Depois da tempestade, a (tímida) “calmaria” verde-oliva

Por Victor Pimentel

O presente relatório tem como principal objetivo dar continuidade às análises iniciadas em abril a respeito das relações entre importantes parcelas do setor militar e o governo Bolsonaro durante a pandemia do novo coronavírus.  Assim como nos outros três textos dessa série[1], o método de nossa investigação se baseia na observação crítica de diversas matérias e reportagens de diferentes jornais e portais de notícia sobre as movimentações da ala militar ao longo do período mencionado. Prosseguimos trabalhando com a mesma hipótese: em direção contrária à tradicional caracterização empreendida por grande parte da mídia, argumentamos que o setor militar não constitui a “ala técnica” do governo, uma vez que suas ações – manifestadas, sobretudo, por importantes parcelas do mesmo setor (como os fardados palacianos) – são pautadas por crenças e valores políticos e ideológicos que informam sua identidade de grupo.

Assim, o presente texto se debruça sobre quatro acontecimentos de grande relevância política ocorridos no último mês (junho) – a saber, a breve passagem de Carlos Alberto Decotelli pelo Ministério da Educação; a aprovação de medidas que promovem um considerável aumento do soldo do alto oficialato; o incremento de articulações explícitas empreendidas pelos militares em relação ao Centrão e ao STF; e, por fim, a publicação de uma carta de apoio a Bolsonaro escrita por praças e militares da reserva.  A partir da análise crítica sobre tais episódios, argumentamos que a escalada de autoritarismo explícito por parte do grupo militar, iniciada em março, encontrou seu pico em maio e diminuiu significativamente entre os meses de junho e julho, evidenciando uma maior tentativa de articulação dos militares com demais setores políticos a fim de manter sua base de apoio e construir uma situação de possível estabilidade para os próximos meses.

Por essa razão, defendemos que os acontecimentos elencados acima parecem evidenciar duas coisas. Por um lado, em um sentido imediato, há uma tímida amenização dos discursos do presidente e das manifestações de apoio, por parte dos militares, aos arroubos autoritários da gestão governamental. Por outro, de acordo com uma visão mais processual – que tenta recuperar o desenrolar dos eventos políticos de março até agora – há fortes indícios de que os profundos impactos sociais decorrentes da pandemia foram “normalizados” pela máquina estatal. Como demonstram os professores e coordenadores do NUDEB Josué Medeiros e Pedro Lima no editorial do boletim de junho, os conflitos que atravessam atualmente o governo já não guardam mais relações tão estreitas com a pandemia, mas sim com diversos impasses existentes antes da emergência da disseminação do novo coronavírus.

A breve passagem de Decotelli:

Em meados do mês passado, Abraham Weintraub pediu demissão do Ministério da Educação, comandado por ele durante pouco mais de um ano. A saída do até então ministro foi precedida por uma série de aparições e manifestações polêmicas do mesmo, como xingamentos proferidos aos chineses e insultos dirigidos aos ministros do STF em reunião do governo[2]. Alguns dias depois da demissão de Weintraub, no dia 25 de junho, houve a divulgação de que o professor e oficial de reserva da Marinha Carlos Alberto Decotelli assumiria o posto[3]. Curiosamente, apenas cinco dias depois – quando ainda não havia sido devidamente empossado – Decotelli já não era mais ministro da Educação, tendo tido uma passagem relâmpago pela pasta[4].

Se Weintraub era considerado um forte nome da suposta “ala ideológica”, a nomeação de Decotelli para o Ministério da Educação foi recebida por grande parte da mídia como uma importante movimentação da ala “rival” àquela: o setor militar. Devido a sua trajetória dentro do ambiente da caserna, o oficial de reserva da Marinha representava mais um braço dos militares na gestão governamental, consolidando uma verdadeira militarização do governo Bolsonaro, que já conta – até o presente momento – com 2.390 militares ocupando cargos nos Três Poderes[5].

Desta forma, o nome de Decotelli para assumir a pasta contava com forte apoio do setor militar em geral, inflando esperanças dos mesmos de uma possível estabilização do tão conturbado Ministério da Educação[6]. Inclusive, segundo o jornal Folha de S.Paulo, o professor obteve grande respaldo na figura do almirante palaciano Flávio Rocha (Secretaria de Assuntos Estratégicos), assim como gozava de grande ligação com o alto oficialato[7]. Contudo, a despeito da aposta em seu desempenho, Decotelli permaneceu apenas cinco dias como ministro, uma vez que grande parte da mídia não enfrentou grandes dificuldades em descobrir inconsistências em sua trajetória, tais como falsificações em seu próprio currículo e graves plágios em sua dissertação de mestrado.

