O quadro politico/eleitoral em Niterói/São Gonçalo e Maricá até 2018: esquerda forte e ameaça bolsonarista

Por Bruna Werneck

Este é o primeiro de uma série de textos que pretende monitorar as eleições 2020 nos municípios fluminenses de Niterói, São Gonçalo e Maricá. Pretendemos, ao longo desse ciclo, mapear os campos políticos – direita e esquerda – que se definiram nas eleições de 2018 e analisar seu comportamento (crescimento, recuos e transformações em cada um deles) nos pleitos municipais deste ano.

O objetivo deste texto é resgatar o histórico eleitoral nos municípios fluminenses de Niterói, São Gonçalo e Maricá. O recorte e agrupamento desses municípios foi feito em função de (1) a relevância em termos populacionais (São Gonçalo é o segundo mais populoso do estado) e socioeconômicos (Niterói tem o terceiro maior PIB e o maior IDH, no estado do Rio de Janeiro) e (2) da relação das populações, economias e governos entre os três municípios (um exemplo que temos dessa relação de proximidade foi a articulação para que Niterói e Maricá contribuíssem para o combate à COVID-19 em São Gonçalo, através de doações para a construção de um hospital de campanha no município vizinho[1]).

Nas eleições de 2018, Bolsonaro não apenas obtém a 46,03% dos votos válidos ainda no primeiro turno[2], como seu partido elege a segunda maior bancada na câmara federal – ocupando 52 assentos, atrás apenas do PT que ocupou 54. Além disso, seu campo político ganha a corrida por governos estaduais, de norte a sul do o país.

No estado do Rio de Janeiro, esse fenômeno se confirma e se acentua. Demos expressivos 59,79% dos votos válidos a Bolsonaro, já no primeiro turno[3]. Os dois assentos no Senado foram para candidatos bolsonaristas – um deles, Flávio Bolsonaro, filho do presidente. Na câmara federal, menos de um quarto dos assentos (apenas 10, de um total de 46) foi para candidatos de esquerda ou centro-esquerda[4]. Na assembleia legislativa, esse percentual foi de apenas 20% (14 parlamentares, de um total de 70 vagas). Para o governo estadual, Wilson Witzel – do PSC, que fez toda sua campanha como aliado de Bolsonaro – atingiu a marca 41,28% dos votos[5], sendo praticamente desconhecido do restante do eleitorado.[6]

Nossa hipótese é que o bolsonarismo continua forte em todo o estado do Rio de Janeiro e será a principal força de direita. Porém, nos municípios selecionados há o histórico de governos de esquerda ou centro-esquerda (principalmente Niterói e Maricá), que ocupam a prefeitura hoje e Niterói, em particular, vêm se destacando nas ações de combate à epidemia. Com isso, acreditamos que a correlação de forças entre os dois campos será mais equilibrada do que a observada em 2018.

Dentro da esquerda, é possível que observemos uma transformação no campo favorecendo o polo PDT/Ciro, em detrimento do polo PT/Lula. Nos baseamos no movimento do prefeito de Niterói, Rodrigo Neves, para fazer essa hipótese.

A fontes usadas foram o site do TSE e jornais locai

A ESQUERDA EM 2016 E 2018

Em 2016, ficou evidente a força da esquerda no município de Niterói: dos quatro candidatos à prefeitura, não havia sequer um postulante do campo da direita. O vencedor foi Rodrigo Neves, que à época ocupava a prefeitura, era recém desfiliado do PT, se apresentou para reeleição pelo PV e hoje é filiado ao PDT. Seus concorrentes eram Felipe Peixoto do PSB (que, com o apoio dos partidos de direita, chegou ao segundo turno), Flávio Serafini do PSOL e   Dani Bórnia, do PSTU.

Em Maricá, nesse mesmo pleito, a disputa também foi vencida pela esquerda, com a candidatura de Fabiano Horta, pelo PT. Apesar da vitória já em primeiro turno (com 52% dos votos), vale ressaltar que em segundo lugar, com 45% dos votos, ficou o candidato do DEM, Marcelo Delaroli. Isso expressa um maior equilíbrio, se comparado a Niterói, entre as forças de direita e esquerda no município. Fabiano Horta seguia Washington Quaquá, também do PT, à frente da prefeitura.

Observando os resultados de 2016 em São Gonçalo, já não é possível identificar a mesma força expressiva da esquerda.  O representante deste campo que obteve o melhor resultado foi Brizola Neto, pelo PDT, que galgou apenas o 4º lugar. Duas coisas, no entanto, são dignas de nota, quanto a esquerda no município. A primeira é que, somados, os quatro candidatos do campo – Marlos Costa (PSB), Diego São Paio (REDE) e Prof. Josemar (PSOL), além de Brizola Neto – conquistaram mais de um terço dos votos, que significa uma força relevante. A segunda é que nenhum dos quatro candidatos era do PT. No pleito anterior, de 2012, também não houve candidatos do PT e o candidato do PDT chegou ao 2º turno.

Analisando os resultados das últimas eleições municipais, é possível dizer que a força preponderante de esquerda varia entre os três municípios estudados. Em Maricá, ela é claramente do polo PT/Lula; em São Gonçalo, é do polo PDT/Ciro; e, em Niterói, observamos uma transformação do campo, com o mesmo quadro político (Rodrigo Neves) migrando do PT para o PDT.

