militar como “o grupo técnico e moderado” do governo Bolsonaro é cada vez mais insustentável, tendo em vista a intensificação do apoio dos mesmos aos arroubos autoritários e ameaças golpistas do presidente.

As movimentações no Ministério da Saúde

Depois da conturbada saída de Henrique Mandetta do Ministério da Saúde, o médico-empresário Nelson Teich assumiu a pasta[2] cuja relevância e audiência aumentaram vertiginosamente com o aprofundamento da pandemia do coronavírus. Esperava-se que a troca de ministros possibilitasse menos atritos e conflitos entre o presidente e as diretrizes adotadas no ministério. Contudo, com menos de um mês desde a sua entrada, Teich decidiu abandonar a gestão de Bolsonaro alegando divergências com o presidente no que diz respeito ao uso da cloroquina como substância para o tratamento da covid-19[3]. Em seu lugar, o ministério passou a ser conduzido interinamente pelo general Eduardo Pazuello.

Ao assumir a pasta da saúde, uma das primeiras ações do novo ministro interino foi aumentar a quantidade de militares na gestão governamental – Pazuello nomeou mais nove militares para cargos de terceiro e quarto escalões dentro do ministério, além de ter indicado o coronel Antonio Élcio Franco Filho como o “número dois” de seu mandato[4]. Considerando toda a “aura técnica” que é comumente atribuída à ala militar, é de se estranhar o fato de que sobre tais indicações não foi explicitada qualquer tipo de justificativa técnica ou pragmática. Tal questão se torna mais complicada se observarmos a repercussão de atitudes irresponsáveis por parte de dois dos militares indicados para o Ministério da Saúde.

Por meio de publicação nas redes sociais foi verificado que Giovani Camarão, coordenador de finanças do Fundo Nacional de Saúde, esteve em uma festa com pelo menos dezessete pessoas no início de abril, período no qual o país já se encontrava em isolamento social[5]. A promoção de eventos que envolvam aglomerações de pessoas caminha em direção contrária às recomendações da OMS (Organização Mundial da Saúde) a respeito das medidas de prevenção da disseminação do novo coronavírus. Além de Giovani, o militar Angelo Martins Denicoli, nomeado como diretor de monitoramento e avaliação do SUS (Sistema Único de Saúde), também chamou a atenção devido a algumas publicações em suas redes sociais. Nelas, Denicoli difundiu informações falsas a respeito do uso da hidroxicloroquina, manifestou críticas a “agentes políticos” que estariam supostamente capitaneando a administração da OMS, compartilhou ofensas a ministros do STF, governadores e deputados tidos como contrários a Bolsonaro e também publicou fotos participando de uma manifestação de caráter antidemocrático[6].

Desta maneira, compondo a gestão de uma das pastas mais importantes na atual crise, temos dois militares cujas ações públicas desrespeitam figuras políticas sem qualquer tipo de embasamento racional ou técnico, bem como ignoram as medidas de isolamento social, adotadas mundialmente devido a seu caráter comprovadamente eficaz na diminuição do número de mortos e contaminados pela covid-19. Para agravar a situação, a nomeação desses e dos outros sete militares que agora fazem parte da administração do Ministério da Saúde foi adotada a partir de critérios “pouco republicanos”, contrariando uma das principais promessas de Bolsonaro na campanha à presidência[7] e afastando a “roupagem técnica e pragmática” da atuação da ala militar.

Ainda sobre as recentes movimentações do Ministério da Saúde, destaca-se o ressurgimento das pressões de Bolsonaro sobre a utilização da cloroquina como tratamento eficiente contra a covid-19. Conforme explicitado acima, as divergências em torno da aplicação de tal medicamento são apontadas como a causa principal para a saída repentina de Teich da pasta. Poucos dias após Pazuello assumir interinamente, o ministério emitiu um protocolo que recomenda a aplicação de cloroquina e hidroxicloroquina em pacientes para o tratamento de covid-19, independentemente de seu estado de saúde[8]. No texto em questão, há uma indicação de que o paciente deve assinar uma espécie de “termo de consentimento” que afirma a inexistência de estudos conclusivos em torno da eficácia do medicamento no combate a covid-19, bem como de seus possíveis (e graves) efeitos colaterais[9].