Apesar da breve duração, o episódio de nomeação e saída de Alberto Decotelli do Ministério da Educação representa mais um claro exemplo a favor de nossa hipótese. De acordo com a caracterização que desenha os militares como a “ala técnica” da atual gestão governamental, não seria exagero esperar que qualquer indicação realizada por este grupo seguisse parâmetros de rigor técnico pautados sobre uma avaliação racional a respeito do desempenho e da idoneidade profissionais do candidato em questão. Considerando a rapidez da descoberta de dados controversos presentes no currículo de Decotelli, pode-se presumir que tais informações não se encontravam tão distantes do alcance de breves pesquisas que se debruçassem sobre as realizações declaradas do oficial reservista da Marinha.

Neste sentido, torna-se evidente que a nomeação de Alberto Decotelli para o Ministério da Educação teve como bases fundamentais a ligação pessoal e a boa circulação do ex-ministro pelo alto oficialato das Forças Armadas. Desta forma, a suposta “ala técnica” do governo Bolsonaro novamente deixou de lado critérios técnicos e pragmáticos e optou por atuar a partir de estratégias claramente corporativistas, reforçando a valorização da influência e atuação políticas de seu próprio grupo dentro das movimentações da atual gestão governamental.

O aumento nos rendimentos do alto oficialato:

No primeiro dia do mês de julho, militares que fazem parte do seleto grupo de oficiais das Forças Armadas tiveram um reajuste em seus rendimentos mensais. Aprovada pouco antes de maio, a medida apoiada por Bolsonaro incide sobre um dos “penduricalhos” que compõem o soldo do alto oficialato fardado. Para se ter uma ideia, estes militares – cujos salários brutos podem chegar até a 50 mil reais – receberam um aumento que pode atingir o valor de 1600 reais[8]. Com o nome de “adicional de habilitação”, a proposta foi criada no governo FHC como forma de beneficiar aqueles que realizaram cursos ao longo de sua trajetória militar. Tal reajuste constitui a primeira etapa de um conjunto de quatro outras aprovadas por Bolsonaro com vistas a empreender uma alteração de até 73% sobre o soldo de sua categoria.

Desta forma, valendo tanto para militares da ativa quanto da reserva, tal medida cria uma situação na qual um general de quatro estrelas, por exemplo, que representa o topo hierárquico das três Forças, passa a adicionar o valor de R$ 5.600 por mês a seu soldo original de R$ 13.400[9]. Além disso, muitos dos militares do alto oficialato contam com diversos outros benefícios relacionados a fatores tais como tempo de serviço, local de trabalho, etc. que promovem significativos acréscimos aos seus respectivos salários[10]. De acordo com o portal de notícias Terra[11], em cinco anos serão gastos dos cofres públicos R$ 26 bilhões devido ao reajuste empreendido pela gestão de Bolsonaro.

Além do altíssimo valor onerado do governo a longo prazo, a medida chama atenção pelo contexto no qual ela é efetivada: a grave crise social, econômica e sanitária oriunda dos profundos impactos sociais da pandemia do novo coronavírus. Na situação atual, milhões de brasileiros sofrem com as inúmeras dificuldades econômicas geradas pelas rápida disseminação e alto risco de contaminação pela Covid-19 – seja na esfera do desemprego advindo dos profundos cortes de gastos que estão sendo realizados nos mais diversos setores da economia[12], ou no âmbito do microempreendedorismo, que também atravessa momento dramático devido à impossibilidade de abertura de estabelecimentos comerciais (ou então a dificuldade de ter os mesmos rendimentos do período anterior à pandemia)[13]. Diante de tal cenário catastrófico, o governo tem apresentado poucas medidas consistentes que estejam à altura dos desafios econômicos atuais, apoiando-se em um precário auxílio emergencial de 600 reais aos trabalhadores informais, cuja tendência parece dar indícios de redução no valor dispendido para os próximos meses[14].

