Os posicionamentos da mídia brasileira: alinhamentos e incongruências com o Governo Bolsonaro

Por Isabela Neves

Este presente texto tem como pretensão examinar o que denominamos “grande mídia”, investigando seus interesses e posicionamentos. Isto será mapeado a partir da análise dos editoriais dos jornais O Globo e Folha de São Paulo. Coletaremos homogeneidades e contradições no posicionamento da mídia, bem como opiniões sobre o governo Bolsonaro e demais agentes políticos.

Desde março, nosso balanço teve como aspecto central o contexto de pandemia. Nesse momento, o tema já se coloca como “superado” no estudo da política brasileira. As mortes por Covid-19 foram naturalizadas e os conflitos de Jair Bolsonaro com o STF e com a imprensa contaram, em seu desenrolar, com uma aparente e possivelmente transitória “domesticação” de Bolsonaro pelas elites, que cobraram a agenda econômica de reformas neoliberais por todo esse tempo. Ficou explícito que a grande mídia – como parte dessa elite – também insistiu nesse programa, sempre defendendo as reformas administrativa, da previdência, trabalhista e o teto de gastos.

Contudo, dizer que a gestão da pandemia não será contexto central para nossa análise, não significa que esta será esquecida, haja visto que seus resultados ainda entram em debate nos editoriais de ambos os jornais. Também, percebe-se que o posicionamento da mídia dentro do contexto de pandemia é muito homogêneo com relação ao que anteriormente esta já defendia.

Com isso, nossa hipótese é de que o principal tema debatido nos editoriais está inserido na pressão da classe por austeridade fiscal. Os desacordos relacionados aos temas políticos não foram tão intensamente explorados como nos meses anteriores, dado um momento de apaziguamento nos conflitos do presidente com as instituições, mencionado no mês de julho pelo editorial “O período de calmaria por que passa o presidente”[1], de O Globo.

Para trabalhar essa hipótese apuramos os principais assuntos nos editoriais desses jornais mencionados no período de 20 dias, compreendido entre 5 e 25 de agosto.

A agenda econômica e a pauta política: críticas às agressões a jornalistas

Ainda que a imprensa se mostre notoriamente oposicionista ao autoritarismo bolsonarista, como evidenciam os editoriais analisados nos meses passados, essa contrariedade somente aparece mais expressivamente nos editoriais desse mês com relação à agressão verbal que o presidente fez a um jornalista, logo no final do período analisado (no dia 23 de agosto)[2].

Ao ser perguntado por que motivo a primeira dama teria recebido um cheque de R$ 89 mil do casal Fabrício Queiroz e Márcia Aguiar, Bolsonaro respondeu agressivamente. O jornal O Globo repudiou a postura no editorial de título “Sr. Presidente, por que sua mulher recebeu R$ 89 mil do Queiroz?”[3], de 25 de agosto, além de criticar o ocorrido entre Michelle Bolsonaro e Queiroz. A Folha foi pelo mesmo caminho no editorial “Responda, presidente”[4], de 24 de agosto, pressionando o prestar de contas do presidente sobre o caso. Ambos os jornais mencionam uma conduta branda que estaria sendo assumida por ele até então.

Antes do ocorrido, no começo do período analisado, não havia muitos editoriais com críticas a Bolsonaro em relação a temas políticos. O modelo de presidencialismo de coalizão do nosso sistema político parecia não fazer perdurar por tanto tempo os conflitos entre presidência e Congresso, ocasionando, pelo menos, o cessar das declarações que agrediam as instituições, por parte de Bolsonaro.

 Porém, fora do âmbito oposicionista, temos como tema político a questão dos julgamentos de Deltan Dallagnol, que foi submetido ao Conselho Nacional do Ministério Público[5]. Os procedimentos contra Dallagnol eram dois; um vindo de Renan Calheiros (MDB), e outro por parte de Kátia Abreu (PP). Havia, além disso, um processo do ex-presidente Lula contra Dallagnol, relacionado ao julgamento do caso do triplex do Guarujá, que foi arquivado.

Para os temas econômicos, por sua vez, as demandas não muito se modificaram. A pressão pelas políticas de austeridade fiscal continua aparecendo nos editoriais da grande mídia. Nos meses passados isto se manifestou principalmente pela defesa da reforma administrativa. Neste mês, o foco foi no teto de gastos, haja visto que o presidente disse que haveria discussões internas em seu governo que pensavam a opção de furar o teto.

Ademais, observamos também, nesse período, a greve nacional dos Correios[6] e como se deu a sua repercussão nos editoriais dos jornais. Esta teve seu início no dia 17 de agosto e se manifesta contra a perda de direitos advindas da suspensão do acordo coletivo.

O Lavajatismo e a grande mídia

Os editoriais da Folha de São Paulo e de O Globo repercutiram os processos contra Deltan Dallagnol com semelhanças na defesa do Lavajatismo. O jornal O Globo defendeu Dallagnol no editorial “Julgamento de Dallagnol reflete o clima para implodir a Lava-Jato”[7] do dia 17 de agosto, afirmando que a argumentação contra o jurista é frágil, enquanto sua defesa teria argumentos razoáveis.

Na Folha, o editorial que repercutiu o caso, de título “Fôlego à Lava Jato”[8], de 21 de agosto, assume que houve irregularidades na operação; ainda assim, manifestou uma visão positiva da operação, alegando que esta teria alcançado inegáveis resultados no combate à corrupção.

O teto de gastos em questão: permanência na defesa das políticas de austeridade fiscal

Após a declaração de Bolsonaro, em manifestação pública em que alegou que a ideia de furar o teto de gastos existe, os editoriais foram em defesa da permanência da medida.

