Empresariado brasileiro e a pandemia e o pacto com com Bolsonaro pela retomada da economia

Por Bruno Cecchetti

O presente artigo é uma análise das interações mais relevantes noticiadas entre a classe empresarial e o governo Bolsonaro nos últimos quatro meses, desde que a pandemia da Covid-19 foi decretada pela OMS em 11 de março. O objetivo do texto é traçar as mudanças significativas nas dinâmicas desses grupos com o governo e suas formas de se manifestarem, juntamente com uma breve explanação da conjuntura do momento analisado. Pretendemos, com isso, ensaiar uma panorama sobre o modo como o empresariado brasileiro se comportou diante dos conflitos políticos da pandemia.

Aqui retomamos dois conceitos usados no primeiro boletim do Nudeb: “novo empresariado” que é composto principalmente por varejistas que faziam parte do Brasil 200; e “empresariado tradicional” composto por representantes de grupos industriais como a Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp) e a Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan).

Na primeira parte será possível observar que o novo empresariado sofre uma ruptura em seu grupo Brasil 200  com a saída do Sérgio Moro do governo. O duro golpe no governo Bolsonaro refletiu no movimento empresarial e o fragmentou de forma substancial o fazendo perder sua característica, um verdadeiro esvaziamento. E por fim, na segunda parte buscou tornar evidente o enfraquecimento do Bolsonaro e como o empresariado tradicional consegue se aproveitar de um Presidente enfraquecido.

Ruptura Brasil 200 e inquérito das fake news

A ruptura dentro do “novo empresariado” começa com a demissão de Sérgio Moro em 24 de abril, fazendo com que o Instituto Brasil 200 anunciasse o rompimento com Presidente Jair Bolsonaro. Gabriel Kanner, sobrinho do Flávio Rocha e agora presidente do grupo, em seu twitter diz que “Todos que acreditaram no discurso do combate à corrupção se sentem traídos” e afirmou que o “Brasil 200 não pode ser chapa branca”.[1]

Luciano Hang agradeceu Moro pela sua participação no governo mas manteve seu apoio ao Presidente sem qualquer crítica.[2] Flávio Rocha foi outro empresário deste grupo que se manteve totalmente a favor do presidente apesar de também lamentar a saída do Moro, e por discordar da posição do Brasil 200, grupo que ele fundou, anunciou sua saída no dia 5 de maio e através de uma carta publicada no dia 10 ele expôs com mais detalhes sua insatisfação com o rumo do grupo:

O tempo passou, e o movimento ganhou estrutura formal, transformando-se no Instituto Brasil 200. Originalmente um think tank centrado em análises macroeconômicas sobre o futuro do capitalismo e das nações, o instituto viu-se recentemente envolvido no debate da política miúda, aquele que se escreve com “p” minúsculo.[3]

A gota d’água para outros empresários, supostamente, teria sido uma live com o Vice-presidente Hamilton Mourão no dia 7 de maio, quando o tema do impeachment ainda era debatido nas mídias no calor do momento causado pelas denúncias do Sérgio Moro. Outros nome de peso como Edgard Corona (Bio Ritmo), João Appolinário (Polishop) e Sebastião Bomfim (Centauro) saíram do grupo alegando as mesmas insatisfações que o proprietário da Riachuelo.

Já fragmentados pelas divergências empresários como Lucioano Hang e Edgard Corona estão sendo investigado no inquérito das fake News: ambos são suspeitos por impulsionarem ataques virtuais e notícias falsas. Corona teria enviado uma mensagem ao grupo de WhatsApp nomeado “Brasil 200 Empresarial” em que dizia estar precisando de mais dinheiro para impulsionar mensagens contra o Presidente da Câmara, Rodrigo Maia (Democratas-RJ).[4]

Kanner, de acordo com a revista Veja, tenta desvencilhar o Brasil 200 das ações dos integrantes e ex-integrantes.[5] Mas mesmo que consiga desvencilhar, o movimento que antes parecia ascender, agora sofre com a partida de suas figuras mais próximas ao Bolsonaro como Flávio Rocha, e com o silêncios dos seus capitães investigados. A fragmentação aparenta ter custado a relevância no debate público uma vez que eles voltaram com a postura chapa-branca em suas redes sociais, mesmo com o Presidente seguindo uma postura escancaradamente fisiológica com intuito de salvar sua família investigada e a si mesmo do impeachment.[6]

Ressaltamos que o inquérito das fake news não só enfraqueceu o empresariado bolsonarista mas também outros setores do bolsonarismo. O cofundador do Aliança pelo Brasil Luís Felipe Belmonte dos Santos, Daniel Silveira (Partido Social Liberal – RJ), Robertor Jefferson (Partido Trabalhista Brasileiro), Allan dos Santos (Terça Livre), a criminosa agora em prisão domiciliar Sara Winter e o ex-ministro e fugitivo Abraham Weintraub são outros exemplos de bolsonaristas investigados no inquérito.