Neste sentido, levando em consideração os desestimulantes dados a respeito da situação econômica brasileira presente, não é exagero afirmar que a medida de reajuste salarial de uma privilegiada parcela dos militares aparece como uma ação política extremamente inadequada. Por essa razão, o Ministério Público, junto ao Tribunal de Contas da União (TCU), entrou com uma representação na corte de contas para suspender tal aumento no soldo de alguns membros da caserna. Segundo o subprocurador-geral responsável por essa ação, tal medida é ilegal, uma vez que desrespeita a lei, aprovada em maio, “que congelou aumentos em todo o funcionalismo público até o fim de 2021, como medida de enfrentamento à pandemia do novo coronavírus”[15].

Assim, um reajuste salarial de impactos tão significativos nas finanças governamentais em curto, médio e longo prazos, realizado em momento tão economicamente conturbado, carece profundamente de justificativas técnicas. Ainda que não tenha partido publicamente de setores militares, tal medida incide fortemente sobre o alto oficialato – círculo composto, inclusive, por diversos fardados palacianos. Dessa forma, a ausência de manifestações destes atores a respeito da modificação salarial que certamente altera seus rendimentos e a falta de argumentos do campo da eficácia ou do pragmatismo a respeito do reajuste em questão reafirmam o compromisso de importantes parcelas do setor militar com valores políticos e estratégias corporativas que têm como objetivo o incremento da influência política e econômica de seus pares.

As articulações políticas com o Centrão e o STF:

O agravamento da crise acarretada pelos graves impactos sociais, políticos, econômicos e sanitários da pandemia do novo coronavírus colaborou para que a atual gestão governamental realizasse um movimento bastante contraditório com a campanha que levou Bolsonaro à presidência – a saber, articulações políticas de vinculação com o conjunto de partidos políticos do “centro”, o Centrão. Comumente identificado como o representante fidedigno da “velha política”, o Centrão foi alvo de diversas críticas e acusações por parte de Bolsonaro em sua caminhada rumo ao Palácio do Planalto. Hoje, o ex-capitão do Exército não só busca se aproximar gradativamente deste conjunto de partidos, como também lança mão de importantes parcelas do setor militar a fim de efetivar tal vinculação[16].

Dessa maneira, diversas movimentações de articulação política estão sendo empreendidas pelos fardados palacianos em uma clara missão de tentar “salvar” o governo e garantir uma mínima estabilidade institucional para a atual gestão[17]. Diante dos últimos acontecimentos envolvendo a figura do presidente – como a descoberta do paradeiro de Queiroz na casa de Wassef, advogado da família Bolsonaro[18] -, os partidos do centro, fazendo juz à sua pecha de “partidos fisiológicos”, indicaram que o atual governo possui seu apoio enquanto persistirem as cessões de cargos importantes[19] e a liberação de dinheiro para as suas bases eleitorais[20].

Além do Centrão, os militares também têm buscado uma aproximação mais pacífica com o STF[21], uma vez que seus ministros conduzem atualmente dois processos que podem ter impacto devastador no governo Bolsonaro: um é relacionado à disseminação em massa de notícias falsas pelo “gabinete do ódio”, e o outro está ligado ao financiamento de manifestações antidemocráticas por parte de integrantes da atual gestão. Desta maneira, no final de junho, os militares colocaram em prática a ideia de um encontro entre três emissários do governo e o ministro Alexandre de Moraes, em uma clara tentativa de pavimentar bases para uma convivência mais harmoniosa entre o Executivo e o STF[22]. Como demonstrado no último relatório[23], as relações entre essas duas esferas têm sido atravessadas por uma série de desavenças. Outro exemplo desse tipo de aproximação pode ser encontrado na reunião realizada no Setor Militar Urbano por Gilmar Mendes, ministro do STF, e o general Edson Leal Pujol, comandante do Exército. Segundo o jornal O Estado de Minas, na conversa em questão “Gilmar indicou que o Supremo não tem intenção de interromper o mandato de Bolsonaro” e Pujol “deu a entender a existência de um mal-estar nas Forças Armadas com posições de ministros da Corte em relação ao Planalto”[24], em mais uma demonstração explícita de tentativa de construção de um diálogo não violento ou beligerante entre Executivo e STF.

