O quadro político eleitoral na cidade de São Paulo

Por Daniel Sousa

O presente texto se propõe a mapear os tensionamentos políticos protagonizados pelos principais campos políticos na capital paulista. Trabalhamos com a hipótese, em consonância com o último boletim, de um quadro de consolidação da direita tradicional no maior colégio eleitoral brasileiro.  Para isso, utilizamos como fonte para nosso estudo as pesquisas cadastradas no TSE e algumas matérias jornalísticas.

O texto foi assim dividido: em um primeiro momento, apresentaremos breve contextualização do quadro político pós-convenções partidárias ocorridas no dia 16 de setembro; em seguida, passaremos à análise de conjuntura.

Em primeiro lugar, ao fazer análise de conjuntura, é necessário compreender que elementos de ordem global e local influenciam o contexto da política nacional no âmbito das eleições de 2020. Com isso, à medida que se formam coligações em torno do presidente, a sua popularidade, assim como a maneira como administra as demandas político-econômicas, tais quais inflação e auxílio emergencial, fazem parte do cálculo dos candidatos.

Em segundo lugar, outros elementos que corroboram na compreensão dos rumos da política nacional são de ordem global. Podem ser tidos como exemplo as eleições norte-americanas e o contexto da pandemia do covid-19. Nesse sentido, a eleição do candidato democrata nos EUA resultaria em perda de força do mandatário brasileiro, uma vez que Biden apresenta-se como crítico ao governo de Jair Bolsonaro[1].

                                                                      A direita liberal

No âmbito da direita tradicional paulistana, é notório que o atual prefeito de São Paulo, e candidato à reeleição Bruno Covas (PSDB), está bem posicionado nas pesquisas de intenção de voto e conta com a maior aliança da eleição, incluindo aí o apoio da ex-prefeita Marta Suplicy.

 Com dez partidos, o candidato dispõe do apoio de vereadores e tempo de televisão, além da máquina da prefeitura à sua disposição. Seu ponto fraco, por enquanto, engajamento nas redes sociais, principalmente da juventude. Vácuo que poderá talvez ser ocupado por candidatos com mais expertise nos meios digitais, assim como com maioapelo à renovação.

Covas enfrenta ainda o desgaste sofrido por seu partido, o PSDB. Correligionário de Aécio Neves, dentre outros, Covas encabeçou a chapa com o vereador, Ricardo Nunes (MDB). A direita tradicional talvez consiga recuperar alguma força depois de 2018 ocupando um vácuo deixado pelo bolsonarismo com sua retórica agressiva. Anunciado por Kassab (PSD), outro candidato disputa espaço na direita tradicional paulista: Andrea Matarazzo (PSD). Matarazzo compõe a chapa com a correligionária Marta Costa, liderança evangélica e já duas vezes vereadora em São Paulo.

                                                                      A direita bolsonarista

No âmbito da direita alinhada ao bolsonarismo, a convenção que ocorreu no dia 16 de setembro oficializou a candidatura de Celso Russomanno e de seu vice, Marco da Costa (PTB). Com essa chapa, consagra-se a terceira aliança de PTB e Russomano (assim como em 2012 e 2016). Costa presidiu a seccional de São Paulo da OAB entre 2013 e 2018[2].

O candidato Russomano, que se posiciona em alinhamento com o presidente, justifica que, para além de seus discursos beligerantes, o mandatário é alguém bem intencionado: “Nós estaremos alinhados ao presidente da República, não porque eu sou amigo dele desde 1995 ou porque hoje sou vice-líder do governo no Congresso, mas porque estamos imbuídos de fazer o melhor para o país”[3].

O candidato contará com a ajuda do correligionário Carlos Bolsonaro nas redes sociais, o que pode ser uma grande vantagem, uma vez que a internet tem sido palco de uma arena virtual. Esse ano, na internet, circulou a imagem de Celso ligada a uma enxurrada de memes, o que populariza sua imagem para além do público já consolidado da televisão.

Já no âmbito da direita mais radical que pode ser entendida como “bolsonarista”, ainda que órfã do presidente por diversos rachas, existem as candidaturas de Joice Hasselman (PSL), ex-líder de governo e de Arthur do Val (DEM) ambos com muita forte na internet. Do Val, membro do MBL, grupo que surgiu com grande popularidade nas manifestações de 2014, voltou às páginas dos jornais por atacar o padre Júlio Lancelotti. O padre tem sido vítima de ameaças ao ter seu nome associado ao título de “defensor de noia”. Sabe-se que a tática de polarização – Divide et impera – nas redes, onde se visa alcançar relevância nos trends, não é nova e se consolidou em 2016 com as eleições de Donald Trump.

                                                                      A divisão das esquerdas

No que concerne à esquerda, hoje a principal candidatura nas pesquisas eleitorais é Guilherme Boulos (PSOL). O candidato ganhou apoio de importantes setores da classe artísticas e intelectual e em tradicionais apoiadores do PT, tais como Caetano Veloso, o diplomata Celso Amorim e o religioso Frei Betto. A chapa Boulos-Luiza Erundina ganhou oficialmente o apoio do PCB (que abriu mão da pré-candidatura do professor Antonio Carlos Mazzeo para formar uma “frente única”) e do Partido Unidade Popular (que abriu mão da candidatura de Vivian Mendes). Segundo pesquisas, Boulos absorve a maior parte do eleitorado que escolheu Haddad em 2018.

Por outro lado, o PT encontra-se isolado na disputa. Alianças antigas com partidos historicamente aliados, como o PCdoB, não se concretizaram e a candidatura de Tatto (PT) foi questionada pelo próprio partido. No mais, a disputa para o pleito deve adotar o tom das administrações passadas do partido na região, com o exemplo da gestão de Marta Suplicy e Luiza Erundina à frente da prefeitura.

Outro candidato que está bem posicionado na esquerda, ainda que tenha passado por atritos com sua chapa, Márcio França (PSB) tem facilidade em articulação com ambos os espectros políticos, além de se mostrar um político sereno. Seu desempenho não parece gerar tanto apelo na juventude e nos anseios de renovação política. A campanha de França conta com o apoio de PDT, Avante, Solidariedade e PMN e está perto dos três primeiros colocados nas pesquisas.

Conclusão

A capital paulista, o maior colégio eleitoral do Brasil, terá 14 candidaturas. Nesse mapeamento, observamos que a direita tradicional permanece bem posicionada a partir da candidatura do atual prefeito Bruno Covas. Seu principal adversário, por enquanto, é Russomanno, expoente da direita mais radical, que busca se relacionar com o bolsonarismo. Covas conta com o voto da esquerda em um eventual 2o turno.

Neste campo, há uma expectativa com um possível crescimento de Boulos, do PSOL, cuja candidatura vem empolgando setores progressistas e também com o crescimento e Márcio França (PSB), que em 2018 como candidato ao governo venceu na capital e que tenta fugir das polarizações clássicas.  Quanto ao PT, fica o apelo a memória de vitórias passadas, que o partido pretende relembrar com o lema da campanha “quem defende você é o PT”, apontando para suas vitórias na capital paulista.

Acompanharemos o quadro nos próximos boletins.


[1] https://www.bbc.com/portuguese/internacional-53788713

[2]https://republicanos10.org.br/municipal/republicanos-oficializa-celso-russomanno-a-prefeitura-de-sao-paulo/

[3]https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2020/09/16/republicanos-confirma-celso-russomanno-candidato-a-prefeitura-de-sao-paulo.htm

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