Análise das redes sociais de Bolsonaro: Um aceno a pacificação sob ótica das redes sociais

Por Daniel Sousa e Nathalia Harcar

O presente texto conclui a análise das redes sociais do presidente Jair Bolsonaro diante da pandemia da Covid-19. Nossa pesquisa se iniciou em 11 de março de 2020, quando a OMS decretou a pandemia internacional, e acompanhou mês a mês o modo como o presidente usou as mídias sociais para sustentar sua posição de negar a gravidade da doença e priorizar a economia.

Dessa forma, este boletim se propõe a compreender de que maneira o surgimento de novos conflitos e as variações políticas, durante o período de 11 de junho até 11 de julho, puderam contribuir para uma mudança de postura do mandatário em relação aos meses anteriores. Junto a esse objetivo, nos dispomos a um estudo final sobre a influência da COVID-19 no campo político, no qual foi observado a continuidade de uma linha discursiva negacionista ao isolamento social com o lema: “O Brasil não pode parar”, fomentada pelas redes sociais presidenciais.

Durante o mês de análise identificamos um clima político mais ameno em comparação aos tensionamentos constantes que o presidente se propunha a fomentar, como já apresentado em boletins anteriores. Esse clima não ocorreu por uma uma diminuição dos conflitos políticos. Ao contrário, eventos como a prisão de Queiroz, a demissão de Abraham Weintraub, o inquérito das fake news e a crise do coronavírus ainda muito presente são alguns exemplos de disputas e crises que sucederam-se durante o período.

Assim, a hipótese deste texto é que há uma nova postura adquirida por Bolsonaro diante dos conflitos, o que contribuiu para acalmar o ambiente nas redes sociais. Com base nas pesquisas realizadas pela DAPP-FGV[1] sobre a evolução dos campos políticos via twitter, do dia 11 até o dia 23 de junho, ocorreu uma administração da base de direita e pequenas variações da base de oposição, diferindo-se dos meses anteriores nos quais encontramos significativos picos de crescimento da base de oposição. 

No boletim anterior nós verificamos a hipótese de um radicalismo proporcional ao crescimento da oposição ao governo, no entanto neste período encontramos uma mudança abrupta desse formato político perceptível em suas redes sociais. Posto isso, construímos esse boletim respaldados na hipótese de uma drástica mudança de tom de Jair Bolsonaro tanto no âmbito discursivo, quanto no âmbito das ações políticas, sendo assim, suas redes sociais se dão como palco para essa observação

Crise do coronavírus

No quarto mês de análise sobre o panorama político/social gerado pela crise do coronavírus, identificamos uma constância na posição política de Bolsonaro diante da pandemia. Essa continuidade caracteriza-se principalmente pelo descrédito das medidas de isolamento social em virtude de questões econômicas e o desalinhamento com a OMS marcado pelo insistente apoio dado a hidroxicloroquina. Do ponto de vista discursivo, contudo, no período que o presente boletim se propõe a compreender, identificamos uma significativa atenuação do tom político, bem como, na incorporação de uma propaganda política apelativa com base no auxilio emergencial.

É fundamental entender, contudo, que essa diminuição do tom não implica em uma mudança do conteúdo negacionista da postura do presidente. Isso se evidencia por dois temas: economia e cloroquina.

Neste último mês de análise sobre a pandemia, Bolsonaro transfigura parcialmente seu discurso de deslegitimação do isolamento social, demonstrado nos outros meses um tom mais agressivo e em alguns casos ameaçador. Essa reconfiguração se dá pelo o uso de forma mais intensa do lema “O Brasil não pode parar”, no qual faz referência a paralisação, promovida com respaldo político dos governadores e respaldo científico da OMS, de diversos setores da economia como forma de proteção da massa trabalhadora ao vírus. Em sua conta do twitter, Bolsonaro, durante todo o mês pública diversos posts sobre obras em andamento por todo o país. No dia 21e 23 de junho são dois exemplos de vídeos postados no twitter presidencial que fazem alusão a obras de infraestruturas e que são vinculadas textualmente por Bolsonaro ao slogan mencionado acima. [2]

Junto a esse contexto, a propagação do uso da hidroxicloroquina continua nas redes sociais do presidente. No dia 16de junho o mandatário publica no twitter um vídeo de Donald Trump sobre a regulamentação da cloroquina no EUA.[3] Já no dia 22 de junho posta, também via twitter, um vídeo de Alexandre Garcia (@alexandregracia) abordando o tema da politização do uso do medicamento. [4]  Por fim, no dia 07 de julho, após ter o diagnóstico positivo para coronavírus, Bolsonaro compartilha através de seu perfil no Facebook, um vídeo de caráter publicitário sobre seu tratamento usando a droga aqui citada. [5] Esses são algumas exemplificações que traçam o breve panorama sobre a insistente tentativa de se apoiar politicamente uma narrativa positiva em um contexto pandêmico de incertezas a respeito de um tratamento assertivo.