Nos dois exemplos de movimentação política elencados acima (militares e Centrão; militares e STF), não houve a explicitação de qualquer tipo de argumento do campo da técnica ou eficácia administrativas que pautassem tais ações empreendidas por importantes parcelas do setor militar. Assim, fica evidente, mais uma vez, que as atuações dos fardados são informadas, sobretudo, por valores ideológicos e preocupações políticas quanto a sustentação do governo Bolsonaro. Segundo outra matéria do jornal O Estado de Minas, alguns militares inclusive acreditam que se Bolsonaro conseguir adotar um “discurso mais ameno” e promover menos embates com o Congresso e o Judiciário, ele “poderá atrair de volta boa parte dos eleitores que ele perdeu depois que tomou posse”, evidenciando um explícito interesse no desempenho eleitoral do possível candidato em eleições vindouras[25].

A carta de apoio dos “504 Guardiões da Nação”:

Em meados de junho, um grupo de militares – que contava com oficiais das três forças e praças -, junto com outros civis, assinaram uma carta de apoio ao presidente Jair Bolsonaro e de “enérgico repúdio” aos ministros do STF[26]. Intitulando-se como “504 Guardiões da Nação”, o grupo, que também se definiu como os “verdadeiros destinatários e guardiões da Constituição Federal”, buscava causar alvoroço com a publicações de seus posicionamentos manifestamente contrários ao que eles identificam como ameaças a nação – isto é, as ações supostamente “limitadoras” do STF em relação a diversas ações de Bolsonaro[27]. A carta teve pouca repercussão devido ao fato de que sua publicação ocorreu no mesmo dia da prisão de Fabrício Queiroz, fato que monopolizou toda a repercussão midiática naquele momento.

Na carta, é possível observar os autores se colocando em uma posição de autoridade frente aos juízes do STF. Tal posicionamento remete fortemente a uma declaração outrora proferida pelo próprio presidente em uma entrevista à rede Band de televisão – a saber, a de que ele e as Forças Armadas “não aceitariam o resultado de um ‘julgamento político’”, em clara referência à ação que corre no TSE contra a chapa que o elegeu[28]. Desta maneira, é como se Bolsonaro tivesse colocado a si mesmo e aos militares mais próximos de sua gestão em uma posição de “juízes dos juízes”[29]. Não é difícil ver os ecos e a influência de tal declaração na carta posteriormente publicada pelos “504 Guardiões da Nação”.

Ainda que sobre ele tenha recaído pouca repercussão midiática, escolhemos tal episódio recente da política brasileira atual como mais um exemplo de posicionamento público de importantes parcelas do setor militar que não se baseou em qualquer tipo de postulado técnica ou pragmático. O conteúdo da carta de apoio ao Bolsonaro e de denúncia a diversas ações do STF teve como motivação claros valores ideológicos conservadores e princípios políticos extremamente autoritários, evidenciando novamente a inexistência da “máscara técnica” comumente atribuída ao setor militar.

Considerações finais (e um balanço até aqui):

No presente texto, prosseguimos trabalhando com a hipótese postulada desde o primeiro relatório – a saber, o fato de que, diferentemente do discurso tradicionalmente adotado pela maior parte da mídia, a ala militar pauta as suas atuações e manifestações públicas tendo como alicerces fundamentais valores ideológicos e princípios políticos que informam sua identidade de grupo, sintetizados, sobretudo, na supervalorização da hierarquia, na preocupação com a conservação de uma dada “ordem” social e econômica, na defesa de pautas conservadoras, no endosso a arroubos autoritários, na aproximação estratégica em relação ao aparato estatal, na crítica às supostas interferências do Legislativo em suas práticas, na atenção devotada à questão eleitoral, etc.

Tendo em vista os relatórios produzidos de abril até o presente momento, é possível tecermos algumas considerações finais. Acreditamos que a gradativa agudização da crise do coronavírus, iniciada em março, também acarretou um crescente processo de abandono da “máscara técnica” por parte do setor militar, em especial no que diz respeito aos posicionamentos dos fardados palacianos. Se no relatório de abril ainda era possível identificar uma valorização mais ou menos tímida, por parte de importantes parcelas do grupo militar, dos valores políticos e ideológicos que informam a identidade de seu grupo, nos relatórios de maio e junho torna-se evidente um apoio cada vez mais consistente (e, nesse sentido, “desavergonhado”) dos militares em relação aos arroubos autoritários do presidente, evidenciando uma indistinção crescente entre a ala militar e a suposta “ala ideológica”.

