Eleições municipais 2020: o caso da Região Sul

Por Sofia Gardel

O presente texto tem como objetivo mapear o cenário eleitoral que se desenha hoje nas capitais da região Sul do Brasil (Florianópolis, Curitiba e Porto Alegre) tendo em vista as eleições municipais que ocorrerão em Novembro de 2020 no país. Pretendemos também nos debruçar aqui de forma comparativa sobre as dinâmicas e resultados das eleições recentes (2018/2016) nas mesmas cidades, a fim de adquirir compreensão histórica dos processos de disputa política da região. Partindo de uma moldura que hoje enquadra a crise do coronavírus, a capacidade dos atuais prefeitos ou não de responder a ela, e disputas envolvendo bolsonarismo vs polos alternativos, procuramos compreender não só como estas configurações estão se desenhando nos cenários municipais da região, mas também como correlacionar isto com dinâmicas mais amplas e nacionais. Temos a expectativa, assim, de compreender um pouco mais sobre as dinâmicas de disputa de sociedade num geral, tendo em vista a composição ou não de frentes e coligações – e o que esses estudos locais podem nos ajudar em termos gerais de disputa de sociedade, do indicativo de forças e estratégias de cada campo político. É importante notar, ainda, que esta é uma análise eminentemente inicial, já que muitos partidos ainda estão em fase de pré-candidaturas ou sem candidatos consolidados. A pesquisa foi feita com base em matérias de jornais nacionais e locais, e em dados eleitorais prévios disponibilizados online.

Organizamos este texto dividindo as capitais em tópicos distintos a partir da influência e organização histórica do campo das esquerdas em cada município. De um modo geral, o que procuramos compreender com este texto é não só as próprias dinâmicas das futuras eleições em si, mas tomá-las como ensaios de disputa de sociedade num plano geral e de disputas de projetos com vistas às eleições presidenciais de 2022. Nossa hipótese é a de que, de um modo geral, as esquerdas não têm conseguido se organizar em frentes como alternativas à direita e ao bolsonarismo – e assim, por isso tendem a entrar e sair enfraquecidas dos processos eleitorais apresentados. Apesar da declaração de 02/06 de que “Não pretende apoiar prefeito em lugar nenhum”[1]e de estar sem sigla partidária, Bolsonaro ainda surfa numa onda de popularidade, com projeto político e econômico consolidado que certamente ecoará nas eleições municipais.

Outro fator importante na nossa análise é a nova legislação que proíbe coligações para candidatos a vereador. Isso altera a correlação de forças para possibilidade de coligações na maioria dos municípios, uma vez que siglas que não tiverem candidatos próprios à prefeitura terão mais dificuldades de conquistar cadeiras na Câmara. Conforme uma reportagem publicada pelo jornal Brasil de Fato em 11/02/2020[2], o país poderá ultrapassar a marca de 1 milhão de candidatos a prefeito, vice-prefeito e vereador. Isso coloca mais um possível obstáculo no debate da frente ampla, ou frente de esquerda. Esperamos que o caso da região Sul elucide alguns meandros dos obstáculos, possibilidades e materialidades da consolidação de frentes na disputa não só eleitoral, mas de projetos políticos.

*  *  *

Existe um imaginário geral de que a região Sul seria berço e lócus de um eleitorado especialmente conservador no país. Movimentos separatistas, concentração especial de propaganda nazista nos anos 20 /30 podem ser alguns elementos que entram nessa imagem um pouco real, um pouco fantasiosa. Desde 2006, a maioria dos estados da região teria optado por candidatos da direita nas eleições presidenciais.

