Lideranças evangélicas nas eleições municipais de 2016

Por Rennan Pimentel

O presente texto é parte da pesquisa de monitoramento eleitoral do NUDEB sobre o pleito municipal de 2020 nas capitais de Estados e tem por objetivo analisar a influência das lideranças evangélicas nas eleições. Para isso, nesse primeiro número, fizemos um mapeamento do pleito anterior, ocorrido em 2016, em todas as capitais das unidades federativas do Brasil. Observar a composição das chapas para o executivo municipal é importante para compreender como este grupo tem se articulado no âmbito político e como se apresentava naquele ano. Este artigo, além de evidenciar os resultados das eleições de 2016 e expor a influência neopentecostal na esfera política, servirá para um comparativo futuro com as eleições municipais de 2020 para constatar se esta força política cresceu ou recuou.

Nossa pesquisa mostra que os evangélicos saíram vitoriosos em outras capitais, além do Rio de Janeiro. A vitória de Crivella, portanto, não foi uma excepcionalidade, mas resultado de um processo mais amplo e que indica uma força política significativa. Para tal estudo, foram analisadas matérias publicadas em sites jornalísticos como Grupo Globo, El país, Folha, Uol, Terra, noticiário regionais, além de depoimentos de eleitores locais.

A estratégia de domínio político

Iniciamos a pesquisa sobre as lideranças evangélicas no Boletim do NUDEB sobre a política brasileira e a Pandemia de julho de 2020. Argumentamos que essas lideranças têm crescido no cenário político nacional construindo um projeto político de poder cristão fundamentada na defesa de políticas conservadoras. Este grupo já desempenhava certo protagonismo no legislativo de todas as esferas políticas, com eleições de vereadores e deputados federais e estaduais.

Em 2016 com a eleição de Crivella (ex-bispo da Igreja Universal do Reino de Deus) à Prefeitura do Rio e posteriormente, em 2018, com a eleição de Bolsonaro, evidenciou-se a força religiosa na política e que não se resumia apenas ao legislativo. Trata-se se um projeto de poder que visa dominar todos os âmbitos da política, inclusive o executivo, participando de forma protagonista nas tomadas de decisões.

Nossa hipótese é que o ano de 2016 foi decisivo para esse projeto. A presidente Dilma Rousseff sofreu impeachment, o que abriu uma conjuntura de declínio político da esquerda e produziu um ambiente propício a “tomada” do poder.

Visto a isto, as lideranças políticas evangélicas desenvolveram um projeto para consolidar sua força política nas eleições municipais de 2016.  A CONCEPAB (Confederação dos Conselhos de Pastores do Brasil) pela primeira vez, em pleitos eleitorais, criou uma organização para promover e monitorar as candidaturas protestantes [neo]pentecostais, chegando a monitorar de perto 100 candidaturas em todo o Brasil, dentre prefeitos, vice-prefeitos e vereadores e em sua maioria ligados ao Republicanos, antigo PRB, partido vinculado à Igreja Universal do Reino de Deus.[1] O intuito desta organização é criar um ambiente mais hegemônico na política, onde políticos evangélicos reivindiquem as mesmas pautas em todas as esferas políticas, seja esferas legislativas ou executivas.

As candidaturas evangélicas nas eleições municipais de 2016

A eleição de Marcelo Crivella (ex- bispo da Igreja Universal) à prefeitura do Rio de Janeiro, ganhou notoriedade nacional e evidenciou a força política da ala evangélica [neo]pentecostal, entretanto esta influência não se limita apenas a capital do Estado do Rio de Janeiro. Para isso, mapeamos todas as capitais das unidades federativas para analisar a influência político-religiosa em cada região e exibir as chapas com candidatos assumidamente evangélicos

Região Norte

Em Belém, o pleito do executivo contou com 10 candidatos, onde Zenaldo Coutinho (PSDB) saiu vitorioso com 52,33% dos votos válidos no 2º turno. Zenaldo, apesar de não de declarar evangélico, frequentemente é visto na maior congregação evangélica de Belém, a Assembleia de Deus em Belém, da qual recebeu apoio político direto. Entretanto, como não se declara oficialmente evangélico, não contabilizamos como candidatura evangélica vitoriosa.

