Eleições Municipais 2020: São Paulo, Belo Horizonte e Vitória

Por Daniel Sousa

O presente texto tem como objetivo monitorar as eleições municipais de 2020 nas capitais do Sudeste (com exceção do Rio de Janeiro, que tem um acompanhamento próprio). Dessa forma, a pesquisa pretende acompanhar como os campos políticos da direita e da esquerda estão se organizando em São Paulo, Belo Horizonte e Vitória. O texto foi dividido de modo a construir um paralelo de 2012, 2016, e 2018 de forma a deixar mais evidente nossa hipótese de que haverá um protagonismo da direita tradicional diante da fragmentação da esquerda e da indefinição do bolsonarismo.

Para isso, analisamos comparativamente o quadro eleitoral das eleições municipais de 2012 e 2016 e da eleição geral de 2018 a fim de compreender o rearranjo político nas cidades e como ele se situa na projeção para as eleições municipais de 2020 e também para o pleito presidencial de 2022.

As eleições municipais são responsáveis por eleger prefeitos e vereadores para a administração da cidade. Diante da pandemia, as eleições tiveram suas datas referentes ao 1o e 2o turno alteradas dos dias 4 e 25 de outubro, para os dias 15 e 29 de novembro, respectivamente.

Além disso, o Congresso aprovou a suspensão do uso da identificação biométrica com intuito de minimizar o contágio e outras medidas estão sendo estudadas, tais como a ampliação do horário de votação.

Para realizar este estudo, utilizamos como fonte de dados pesquisas realizadas por consultorias disponibilizadas de matérias jornalísticas online.

Retrospectiva das eleições municipais 2012 e 2016 e de 2018.

Em 2012, quando o fenômeno político do lulismo estava no auge da força política, encontramos proporcionalmente mais legendas de centro e de esquerda nas capitais analisadas comparativamente aos outros anos que se sucedem.

Eleições 2012 – Capitais Região Sudeste [1]

CidadesEleitoDerrotado
VitóriaPPS – 52,73%PSDB – 47,27%
São PauloPT – 55,57%PSDB – 44,43%
Belo HorizontePSB – 52,69PT – 40,80%

O ano de 2016 evidencia a mudança de hegemonia política que pode ser verificada nas eleições e também pelo golpe contra a ex-presidente Dilma. O cenário naquele ano era ligeiramente menos conservador comparativamente a 2018.

Eleições 2016 – Capitais Região Sudeste [2]

CidadesEleitoDerrotado
VitóriaPPS – 51,19%SD – 48,81%
São PauloPSDB – 53,29%PT – 16,70%
Belo HorizontePHS – 52,98PSDB – 47,02%

Eleições 2018 – Capitais Região Sudeste (GOVERNADOR)[3]

EstadosEleitoDerrotado
Espírito SantoPSB – 55,49%PSL – 27,22%
São PauloPSDB – 51,75%PSB – 48,25%
Minas GeraisNOVO – 71,80%PSDB – 28,20%

Desta forma, navegando na onda conservadora, candidatos conservadores ancorados no pós golpe aproveitaram o movimento de alta do antipetismo para impulsionar suas candidaturas.

Em são Paulo, João Dória (PSDB) foi eleito prefeito com 3.085.187 (53,29%) dos votos no 1o turno, vencendo o então mandatário, Fernando Haddad. Em 2018, Doria deixaria seu mandato para disputar o pleito de governador de São Paulo, do qual saiu vencedor com 51,75 % contra Márcio França (PSB) no 2o turno. Isso, abriu espaço para seu correligionário Bruno Covas, se tornar prefeito e agora disputar a reeleição. Mas o eixo principal daquele pleito foi Jair Bolsonaro, que venceu no estado e na capital com 67,97% e 60,38%, respectivamente dos votos válidos no segundo turno.[4]

Vitória seguiu a linha de 2016, com a reeleição do prefeito Luciano Rezende (Cidadania) com 98.937 (52,73%) dos votos válidos, derrotando Amaro Neto (Solidariedade), um candidato vinculado a Rede Record. Bolsonaro também foi vitorioso no Estado em 2018, com 54,76% no 2o turno. O diferencial ocorreu nas eleições para governador, com a reeleição de Renato Casagrande (PSB).

Em Minas Gerais, com 628.050 (52,98%) dos votos válidos, Alexandre Kalil, na época filiado ao PHS e hoje PSD, foi eleito prefeito da capital mineira, derrotando João Leite (PSDB), em um quadro marcado por duas candidaturas principais de direita (o que não ocorreu em São Paulo e Vitória).

Em 2018, no Estado de Minas e também na capital, Bolsonaro foi vitorioso com 58,19% e 65,59% dos votos válidos no 2o turno. A eleição para governador foi na mesma direção, alinhando-se ao conservadorismo com a eleição de Romeu Zema (Novo), com 71,80% no 2o turno contra Anastasia, do PSDB, em mais uma disputa que mostra a força da direita no Estado.