A adoção de tal protocolo talvez constitua a prova mais evidente de como as ações dos militares na gestão governamental caminham, em geral, longe do campo da técnica e do pragmatismo. Diversas entidades renomadas do campo da saúde, como algumas sociedades médicas brasileiras, a OPAS (Organização Pan-Americana da Saúde) e a OMS – além de diversas pesquisas ao redor do globo – já afirmaram reiteradamente que não há provas consistentes que sinalizem qualquer tipo de eficácia em torno da utilização de cloroquina e hidroxicloroquina no combate às enfermidades causadas pelo novo coronavírus[10]. Na verdade, as provas existentes indicam exatamente o contrário – em muitos casos, a aplicação de tais medicamentos aumenta as possibilidades de desenvolvimento de graves efeitos colaterais.

Neste sentido, dentro de um ministério ocupado majoritariamente por militares (que representariam a “ala técnica”), o que justifica o apoio à utilização de um tratamento tão inconsistente no que diz respeito ao campo da eficácia? Até outros militares fora da pasta, como o general Braga Netto, defendem Bolsonaro em sua cruzada obsessiva em nome da cloroquina, afirmando que o presidente não está contrariando a ciência quando age dessa maneira[11]. Neste sentido, percebemos que a atuação dos fardados no atual governo se baseia prioritariamente na associação às posturas autoritárias e negacionistas capitaneadas pelo presidente e reforçadas pela “ala ideológica”. Assim, as diferenças entre essas duas alas se mostram cada vez mais indistintas.

Em relação às estratégias ligadas ao campo da saúde, há ainda um último destaque. Ainda que não esteja ligado diretamente ao Ministério da Saúde, chama atenção a mudança de posição da  Secretaria Especial de Comunicação Social (Secom). Esta pasta, subordinada ao general Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo), passou a divulgar o “placar da vida” – isto é, um quadro informativo que noticia o número de infectados, curados e em recuperação. Acompanhando a mesma postura, o site e a conta do Twitter do Ministério da Saúde deixaram de noticiar as mortes causadas pela covid-19. Segundo o pesquisador Christian Perone, é possível observar, na página do ministério dedicada às estatísticas da pandemia, que os números de recuperados começaram a ser destacados com uma fonte significativamente maior que aquela utilizada para exibir o número de óbitos[12]. Tais mudanças na informação sobre dados cruciais da evolução da pandemia no país passaram a ser adotadas após sucessivas admoestações do general Luiz Eduardo Ramos em relação à imprensa, alegando que esta vem realizando uma divulgação massiva apenas dos “dados negativos” relacionados ao coronavírus[13], o que colaboraria para tornar a situação geral mais caótica.

Desta forma, observamos novamente ações adotadas por fardados palacianos cujos critérios de justificação e princípios de motivação não se alicerçam de forma alguma em argumentos do campo da eficácia administrativa. Considerando a crônica subnotificação[14] de casos de covid-19 no país e o crescimento galopante dos números de infectados e mortos em decorrência da pandemia[15], diminuir a repercussão de qualquer tipo de dado que sinalize minimamente a evolução do coronavírus no Brasil constitui uma estratégia profundamente irresponsável. Para além da tentativa desesperada de blindar o governo federal, parece não haver qualquer tipo de benefício na desvalorização da explicitação de dados que atestam as graves circunstâncias com as quais lidamos atualmente.

A polêmica nota de Heleno e o apoio de militares da reserva

Desde a saída de Sérgio Moro do ministério da Justiça no final de abril, as tensões entre os ministros do STF e o Poder Executivo se acirraram gradativamente. Tratamos de alguns episódios bastante elucidativos dessa tensão crescente no último relatório – tais como, o impedimento da nomeação de Alexandre Ramagem para a direção-geral da PF, a suspensão da expulsão de diplomatas venezuelanos do país e o aval para que governadores estendam os períodos de isolamento social nos estados que estão sob seu comando. Todas essas decisões aplicadas pelo STF contrariaram fortemente algumas ações de Bolsonaro, suscitando ferrenhas críticas e ameaças do presidente[16] (“chegamos ao limite, agora não tem mais conversa”) e de aliados seus, como o filho Eduardo Bolsonaro, que afirmou categoricamente a iminente possibilidade de ruptura institucional[17].

