Ainda a antipolítica

Por Josué Medeiros

As eleições municipais de 2020 finalmente começaram em 27 de setembro e, principalmente, com o horário eleitoral gratuito a partir de 09 de outubro. Candidatos nas ruas e redes, nas TVs e rádios em todo o Brasil. Isso é que consta nos prazos do TSE, nas agendas dos partidos, nas programações da emissoras de comunicação e nos algoritmos. Mas e na vida das pessoas?

O clima é de desmobilização generalizada. A pandemia da Covid-19 com seus mais de 150 mil mortos representa um desafio novo para as campanhas. Mas além desse fator imprevisto, dinâmicas estruturais de enfraquecimento do papel ativo e mobilizador das eleições vão se impondo sem muita resistência: primeiro, a redução estrutural das campanhas. Trata-se de medida supostamente saneadora. Com menos gastos, menos dinheiro e menos corrupção. Na prática, o que temos é uma diminuição significativa dos mecanismos que ajudavam as pessoas a ver as campanhas no dia a dia. Cartazes nas casas e postes e outdoors eram fundamentais para capilarizar o pleito nos bairros. No mesmo sentido veio o veto a showmícios e apresentações culturais e artísticas. Completando o quadro, o tempo de campanha foi reduzido bruscamente, de 90 para 45 dias, o que diminui ainda mais as possibilidades de escolha.

Para piorar, o processo eleitoral em 2020 começou com uma ofensiva das redes de televisão contra os debates entre os candidatos. O argumento das empresas de comunicação é da inviabilidade de organizar um bom embate entre os postulantes com um número tão grande de pretendentes às prefeituras, sobretudo durante a pandemia, quando as aglomerações devem ser evitadas.

Não há na lei nenhum dispositivo que permita às emissoras limitar o número de candidatos presentes em um debate. Ao mesmo tempo, embora sejam concessões públicas, não pesa sobre elas nenhuma obrigação de contribuir com as eleições promovendo os encontros entre os prefeitáveis.

Quem ganha com isso tudo?

                   O crescimento do não voto nas pesquisas

O resultado da apatia é visível nas pesquisas. Pegamos aqui os exemplos de Rio de Janeiro e São Paulo, comparando apenas os pleitos de 2016 e 2020. O crescimento de quem declara que não sabe em quem vai votar ou que já decidiu pelo voto nulo ou branco cresceu significativamente nas duas capitais.

No Rio de Janeiro, na primeira pesquisa de 2016 76% dos entrevistados se encontravam no campo do não voto (entendido como a soma de abstenções, votos brancos e nulos) quando perguntados espontaneamente. Na primeira pesquisa de 2020, o número não foi muito diferente, com 74% dos entrevistados declarando não saber em quem votar ou que votariam branco e nulo.

A diferença aparece com mais força quando comparamos a segunda pesquisa em cada pleito, já com o horário eleitoral iniciado. Em 2016, o número caiu para 51% e em 2020 a redução foi para 57%. Com a margem de erro, cerca de 2/3 do eleitorado ameaça não votar em ninguém nessas eleições.

O quadro não melhora muito quando analisamos os números nas pesquisas estimuladas, aquelas em que o entrevistado tem diante de si os nomes para escolher. Em 2016, o patamar de possíveis abstenções começou em 25% na primeira pesquisa e caiu para 23% na segunda. Em 2020, começou com incríveis 36% no primeiro levantamento e embora caia bem para 28%, continua em um patamar de 1/3 do eleitorado.

IBOPE –Rio de Janeiro – 2016 –  Nulos, Brancos e indecisos

Tipo de pesquisa23 de agosto 2016   1ª pesquisa14 de setembro 2016 2ª pesquisa
Espontânea76%51%
Estimulada25%23%

IBOPE –Rio de Janeiro – 2020 – Nulos, Brancos e indecisos

Tipo de pesquisa02 de outubro 2020   1ª pesquisa15 de outubro 2016 2ª pesquisa
Espontânea74%57%
Estimulada36%28%

Em São Paulo o quadro de insatisfação é similar ao do eleitor carioca em 2020, o que evidencia ainda mais a diferença para 2016, como o cidadão paulistano apresentou números melhores que os verificados no Rio de Janeiro.

Na pesquisa espontânea, o número de possíveis não votantes era de 68% na primeira pesquisa de 2016 e começou em 73% no levantamento deste ano. Já na segunda pesquisa, após o começo do horário eleitoral, o número foi reduzido para 43%, enquanto em 2020 caiu para 58%, mesmo padrão do Rio.

Nas pesquisas estimuladas, os números de São Paulo eram melhores em 2016 e assim permanecem em 2020: há quatro anos começou com 17% e caiu para 16% e agora inicia em 28% e caiu para 24%.

