Ações e impasses dos movimentos sociais no pós pandemia

Por Cello Latini

O presente boletim analisa as ações dos movimentos sociais no mês de agosto. Em março, os movimentos sociais organizaram redes de solidariedade direcionadas à população mais pobre. De março a julho, avançamos para a análise dos movimentos “Fora Bolsonaro”, que ganharam muita visibilidade e força, e das manifestações nas ruas, ligadas a movimentos antirracistas, e acompanhados também de movimentos antifascistas, em defesa da democracia, dos direitos dos trabalhadores e contra Bolsonaro.

Já em agosto, observamos uma situação semelhante a março. As redes de solidariedade se mantêm, mas os movimentos sociais não agem da mesma maneira: as manifestações nas ruas não atravessam o mês de agosto, e os protestos virtuais não apresentam engajamento popular tão massivo quanto em março. Entendemos, com isso, que os movimentos sociais se enfraqueceram. Enumeramos três fatores que contribuíram para isso: 1) as plataformas pelas quais os movimentos se manifestam estão saturadas – o espaço de militância e mobilização política se refugia no mundo virtual; 2) o espaço de mobilização se vê preso numa bolha que circula os meios de socialização anteriormente comuns; e 3) reuniões, assembléias e manifestações ocorrem somente virtualmente, o que enfraquece sua amplitude e seu impacto social.

Embora o cenário pandêmico tenha criado uma situação caótica no país desde março, as mobilizações populares continuam centradas em redes de solidariedade e iniciativas de doação de alimentos e materiais de higiene. As mobilizações continuam concentradas em reações à postura do governo diante da pandemia. Os grupos engajados nos meses anteriores, como as Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo, continuam se organizando e elaborando novos projetos e redes de solidariedade. Atitudes de solidariedade permanecem na ativa, devido à desassistência do governo, como a Associação dos Vendedores Ambulantes de Belo Horizonte que distribui refeições gratuitamente aos ambulantes desde março.[1]

Além disso, a população reage a possíveis mudanças de postura do governo em relação à reabertura das escolas. A maior parte das manifestações ocorreu virtualmente. Utilizamos como fontes os sites: Brasil de Fato, Diário de Pernambuco, G1, Mundo Sindical, Mídia Max, O Tempo, Século Diário e o site Todo Mundo, da campanha Vamos Precisar de Todo Mundo.

Dia de Luta e Luto e mobilizações de solidariedade

Observamos que o dia 07 de agosto foi marcado por uma série de manifestações contra Bolsonaro e demandando medidas efetivas para combater o coronavírus. Nesse dia, movimentos sociais e cerca de onze centrais sindicais, como a UGT e a CUT, se mobilizaram em São Paulo para homenagear as vidas perdidas para o coronavírus. O dia foi nomeado como “Dia Nacional de Luto, de Luta pela Vida, Emprego e Renda”.[2] O Dia de Luta e Luto contou, ainda, com manifestações em capitais e no interior, e foi composto fortemente por movimentos sociais, como Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo, pela Campanha de Solidariedade e do “Fora Bolsonaro”, somando centenas de pessoas em todo o país. Os manifestantes pediram a saída de Bolsonaro do poder e apontaram para a quantidade de pessoas mortas por covid-19, numa crítica nítida à postura do presidente.

No Rio de Janeiro, o ato ocorreu em frente ao Monumento dos Pracinhas. Em Brasília, ocorreu uma manifestação na Ponte do Bragueto. No Rio Grande do Sul, houve movimentações em frente a hospitais e empresas. Houve colagem de lambes em Rondônia. Em João Pessoa, os atos ocorreram em frente aos Correios, e, em Curitiba, em frente ao Centro Cívico.[3] Em Minas Gerais, o ato foi organizado pela CUT e pelo Sindicato dos Servidores e Empregados Públicos de Belo Horizonte (Sindibel), e ocorreu na Região Central da capital mineira. Houve respeito e atenção às normas sanitárias de proteção. Foram colocadas 1000 cruzes na Praça onde o ato se localizou para representar as vítimas do covid-19, e os manifestantes levaram faixas de “Fora Bolsonaro”.[4]

