As eleições municipais de 2020 na Região Sul

Por Wanderson de Mello

O presente boletim tem como objetivo mapear as eleições municipais de 2020 nas capitais da Região Sul: Curitiba – PR; Florianópolis – SC; Porto Alegre – RS, buscando analisar como os campos políticos da esquerda e da direita se organizam para o pleito.

O método adotado para este boletim partiu da análise histórica – as eleições municipais de 2008, 2012 e 2016 -, para entender a modificações sofridas pelas disputas em paralelo com momentos críticos da política nacional, para enfim chegar nas eleições de 2020.

Nossa hipótese é que a direita liberal domina as eleições nas capitais do Rio Grande do Sul contra uma esquerda fragmentada e diante de um bolsonarismo com força, porém ainda desorganizado do ponto de vista das candidaturas.

 As fontes usadas foram wikipédia, datapédia, além de portais de notícia locais e nacionais como G1 e UOL.

Entre o Mensalão e a Lava-Jato

As eleições municipais das capitais na região Sul de 2008 e 2012 representam dois momentos distintos da história política do Brasil. A primeira pouco após o estopim do Mensalão e da primeira crise do PT e a reeleição do Ex-presidente Lula em 2006. Esse é um momento, que tende a ser identificado como o período-chave para a solidificação do lulismo como um fenômeno político no Brasil e as capitais do Sul foram um campo de batalha entre o PT e seus adversários. Já as eleições de 2012 ocorreram período de hegemonia do lulismo, quando o ex-presidente gozava de popularidade recorde e também Dilma Rousseff, sua sucessora, era bem avaliada.

Em Curitiba, as eleições de 2008 marcaram um domínio absoluto do PSDB com a vitória, no 1o turno, de Beto Richa, contra a petista Gleisi Hoffmann. Já em 2012, ocorreu não só a vitória de um partido de esquerda (PDT) com Gustavo Fruet, mas em coligação com PT na figura da Vice-prefeita Paula Salamuni. No 1o turno a chapa PDT – PT conseguiu 27% dos votos válidos dos votos, apenas um ponto percentual a mais que o terceiro colocado – o então prefeito Luciano Ducci (PSB). No 2o turno não somente, capturou a maioria do eleitorado, mas tirou parte dos votos do adversário Ratinho Jr. (PSC) e dos votos brancos e nulos.

Eleições Curitiba – 2008/2012

PleitoLíder/Eleito2º Colocado
2008PSDB – 77,27%PT – 18.17 %
2012 – 1º TurnoPSC – 34,09%PDT – 27,22%
2012 – 2º TurnoPDT – 60,65%PSC – 39,35%

Em Florianópolis, o campo de esquerda no geral não conseguiu sequer chegar ao 2o turno. Em 2008 as eleições municipais foram dominadas pelos partidos da direita liberal e suas coligações. A única presença real de esquerda foi Angela Albino (PCdoB) com 12.50%.  Já em 2012, o cenário de dois partidos de direita avançando para o 2o turno se repete, mas desta vez a esquerda ocupa um espaço mais efetivo na disputa eleitoral. De um lado, Angela Albino (PCdoB) alcança 25,03% dos votos válidos e de outro Elson Pereira (PSOL) com 14,42% dos votos válidos. A fragmentação pode explicar a incapacidade da esquerda em disputar para valer na capital catarinense.

Eleições Florianópolis – 2008/2012

PleitoEleitoDerrotado
2008PMDB – 57,68%PP – 42,32%
2012PSD – 52,64%PMDB – 47,36%

Porto Alegre e o Rio Grande do Sul, historicamente, tiveram grande influência esquerda em geral e do PT em particular na sua política local. É nessa conjuntura que podemos perceber que mesmo após o Escândalo do Mensalão e as trocas de base do lulismo, Porto Alegre continuou sendo um espaço de grande disputa entre as forças de esquerda e direta pela vitória eleitoral nas eleições para Presidente, quase sempre com uma margem pequena no 1o turno. Nesse mesmo contexto de amplo apoio da esquerda em Porto Alegre verifica-se a fragmentação das candidaturas de esquerda.

Em 2008 foram três candidaturas expressivas da esquerda Maria do Rosário (PT), Manuela  D’Ávila (PCdoB) e Luciana Genro (PSOL), com a reeleição de José Fogaça (PMDB), antes do PPS, no segundo turno. Em 2012, temos nominalmente, o completo domínio de partidos de esquerda na disputa municipal da cidade, com a vitória de José Alberto Fortunati (PDT) no 1o turno com o segundo colocado sendo outro partido de esquerda, o PC do B.

