Os movimentos sociais e a pandemia

Por Cello Latini

Em nosso núcleo de estudos, a iniciativa de pesquisar intensivamente o desenvolvimento de movimentos sociais nacionais no contexto da pandemia do covid-19 se estendeu desde abril até julho, reunindo quatro boletins e diversas fontes de informação. Em abril, encontramos movimentos sociais altamente mobilizados, redes de solidariedade massivas direcionadas à população com menos recursos de sobrevivência. Também encaramos as articulações de grupos grandes, como Frente Brasil Popular e Frente Povo Sem Medo, a elaboração de propostas e o crescimento da desunião entre movimentos sociais de esquerda, diante de discordâncias em relação à luta anti-bolsonaro.

Em maio, a hipótese inicial se manteve: as ações dos movimentos sociais se dividiram em duas dimensões, sendo um referente à manutenção das redes de solidariedade já consolidadas, e outra referente à elaboração de propostas para enfrentar a pandemia. Tais medidas envolveram confrontos entre os grupos e associações envolvidos, considerando a pluralidade de demandas e alianças. As movimentações se mantiveram firmes de um mês para o outro.

Já em nosso terceiro boletim, presenciamos o nascimento de protestos organizados por torcidas de futebol, organizações antifascistas e pelo movimento negro, em reação a episódios de racismo que tomaram atenção mundial. A oposição ao governo Bolsonaro cresceu radicalmente ao se aliar, em parte, a manifestações antirracistas, especialmente no meio virtual. Contudo, ainda assim houve discordâncias sobre a condução das manifestações e dos posicionamentos políticos. As posturas dos movimentos de esquerda não foram unânimes, e o movimento negro precisou lutar por protagonismo dentro de uma pauta que lhe pertence.

Em continuidade, o presente boletim busca analisar a situação dos movimentos sociais no contexto da pandemia durante um período que se estende de 14 de junho até 11 de julho. Observamos que a continuidade das movimentações pela democracia e contra o governo Bolsonaro somou novamente as forças, tendo como principais organizações as Frente Povo Sem Medo e Brasil Popular e grupos de esquerda, como MST, CUT e CTB. Manifestações contra o governo, organizadas também por torcidas de futebol, se chocaram com manifestações a favor.

As torcidas organizadas continuaram tendo expressividade política e fomentando manifestações contra o governo. As manifestações dos movimentos negros não cessaram. Porém, o auge das mobilizações se deu durante o mês de junho, enfraquecendo no começo de julho, o que não significa que não possam retomar força no segundo semestre.

  A organização de manifestações de entregadores de aplicativos recebeu apoio de organizações sindicais e outros grupos de mobilização trabalhista. A greve dos entregadores ganhou destaque nas redes sociais, por meio de hashtags e de campanhas pela não-utilização dos aplicativos de entregas. Mas, para além disso, sua força nas ruas foi massiva.

  Neste quarto mês de pesquisas, novamente as redes de solidariedade formaram um elo dos movimentos sociais com a oposição ao governo.

Nossa hipótese é que, assim como nos meses precedentes, os movimentos sociais de esquerda não conseguiram manter sua inicial unidade a respeito de pautas diversas, tais como o apoio a manifestações nas ruas. Isso ocorreu com o texto assinado pelo senador Jaques Wagner (PT), no qual se afirma que “não tendo o país ainda superado a pandemia (…) precisamos redobrar os cuidados sanitários e ampliar a comunicação com a sociedade em prol do distanciamento social”, pedindo que a população não saísse para protestar.

Além de Wagner, o texto foi assinado e divulgado por senadores do PSB, PDT, Rede e Cidadania. O posicionamento de Wagner contradiz a resolução do próprio PT, que depois divulgou uma nota defendendo o direito do povo de se manifestar.[1] Apesar das discordâncias, as organizações mantiveram posicionamentos semelhantes em relação ao movimento “Fora Bolsonaro”. Entendemos que a continuidade da situação pandêmica acarreta na continuidade e no agravamento desses conflitos, que caminham para o crescimento da oposição já existente e das redes já articuladas.

Utilizamos, nesse boletim, fontes de sites de notícias e organizações, como Correio Braziliense, Rede Brasil Atual, A Crítica, G1, Uol, O Povo, SP Bancários, JM Online, Diário do Litoral, Metro Jornal e Mundo Sindical.

Mobilizações solidárias e oposição

Desde o agravamento da pandemia no Brasil, observamos movimentos sociais organizando redes de solidariedade e apoio mútuo para impedir que grupos vulneráveis se expusessem ao covid-19. Em São Paulo, por exemplo, o Movimento Sem Teto do Centro (MSTC) se mobiliza desde março para impedir que os perigos do coronavírus atinjam moradores.