Empresariado tradicional e Bolsonaro sob pressão

A relação do empresariado tradicional com o presidente Bolsonaro não é linear. Nas eleições de 2018, esse setor estava com os candidatos dos partidos tradicionais (PSDB, PMDB). No segundo turno, apoiaram Bolsonaro contra o PT e passaram o ano de 2019 tentando se aproximar do governo. O caso do presidente da FIESP, Paulo Scaf, é exemplar desta aproximação.

O problema é que o ataque às instituições organizados pelo bolsonarismo e apoiados pelo presidente são também um ataque a estrutura jurídica e política que é fundamental para a manutenção das posições de poder deste setor do empresariado.

 No primeiro momento da pandemia, com a escalada de manifestações contra o Congresso, presidido por Rodrigo Maia (DEM-RJ) e Davi Alcolumbre (DEM-AP), e contra o Supremo Tribunal Federal, esse empresariado se somou às vozes em defesa das instituições democráticas.

Além disso, FIESP e FIRJAM se mobilizaram em favor das políticas apresentadas pelo governo nas MP 927 e a MP 936 que propuseram a flexibilização as relações trabalhistas e desoneração da folha de pagamentos de determinados setores. Mas, passado esse primeiro momento, o empresariado tradicional e seus representantes têm mostrado uma postura mais ativa, isso é, não só defendendo instituições, mas exigindo ainda mais reformas.

Essa postura resulta da sequências de revezes institucionais do presidente desde abril: Bolsoanaro perdeu cinco ministros nos quatro últimos meses (Luiz Henrique Mandetta, Sérgio Moro, Nelson Teich, Regina Duarte e Abraham Weintraub). Seus filhos sãos investigados por corrupção com os esquema de rachadinhas, funcionários fantasmas e também pelo disparo de fake news.[7] Além disso, Bolsonaro também está tendo sua chapa investigada pelo TSE.[8]

E ainda houve uma significativa queda de popularidade com aumento do índice de reprovação de abril até junho em mais de dez pontos.[9] E a estabilização dos índices apresentada no final de junho provavelmente se deve ao auxílio emergencial, que o governo receia em prolongar, que atende os mais pobres, onde o Presidente foi mais bem avaliado.[10] Temos então um presidente se aproximando da impopularidade, sem um quadro estável de funcionários e com sua família suspeita de estar envolvida em diversos esquemas de corrupção.  Por fim, é preciso registrar Rodrigo Maia já recebeu 48 denúncias e pedidos de impeachment.

A situação delicada de Bolsonaro exige do Presidente uma postura mais passiva e comportada como podemos ver em seu twitter após a prisão do seu amigo Fabrício Queiroz.[11] Mas antes disso o presidente já se mostrava ansioso para negociar com o empresariado tradicional, e o empresariado estava disposto a ouvir o Presidente, pois tanto o mandatário quanto os empresários se unificam na pressão para que a atividade econômica retome. 

No dia 7 de maio Bolsonaro caminhou até o STF junto com empresários da Coalizão Indústria e ministros para ter uma conversar não agendada oficialmente com Dias Toffoli, nela os empresários buscaram expor suas aflições ao ministro com a economia prejudicada pelas medidas de isolamento. Bolsonaro também se comprometeu a ampliar o rol de atividades essenciais e de fato o fez, incluindo inclusive os indispensáveis salões de beleza e academias sem consultar Teich o seu ministro da época.[12]

No dia 14 de maio, ainda em guerra com os governadores, Bolsonaro em videoconferência com cerca de 50 representantes da indústria pediu a classe “jogue pesado”, isso é, pressionando os governadores e prefeitos a não aderirem as medidas apropriadas de isolamento para maior segurança da população. Paulo Skaf, presidente da Fiesp, disse que as forças produtivas estavam a disposição do presidente e que o setor “está alinhado com a política econômica do governo”. O empresário também se comprometeu a conversar com outras lideranças do congressos para facilitar as coalizões.[13]

Na mesma reunião Bolsonaro se exalta e critica o Maia por colocar um deputado Orlando Silva (Partido Comunista do Brasil – SP) na relatoria da MP 936. Horas depois da reunião com os representantes Bolsonaro encontra Rodrigo Maia no Palácio do Planalto e após encontro o Presidente afirmou que eles fizeram as pazes e “voltaram a namorar”.[14]

O verdadeiro desafio do Presidente é conseguir realizar a coalizão que ele tanto rejeitava. No dia 7 de julho Bolsonaro, seguindo conselho do ministro da Economia que teme pelo impacto sobre os cofres públicos, vetou o ponto da MP 936 que prorroga a desoneração a desoneração da folha para 17 setores da economia. A intenção de Paulo Guedes é realizar uma desoneração ampla através de uma reedição da impopular CPMF.[15]