Diante dos fatos apresentados acima, parece-nos que os fardados palacianos – pelo menos no período mencionado (entre meados de junho e julho) – começaram a dar mais atenção não tanto aos posicionamentos explícitos de apoio às diferentes manifestações do presidente, mas sim às movimentações “dos bastidores” – isto é, às articulações políticas necessárias para garantir um mínimo de estabilidade ao governo nos próximos meses e, muito provavelmente, até o final do mandato. Se no último mês ainda podemos ver claras críticas à atuação do STF por parte de importantes parcelas do setor militar, vale notar que tais posicionamentos de denúncia não partiram dos ministros da caserna – muito pelo contrário, enquanto outros militares estavam redigindo um documento para manifestar a manutenção de seu repúdio às ações do Supremo, os fardados palacianos estavam mobilizando diferentes atores políticos para encontros com ministros do STF e reuniões com representantes do Centrão. Este tipo de comportamento adotado pela porção da caserna mais estreitamente associada à gestão governamental não é incomum se levarmos em consideração os prejuízos auferidos pelo governo no último mês – a prisão de Queiroz, a revelação de ligação de Queiroz com o advogado da família Bolsonaro, a indeterminação em relação ao Ministério da Educação, os processos que circulam no STF e no TSE em relação ao presidente e à chapa que o elegeu, etc.

Inclusive, no que tange ao caso Queiroz, não deixa de ser curiosa a ausência de manifestações por parte dos militares em relação às fortes evidências de ligação da família Bolsonaro com atuações de milícias cariocas[30]. Das possíveis interpretações para o “silêncio” dos fardados em relação a este assunto, uma forte (e bastante provável) alternativa é que os membros da caserna decidiram assumir uma postura aquiescente no que diz respeito às espúrias conexões de Bolsonaro com milicianos, compactuando acintosamente com a forte influência de uma espécie de “sub-máfia” na gestão governamental[31]. Não seria esse cenário mais uma consistente comprovação do caráter ideológico das ações dos militares na situação política atual?

Neste sentido, como adiantado na introdução do texto presente, o balanço dos relatórios até agora parece evidenciar, a princípio, dois aspectos de relevante potencial reflexivo. Por um lado, em um sentido mais imediato, há uma tímida amenização dos discursos do presidente e das manifestações de apoio, por parte dos militares, aos arroubos autoritários da gestão governamental, de onde podemos depreender que após as “tempestades” dos últimos meses, os membros do grupo militar apostaram, ainda que temporariamente, em um tipo de atuação política um pouco mais “paciente” e menos “efusiva”, excetuando-se, obviamente, algumas importantes parcelas, como os autores da carta analisada acima.

Por outro lado, partindo de uma visão mais processual – que tenta recuperar o desenrolar dos acontecimentos de março até agora -, há fortes indícios de que os profundos impactos sociais decorrentes da pandemia foram, de alguma forma, “normalizados” pela máquina estatal. Como demonstram os professores e coordenadores do NUDEB Josué Medeiros e Pedro Lima no boletim do mês de junho, os conflitos que atravessam atualmente o governo já não guardam mais relações tão estreitas com a pandemia, mas sim com diversos impasses existentes antes da emergência da disseminação do novo coronavírus. Neste sentido, em vez de colaborar para a emergência de novos problemas, a crise atual parece apenas intensificar dilemas já existentes na política brasileira contemporânea, sobretudo aqueles referentes ao desenvolvimento da democracia em nosso país. Em um governo que parece utilizar o caos como método[32] e, por essa razão, sempre realiza um movimento de “dobrar as apostas”[33], não causa tanta surpresa que o “chacoalhamento” promovido pela pandemia da Covid-19 tenha sido incorporado ao modo de funcionamento normal da atual gestão governamental.

Dessa forma, as questões erigidas nos últimos relatórios  – como aquelas referentes às complexas relações entre bolsonarismo e militarismo – continuam pertinentes e, somadas às reflexões elaboradas neste último, compõem importantes perguntas que provavelmente ainda demandarão um tempo relativamente longo de análise política até que seja possível explicitar resoluções consistentes em relação às mesmas. Neste sentido, esperamos que os relatórios produzidos nos últimos meses possam colaborar na construção de investigações críticas a respeito das atuações de diferentes atores políticos que compõem o confuso e conturbado governo Bolsonaro.