Contudo, parece que a gota d’água para os governistas foi o desdobramento da investigação a respeito da propagação de fake news por parte de pessoas ligadas a Bolsonaro. Como de praxe em operações desse tipo, o STF solicitou à Procuradoria Geral da República a apreensão do celular do presidente[18]. Embora represente uma prática burocrática costumeira, tal despacho suscitou uma série de reações calorosas de setores associados ao governo. Dentre elas, aquela que mais nos interessa é a nota emitida pelo general e ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) Augusto Heleno. No documento, Heleno afirma que, caso a apreensão do celular de Bolsonaro se concretize, haverá “consequências imprevisíveis para a estabilidade nacional”[19]. Além disso, o general e ministro da Defesa Fernando Azevedo e Silva, tido como o “mais ponderado” dos militares[20], endossou a nota de seu colega fardado, afirmando que tal ação do STF “afronta a segurança institucional” e aumenta sua preocupação com a tensão entre os poderes[21].

Desde o relatório passado, tentamos explicitar a ausência de embasamento técnico nas críticas dos militares associados diretamente ao governo em relação às movimentações do STF. Neste episódio, podemos observar novamente que nenhum elemento do campo da eficácia ou do pragmatismo são ressaltados no momento de elaboração das argumentações contrárias dos fardados no que diz respeito às decisões tomadas pelo Supremo. Na verdade, a profusão recorrente de ameaças à estabilidade institucional produz resultados concretos que caminham na direção contrária à eficácia administrativa, uma vez que criam barreiras e entraves cada vez maiores à governabilidade no país. Assim, a rixa entre militares e ministros do STF parece figurar muito mais no campo do embate propriamente político – ou seja, da disputa pelo aumento ou diminuição da influência de poder de cada grupo – do que na esfera da discussão técnica.

Ainda sobre a nota de Heleno, é interessante observar também as diversas manifestações de apoio por parte de militares da reserva que emergiram após a publicação daquela. Em um período de mais ou menos 15 dias, pelo menos treze notas contendo assinaturas de diversos militares surgiram, carregando em comum a maciça presença de militares da reserva, a defesa do presidente frente aos “ataques” do STF e o apoio à ameaçadora nota de Augusto Heleno[22]. Em um dos textos mais enfáticos, vários fardados – amigos de Heleno da Academia das Agulhas Negras – declaram que falta “decência” e “patriotismo” da parte dos ministros do Supremo e afirmam que há a possibilidade de eclosão de uma “guerra civil” caso o conflito com o Judiciário não seja resolvido[23].

Diante de tais declarações, os princípios ideológicos e valores políticos profundamente conservadores e autoritários que parecem informar a identidade dos militares no país aparecem com uma clareza ímpar. Neste sentido, toda a roupagem técnica e pragmática é escorada para longe, expondo cruamente as vicissitudes da disputa pelo poder, bem como o corporativismo ilimitado dos fardados.

Os artigos de Mourão

Os artigos escritos pelo general e vice-presidente Hamilton Mourão, publicados entre os meses de maio e junho, também constituem materiais relevantes para a análise das movimentações do setor militar durante a crise do novo coronavírus no país. No primeiro, intitulado “Limites e responsabilidades”, é possível identificar uma série de críticas dirigidas aos mais diferentes atores políticos.