Eleições Porto Alegre – 2008/2012

PleitoEleitoDerrotado
2008PMDB – 58,95%PT – 41,05%
2012PDT – 65,22%PCdoB – 17,76%

As capitais da Região Sul pós-Junho de 2013,  Lava-Jato e Golpe

O grande choque político causado por Junho de 2013, pela Lava-Jato e pelo Golpe causaram repercussões nos cenários políticos nas capitais do Sul. O sentimento de antipolítica, que marcou esse período de grande crise do lulismo, trouxe para os pleitos municipais um fenômeno novo de aumento substantivo das abstenções. Com exceção de Florianópolis, que manteve sua média histórica, as capitais do Sul tiveram as abstenções ultrapassam 20% do eleitorado. A esquerda, no geral, foi derrotada em todos os pleitos, logo no 1o turno.

Em Curitiba, a origem da Lava-Jato, o prefeito candidato à reeleição pelo PDT em 2016 não conseguiu passar para o 2o turno com 20,03% dos votos válidos, cerca de três pontos percentuais atrás do segundo colocado. A disputa se consolidou entre os partidos de direita liberal. O mais curioso foi a reabilitação do candidato vencedor – ex-prefeito Rafael Greca (PMN) que liderava quase todas as pesquisas de rejeição nas eleições de 2012[2]. A coligação de Greca reuniu desde o partido do governador Beto Richa (PSDB), o PSB, Democratas, PTN, PTdoB e PSDC[3].

Em Florianópolis, os votos foram disputados no 2o turno de 2016 também por dois partidos de direita. A única candidatura liderada por um partido de esquerda com potência foi a de Elson Pereira (PSOL), que conseguiu 20,60% dos votos válidos, cerca de quatro pontos percentuais atrás do segundo colocado. Novamente, a fragmentação da esquerda, com outras duas candidaturas, pode explicar sua ausência no 2o turno. Outra questão importante da disputa é a super-coligação do PMDB com PSDB, DEM, PDT, PRB, PRTB, PSC, PTB, PTN, SD, PR, PRP, PPS, PPL, PTC.

Nas eleições de Porto Alegre de 2016, um grande recuo das chapas de esquerda ocorreu. O pleito foi disputado no 1o turno pela gigantesca coligação encabeçada por Sebastião Melo (PMDB), com Juliana Brizola (PDT) como vice.  Dois eventos são marcantes nessa disputa: (1) Manuela D’Ávila, favorita na pré-campanha, decidiu não concorrer neste ano e a subsequente aliança do PCdoB com o PT[4]; (2) a disputa interna no PSDB pela candidatura[5], encerrada após a intervenção de Aécio Neves.

A fragmentação da esquerda foi um fenômeno ocorrido na disputa eleitoral. Luciana Genro (PSOL) agarrou 12,06% dos votos válidos, enquanto a candidatura de Raul Pont (PT) que conseguiu, mesmo com o apoio de Manuela, apenas 16,37%, sete pontos percentuais a menos que o segundo colocado.

Eleições Sul – 2016 (% votos válidos)

CidadeEleitoDerrotado
Curitiba – PRPMN – 53,25%PSD – 46,75%
Florianópolis – SCPMDB – 50,26%PP – 49,74%
Porto Alegre – RSPSDB – 60,50%PMDB – 39,50%

Eleições Sul – 2016 (% votos brancos, nulos/ % abstenções)

CidadeBrancos e nulosAbstenções
Curitiba – PR15,8%20,12%
Florianópolis – SC15,98%16,18%
Porto Alegre – RS19,0325,26%

O cenário atual e o fator bolsonarismo

A Região Sul foi uma sólida base para a eleição de Bolsonaro e da direita[6]. Se, por um lado, a disputa eleitoral de 2020, poderia ser um importante termômetro para o bolsonarismo, é perceptível o caráter desorganizado dessa força, essencialmente centrado na disputa nacional. Assim, conforme hipótese da primeira edição deste boletim eleitoral (ver https://nudebufrj.com/2020/08/18/as-eleicoes-municipais-de-2020-e-a-politica-brasileira/), a direita liberal se aproveita para hegemonizar o pleito, sem necessariamente garantir esses votos na eleição nacional.

As conjunturas das capitais do Sul, apesar de distintas entre si, apresentam linhas gerais comum. 

De início, Curitiba apresenta uma grande quantidade de candidatos – 16 – dos quais apenas 5, já exerceram cargos públicos eletivos ou se candidataram[7]. Curitiba também é a única capital do Sul a ter uma candidatura do PSL, partido de grande parte da base governista e antigo partido do presidente. Essa também é a única capital, com uma chapa cabeçada pelo PT, que também é o único cenário de grande fragmentação da esquerda, com candidaturas do PDT, PSOL, PCdoB.