Por fim, a menção constante sobre o auxílio emergencial se destaca também durante o mês, principalmente para o caráter apelativo que o presidente usa-se de tal demanda social em um contexto de pandemia, em suas redes sociais. Nos dias 27 e 29de junho, o mandatário posta, via twitter, vídeos enviados por famílias carentes agradecendo o auxílio emergencial[6] e escrevendo a seguinte legenda: “De tudo, dentro do possível, o @govbr está fazendo para garantir a mínima dignidade do povo!”[7]  personificando, assim, o auxílio a figura de poder do presidente e não a uma questão de necessidade conjuntural. Dessa forma, o viés adotado pelo o mandatário é extremamente conjuntural uma vez baseia todo seu governo e suas políticas públicas em ideologias neoliberais, ou seja, contrárias a qualquer dimensão mais consistente de proteção social.  

No âmbito das investigações

Felipe Nunes, cientista político e sócio da consultoria Quaest, Bolsonaro afirma que  Bolsonaro é “o primeiro presidente digital da história brasileira”. Faz-se, assim, necessário considerar os impactos sofridos no que diz respeito ao inquérito das fake news e das manifestações antidemocráticas, como condição sine qua non para a compreensão do quadro político no qual Bolsonaro se situa, uma vez que esses processos intensificaram-se de tal maneira que familiares e aliados da rede presidencial estão potencialmente envolvidos.

Além da tensão exercida pela justiça brasileira, a rede bolsonarista foi pressionada pelo Facebook pelo que a empresa chamou de “Redes de comportamento inautêntico coordenado”. A Atlantic Council’s Digital Forensic Research Lab (DFRLab)[8], indicou que administradores dessas redes estavam diretamente ligados aos gabinetes dos filhos do presidente, Eduardo e Flávio Bolsonaro e a outros deputados do Partido Social Liberal (PSL)[9]. Posteriormente ao prognóstico, foram excluídos 73 perfis: 14 páginas e 35 contas pessoais no Facebook, juntamente a 38 páginas no Instagram. O comportamento sistematizado desses perfis é observado desde as eleições de 2018. De acordo com o Facebook, a rede de páginas usava uma “combinação de contas duplicadas e contas falsas” para driblar os termos e políticas de uso. Nessa linha, outro grande expoente da New Right ou direita populista, o presidente dos EUA Donald Trump também foi alvo de exclusões recentes do facebook ao fazer uma postagem que induzia ao nazismo[10]

Até a presente data, o período analisado, foi fortemente marcado por uma mudança no comportamento dos usuários inclinados a direita no que se refere ao apagamento de diversos de seus conteúdos. Segundo o Monitor do Debate Político no Meio digital, projeto da Universidade de São Paulo (USP), que analisa a polarização nas discussões políticas nas redes[11], observou algumas exclusões em massa deste tipo de conteúdo. Ele mapeou cerca de 1.873 vídeos bolsonaristas que faziam menções ao Supremo Tribunal Federal em abril e maio deste ano. A somatória dos dez principais vídeos apagados atinge a marca de 7.617.222 visualizações no YouTube.

O desaparecimento das publicações acontece na esteira das investigações contra blogueiros, empresários e parlamentares aliados ao presidente, autorizadas pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF. As investigações ocorrem no contexto do chamado “inquérito das fake news”, com o objetivo de apurar ataques à membros da Corte no Supremo Tribunal Federal, e no inquérito sobre as manifestações antidemocráticas, que ocorreram a partir de abril, tendo como seus principais manifestantes, defensores do fechamento do congresso e da volta do AI-5.

Segundo Pablo Ortellado, coordenador do Monitor do Debate Político no Meio Digital, “Não sabemos se foi com essa intenção, mas o fato de as exclusões estarem maiores com a aproximação das investigações nos leva a acreditar que foram para esconder provas, escapar da investigação”.  Na contramão, o ministro Alexandre de Moraes, determinou que parlamentares investigados não apagassem conteúdo que envolvessem manifestações antidemocráticas a fim de não obstruir judicialmente os inquéritos.