Neste artigo, publicado no dia 14 de maio[24], Mourão inicia tecendo críticas à imprensa. Ele afirma que esta divulga apenas as opiniões contrárias ao governo, defendendo que as posições mais “alinhadas” à gestão de Bolsonaro também tenham o mesmo tempo de circulação em suas programações. Em seguida, o general reforça as críticas dirigidas ao STF (“legisladores”) e aos governadores ao argumentar que “o Brasil não é uma confederação, mas uma federação”, endossando o discurso que caracteriza os últimos como atores políticos que estão se sobrepondo ao presidente por não acatarem as regras de flexibilização total das medidas de isolamento social. Por fim, o vice-presidente afirma que a divisão dos três poderes é “uma regra estilhaçada no Brasil de hoje”, abrindo espaço mais uma vez para a hipótese de que os juízes gozam de poderes excessivos no contexto político atual. Além disso, Mourão diz que as medidas de isolamento social foram adotadas de “maneira desordenada” e que a população brasileira está entregue a “estatísticas seletivas”.

Já no segundo artigo, intitulado “Opinião e princípios”, as palavras do vice-presidente são voltadas especialmente às manifestações antifascistas ocorridas recentemente. No texto, publicado dia 10 de junho[25], Mourão argumenta enfaticamente que as manifestações contrárias ao governo não podem ser identificadas como atos democráticos. Segundo o mesmo, tais movimentações foram capitaneadas por “delinquentes” e “baderneiros” que “devem ser conduzidos debaixo de vara às barras da Lei”. Apesar de explicitar os critérios para essa avaliação, o vice-presidente afirma categoricamente que estes manifestantes não devem ser caracterizados como a “contraparte” dos legítimos manifestantes que se levantaram há algumas semanas atrás para defender e apoiar o governo Bolsonaro. Por fim, o general assume uma grave postura negacionista em relação ao racismo no país (“a formação de nossa sociedade […] não nos legou o ódio racial”), bem como ridiculariza as comparações entre o período da ditadura militar e o momento em que vivemos hoje.

Junto com os ministros militares, Hamilton Mourão representa uma parcela de grande importância do setor militar no Brasil atual. Assim, suas afirmações – bem como a de seus demais colegas fardados – constituem um importante sinalizador da atuação geral da ala militar no governo Bolsonaro. Os artigos explicitados acima mostram claramente a elaboração de críticas cujos fundamentos se baseiam unicamente em princípios ideológicos e valores políticos constitutivos da identidade e da “visão de mundo” do grupo fardado. Não há sequer vestígios de postulados técnicos, pragmáticos ou administrativos que justifiquem as argumentações construídas por Hamilton Mourão. Se fôssemos nos ater a apenas um dos pontos elencados acima – a partir de quais critérios o vice-presidente diferencia as manifestações “legítimas” das movimentações políticas de “baderneiros e delinquentes”? É evidente a estreita e consistente associação ideológica entre os valores do bolsonarismo e os princípios que norteiam as práticas dos militares.

As declarações de Luiz Eduardo Ramos

No momento de conclusão desse texto, apareceram em alguns portais de notícia importantes declarações do general e chefe da Secretaria de Governo Luiz Eduardo Ramos. Por sua relevância, julgamos que as falas do ministro deveriam ser incluídas antes da publicação do boletim.

Em entrevista recente concedida à Veja[26], o general Luiz Eduardo Ramos teceu alguns comentários bastante ambíguos. Como presente na chamada da reportagem, o chefe da Secretaria de Governo afirmou que a possibilidade de golpe é algo “ultrajante”, totalmente fora de cogitação. Contudo, logo em seguida, Ramos – que participou disfarçadamente de uma recente manifestação antifascista[27] – proferiu uma espécie de “alerta” para a oposição, dizendo que “o outro lado de entender também o seguinte: não estica a corda”[28]. Ao ser questionado pelo comentário, o general afirmou que estava se referindo a comparação entre o presidente e Hitler, que ele julga extremamente inadequada, e ao julgamento sobre a cassação da chapa Bolsonaro-Mourão[29], caracterizada como “casuística” pelo mesmo.