Ainda em 07 de agosto, diversos grupos do Mato Grosso do Sul publicaram uma carta em defesa da implementação do lockdown em Campo Grande. Ao todo, 37 entidades assinaram o documento, que recebeu o apoio do Sindicato dos Trabalhadores em Seguridade Social no MS.[5]

Já no dia 11, houve um ato em Pernambuco, na cidade de Petrolina, para lembrar as vítimas de coronavírus. Foram colocadas 100 cruzes pretas no chão da Praça Maria Auxiliadora e balões brancos foram lançados.[6]

No dia 20, o MST, com apoio do Fórum Nacional de Educação do Campo (Fonec), se organizou numa campanha contra a volta às aulas presenciais nas escolas, sob o tema “Volta às aulas na pandemia é crime”. A campanha está atuando majoritariamente nos meios virtuais.[7]

Neste ano, o Grito dos Excluídos, organizado anualmente pelas Pastorais Sociais desde 1995, e com apoio da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), terá como lema “Vida em Primeiro Lugar”. A mobilização ocorrerá no dia 07 de setembro e foi anunciado que as atividades serão virtuais e presenciais, devido à pandemia.[8]

Observamos que a maioria das mobilizações do mês de agosto, assim como dos meses anteriores, está ocorrendo nas redes sociais, mas não por isso perdem força. Contudo, há grupos que se manifestam nas ruas, como é foi o caso dos indígenas do povo kayapó mekranoti. No dia 20 de agosto, dezenas de indígenas kayapó mekranoti reforçaram a manutenção do bloqueio da rodovia BR-163, que atravessa a Amazônia, no Pará. É uma das mais importantes rodovias na Amazônia. Os manifestantes demandam ajuda das autoridades para combater e desmatamento e o coronavírus em suas comunidades. Eles receberam ordens de retirada por uma juíza federal, que acionou a Polícia Federal. Os indígenas queimara um documento enviado pela Funai e declararam: “Estamos aqui defendendo a proteção da Amazônia, a proteção do nosso território”.[9]

Ações de solidariedade

Em agosto, as redes de solidariedade iniciadas desde março em virtude da pandemia do covid-19 permaneceram em funcionamento. Percebemos, neste boletim, que as doações de alimentos provêm majoritariamente de grupos agroecológicos, de agricultura familiar e de organizações rurais como o MST.

Em 08 de agosto, a Rede de Bancos Populares de Alimentos, em Recife, foi lançada a fim de receber doações para redistribuir à população periférica da região. A princípio, os alimentos recebidos são de agricultores pernambucanos. Até então, os doadores são assentados do MST e de sindicatos da Federação dos Trabalhadores Rurais, Agricultores e Agricultoras Familiares do Estado de Pernambuco (FETAPE).[10] Espera-se uma arrecadação de dezenas de toneladas de alimentos ao longo do mês de agosto, que serão distribuídas aos 21 bancos populares de distribuição.[11]

Já no Rio Grande do Sul e no Paraná, a campanha Cesta Consciente surte forte impacto em populações em situação de vulnerabilidade. Organizado pela Fundação Luterana Diaconia (FLD), pelo Conselho de Missão entre Povos Indígenas (COMIN) e pelo Centro de Apoio e Promoção da Agroecologia (CAPA), a campanha procure distribuir alimentos, cultivados por grupos agroecológicos, e materiais e higiene. A iniciativa conseguiu beneficiar cerca de 2.300 famílias.[12]

Na Bahia, um projeto chamado Periferia Viva procura unir estudantes, movimentos sociais, igrejas, sindicatos e profissionais da saúde para atender comunidades vulneráveis no contexto da pandemia. Houve distribuição de materiais de higiene e de cerca de 30 toneladas de alimentos – provenientes de agricultura familiar e assentamentos –, bem como a venda de gás de cozinha por um preço menor, a partir de uma parceria com o Sindicato dos Petroleiros da Bahia.[13]