No âmbito das operações, na manhã da segunda-feira,  dia 15 de junho, como parte da investigação que apura o financiamento e a coordenação de manifestações antidemocráticas, a extremista Sara Winter, do grupo 300 do Brasil, foi presa preventivamente.[12] A prisão foi realizada no dia seguinte ao atentado do ataque com fogos de artifício ao STF. Na ocasião, manifestantes reivindicavam o fechamento da suprema corte e volta do AI-5.

Também ligado a investigação que apura manifestações antidemocráticas, no dia 16 de junho, a PF cumpriu 26 mandados de busca e apreensão em 5 estados e no Distrito Federal. Dentre os alvos, estavam um publicitário e um empresário ligados ao Aliança pelo Brasil, partido anunciado por Jair Bolsonaro, além de Deputados do PSL-RJ, e o senador Arolde de Oliveira (PSD-RJ).[13]

De acordo com pesquisas recentes[14], cresce adesão a outras redes sociais inclinadas à direita, como Gab – Em comunicado enviado no início de junho pela empresa aos usuários “Nas últimas semanas, Gab experimentou o maior aumento de crescimento em quase quatro anos de história”. Segundo o coordenador do Centro de Tecnologia e Sociedade (CTS) da FGV Direito Rio, Ivar Hartmann, o relativo sucesso, se dá pela conjuntura política atual. Em suma, balizados pela liberdade de expressão[15], entre os representantes prevalece a narrativa de censura. No entanto, as plataformas alegam que discurso de ódio violam os termos de uso.

Posto esse cenário político e jurídico, ambos os inquéritos se relacionam por meio de uma unidade entre os investigados, essa identidade se dá pela aliança aos ideais extremistas de Jair Bolsonaro. Sendo assim, diante desse contexto de fragilização de um sistema via redes sociais que vinham funcionando com extrema eficácia desde o período eleitoral, Bolsonaro se vê perante a possibilidade de um desmantelamento deste esquema.

Demissão de Abraham Weintraub

O ex-ministro da Educação Abraham Weintraub, que também é investigado no inquérito das Fake News, representa, devido a sua exoneração, um possível aceno, por parte de Jair Bolsonaro, a uma pacificação com o Supremo Tribunal Federal.  

Durante a seu mandato, a atuação de Weintraub foi fortemente marcada por polêmicas envolvendo seus oponentes e suas atuações perniciosas. Seu desgaste se intensificou no mês analisado, onde, se reuniu com militares e fez alusão a sua fala chamando os ministros de “vagabundos” e se encerrou quando tentou acabar os incentivos de cotas na pós-graduação.

Interlocutores do governo afirmavam que nos bastidores, sua demissão foi fruto de pressão dos ministros do STF.  Assim, a mudança de tom do mandatário representou no âmbito político parte de um conjunto de gestos para o distensionamento no congresso com objetivo de pacificação”.

Após deixar o de deixar o MEC no dia 18 de julho em direção aos EUA no dia 20, sucedeu a nomeação do Ministro Carlos Decotelli, que sinalizava um aceno a ala tecnocrática-militar e um potencial distanciamento da ala ideológica-olavista do governo. Decotelli deixou o cargo sem ser empossado por diversas polêmicas envolvendo seu currículo lattes, dentre as quais, seu doutorado sem tese na argentina e seu pós-doutorado na alemanha. O cargo foi ocupado por Milton Ribeiro, teólogo de formação e doutor em educação, no dia 10 de julho de 2020 no diário oficial.

Prisão de Fabrício Queiroz

Na esteira desses acontecimentos, houve a prisão de Fabrício Queiroz, ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro que ocorreu na manhã de 18 de junho, na casa do advogado da família do presidente da República, Frederick Wassef. Queiroz, é alvo de investigações envolvendo Flávio Bolsonaro. O recrudescimento desta operação resultou na prisão domiciliar de Queiroz, que foi concedida pelo STJ  no dia 9 de julho de 2020

Nas redes sociais, sua prisão foi recebida com um grande silêncio, tom que se assemelha ao do presidente no período, rendendo apenas um breve comentário em uma live em suas redes sociais no dia 19 de junho, ao dizer que foi “uma prisão espetaculosa”. Pedro Barciela[16], em seu blog[17], apontou que nas redes sociais, a presença bolsonarista em resposta a prisão de queiroz foi “extremamente pífia, ficando com menos de 18% do total dos usuários analisados” O que indica que uma forte desmobilização foi causada pela prisão do ex assessor da família Bolsonaro.