Bolsonaro esteve nesta igreja juntamente com Coutinho em 2019, onde indignado com uma decisão do STF proferiu: “Será que não está na hora de um evangélico no Supremo?”[2];

Em Boa Vista, a Chapa de Sandro Baré (PP) com o Vice- Pastor Frankenbergen (PSC) ficou em 2º lugar com 9,42 % dos votos válidos[3];

Em Macapá, Aline Gurgel (PRB), ficou em 3º lugar com 11,89% dos votos. Nesta capital, a candidatura vitoriosa foi a de Clécio Luís (REDE), eleito em segundo turno com 60,5% dos votos válidos. Segundo a Folha de São Paulo, Clécio é um candidato evangélico e foi monitorado pela CONCEPAB, entretanto, como não se declara oficialmente evangélico e não achamos outras fontes que confirmem este fato, também não contabilizamos como candidatura evangélica vitoriosa. [4]

Em Manaus, o Pastor Silas Câmara (PRB) ficou em 3º turno com 11,17% dos votos e Hissa Abrahão (PDT) em 6º lugar com 2,65% dos votos[5];

Em Porto Velho também tiveram 2 candidaturas com vice evangélico: Pastor Severino(DEM) ficando em 4º com 15,66% dos votos e Pastor James Melo (PR) com 5,86% dos votos.[6]

Região Nordeste

Em Aracajú, duas candidaturas evangélicas participaram do pleito. Valadares Filho (PSB) com o Vice Pastor Antônio formaram a maior coligação da capital, porém ficaram em 2º lugar no segundo turno com 47,89% e o Ex- Prefeito João Alves Filho (DEM) ficou em 3º lugar com 9,99%[7]

Em Fortaleza, o Cantor Gospel Ronaldo Martins (PRB) ficou em 5º lugar com 4,02% dos votos[8].

Em Maceió, João Henrique Caldas (PSB) ficou com 3º lugar com 21,78% dos votos. Inclusive, JHC já foi denunciado ao Ministério Público Eleitoral por ser flagrado pedindo voto nos cultos religiosos.[9]

Em Salvador, o Pastor Sargento Isidóro (PDT) ficou em 3º lugar na disputa com 8,61% dos votos. Na contramão da maioria dos políticos evangélicos, Isidóro se apresenta como “ex-gay”, antibolsonarista porém conservador. Nas eleições de 2018, declarou apoio ao candidato do PT, Fernando Haddad. [10]

A capital do Maranhão, São Luís, contou com duas candidaturas, sendo uma delas vencedora do pleito. Enivaldo Holanda Junior (PDT), se reelegeu prefeito de São Luís em segundo turno com 53,94% e Eliziane Gama ficou em 4º com 6,19% dos votos. Entretanto Enivaldo é criticado por não ser muito assíduo nos cultos religiosos, diferente de sua opositora evangélica Gama, que participa de todos os atos[11]. Outra questão peculiar é que Enivaldo é alinhado a políticos mais à esquerda, inclusive pediu votos nas igrejas da capital para Flávio Dino (Gov. do Maranhão) na eleição de 2018.[12]

Região Centro-Oeste

A região Centro-Oeste é a única em que todas as capitais tiveram candidaturas evangélicas. Além disso, temos uma questão interessante, em Goiânia e Campo Grande, o 2º turno foi disputado por candidatos evangélicos. Em Goiânia, Iris Rezende (MDB) venceu Vanderlean Cardoso (PSB) com 57,07% dos votos validos. Em Campo Grande Marquinho Trad (PSD) venceu Rose Modesto (PSDB) com 58,77% dos votos válidos. Já em Cuiabá, o pleito não foi exitoso, o candidato evangélico Wilson Santos (PSDB) foi derrotado no 2º turno ficando com 39,59% dos votos válidos.

Região Sudeste

Belo Horizonte contou com 3 candidaturas evangélicas de um total de 11. A mais expressiva foi a do ex-goleiro João Leite da Silva Neto (PSDB) (apelidado de “Goleiro de Deus”), que chegou ao segundo turno, mas foi derrotado com 47,02% dos votos. A chapa de Rodrigo Pacheco (PMDB) com o vice Pastor Vanderlei ficou em 3º com 10,02 % dos votos e Marcelo Álvaro (PR) (Atual Ministro do Turismo) em 9º lugar com 2,71% dos votos.

Em Vitória, Amaro Neto recebeu amplo apoio da ala evangélica e obteve no segundo turno 48,81% dos votos, contra 51,19% do seu adversário Luciano Rezende. Entretanto, como não se declara oficialmente evangélico e não encontramos fontes que confirmem este fato, também não contabilizamos como candidatura evangélica, porém devido ao expressivo apoio, o mapeamos como candidato pró-evangélico.