Além de tal afirmação em claro tom de ameaça – e sem nenhum tipo de embasamento técnico – é interessante observar também outros comentários de Ramos na mesma entrevista. O chefe da Secretaria de Governo afirma que a simples movimentação do TSE de julgar a chapa que levou Bolsonaro à presidência tem um claro viés político, além de ser não ser “pertinente para o momento que estamos vivendo”. A ausência de explicações técnicas ou pragmáticas a respeito de tais julgamentos explicita novamente que o apoio de um importante representante da ala militar se baseia, fundamentalmente, na compatibilização dos princípios que atravessam os militares com os valores que informam o bolsonarismo.

Prosseguindo na entrevista, Ramos também tece comentários a respeito do atual conflito entre o governo e o STF. Ele afirma que o pedido de apreensão do celular do presidente – algo burocraticamente comum, como falado acima – foi algo descabido, que gerou um “calor desnecessário entre as instituições”. Sem qualquer tipo de justificação do campo da técnica, o general declara que é “preciso superar esse ambiente de histeria”.

Por último, Ramos afirma que um aspecto das manifestações antifascistas o incomoda e desperta sua atenção: o fato de um movimento que diz democrático usar roupa preta. Segundo o ministro, isso o remete a “autoritarismo e black blocs”, uma vez que, pela sua perspectiva, falar de democracia é algo automaticamente associado a “usar as cores da minha bandeira, verde e amarelo”. Se torna ainda mais curiosa a fala do general se lembrarmos que ele também participou de uma manifestação a favor de Bolsonaro que atacava instituições democráticas, como o STF e o Congresso. Qual é o critério racional (técnico e pragmático) utilizado por Ramos para diferenciar as manifestações “democráticas” daquelas que o remetem a práticas autoritárias? Seja qual for, este critério parece ser muito semelhante àquele utilizado por Mourão em seus artigos recentes.

Considerações finais

No presente relatório, prosseguimos na hipótese norteadora da análise a respeito da atuação política do setor militar durante a crise do novo coronavírus: diferentemente do que boa parte da mídia afirma e também daquilo que era prometido durante os primeiros meses do governo de Bolsonaro, a “ala militar” não constitui a “ala técnica” do governo, uma vez que suas ações também são pautadas por princípios e valores ideológicos já explicitados anteriormente – tais como, a supervalorização da hierarquia, a preocupação com a conservação de uma dada “ordem” social e econômica, a defesa de pautas conservadoras, a aproximação estratégica do aparato estatal, a crítica das interferências do Legislativo em suas práticas, etc.

A partir dos acontecimentos políticos do último mês, podemos argumentar que o próprio setor militar tem se despido gradativamente da “máscara técnica” comumente atribuída a ele – a recomendação oficial e protocolada de utilização da cloroquina no combate a covid-19 (a despeito das provas consistentes contrárias à aplicação de tal medicamento), a manifestação explícita de ameaças golpistas (como a nota de Heleno), a divulgação massiva de críticas públicas à atuação do STF (como as notas dos militares reservistas) e o endosso de posturas profundamente conservadoras (como os artigos de Mourão) tornam cada vez mais indistintas as barreiras que supostamente separavam os militares da “ala ideológica”.

Desta maneira, algumas questões ganham um grau de relevância diferenciado. Por exemplo: é possível afirmar que a “carnificina da pandemia”[30] será colocada na conta dos militares? Isto é, todo o saldo negativo da crise atual terá força para “manchar” a imagem dos militares frente a boa parte da opinião pública? Os militares se sustentariam como grupo político independentemente do apoio do bolsonarismo? O bolsonarismo seria capaz de sobreviver caso os militares resolvessem “abandonar o barco”? Parece-nos que a importância de tais perguntas é proporcional a dificuldade de respondê-las no momento atual – precisaremos esperar as cenas dos próximos capítulos.


[1] Para conferir com mais detalhes o início dessa discussão, basta acessar o primeiro e o segundo relatórios do NUDEB publicados, respectivamente, em abril e maio.