[1] Para ter acesso aos demais textos, basta acessar o site do NUDEB: https://nudebufrj.com/

[2] https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/06/18/ministro-da-educacao-abraham-weintraub-anuncia-saida-do-cargo-em-video-com-bolsonaro.ghtml

[3]  https://www.bbc.com/portuguese/brasil-53186682

[4] https://oglobo.globo.com/sociedade/carlos-alberto-decotelli-pede-demissao-deixa-ministerio-da-educacao-1-24507870

[5] https://www.poder360.com.br/governo/militares-da-ativa-ocupam-2-930-cargos-nos-tres-poderes/

[6] https://www.agazeta.com.br/es/politica/escolha-do-ministro-da-educacao-vira-guerra-entre-alas-do-governo-bolsonaro-0720 

[7] https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2020/07/escolha-para-o-mec-e-derrota-da-ala-militar-para-a-politica-tradicional.shtml

[8]https://www.cartacapital.com.br/politica/em-meio-a-recessao-economica-bolsonaro-permite-aumento-adicional-a-militares/ 

[9]https://www.terra.com.br/noticias/brasil/politica/bolsonaro-eleva-penduricalhos-para-atender-militares,96da89c40b42c7678e3a270fa51c03cce71u9g6j.html

[10] Idem

[11] https://www.terra.com.br/noticias/brasil/politica/apos-ameaca-governo-negocia-com-militares-de-baixa-patente,b5a381a1466c8d4209e3b7b6512b3869a7fynpeu.html

[12]https://g1.globo.com/economia/noticia/2020/06/30/desemprego-sobe-para-129percent-em-maio.ghtml

[13]https://valorinveste.globo.com/objetivo/empreenda-se/noticia/2020/07/04/9-em-cada-10-microempreendedores-perderam-renda-durante-a-pandemia.ghtml

[14]https://www.cartacapital.com.br/politica/em-meio-a-recessao-economica-bolsonaro-permite-aumento-adicional-a-militares/

[15]https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2020/07/01/interna_politica,1161663/mp-de-contas-pede-suspensao-de-aumento-no-adicional-de-militares.shtml 

[16]https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2020/07/escolha-para-o-mec-e-derrota-da-ala-militar-para-a-politica-tradicional.shtml

[17]https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2020/06/22/interna_politica,1158930/militares-montam-operacao-de-guerra-para-salvar-governo-bolsonaro.shtml

[18]https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2020/06/22/como-mp-descobriu-que-queiroz-estava-em-atibaia.htm

[19]https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2020/06/22/interna_politica,1158930/militares-montam-operacao-de-guerra-para-salvar-governo-bolsonaro.shtml

[20]https://brasil.elpais.com/brasil/2020-06-20/prisao-de-queiroz-deixa-militares-reticentes-sobre-bolsonaro-enquanto-centrao-aumenta-preco-de-apoio.html

[21]https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2020/06/22/interna_politica,1158837/stf-e-forcas-armadas-buscam-pacificacao.shtml

[22]https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2020/06/22/interna_politica,1158930/militares-montam-operacao-de-guerra-para-salvar-governo-bolsonaro.shtml

[23]https://nudebufrj.com/2020/06/15/para-a-crise-altas-doses-de-cloroquina-e-farde-verde-oliva/

[24]https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2020/06/22/interna_politica,1158837/stf-e-forcas-armadas-buscam-pacificacao.shtml

[25]https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2020/06/26/interna_politica,1160245/para-militares-se-tiver-juizo-bolsonaro-reeleito-no-primeiro-turno.shtml

[26]https://www.defesa.tv.br/504-guardioes-da-nacao-militares-da-reserva-divulgam-manifesto-de-energico-repudio-aos-ministros-do-stf/

[27] https://noticias.uol.com.br/colunas/chico-alves/2020/06/19/em-mais-um-manifesto-militares-da-reserva-so-enxergam-erros-de-um-lado.htm

[28]https://www.acritica.com/channels/cotidiano/news/no-brasil-de-bolsonaro-militares-estao-no-centro-da-crise 

[29]https://noticias.uol.com.br/colunas/reinaldo-azevedo/2020/06/16/ministros-repudiam-fala-de-bolsonaro-que-poe-militares-como-juizes-do-stf.htm

[30] https://blogs.correiobraziliense.com.br/vicente/o-silencio-retumbante-dos-militares-agora-associados-a-queiroz/

[31] https://piaui.folha.uol.com.br/materia/milicos-e-milicias/

[32] NOBRE, Marcos. O caos como método. piauí, p. 151, 2019.                                            

[33]MEDEIROS, Josué. Por que Bolsonaro desafia a Pandemia. Horizonte ao Sul, 2020.

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