O fornecimento de itens de higiene, alimentação, máscaras e luvas está sendo garantido pelas lideranças de movimentos independentes, por meio de iniciativas solidárias e doações.[2] Possuindo ou não o apoio de prefeituras e instituições governamentais, essas organizações tendem a se posicionar contra o governo Bolsonaro, especialmente em relação à postura de Bolsonaro diante na pandemia. Assim como percebemos em maio, movimentos sociais em favelas continuam sendo prejudicados pela violência policial e pelo descaso do governo.

Com isso, as forças de oposição se mobilizaram novamente em junho e julho. Em 14 de junho, no centro da cidade de São Paulo, ocorreu um ato convocado por apoiadores de Bolsonaro. Contudo, o ato não ganhou força. Em contraste, na Avenida Paulista, um ato convocado por torcidas organizadas contra o governo conseguiu fechar o vão do Masp.[3] Isso mostra que as torcidas organizadas continuam se mobilizando.

Diante da amplitude que as manifestações paulistas tomaram, o Ministério Público de São Paulo determinou que manifestações não podem mais ocorrer na Avenida Paulista, o que fez com que movimentos contra e pró Bolsonaro se reunissem virtualmente para organizar suas manifestações em outras localidades. Reuniram-se os grupos de oposição MTST, Frente Povo Sem Medo e Movimento Somos Democracia, juntamente com grupos favoráveis ao governo, como Deus, Pátria e Família, Patriotas do Brasil e amas de Aço. Determinou-se o revezamento do uso da Avenida Paulista.[4]

Já em Brasília, ao fim de junho, manifestações contra e a favor de Bolsonaro se encontraram, forçando a Polícia a montar um cordão de isolamento. As ações de oposição ao governo reuniram o Movimento Vidas Negras Importam, contra a violência polícial e as torcidas antifascistas, que se fizeram presentes durante junho e maio em fortes manifestações de oposição.[5]

Em 30 de junho, na cidade de Aracaju, manifestantes se reuniram para protestar contra o afrouxamento de medidas para o covid-19, prevista pelo governo local. A manifestação contou com o apoio da Central Única dos Trabalhadores, da Frente Brasil Popular, da Frente Povo Sem Medo, da CTB, da Conlutas e da UGT, em defesa da manutenção do lockdown.[6]

Além dos protestos, também observamos iniciativas ligadas aos meios de comunicação. O dia 15 de junho marcou a divulgação de uma parceria entre Brasil de Fato e a TV dos Trabalhadores, com o programa Central do Brasil, que conta com o apoio das Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo.

O programa objetiva dar voz aos trabalhadores, fornecer informações em perspectiva diferente da grande mídia empresarial e monitorar e informar à população dos mais recentes acontecimentos que interfiram na conjuntura.[7]

Em 23 de junho, as Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo, as Centrais Sindicais e outras organizações sociais se mobilizaram pela “Campanha Nacional Fora Bolsonaro”, que conta ainda com um Dia Nacional de Mobilização Fora Bolsonaro, em 10 de julho, e com a Plenária Nacional Fora Bolsonaro, no dia seguinte.[8]

Em 29 de junho, mais de 60 organizações, centrais, movimentos e associações se articularam na campanha #BrasilpelaDemocracia e #BrasilpelaVida, em defesa da democracia e contrária à postura governamental perante a situação da pandemia.

Um site (www.brasilpelademocracia.org.br) foi organizado para representar virtualmente a campanha e servir como ponto de partida das mobilizações, além de guardar a memória dos processos. [9]

Mobilizações de entregadores de aplicativos

A greve dos entregadores de aplicativos foi a grande novidade do período pesquisado. No contexto da pandemia, a paralização de diversos serviços transformou os entregadores de aplicativos em sujeitos essenciais para a continuidade das atividades comerciais.[10] Contudo, as condições de trabalho, sem garantia de alimentação, direitos trabalhistas ou proteção física levaram os trabalhadores a se organizar.A partir do dia primeiro de julho, foi marcada uma paralização de entregadores de aplicativos – tais como iFood, Rappi e UberEats – em todo o Brasil, principalmente nas capitais, para demandar condições dignas de trabalho.

Houve protestos em Aracaju (SE), São Paulo (SP), Recife (PE), Teresina (PI), Rio de Janeiro (RJ), entre outras. Em Belo Horizonte, por exemplo, centenas de entregadores se organizaram na Praça da Assembleia para iniciar uma paralização de 24 horas.[11]Em São Paulo, as manifestações receberam o apoio do movimento sindical, e os trabalhadores levantaram bandeiras da Sindical dos Comerciários e da UGT.[12]Houve adesão do sindicato de mensageiros motociclistas, ciclistas e mototaxistas de São Paulo (SindimotoSP).[13]Em Brasília, a manifestação contou com o apoio do Sindicato dos Enfermeiros e da Associação de Motoboys, Autônomos e Entregadores do Distrito Federal (AMAE-DF).[14] A mobilização ganhou força nas redes sociais, sob as hashtags #BrequedosApps e #SomosImportantes, e campanhas pela não-utilização dos aplicativos de entrega se disseminaram.