Uma ação de destaque do mês de agosto foi a campanha “Vamos Precisar de Todo Mundo”, encabeçada pelas Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo, com o objetivo de dar força às iniciativas populares de solidariedade.[14] Desde sua criação, a campanha conseguiu doar mais de 3 mil toneladas de alimentos e de materiais de limpeza e de higiene.[15]

Conclusão

Ao longo do mês de agosto, analisamos as articulações de movimentos sociais no contexto amplo de conflitos que não envolveriam somente a situação pandêmica. Porém, percebemos que todas as mobilizações populares possuem alguma conexão com o covid-19, sejam protestos virtuais ou nas ruas. Até os atos para homenagear as vítimas de coronavírus simbolizam politicamente o descontentamento da população em relação à postura governamental. Os movimentos se originam pela necessidade de solidariedade e/ou se unem para formar redes maiores de apoio mútuo, mantendo uma postura constante de oposição ao governo Bolsonaro.

A partir das analises realizadas nesse boletim, entendemos que, ao longo dos próximos meses, a situação não se desviará muito de como está hoje, caso não seja encontrada uma solução diferente para proteger a população do coronavírus. Com o confinamento de parte da população em suas casas, o congelamento de aulas em escolas e universidades, e a dificuldade de grande parte da população em manter financeiramente suas famílias, os movimentos sociais não terão amplitude suficiente para provocar mobilizações populares de impacto político. As redes de solidariedade se prolongarão na medida em que a população necessitar – até porque diversas iniciativas são autônomas –, com apoio de grupos de esquerda, como o MST. Por fim, o que se espera é a constante normalização de um cenário caótico e a população se movimentando para sobreviver mais do que para protestar.


[1]https://www.brasildefatomg.com.br/2020/07/31/sem-ajuda-do-governo-ambulantes-de-belo-horizonte-organizam-propria-rede-de-apoio

[2]https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2020/08/07/movimentos-fazem-manifestacao-e-ato-ecumenico-em-sp-pelos-100-mil-mortos-pela-covid-19-no-brasil.ghtml

[3]https://www.brasildefato.com.br/2020/08/07/veja-como-foram-os-atos-do-fora-bolsonaro-por-todo-o-pais

[4]http://www.mundosindical.com.br/Noticias/47298,Ato-Simbolico-em-BH-denuncia-genocidio-que-vitimou-quase-100-mil-pelo-Covid-19

[5]https://www.midiamax.com.br/cotidiano/2020/em-carta-aberta-entidades-se-mobilizam-por-lockdown-em-campo-grande

[6]https://g1.globo.com/pe/petrolina-regiao/noticia/2020/08/12/ato-simbolico-em-petrolina-lembra-as-mais-de-100-mil-vitimas-da-covid-19-no-brasil.ghtml

[7]https://todomundo.org/?p=5012

[8]https://www.seculodiario.com.br/direitos/e-hora-de-discutir-a-economia-como-cuidado-com-a-casa-comum

[9]https://www.otempo.com.br/brasil/bloqueio-vai-durar-ate-que-as-autoridades-enviem-ajuda-dizem-indigenas-no-para-1.2374891

[10]https://www.brasildefatope.com.br/2020/08/07/rede-de-bancos-populares-de-alimentos-e-lancada-neste-sabado-07-no-recife

[11]https://www.diariodepernambuco.com.br/noticia/vidaurbana/2020/08/rede-de-bancos-populares-de-alimentos-sera-lancada-neste-sabado.html

[12]https://www.brasildefators.com.br/2020/08/07/campanha-cesta-consciente-beneficia-quem-doa-e-quem-recebe

[13]https://www.brasildefatoba.com.br/2020/08/21/periferia-viva-campanha-mobiliza-organizacao-popular-em-tempos-de-pandemia

[14]https://www.brasildefato.com.br/2020/08/16/brasil-se-aproxima-das-108-mil-mortes-por-covid-19

[15]https://todomundo.org/?p=4993

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