IBOPE – São Paulo – 2016 – Nulos, Brancos e indecisos

Tipo de pesquisa23 de agosto 2016   1ª pesquisa14 de setembro 2016 2ª pesquisa
Espontânea68%43%
Estimulada17%16%

IBOPE –São Paulo – 2020 –  Nulos, Brancos e indecisos

Tipo de pesquisa02 de outubro 2020   1ª pesquisa15 de outubro  2020 2ª pesquisa
Espontânea73%58%
Estimulada28%24%

Não há, obviamente, nenhuma garantia de que esses índices geram uma onda de abstenção maior que o pleito passado. Até porque os não votantes em 2016 bateram recordes. No Rio de Janeiro, o total de 42,5 dos eleitores inscritos não apareceu para votar ou votou branco e nulo, contra 34% em 2012. Em São Paulo, foram 38,5% de nulos, brancos e ausentes em 2016 e 31% em 2012.

O sentimento antipolítica não é novo, como fica nítido com os dados de 2016. Suas consequências até aqui tem sido as piores possíveis para a democracia. Não é possível analisar a vitória de Bolsonaro sem levar essa variável em conta. No mesmo sentido, não parece razoável interpretar os resultados dessa eleição para a democracia em geral e para o governo Bolsonaro em particular sem mobilizar essa variável

Bolsonaro: entre a ausência e a derrota nas eleições municipais de 2020

Na pesquisa do 15 de outubro o Ibope apresentou os dados de popularidade do presidente Jair Bolsonaro nas capitais. Em algumas delas, sua aprovação está acima da média nacional que é de 40% em levantamento do mesmo instituto ocorrido em setembro. Outras aparecem na média e um terceiro grupo apresenta números bem abaixo do padrão nacional do presidente.[1]

Em paralelo, surgem análises sobre a fragilidade dos candidatos bolsonaristas nas capitais.[2] O argumento em geral se baseia na lógica diferente das eleições municipais, que por serem mais focadas em questões locais do que nacionais geram um eleitor mais pragmático, menos ideológico.

Se tal análise estiver correta, ela em si já deveria desautorizar projeções de que as derrotas de candidatos bolsonarista em 2020 implicam em um enfraquecimento de Bolsonaro.

Além disso, como já argumentamos em nosso primeiro texto[3], a direita liberal – frequentemente chama de “centro” pela imprensa, por supostamente fugir da polarização, foi a grande vitoriosa do pleito de 2016 e viu seus votos migrarem para Bolsonaro já no primeiro turno de 2018.

Fonte: Ibope 2020. Imagem G1

Acreditamos que esse quadro pode se repetir em 2022. A direita liberal, ao impor sua agenda no plano nacional, “usando” Bolsonaro, termina por se aproximar demasiadamente do presidente sem ter, contudo, alguma liderança capaz de rivalizar com ele em popularidade ou carisma.

Há, por fim, a lógica política própria de Bolsonaro, que analisamos sobretudo na nossa pesquisa sobre a pandemia e a política brasileira. O atual presidente não se elegeu com uma dinâmica majoritária, em que apresenta uma narrativa para conquistar votos da maioria. Ele foi um candidato de combate, contra tudo e contra todos. No caso específico das eleições, isso se manifestou na recusa em formar palanques para os governos estaduais em 2018.

Ainda que não possa manter essa lógica em sua integridade – a tentativa de ter um projeto próprio de renda básica para mostrar nas próximas eleições é um exemplo de mudança – algo daquela estratégia vai prevalecer. Nisso, encaixa-se perfeitamente um não comprometimento ativo e aberto nem mesmo com os candidatos bolsonaristas mais orgânicos, mantendo os vínculos com essas figuras pelas dinâmicas ilegais de fakenews e disparos em massa de WhatsApp.

Em suma, convém não projetar uma derrota do presidente caso ele não eleja nenhum prefeito em capital ou mesmo cidades com segundo turno. Sem uma estratégica ampla contra seu governo e com a esquerda fragmentada, Bolsonaro seguirá dirigindo os movimentos autoritários desde a presidência. Não ter prefeitos a seu favor pode ajudar em muito na resistência caso esta se apresente de um modo amplo, capaz de mobilizar amplos setores sociais. Do contrário, a dinâmica de 2016/2018 tem chances de se repetir em 2020/2022. 


[1] https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2020/eleicao-em-numeros/noticia/2020/10/17/aprovacao-do-governo-bolsonaro-nas-capitais-varia-de-18percent-em-salvador-a-66percent-em-boa-vista-mostram-pesquisas-ibope.ghtml

[2] https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2020/10/17/uol-ve-politica-polarizacao.htm e https://valor.globo.com/politica/coluna/bolsonarismo-a-prova-nas-capitais.ghtml

[3] https://nudebufrj.com/2020/08/18/eleicoes-municipais-2020-mais-uma-vitoria-do-bolsonarismo/

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