Na Folha de São Paulo, esse debate se inseriu no editorial “Jair Rousseff”[9], de 21 de agosto, que gerou críticas, inclusive da ombudsman da própria Folha, ao comparar os governos de Dilma Rousseff e Jair Bolsonaro. O editorial sugeria que a ex-presidenta teve seu mandado interrompido devido a “elevação sem limites do gasto público”.

O jornal O Globo repercutiu o caso logo no dia 13 de agosto, pelo editorial “Em vez de mais gastos, é preciso acelerar as reformas”[10]. Não coincidentemente, o editorial também resgatou o período de governo Dilma, alegando que seu impeachment se deveu a crimes fiscais. Esse editorial, já em seu título, representa exatamente o que vínhamos trazendo como debate e defesa centrais da grande mídia: a oposição entre aumento de gastos públicos e políticas de austeridade fiscal, onde a segunda é defendida segundo uma lógica neoliberal.

A mídia privatista: a greve nacional dos trabalhadores dos correios

Os funcionários dos Correios permanecem em greve nacional desde o dia 17[11]. Essa mobilização foi motivada pela redução de direitos dos trabalhadores desse setor. Houve cortes no tempo da licença maternidade de 180 pra 120 dias, no auxílio-creche, no auxílio para filhos com necessidades especiais, no pagamento adicional noturno e de horas extras e indenização por morte. A privatização da estatal já vinha sendo pautada pelo governo Bolsonaro, portanto tal ataque a direitos estaria ligado à intenção de privatizar o serviço.

O editorial intitulado “Greve contínua nos Correios reforça a necessidade de privatização”[12], de 22 de agosto, repercutiu a greve do setor. Como esperado, esse jornal vê a privatização como único caminho possível para a estatal. Além disso, afirma que existe um plano de incerteza quanto à continuidade operacional da empresa, caracterizando-a como ineficiente. A Folha de São Paulo, por seu turno, não repercutiu a mobilização.

Conclusão

Nesse mês de pesquisa, observamos que os posicionamentos econômicos continuam muito semelhantes aos dos meses passados.  O apoio ao modelo econômico que apresenta o governo Bolsonaro – com as medidas de austeridade fiscal – ainda é o elo entre governo e imprensa, sendo que as divergências em temas políticos não são suficientes para um desmanche dessa articulação. Quando esse elo se vê ameaçado, os editoriais logo contestam.

Isto se faz presente na comparação entre a ex-presidenta Dilma Rousseff e o atual presidente. Ainda que os jornais tenham considerado que, até o final do mês, as declarações agressivas, antidemocráticas ou negacionistas do presidente tenham cessado, isto não deveria ser justificativa para alinhamento com um governo autoritário. Mesmo anteriormente, quando havia mais embates nos temas políticos, a grande mídia ainda assim aderia às pautas econômicas e às medidas neoliberais de Paulo Guedes.

Diante da comparação entre o bolsonarismo e o governo de Dilma, que desconsidera os rompantes autoritários e as ameaças de seguidores do presidente até mesmo a funcionários do grupo Globo, sabe-se que não é o tom agressivo de Bolsonaro (quando questionado sobre o depósito de Queiroz para Michelle Bolsonaro) que provocará um desalinhamento entre grande mídia e governo Bolsonaro.

Ademais, vimos também assuntos que dizem respeito ao oposicionismo da grande mídia ao petismo. Tal antagonismo não está somente associado às comparações entre Bolsonaro e Dilma, mas também se manifesta no apoio ao Lavajatismo, que foi um dos responsáveis, com a participação da imprensa, pela demonização do partido.

O antipetismo elegeu Bolsonaro. O atual presidente, quando candidato, se apropriou da pauta anticorrupção, mas seguindo a narrativa que a imprensa lavajatista criou: como restrita aos governos petistas. A atribuição feita pelos editoriais de que os gastos públicos, chamados de excessivos, teriam sido o motivo do impeachment da ex-presidenta evidencia a permanente defesa da política de austeridade, mesmo fora do contexto de pandemia.


[1] https://oglobo.globo.com/opiniao/o-periodo-de-calmaria-por-que-passa-presidente-24502390

[2] https://oglobo.globo.com/brasil/ameaca-de-agressao-de-bolsonaro-reporter-do-globo-repercute-na-imprensa-internacional-1-24603106

[3]https://oglobo.globo.com/opiniao/sr-presidente-por-que-sua-mulher-recebeu-89-mil-do-queiroz-24603546

[4]https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2020/08/responda-presidente.shtml

[5] https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/08/17/celso-de-mello-suspende-processos-contra-dallagnol-em-conselho-do-mp.ghtml

[6] https://www.brasildefato.com.br/2020/08/17/trabalhadores-dos-correios-devem-entrar-em-greve-a-partir-desta-terca

[7] https://oglobo.globo.com/opiniao/julgamento-de-dallagnol-reflete-clima-para-implodir-lava-jato-1-24587612

[8] https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2020/08/folego-a-lava-jato.shtml

[9] https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2020/08/jair-rousseff.shtml

[10] https://oglobo.globo.com/opiniao/em-vez-de-mais-gastos-preciso-acelerar-as-reformas-1-24582886

[11]https://www.brasildefato.com.br/2020/08/23/por-que-o-projeto-de-privatizacao-dos-correios-nao-faz-sentido

[12]https://oglobo.globo.com/opiniao/greve-continua-nos-correios-reforca-necessidade-de-privatizacao-24599772

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