A candidatura Marisa Lobo, do Avante é, até o momento, a única que de imediato absorveu o discurso bolsonarista, do retorno ao conservadorismo, do combate à ideologia de gênero, entre outros.  Já na direita liberal, , se destaca a tentativa de reeleição de Rafael Greca, do DEM,

Florianópolis deu expressiva vitória eleitoral a Bolsonaro – 64,86% dos votos válidos[8].  Para 2020, apenas três dos nove candidatos nunca ocuparam cargo público eletivo ou se candidataram[9].  Esse fator é interessante em razão da grande ênfase bolsonarista na “renovação” e foi nesse moto que o Congresso Nacional sofreu uma troca de lideranças e de personalidades expressivas.

Em novembro, Gean Loureiro (DEM) e Angela Amin (PP), atual prefeito e ex-prefeita de Florianópolis  irão se enfrentar novamente, assim como fizeram no 2o turno do último pleito, o que sugere que ambos possam estar no caminho do domínio da disputa novamente. A esquerda, na figura de liderança do PSOL, lançou pela terceira vez a candidatura de Elson Pereira, que conseguiu desta vez consolidar uma grande frente de esquerda composta, até agora, por PT, PDT, PSB, PCdoB, Rede e UP. Se bem sucedida em ir ao 2o turno, essa unidade reforçará a hipótese de que a fragmentação nos pleitos anteriores foi decisiva para o insucesso das esquerdas.

A candidatura do empresário e advogado Helio Cesar Bairros, do Patriota é a que apresenta adesão ao bolsonarismo, com a policial federal para vice e aposta no mesmo fenômeno que elegeu Bolsonaro para ultrapassar as candidaturas da direita liberal já consolidadas na cidade.

Em Porto Alegre, a disputa eleitoral é mais balanceada, com 13 candidatos, oito dos quais já ocuparam ou se candidataram para cargos públicos. De um lado, a esquerda não conseguiu estabelecer uma estabelecer uma frente. No entanto, Manuela D’Ávila, conseguiu a união liderada PCdoB com o PT que, há 40 anos, sempre escolheu disputar a prefeitura de Porto Alegre[10]. O PSOL lançou a deputada federal Fernanda Melchionna, após não conseguir negociar a posição de vice, chapa PCdoB – PT, para a sua atual candidata à prefeitura. PDT também lançou candidatura própria. Já no centro e na direita, a grande dificuldade será de perceber as separações e as sobreposições entre um e outro.

O atual prefeito Nelson Marchezan Júnior (PSDB) tenta a reeleição em coligação com PL, sendo o candidato a vice e conta com o PSL na coligação. Esta será, provavelmente, a candidatura que buscará os votos bolsonaristas.

Outra candidatura importante será a de Sebastião Melo, pelo MDB, que também disputou o pleito em 2016, ficando em segundo colocado. A coligação de Melo conta com Cidadania, Solidariedade, PRTB, DC e PTC.

Conclusão

As eleições de 2020 nas capitais da Região Sul tendem a representar o mesmo cenário de 2016, onde partidos de direita liberal protagonizaram as disputas. O fator bolsonarismo e a direita radical estão desorganizados, porém tendem a pautar politicamente a direita liberal tradicional nas cidades.

A grande novidade é a tentativa do PT de se adaptar e se ligar a candidaturas lideradas por outros partidos. Florianópolis, a frente possui o maior número de partidos. Curitiba e Porto Alegre, por outro lado não foram tão bem-sucedidas em uma união geral das esquerdas, pois além do valor simbólico da primeira, a segunda possui, um longo histórico de disputa entre as esquerdas. Ainda assim, na capital gaúcha, a chapa PC do B-PT manda um sinal de unidade que antes não existia.


[1]  Wanderson de Mello é graduando em ciências sociais no IFCS e pesquisador do NUDEB

[2] https://noticias.uol.com.br/fernandorodrigues/pesquisas/2012/1turno/prefeito/curitiba.jhtm

[3] https://www.tribunapr.com.br/noticias/politica/greca-justifica-aliancas-e-diz-que-beto-richa-foi-um-bom-prefeito/

[4] https://www.sul21.com.br/areazero/2016/07/pt-e-pcdob-fecham-alianca-e-definem-vice-na-chapa-de-raul/

[5] https://www.jornaldocomercio.com/site/noticia.php?codn=206632

[6] http://divulga.tse.jus.br/oficial/index.html

[7] https://g1.globo.com/pr/parana/eleicoes/2020/noticia/2020/09/04/candidatos-a-prefeito-em-curitiba-nas-eleicoes-2020-veja-quem-sao.ghtml

[8] https://eleicoes.datapedia.info/eleicao/2018/SC/81051

[9] https://g1.globo.com/sc/santa-catarina/eleicoes/2020/noticia/2020/09/07/convencoes-definem-candidaturas-a-prefeito-de-florianopolis-nas-eleicoes-2020-veja-os-nomes.ghtml

[10] https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2020/09/17/pt-eleicoes-nas-capitais-do-sul-do-brasil.htm

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