Em São Paulo, isso também se estendeu a outros setores: ainda no dia primeiro, em São Paulo, motoristas de vans escolares pedem isenção de taxas e reivindicam o auxílio emergencial. Motoristas de ônibus protestaram em reação à redução das frotas e ao desemprego.[15]

Conclusão

Esse boletim analisa ações de solidariedade, mobilizações de oposição ao governo, novos grupos em protesto e os aspectos que permaneceram e que mudaram desde as primeiras análises da pandemia. Desde o primeiro boletim, observamos a articulação de redes de apoio voluntário, em sua maioria autônomas e sem vinculo governamental, voltadas especialmente a grupos com menos condições de sobrevivência e autossuficiência durante a pandemia. A população não se calou diante da inicial impossibilidade de se manifestar nas ruas, e transferiu seu descontentamento massivamente para o meio virtual. As já consolidadas forças de oposição e de apoio ao governo tiveram de se mobilizar virtualmente, reproduzindo as discordâncias pré-existentes.

Contudo, após um episódio de violência racial nos Estados Unidos, foram organizados protestos não somente no Brasil, como ao redor do mundo. No Brasil, os protestos foram motivados principalmente por casos de racismo ocorridos com duas crianças. As manifestações antirracistas dividiram a esquerda e receberam apoio de alguns movimentos antifascistas. A oposição ao governo Bolsonaro cresceu e motivou mobilizações outras, como as organizadas por torcidas de futebol (anti-bolsonaro e pela democracia) e pelos entregadores de aplicativos (por condições de trabalho dignas). Assim, o que marcou esse período, na perspectiva dos movimentos sociais, foi a força da mobilização coletiva anti-bolsonaro e das redes de solidariedade; a divisão da esquerda no apoio a manifestações nas ruas, especialmente às antirracistas e antifascistas, que continuaram ocorrendo, ainda que com menos força, e com forte apoio das torcidas de futebol; e a insurgência de mobilizações de grupos não vistos, dos entregadores de aplicativos. A situação pandêmica fez com que a ocorrência de manifestações nas ruas reduzisse, mas não cessasse, e os movimentos virtuais mobilizados por “correntes” e hashtags somente cresceu, pressionando os governantes por meio de estratégias alternativas.


[1] https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/politica/2020/06/05/interna_politica,861379/pt-e-partidos-de-esquerda-divergem-sobre-manifestacoes-de-domingo.shtml

[2]https://www.redebrasilatual.com.br/cidadania/2020/06/nas-ocupacoes-movimentos-sociais-enfrentam-a-pandemia-com-solidariedade/

[3]https://www.opovo.com.br/noticias/politica/2020/06/14/esvaziado–ato-pro-bolsonaro-vira-critica-a-doria–paulista-recebe-opositores.html

[4]https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2020/06/21/maiores-eventos-pro-e-contra-bolsonaro-ocorrerao-em-cidades-diferentes.htm

[5]https://www.redebrasilatual.com.br/politica/2020/06/torcidas-antifascistas-e-movimentos-sociais-protestam-contra-bolsonaro/

[6]https://g1.globo.com/se/sergipe/noticia/2020/06/30/ato-contra-afrouxamento-das-medidas-de-combate-ao-novo-coronavirus-e-realizado-em-aracaju.ghtml

[7]https://spbancarios.com.br/06/2020/programa-central-do-brasil-da-voz-movimentos-populares

[8]http://www.mundosindical.com.br/Noticias/46918,Centrais-e-movimentos-sociais-convocam-Dia-do-Fora-Bolsonaro

[9]http://www.acritica.net/editorias/cultura/entidades-e-movimentos-sociais-se-unem-em-defesa-da-democracia-e-da/460335/

[10]https://www.diariodolitoral.com.br/cotidiano/em-protesto-entregadores-se-reunem-na-praca-da-independencia/135967/

[11]https://jmonline.com.br/novo/?noticias,6,POL%C3%8DTICA,198274

[12]https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2020/07/protesto-de-entregadores-comeca-com-cerca-de-1000-motoboys-na-marginal-pinheiros.shtml

[13]http://www.mundosindical.com.br/Noticias/46868,Entregadores-organizam-paralisacao-e-movimento-chega-a-capitais-latinas

[14]https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2020/07/01/interna_cidadesdf,868398/paralisacao-reune-entregadores-de-aplicativos-do-df-em-prol-de-direito.shtml

[15]https://www.metrojornal.com.br/foco/2020/07/01/sao-paulo-protestos-quarta-vans-onibus-entregadores.html

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