Posto isso, dos três estados analisadas, observamos a vitória eleitoral de dois governadores de direita, sendo eles, um alinhado ao bolsonarismo – Zema (NOVO), um de direita tradicional – Dória (PSDB) e o outro de esquerda – Renato Casagrande (PSB). Contudo, todos os três estados promoveram a vitória bolsonarista no pleito presidencial do mesmo ano, consolidando uma tendência de avanço das direitas, juntamente a um enfraquecimento dos partidos de esquerda que vinha ocorrendo desde 2012.

Eleições 2020

O quadro eleitoral para 2020 apresenta uma fragmentação da esquerda e a manutenção de uma tendência conservadora que favorece a direita. Nesse campo, há uma desorganização do campo bolsonarista o que pode favorecer a direita tradicional.

Após uma série de fraturas e eventuais rupturas na direita bolsonarista. O presidente rompeu com o PSL, não viabilizou seu novo partido, Aliança pelo Brasil, abrindo espaço para que os quadros que querem defender seu governo procurem outros partidos. Para agravar a situação, o próprio presidente Jair Bolsonaro, disse “ficará de fora”[5] das eleições municipais no que diz respeito a apoio a candidaturas.

Em caminho tomado por diversos nomes do bolsonarismo “raiz” foi o refúgio no partido do vice do presidente, Hamilton Mourão (PRTB). Levy Fidelix, que é um dos pré candidatos a prefeitura de São Paulo, confirmou, em seu perfil no instagram –Eleições 2020: Sem o Aliança pelo Brasil, o PRTB é uma das opções para Bolsonaristas.”[6], que espera ganhar mais adeptos nesta eleição. Porém, há um intenso fluxo de transferência também para o Republicanos, partido ligado a Rede Record.[7]

Em São Paulo, figuras expressivas se converteram em ex-bolsonaristas, ficando no PSL e rompendo com o presidente, tais como Joice Hasselmann e Arthur do Val. Nesse campo, há a pré-candidatura de Filipe Sabará (NOVO), que foi afilhado político de João Doria e que busca se posicionar para disputar eleitores bolsonaristas em São Paulo[8] juntamente com Andrea Matarazzo (PSD). Nomes próximos a Bolsonaro, como Datena, abdicaram da candidatura, não assumindo a campanha. Outro candidato que vem adquirindo protagonismo nas pesquisas de opinião é Celso Russomanno, (Republicanos), que é deputado federal, tem 24% das intenções de voto,[9] onde de acordo com a pesquisa realizada pelo Ibope Inteligência, ele fica à frente de Bruno Covas, com 18%, empatando na margem de erro.

Por fim, na esfera da direita tradicional, Bruno Covas, candidato à reeleição e correligionário de João Dória que, até o momento dispõe da maior coalizão[10], (PSC, Podemos, Cidadania, DEM e PL), o que dá uma dimensão da sua força e favoritismo. Nesse campo, ele provavelmente terá como adversária a Martha Suplicy (SD).

No que concerne à esquerda paulista, o quadro está quase fechado e apresenta alta fragmentação. O PT indicou o ex secretário dos transportes no governo Haddad, Jilmar Tatto, cuja candidatura começou a ser questionada por petistas quando o PSOL escolheu o candidato a presidente em 2018, Guilherme Boulos. O líder do MTST vem atraindo petistas históricos, ameaçando assim o nome oficial do PT[11]. No PCdoB, há a candidatura do ex-ministro dos Esportes, Orlando Silva.

Por fim, o PSB lançou Márcio França, ex-vice governador de São Paulo e que quase venceu as eleições no Estado em 2018. França conta com o apoio do PDT. Contudo, França se encontrou com Bolsonaro na esteira de acontecimentos no Líbano, o que levou a especulações sobre uma aproximação. O PDT reagiu, na figura do seu presidente nacional. Carlos Lupi (PDT), ameaçando romper a aliança: “O PDT não irá tolerar pré-candidato vinculado ao bolsonarismo. Se houver algum caso, terá sua pré-candidatura suspensa. Estaremos atentos se houver qualquer denúncia”,[12]

Em Belo Horizonte, o atual prefeito e pré-candidato pelo PSD, Alexandre Kalil, tem favoritismo e lidera disparadamente as intenções de voto como representante da direita tradicional na cidade mineira. Alinhados ao discurso bolsonarista, Rodrigo Paiva (NOVO), correligionário do Governador, aparece com 4% das intenções de voto na pesquisa estimulada a frente de Bruno Engler do partido de Hamilton Mourão, onde aparece nas pesquisas de intenção de voto estimulada com 2% das intenções. Engler se destaca como “candidato de bolsonaro” por aproximação ideológica.