Conclusão 

Existem dois aspectos que reforçam a tese de que a mudança de tom do presidente, refletida em uma dimensão política, representa um aceno em direção a uma potencial pacificação. A primeira é de que intensificação das investigações vão de encontro a aliados políticos de sua base. A segunda é do que o possível cerceamento de seus filhos pela justiça. 

Diante disso, as exclusões recentes do facebook enfraquecem a narrativa de aliados e do próprio presidente de perseguição do poder legislativo. É provável que as redes bolsonaristas sintam um forte impacto, mas não acreditamos que cessem, pois existe uma complexa rede de comunicação. Contudo, consideramos que haja mais cautela.

Por fim, sua postura nas redes sociais frente à pandemia obedece determinados arquétipos que se consolidam ao longo de seu diagnóstico para covid-19. A manutenção do discurso “O Brasil não pode parar” fica evidente na forma com que exibiu em suas redes as obras realizadas e concluídas, juntamente a capitalização política do auxílio emergencial. Em paralelo a utilização de seu diagnóstico para propaganda da hidroxicloroquina.

Concluímos, dessa forma, que a abrupta mudança da postura do mandatário levantada como hipótese de nosso boletim, se respalda em um comparativo com os três meses anteriores de análise do contexto pandêmico vivenciado no âmbito político-social. Atribuímos a atenuação do discurso a iminência do desmantelamento do esquema configurado como de comportamento atípico pelo facebook ou de teor criminoso pela justiça brasileira, encerrando assim o ciclo de análises iniciada com a pandemia do covid-19. Buscamos fundamentar, por meio de dados oriundas das redes sociais e especialistas, nossos boletins. Os padrões de comportamento encontrados se manifestaram de acordo com a leitura contextual e situacional das demandas políticas, sendo assim, ferramenta fundamental para atingir seus objetivos, onde, em suas redes sociais, puderam ser um prolífico palco de visualização.


[1] https://observademocraciadigital.org/posts/apos-marca-de-1-milhao-de-infeccoes-relatos-de-familiares-de-vitimas-ganham-espaco-no-facebook/

[2]  https://twitter.com/jairbolsonaro/status/1274713591342653440 e https://twitter.com/jairbolsonaro/status/1274994625338621957

[3] https://twitter.com/jairbolsonaro/status/1272985282904801286

[4]  https://twitter.com/jairbolsonaro/status/1275054007531307008

[5] https://www.facebook.com/jairmessias.bolsonaro/videos/723015191608243/

[6] https://twitter.com/jairbolsonaro/status/1277647967860768775

[7] https://twitter.com/jairbolsonaro/status/1276852517364776962

[8]https://medium.com/dfrlab/facebook-removes-inauthentic-network-linked-to-bolsonaro-allies-5927b0ae750d

[9]https://www.tecmundo.com.br/redes-sociais/155040-entenda-facebook-relacionou-fake-news-familia-bolsonaro.htm

[10]https://www.theguardian.com/technology/2020/jun/18/facebook-removes-trump-re-election-ads-that-feature-a-nazi-symbol

[11]https://www.bbc.com/portuguese/brasil-53165486

[12] https://br.noticias.yahoo.com/ministro-stf-na-pris%C3%A3o-o-175308479.html

[13] https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/06/16/policia-federal-cumpre-mandados-em-brasilia.ghtml

[14]https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2020/06/28/interna_politica,1160671/cresce-adesao-a-rede-social-de-extrema-direita.shtml

[15]https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/04/e-liberdade-de-expressao-diz-bolsonaro-sobre-suposto-esquema-de-fake-news-ligado-ao-filho.shtml

[16] Pedro Barciela é formado em turismo, ingressou na área de monitoramento no ano de 2014 com ênfase em monitoramento de redes sociais online. Aprofundou-se no estudo de análise de redes a partir de cursos realizados na IBPAD, em especial o curso Análise de Redes em Mídias Sociais. Atua, hoje, com foco em análise de redes/monitoramento voltado para temas político-eleitorais nas redes sociais online.

[17]https://essatalredesocial.com.br/2020/06/19/baixo-engajamento-e-falta-de-coesao-bolsonarista-em-cenario-pos-prisao-de-queiroz/

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