Partimos aqui um pouco desse imaginário de forma ampla, para nos debruçar sobre os diferentes estados, e as diferentes capitais. Essa ‘lenda’ tem raízes na própria colonização da região; que, protagonizada especialmente por alemães e italianos, teve um processo formativo diferente do resto do Brasil. A falta de interesse inicial dos portugueses pela região são motivos importantes, pela distância das células de colonização do eixo Sudeste-Nordeste. Mais tarde, mesmo com a ocupação paulista e de luso-brasileiros no território, a agricultura e principalmente a pecuária eram voltadas para dentro, para o próprio local, na contramão do resto do país. O cultivo de subsistência persistiu mesmo no séc. XIX e com a chegada dos imigrantes: o processo produtivo diferenciado (a baixa presença de latifúndios) explica algumas melhoras econômicas importantes e históricas em comparação com o resto do país.

Essa breve trajetória histórica nos ajuda a entender elementos de particularidades do Sul: mas para analisar os processos eleitorais de 2020, queremos compreender também as particularidades de cada município. Assim, compreendemos que tradições políticas distintas organizam os estados, municípios e regiões. No caso do Paraná, por exemplo, o jornalista Nilson Lage explica que a baixa industrialização do Estado nos dá indicativo de porquê o novo sindicalismo – e assim, o processo que culminou na fundação do PT – foi inumeramente mais baixo e mais fraco. Em 2018, os paranaenses deram 57% dos votos à Bolsonaro[3]. Nesse caldo, a região não à toa foi berço da Operação Lava Jato. Já o Rio Grande do Sul, por exemplo – estado onde num geral, o PT é mais forte –, as origens do partido vieram muito mais de uma classe média intelectualizada do que do caldo do novo sindicalismo.

 De um modo geral, se entendemos que os Estados possuem diferenciações importantes, queremos, a partir de suas tradições, organizar os municípios de acordo com seus resultados eleitorais prévios e perspectivas futuras de cada campo político da disputa – direita e esquerda

Curitiba e Florianópolis

A escolha de dividir o texto nesse formato partiu principalmente das divergências de resultados eleitorais e organização política entre os três estados e, especificamente, as três capitais. Apenas tratando dos resultados das eleições presidenciais de 2018, o caso de Porto Alegre entre os 3 foi o único em que no primeiro turno, Haddad foi o segundo candidato mais votado, logo atrás de Bolsonaro – e onde os resultados do segundo turno foram de 56,85% para 43,15% para o candidato petista. No caso das outras capitais, foi Ciro quem ficou logo atrás de Bolsonaro no primeiro turno e os resultados do segundo foram bem mais discrepantes: Bolsonaro venceu em Florianópolis de 64,86% contra 35,14% do petista e em Curitiba, por 76,54% contra 23,46%.[4]

O professor do curso de pós-graduação em Ciência Política da UFPR Emerson Urizzi Cervi, argumenta em entrevista[5] que o Paraná pode ser dividido em: um Paraná tradicional colonizado pelo estado e as regiões norte e oeste, nascidas da venda de propriedades rurais gigantes por empresas loteadoras. “Temos uma direita mais liberal. Ali o PSDB sempre foi muito bem votado.” – e – uma região minoritária, a sudoeste. Mais ligado ao trabalhismo e aos movimentos de luta pela terra. “É um progressismo rural”. Nesse amplo contexto, nos debruçamos no cenário de disputas e Curitiba hoje nos parece ser o caso, ainda, mais caótico, com o maior número de pré-candidaturas até agora e um recorde na história do município. O calendário eleitoral prevê convenções eleitorais de 31 de Agosto a 16 de Setembro, mas por enquanto 19 pré-candidaturas já foram apresentadas. Nessa proliferação, tanto a esquerda quanto a direita se dividiram e apresentaram candidaturas das mais diversas. Isso indica não só a priori uma pulverização dos votos em si, mas da própria possibilidade de disputa, que com base na eleição de 2016 e na análise de cientistas políticos locais[6], ficará centrada principalmente entre o atual prefeito, Rafael Greca (DEM) e o PSD, que ainda não decidiu candidato e é o partido do governador do Estado, Ratinho Júnior. Por enquanto a sinalização do partido é em torno do deputado federal Ney Leprevost, mas existe possibilidade de uma aliança com o DEM. A disputa de 2016 foi justamente entre esses dois candidatos, com Greca ganhando por uma margem de 6,5%. Num jogo que aparentemente começa com cartas tão ‘marcadas’, a tentativa de pulverização dos votos na disputa – principalmente pela direita, que tem mais força – pode colocar um ponto de interrogação sobre as possibilidades do segundo turno. São pelo menos 10 pré-candidatos do campo da direita que já confirmaram suas candidaturas.[7] 