[2]https://www.saude.gov.br/noticias/agencia-saude/46747-nelson-teich-toma-posse-como-ministro-da-saude

[3]https://gauchazh.clicrbs.com.br/politica/noticia/2020/05/os-motivos-que-levaram-nelson-teich-a-deixar-o-ministerio-da-saude-cka8e657y0093015n7hzm9dt1.html

[4] https://br.reuters.com/article/domesticNews/idBRKBN22V26I-OBRDN

[5]https://www1.folha.uol.com.br/colunas/painel/2020/05/militar-nomeado-por-bolsonaro-para-o-ministerio-da-saude-postou-foto-em-festa-durante-isolamento-social.shtml

[6]https://noticias.uol.com.br/colunas/constanca-rezende/2020/05/20/novo-diretor-do-sus-divulgou-fake-news-para-uso-de-cloroquina-e-ofendeu-oms.htm

[7]https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2018/noticia/2018/10/20/jair-bolsonaro-defende-reforma-politica-e-fim-da-reeleicao.ghtml

[8]https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2020/05/20/secretaria-cita-clamor-da-populacao-e-necessidade-de-resposta-para-justificar-liberacao-da-cloroquina-em-casos-leves.ghtml

[9]https://www.brasildefato.com.br/2020/05/22/bolsonaro-e-militares-juntos-no-mesmo-delirio

[10]https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2020/05/20/protocolo-do-governo-sugere-cloroquina-em-casos-leves.htm

[11]https://entendendobolsonaro.blogosfera.uol.com.br/2020/05/21/generais-patrocinam-guinada-bolsonarista-na-saude/

[12] Idem.

[13]https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/04/ministro-general-ramos-pede-que-imprensa-de-noticias-positivas-e-menos-caixoes-e-mortos.shtml

[14]https://saude.abril.com.br/medicina/coronavirus-estimativa-aponta-numero-de-casos-14x-maior-do-que-o-oficial/

[15]https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2020/06/11/brasil-tem-1261-mortes-por-coronavirus-em-24-horas-revela-consorcio-de-veiculos-de-imprensa-sao-41058-no-total.ghtml

[16]https://veja.abril.com.br/brasil/chegamos-ao-limite-nao-tem-mais-conversa-diz-bolsonaro-em-manifestacao/

[17]https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/05/28/deputado-eduardo-bolsonaro-cogita-necessidade-de-medida-energica-do-presidente.ghtml

[18]https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/05/22/celso-de-mello-envia-a-pgr-pedidos-de-depoimento-e-apreensao-do-celular-de-bolsonaro.ghtml

[19] A nota, publicada na conta pessoal do general no Twitter, pode ser acessada integralmente através deste link: https://twitter.com/gen_heleno/status/1263896941349535746?s=08

[20]https://www.poder360.com.br/opiniao/governo/ate-onde-os-militares-vao-com-bolsonaro-questiona-thomas-traumann/

[21]https://brasil.elpais.com/brasil/2020-05-29/bolsonaro-invoca-intervencao-militar-contra-o-stf-e-flerta-com-golpe.html

[22]https://amazonasatual.com.br/militares-elaboram-manifestos-a-favor-de-bolsonaro-assinados-por-oficiais-da-reserva/

[23]https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2020/05/24/militares-reserva-stf-apoio-augusto-heleno-jair-bolsonaro-guerra-civil.htm

[24]https://www.gov.br/planalto/pt-br/conheca-a-vice-presidencia/discursos-pronunciamentos-artigos/limites-e-responsabilidades

[25]https://www.gov.br/planalto/pt-br/conheca-a-vice-presidencia/discursos-pronunciamentos-artigos/opiniao-e-principios

[26] https://veja.abril.com.br/paginas-amarelas/luiz-eduardo-ramos-e-ultrajante-dizer-que-o-exercito-vai-dar-golpe/

[27]https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/politica/2020/06/12/interna_politica,863227/general-ramos-foi-disfarcado-manifestacao-contra-bolsonaro-em-brasilia.shtml

[28] https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2020/06/12/nao-ha-risco-de-golpe-se-a-oposicao-nao-esticar-a-corda-diz-general-ramos.htm

[29] https://veja.abril.com.br/politica/oposicao-tenta-usar-inquerito-no-stf-para-cassar-chapa-bolsonaro-mourao/

[30] https://www.redebrasilatual.com.br/politica/2020/05/carnificina-pandemia-militares/

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