Em contraponto, como é possível observar na Figura 1, os resultados das eleições de 2018, apresentam um quadro bem menos otimista para a esquerda, mesmo nesses municípios. Para presidente, a esquerda não alcança a marca de 40% dos votos em nenhum dos municípios. Para governador, não chega nem a 30%.

Na Figura 2 é possível confirmar que há uma variação entre os polos PT/Lula e PDT/Ciro, no eleitorado de esquerda. Em Maricá, a preponderância da força petista é clara, com o Haddad tendo obtido mais do dobro de votos de Ciro Gomes. Em São Gonçalo, a vantagem é menor, com 30% de votos a mais para o petista. Já em Niteroi, é o trabalhista Ciro Gomes, quem obteve 50% de votos a mais e alcançou o segundo lugar no primeiro turno.

 A DIREITA EM 2016 E 2018

Não conseguimos identificar uma força claramente bolsonarista em nenhum dos três municípios, em 2016 (em contraste com a capital, onde Flavio Bolsonaro concorreu e obteve 14% dos votos, pelo PSC). Como mencionamos na seção anterior, em Niterói, a direita ficou completamente ausente do pleito de 2016. Em Maricá, a direita liberal foi representada pela candidatura de Marcelo Delaroli (DEM). E em São Gonçalo, houve diversas candidaturas do campo conservador ou liberal. Nenhuma delas foi particularmente marcada pelo discurso bolsonarista. Voltamos, então, nossas atenções ao pleito de 2018.

Na Figura 3, podemos perceber na votação para presidente, que Bolsonaro praticamente obliterou qualquer outro ator no campo da direita. Em São Gonçalo, ele chegou, sozinho, à marca de 60% dos votos. Mesmo em Niteroi, que havíamos identificado como o município em que a esquerda é mais forte, Bolsonaro levaria a eleição em primeiro turno, com 53% dos votos. Todos os outros sete candidatos de direita juntos, não chegam a somar 10% dos votos em nenhum dos três municípios.[7]

Na corrida estadual, o protagonismo de Witzel foi menor: seus votos corresponderam a aproximadamente metade dos votos da direita. No entanto, ainda é um feito impressionante se considerarmos que foi a primeira vez que se apresentou a um pleito eleitoral, não é natural do estado e, por anos, atuou profissionalmente fora daqui. Por conta deste perfil, ele pode ser utilizado como base para um cálculo do potencial eleitoral do bolsonarismo – desatrelado do nome ou mesmo do partido de Bolsonaro. Nesta região, seus votos corresponderam a 34 a 41% do eleitorado total e 58 a 71% dos votos de Bolsonaro.

Conclusão

Com a votação expressiva que Bolsonaro obteve em 2018 e o recente aumento em sua popularidade[8], após meses de queda, é razoável pressupor que os pleitos municipais, em Niteroi, Maricá e São Gonçalo serão mais difíceis para a esquerda em 2020 do que foram em 2016.  Nesse quadro, é improvável que a direita liberal volte a crescer na região. Quanto à esquerda, acreditamos que a tendência será a manutenção das forças petista, em Maricá, e trabalhista, em São Gonçalo. Em Niteroi, nossa hipótese é a de que veremos o fortalecimento do polo PDT/Ciro, devido ao sucesso das ações de Rodrigo Neves no combate à COVID-19. Desenvolveremos melhor esse quadro eleitoral no próximo boletim em setembro.


[1] A doação não se efetivou por falta de plano de ação do governo estadual para a construção do hospital. Fonte: O SÃO GONÇALO. Disponível em: <https://www.osaogoncalo.com.br/geral/82890/niteroi-e-marica-nao-repassaram-r-90-milhoes-prometidos-a-sao-goncalo-para-construcao-do-hospital-de-campanha>. Acesso em: 14 de agosto de 2020.

[2] Fonte: aplicativo Resultados, da Justiça Eleitoral. Acesso em 14 de agosto de 2020.

[3] Fonte: ESPECIAIS GAZETA DO POVO. Mapa eleitoral de presidente por estados no 1º turno. Disponível em: <https://especiais.gazetadopovo.com.br/eleicoes/2018/resultados/mapa-eleitoral-de-presidente-por-estados/> Acesso em 14 de agosto de 2020

[4] Sobre essa classificação dos campos entre direita e esquerda, nos referimos ao Editorial deste boletim.

[5] Fonte: aplicativo Resultados, da Justiça Eleitoral. Acesso em 14 de agosto de 2020.

[6] Fonte O GLOBO. Quem é Wilson Witzel, que lidera 1º turno e vai ao segundo turno no Rio contra Paes. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/brasil/quem-wilson-witzel-que-lidera-1-turno-vai-ao-segundo-turno-no-rio-contra-paes-23136963>. Acesso em 14 de agosto de 2020.

[7] Fonte: Datapedia. Disponível em: < https://eleicoes.datapedia.info/ > Acesso em: 14 de agosto de 2020.

[8] Fonte: FOLHA. Aprovação a Bolsonaro sobe e é a melhor desde o início do mandato, diz Datafolha. Disponível em: < https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/08/aprovacao-a-bolsonaro-sobe-e-e-a-melhor-desde-o-inicio-do-mandato-diz-datafolha.shtml> Acesso em: 14 de agosto de 2020.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s