Em Belo Horizonte, há uma forte tendência, segundo pesquisas a renovação na câmara dos vereadores, porém o atual candidato ganha força nas pesquisas espontâneas ou estimuladas, uma vez que a oposição é fortemente pulverizada. A atual pré-candidata e ex vereadora, do PSOL, Áurea Carolina que se destacou no pleito municipal de 2016 aparece como alternativa da esquerda juntamente a Nilmário Miranda (PT) e João Vítor Xavier (Cidadania). O destaque da eleição municipal de 2016 fez com que a Psolista, aos 32 anos alcançasse a marca de 17.420 votos em seu primeiro mandato, sendo a mais votada dentre os vereadores de BH. Também foi a única oponente com mais de 1% dos votos nesse cenário, com 1,5% das menções. Nilmário Miranda (PT) também aparece com 2% das intenções de voto na pesquisa estimulada A pesquisa da Quaest contempla João Vítor Xavier (Cidadania) como segundo lugar na pesquisa estimulada com 4% das intenções de votos.

Em Vitória, a direita bolsonarista apresenta dois candidatos: o Coronel Nylton Rodrigues[13] (NOVO) e Capitão Assumção (Patriota), que foi expulso do PSL[14].

Já a direita tradicional apresente o seguinte quadro; Amaro Neto (Republicanos), Cleber Felix (Democratas), Dr. Pinheiro (Patriota), Guto Gomes (DC), Neuzinha (PSDB) e Mazinho dos Anjos (PSD).[15]

Por fim, em Vitória, por estar exercendo o segundo mandato, o atual prefeito Luciano Rezende (Cidadania) não poderá candidatar-se à reeleição. O atual prefeito já definiu sua preferência pelo deputado estadual Fabrício Gandini[16] (Cidadania. A disputa na esquerda é composta ainda pelo ex-prefeito da capital, de 2005 a 2012, além de Deputado Estadual e Federal, João Coser, (PT) e por Namy Chequer[17] (PCdoB), e  Sérgio Sá (PSB).[18]

Conclusão

Subsequentemente, podemos conjecturar que as eleições municipais mostram-se de extrema importância para o entendimento no contexto das eleições de 2022. Como observamos em 2012, a extrema direita bolsonarista ganhou paulatinamente a notoriedade e capilaridade que precisava para protagonizar vitórias significativas no cenário nacional. No entanto, após fraturas decorrente a inúmeros processos de desgaste, apresenta-se altamente pulverizada comparativamente a esquerda que categoricamente luta para se reerguer  no pós-golpe..

Desse modo, a direita mais tradicional nas regiões analisadas, apresenta-se como alternativa ligeiramente mais coesa para a captação de votos dessa direita radical dividida e órfã de sigla.


[1] https://placar.eleicoes.uol.com.br/2012/2turno

[2] https://placar.eleicoes.uol.com.br/2016/2turno/

[3]https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2018/apuracao/brasil/

[4]https://especiais.gazetadopovo.com.br/eleicoes/2018/resultados/mapa-eleitoral-de-presidente-por-estados-2turno/

[5]https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,se-partido-nao-for-aprovado-ate-marco-bolsonaro-fica-fora-da-eleicao-municipal,70003097293

[6] https://www.instagram.com/p/B8G6N1qhjD1/?utm_source=ig_embed

[7] https://oglobo.globo.com/brasil/sem-alianca-prtb-republicanos-vao-abrigar-candidatos-bolsonaristas-24270109

[8]https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2020/07/20/pre-candidato-do-novo-aposta-no-voto-bolsodoria.htm

[9]https://politica.estadao.com.br/noticias/eleicoes,russomanno-tem-24-e-bruno-covas-18-para-prefeito-de-sp-diz-ibope,70003243106?utm_source=twitter:newsfeed&utm_medium=social-organic&utm_campaign=redes-sociais:032020:e&utm_content=:::&utm_term=

[10]https://noticias.r7.com/sao-paulo/eleicoes-2020-sp-tem-cenario-embolado-e-12-pre-candidatos-02082020

[11] https://politica.estadao.com.br/noticias/eleicoes,caetano-chico-e-petistas-historicos-divulgam-manifesto-em-apoio-a-boulos,70003390450

[12]https://www.terra.com.br/amp/noticias/eleicoes/franca-acena-a-bolsonaro-e-pdt-cogita-veto-a-alianca,217689b8bcd772c7244f29c452538bdf3kw0os33.html?__twitter_impression=true https://twitter.com/CarlosLupiPDT/status/1292942281385926658

[13] https://novo.org.br/aprovados/coronel-nylton-rodrigues/

[14] https://www.agazeta.com.br/es/politica/expulso-do-psl-capitao-assumcao-vai-para-o-patriota-0420

[15] https://tribunaonline.com.br/quem-sao-os-pre-candidatos-a-prefeito-na-grande-vitoria

[16] https://cidadania23.org.br/2020/02/19/fabricio-gandini-e-pre-candidato-a-prefeito-do-cidadania-em-vitoria-es/

[17]https://www.agazeta.com.br/colunas/vitor-vogas/curtas-politicas-com-namy-chequer-pcdob-quer-governar-vitoria-0720

[18] https://tribunaonline.com.br/quem-sao-os-pre-candidatos-a-prefeito-na-grande-vitoria

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