Obviamente os setores beneficiados e que também geram mais emprego ficaram descontentes e já estão se articulando para derrubar o veto do Presidente. Maia afirma que há possibilidade do veto ser derrubado.[16] Caberá ao Bolsonaro articular com os líderes e outros atores para viabilizar a proposta do Guedes de forma atraente e eficiente. Ou restará convencer o Paulo Guedes de que é inviável um novo CPMF. De qualquer forma o Presidente sofrerá um desgaste tentando agradar empresários e ministros ainda correndo o risco de aprovar uma reforma ineficiente e até mesmo prejudicial a economia, assim custando a sua popularidade. Enquanto a contrapartida ao empresariado tradicional, se houver, é apenas um intervalo maior até a aprovação de novas reformas.

Conclusão

A base Bolsonarista estava de fato muito amparada no lavajatismo de Moro, e a saída do ex-ministro acabou desmoralizando o presidente, gerando um conflito interno dentro do seu grupo, o Instituto Brasil 200, o que o presidente Gabriel Kanner não contava era que as figuras mais expoentes do grupo não abandonariam o Bolsonaro e ainda sairiam do instituto com o anúncio do rompimento do Brasil 200 com Bolsonaro. Assim demonstrando um enorme desconhecimento da relevância da parcela bolsonarista no seu próprio movimento supostamente anti-corrupção, ou então um probreza estratégica que resultou na perda de espaço no campo político que estava crescente antes da saída do ex-ministro.

Já empresariado tradicional demonstra se fortalecer com as derrotas de Bolsonaro, assim fazendo mais pressão para mais reformas como as propostas da MP 927 e 936. Demonstrou também estar bem representado no congresso haja vista que suas pautas tem sido prioridade na câmara liderada por Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre. E não obstante a mudança de postura do Presidente da República para uma mais razoável e disposta ao diálogo com os empresário e seus representantes, seus vetos continuam sofrendo críticas por irem de encontro ao interesse do empresariado e provavelmente serão derrubados. Se for o caso, estaremos evidenciando a predominância desta classe no campo político e especialmente no congresso.

É notável que o mar de crises do Bolsonaro reflete na sua base, assim perdendo a popularidade que o sustenta e perdendo também seu poder de barganha no congresso. A menos que o projeto do governo bolsonaro seja somente a ocupação da presidência, não parece que o governo faz coalizões em prol da realização de um projeto de interesse nacional, e sim concessões para que Bolsonaro possa sobreviver em seu cargo até a próxima eleição.


[1]https://www.poder360.com.br/governo/presidente-do-instituto-brasil-200-anuncia-rompimento-com-governo-bolsonaro/

[2]A conta do Luciano Hang no twitter foi suspensa após uma decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Dessa forma impossibilitando a referência https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/07/24/contas-bolsonaristas-em-redes-sociais-sao-retiradas-do-ar-apos-decisao-de-moraes.ghtml

[3]http://www.tribunadonorte.com.br/noticia/brasil-200-uma-despedida/479504

[4]https://veja.abril.com.br/politica/presidente-do-brasil-200-afirma-que-grupo-nao-apoia-fake-news/

[5]Ibid.

[6]https://brasil.elpais.com/brasil/2020-04-28/saida-de-sergio-moro-inflaciona-preco-cobrado-por-centrao-para-blindar-bolsonaro-de-impeachment-ou-acao-penal.html

[7] https://www.bbc.com/portuguese/brasil-52419855

[8]https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/05/barroso-assume-tse-em-meio-a-acoes-que-miram-chapa-bolsonaro-mourao.shtml

[9]https://www.poder360.com.br/datapoder360/41-aprovam-e-50-desaprovam-governo-bolsonaro-diz-datapoder360/

[10]https://www.poder360.com.br/datapoder360/bolsonaro-mantem-aprovacao-estavel-em-41-mesmo-depois-de-prisao-de-queiroz/

[11]https://blogs.oglobo.globo.com/sonar-a-escuta-das-redes/post/no-twitter-novo-bolsonaro-deixa-criticas-e-ataques-de-lado.html

[12]https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/05/07/bolsonaro-atravessa-praca-dos-tres-poderes-a-pe-e-vai-ao-stf-acompanhado-de-ministros.ghtml

[13]https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/politica/2020/05/15/interna_politica,855008/bolsonaro-faz-apelo-a-empresarios-para-jogarem-pesado-contra-governa.shtml

[14]https://oglobo.globo.com/brasil/apos-ataque-de-bolsonaro-maia-vai-ao-planalto-1-24427034

[15]https://veja.abril.com.br/economia/por-que-bolsonaro-vetou-a-desoneracao-de-folha-na-sancao-da-mp-do-emprego/

[16]https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/economia/2020/07/08/internas_economia,870272/empresarios-e-congressistas-se-unem-contra-veto-de-bolsonaro-na-mp-936.shtml

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