A esquerda também optou por se pulverizar, com candidatos diversos pelo PT, PSOL, PCDOB, PSB e por enquanto dois aparentes candidatos pelo PDT.

No caso de Florianópolis[8], a esquerda têm conseguido aglutinar um polo em torno de uma candidatura unitária, no nome de Elson Pereira (PSOL) – apesar de o vice ainda não ter sido acordado. A direita por sua vez se encontra mais dividida, com o que parecem ser duas possibilidades em jogo. Um dos seus principais nomes, o atual prefeito Gean Loureiro realizou a movimentação em 2019 de desfiliação e nova filiação ao DEM. Isso mudou o cenário das últimas eleições da capital que tradicionalmente divide os aliados do PP (no nome de Angela Amin) e da base do ex-prefeito Dário Berger (MDB). Esse movimento do ex-emedebista de filiação ao DEM aglutinou um polo com PSD, Republicanos, Podemos, PSC e PSDB em torno de si – e portanto uma resposta de outro polo, com Amins e MDBistas. Os bolsonaristas ainda procuram um nome que represente uma candidatura clara – entre os nomes está o suplente de deputado federal Edgar Lopes, do Patriota. Além deles, o Novo aprovou o advogado Orlando Silva como pré-candidato.

Porto Alegre

O caso de Porto Alegre é o caso de uma tradição política diversa, com forte presença histórica de partidos de esquerda (principalmente PT e PDT), que tem lastro em figuras importantes como Leonel Brizola e com marcos históricos importantes de governos petistas duradouros. Esse caldo de experiências bem sucedidas num largo plano histórico, tanto pelo trabalhismo quanto pelo petismo dá à disputa de 2020 em Porto Alegre um ar diferenciado.

No caso do PT, o partido veio a ter um número de mandatos seguidos bastante expressivo (4 mandatos). A tradição trabalhista e de esquerda, que vem de meados dos anos 70/80 e perdura até hoje, sofreu vitórias e recuos ao longo do tempo e dos processos. No seio das duas tradições, medidas como o “modo petista de governar” [9], segundo o historiador Lincoln Secco – explicam esse caldo e parte de uma tradição de esquerda no município. “Porto Alegre foi uma vitrine disso para o PT”, explica. Não à toa, o município ainda foi berço diversas vezes do Fórum Social Mundial.

Mais recentemente, esse ciclo sofreu recuos importantes. Desde meados de 2010, a prefeitura se alterna entre PDT, PMBD e PSDB, culminando na eleição do atual prefeito Nelson Merchezan Junior. Para 2020, o cenário do atual prefeito é de enfrentamento de um processo de impeachment, aprovado pela Câmara Municipal contra ele no dia 5 de Agosto.

Numa situação similar à de Curitiba, o município a priori se depara com um número grande de pré-candidaturas – ainda que num contrapeso ao município paranaense, um número alto de nomes da esquerda (PSOL, PDT e UP lançarão candidaturas, enquanto o PCdoB se coligará com PT numa chapa Manuela D’Avilla/Miguel Rosetto). Merchezan Junior tentará a reeleição com apoio do PSL. De um modo geral, nas grandes metrópoles do Sudeste e do Sul, os favoritos às prefeituras levam vantagem pela reeleição: Merchezan de acordo com o Instituto Paraná Pesquisas, em agosto de 2020 têm pelo menos 20% das intenções de voto.[10]