E por fim, a capital do Rio de Janeiro contou com a candidatura do ex-bispo da Igreja Universal Marcelo Crivella (PRB), no qual saiu vitorioso do segundo turno com 59,36% dos votos, desbancando Marcelo Freixo (PSOL). Entretanto, está não foi a única candidatura evangélica, o Senador Flávio Bolsonaro também se denomina protestante e ficou em 4º lugar com 14,00% dos votos;

As capitais Curitiba, Florianópolis, João Pessoa, Macapá, Natal, Palmas, Porto Alegre, Recife, Rio Branco,  São Paulo e Teresina não apresentaram candidaturas evangélicas. O mapa a seguir sintetiza a pesquisa sobre os evangélicos candidatos nas capitais:

Conclusão

A influência dos evangélicos na política tem crescido a cada eleição. A frente parlamentar evangélica ou popularmente, bancada evangélica, já é composta por 195 deputados, que representam 38% do total de deputados no Congresso Federal[13]. Segundo o IBGE, entre 2000 e 2010, os evangélicos cresceram 61%, representando 22,2% da população, ou 42,3 milhões e o Censo de 2021 mostrará que esse grupo cresceu ainda mais.[14]

Assim sendo, fica evidente que o poderio e a influência dos evangélicos tomou certo protagonismo, tornando-se um grupo político poderoso e influente. As lideranças evangélicas não estão mais apenas nas casas legislativas e passaram a ocupar o executivo também, participando diretamente das tomadas de decisões.

Como evidenciado no mapa, candidaturas evangélicas estiveram presentes em 13 capitais das unidades federativas com 4 vitórias diretas (Rio de Janeiro, Goiânia,  Campo Grande e São Luiz) nas eleições majoritárias de 2016, além de ter outros candidatos com votação expressiva que contaram com apoio aberto das lideranças evangélicas (caso de Belém). Trata-se, portanto, de um quadro de significativa influência no âmbito político a nível nacional. Essas conquistas fazem parte de um projeto amplo de ocupação dos governos, até mesmo da presidência, como vimos com a eleição de Bolsonaro.

Diante do exposto, fica evidente que as lideranças evangélicas têm cada vez mais ocupado postos executivos em praticamente todos os estados da federação, não sendo a cidade do Rio de Janeiro uma excepcionalidade. É preciso acompanhar esse processo e observar como será o desempenho deste grupo nas eleições majoritárias deste ano, para averiguar se seguem crescendo ou se tiveram sua imagem “abalada” junto as polêmicas de Bolsonaro.

É preciso se atentar também as mudanças de discurso. A política evangélica tem buscado atender a uma demanda social mais central e atual, se desvinculando de pautas extremamente religiosas como faziam antes. Crivella se elegeu com essa mudança de discurso, evitou pautas muito polemicas (até que fosse eleito) e focou no cuidado à família. Sendo assim, nos próximos boletins, além do mapa quantitativo das candidaturas evangélicas, desenvolveremos essa dimensão da pauta política desses candidatos.


[1] https://www1.folha.uol.com.br/poder/eleicoes-2016/2016/09/1814577-evangelicos-buscam-atuacao-politica-mais-coesa-com-campanha.shtml

[2] https://www.terra.com.br/noticias/brasil/cidades/sera-que-nao-esta-na-hora-de-um-evangelico-no-supremo-diz-bolsonaro-apos-decisao-sobre-homofobia,0d7d6dcceeb490c46deeb50b7caed90615xyuyn2.html

[3] https://folhabv.com.br/noticia/POLITICA/Roraima/Partido-Progressista-lanca-Sandro-Bare-como-candidato-a-Prefeitura/18965

[4] https://www1.folha.uol.com.br/poder/eleicoes-2016/2016/09/1814577-evangelicos-buscam-atuacao-politica-mais-coesa-com-campanha.shtml

[5]       ibidem

[6] https://veja.abril.com.br/politica/nas-capitais-250-candidatos-vem-de-templos-evangelicos/

[7] https://minutosergipe.com.br/?p=25838

[8] https://blogdoedisonsilva.com.br/2020/03/em-fortaleza-partido-republicanos-vai-apostar-no-potencial-eleitoral-de-ronaldo-martins/

[9] http://gazetaweb.globo.com/gazetadealagoas/noticia.php?c=211898

[10] https://www.huffpostbrasil.com/2016/09/29/pastor-sargento-isidorio-o-ex-gay-que-quer-ser-prefeito-de-sa_n_12252632.html

[11] iegoemir.com/2016/02/diferenca-entre-edivaldo-holanda-junior-e-eliziane-gama-no-campo-religioso/

[12] http://sjnoticiasma.blogspot.com/2018/05/prefeito-edivaldo-holanda-abandona-sao.html

[13] https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,bancada-evangelica-e-13-mais-governista,70003011090

[14] http://g1.globo.com/brasil/noticia/2012/06/numero-de-evangelicos-aumenta-61-em-10-anos-aponta-ibge.html

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