Conclusão

À luz da nossa tentativa de apresentar e elucidar as possibilidades e desafios da composição de frentes como lócus de uma disputa de projetos entre campos políticos, fica notório que mesmo nas regiões com tradição política clara, essa tentativa hoje fica relativamente difusa, falha ou truncada na maioria dos municípios. O bolsonarismo não é um fenômeno completamente inédito, mas coloca desafios novos para a correlação de forças da esquerda de se organizar enquanto alternativa política. Apesar da situação do campo da direita, como apresentamos acima, também não ser exatamente homogênea entre os partidos – Bolsonaro ainda pode aglutinar votos e expressão importante ao candidato que se ligar à sua imagem. A capacidade de enfrentamento da pandemia certamente vai pesar nas configurações eleitorais deste ano, e a avaliação de respostas a ela principalmente de prefeitos que tentarem a reeleição.

 Ainda assim é importante lembrar que, hoje ainda, não há uma legenda específica para abrigar os bolsonaristas, o que faz com que muitos que se identificam com a figura do mandatário se apresentem para concorrer à mesma prefeitura, dividindo o eleitorado. Sem dúvida, as eleições municipais são uma arena-laboratório primordial para as eleições de 2022, e Bolsonaro sabe disso; por isso, acreditamos aqui, a importância da composição de frentes que consigam ter um sentido e motivo de disputa. Num cenário aparente de refluxo apático para a oposição, que sofreu derrotas marcantes como o golpe da Dilma e a prisão do Lula – mas também com derrotas estruturantes de longa duração, como a reforma trabalhista, a EC95 e a reforma da previdência – a resposta para ‘virar a maré’ política certamente passa pela capacidade de utilizar os processos eleitorais como momentos de efervescência de debates de disputa de temas amplos – como emprego, saúde, educação, etc. Nisso, a breve retomada das tradições políticas dos municípios sulinos nos pareceu importante pela compreensão de caminhos e trajetórias que não só os partidos, mas os projetos e os municípios vivem. No entanto, mais uma vez, a região não se encontra isolada de um contexto político mais geral: as dificuldades e impasses certamente são nacionalizáveis, com uma crise das organizações partidárias com suas bases que não se iniciou e nem se resolverá nos processos eleitorais de 2020.


[1] https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/politica/2020/06/02/interna_politica,860296/bolsonaro-sobre-eleicoes-nao-pretendo-apoiar-prefeito-em-lugar-nenhum.shtml

[2] https://www.brasildefato.com.br/2020/02/11/brasil-pode-ultrapassar-a-marca-de-um-milhao-de-candidatos-nas-eleicoes-2020

[3] https://www.brasildefato.com.br/2020/02/11/brasil-pode-ultrapassar-a-marca-de-um-milhao-de-candidatos-nas-eleicoes-2020

[4] Todos esses resultados são provenientes da plataforma Eleições 2018 da Gazeta do Povo. https://especiais.gazetadopovo.com.br/eleicoes/2018/resultados/

[5] https://www.cartacapital.com.br/carta-capital/antipetismo-parana-moro-dallagnol-gebran/

[6] https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/08/eleicao-em-curitiba-tem-racha-da-centro-direita-e-disputa-por-ratinho-jr.shtml

[7] Fernando Francischini possibilitou seu nome pelo PSL, mas vale lembrar que o partido no Estado é rachado com Bolsonaro.

[8] https://epoca.globo.com/brasil/polo-bolsonarista-florianopolis-organiza-frente-de-esquerda-como-laboratorio-para-2022-24509053

[9] é definido “pela inversão de prioridades com investimentos sociais e orçamento participativo”  https://www.insper.edu.br/noticias/imprensa-primeira-dinastia-do-pt-o-que-porto-alegre-representa-para-o-partido/

[10] https://www.correiobraziliense.com.br/politica/2020/08/4867280-de-carona-com-o-presidente.html

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