Atualização: eleições municipais de 2020 na região Sul

Por Wanderson de Mello

O presente texto tem como objetivo dar sequência ao mapeamento eleitoral das capitais da Região Sul após a divulgação das primeiras pesquisas eleitorais. Os levantamentos eleitorais realizados até aqui confirmam nossa hipótese do boletim de setembro: Na maioria das capitais da região verificamos um favoritismo da direita liberal – partidos e candidatos. Outro elemento que abordamos na edição passada também se confirma nas pesquisas, com a esquerda demonstrando força e potencialidade de chegar no segundo turno, nos cenários de construção coletiva das candidaturas. Por fim, é preciso destacar que o fator bolsonarismo ainda não demonstra peso na campanha.

Sugerimos a leitura do primeiro boletim para uma melhor contextualização. As fontes da pesquisa foram a Wikipedia e portais de notícia locais e nacionais como G1.

Curitiba: promessa de vitória no primeiro turno

Em Curitiba, o prefeito Rafael Greca (ex-PMN agora DEM), é candidato à reeleição e ocupada liderança absoluta na disputa, com possibilidade de vitória já no 1º turno, com 47% das intenções de votos na pesquisa do IBOPE. O segundo colocado, o candidato Fernando Francischini (PSL), conseguiu apenas marcar 6% das intenções de voto, com o terceiro sendo Goura (PDT), atingindo 5%. Como proposto no nosso boletim anterior, a fragmentação das candidaturas de esquerda pode ser a grande responsável pela ausência da esquerda num provável segundo turno[1]. A única dessas candidatura a ultrapassar 1% percentual é a de Professora Samara (PSTU) com 2% das intenções de voto. Camila Lanes (PC do B), Paulo Opuszka (PT) e Diogo Furtado (PCO) possuem 1%. A candidatura de Letícia Lanz, pelo PSOL, não atingiu 1% das intenções de voto.

Também é interessante perceber a grande rejeição encontrada entre os dois primeiros candidatos, assim como a quantidade de votos brancos ou nulos, que atinge 15% das intenções[2], um aumento em comparação ao primeiro turno das eleições municipais de 2016, onde nulos e brancos atingiram 13,78% dos votos.

Outra questão importante, após a divulgação da pesquisa, foi a reação dos candidatos. O candidato pelo PSL acionou a Justiça de forma a ter acesso aos materiais usados pelo Ibope para análise dos dados. Outros candidatos questionaram o pequeno tamanho da amostra – 600 pessoas – e a suposta falibilidade das pesquisas eleitorais brasileiras utilizando o argumento da eleição presidencial de 2018[3].

Pesquisa eleitoral – Curitiba (06/10/2020)

PartidoIntenção de votoRejeição
DEM47%0%
PSL6%21%
PDT5%8%
PL3%9%
MDB3%11%
PSTU2%4%
Branco/nulo15%———————–
Não sabe/não respondeu10%———————–

Santa Catarina: a disputa entre a direita tradicional

A disputa em Florianópolis segue o mesmo padrão sugerido no nosso boletim anterior, a liderança da disputa está entre o atual prefeito e a ex-prefeita da cidade. O prefeito Gean Loureiro (DEM) lidera com uma vantagem significativa e é provável a vitória no primeiro turno. Angela Amin (PP) e Pedrão (PL) estão, respectivamente, no segundo e no terceiro lugar e  são os outros dois expoentes da direita liberal, mas a esquerda está próxima. O PSOL, com a candidatura de Professor Elson , foi capaz de consolidar a maior frente de esquerda de todos os estados do Sul, com mais de 5 partidos unidos. A candidatura atingiu 7% das intenções de voto, estando empatada com o segundo e terceiro colocado, dentro da margem de erro de 4%.

Um elemento interessante da disputa é a segunda colocada e ex-prefeita da cidade, Angela Amin, que enfrenta uma enorme rejeição. Isso pode ser em razão da família Amin, tradicional na política da capital, ter ocupando diversos cargos eletivos ao longo dos anos. Os votos brancos e nulos se mantêm estáveis em relação à eleição anterior[4].

Pesquisa eleitoral – Florianópolis (05/10/2020)[5]

PartidoIntenção de votoRejeição
DEM44%8%
PP15%32%
PL9%12%
PSOL7%6%
Branco/nulo10%———————
Não sabe/não respondeu10%———————

Porto Alegre: um segundo turno complexo

Porto Alegre, como mencionamos no texto de agosto, foi um reduto de grande influência da esquerda entre os anos 1980 e o começo dos anos 2000. Contudo, nas três últimas eleições nenhum partido de esquerda conseguiu encabeçar uma chapa vencedora. Em 2016, a candidatura do PT com  Raul Pont não foi bem sucedida em chegar no segundo turno, atingindo apenas 16,37% dos votos válidos[6], mesmo com o apoio do PCdoB e de Manuela D’Ávila[7].

No contexto atual, a candidata a vice-presidente em 2018 disputa o cargo de prefeita , em um contexto de relativa fragmentação da esquerda, mas com o apoio do PT. A pesquisa Ibope revela que Manuela até o momento segurou uma porcentagem de apoio similar a que tinha na pré-campanha de 2016. Isso pode ser explicado por duas razões 1) a figura de Manuela é a grande mobilizadora de apoio eleitoral em Porto Alegre, 2) talvez seja possível que essa seja o limite ou esteja próximo desse limite do apelo de uma candidatura de esquerda na cidade. Outros partidos de esquerda possuem uma significativa porcentagem de voto, porém é impossível prever como os eleitores dos candidatos que saírem da disputa irão se comportar no segundo turno.

Porto Alegre pode ser um grande termômetro para se entender como opera o “antipetismo”. Será possível medir se é um fenômeno, que se resume ao PT, ou de maneira mais abrangente a esquerda em geral.

O candidato à reeleição pelo PSDB, Nelson Marchezan Júnior tem problemas com a rejeição, mesmo estando em aliança com o PSL – uma tentativa de trazer o eleitorado apoiador do presidente. Manuela é a segunda mais rejeitada na disputa. Entre esses dois estão o segundo e o terceiro colocados nas intenções de voto, José Fortunati (PTB) e Sebastião Melo (MDB), respectivamente.

Uma curiosidade é a rejeição a Julio Flores (PSTU), ao mesmo tempo tem apenas 1% das intenções de voto, acumulando 8% de rejeição. Os votos brancos e nulos até o momento tem apelo 1% menor que nas eleições anteriores[8].

Pesquisa eleitoral – Porto Alegre (05/10/2020)[9]

PartidoIntenção de votoRejeição
PCdoB24%28%
PTB14%15%
MDB11%7%
PSDB9%37%
PDT5%5%
Republicanos4%7%
PSOL3%4%
PSD3%5%
Branco/ Nulo13%———————–
Não sabe/ Não respondeu11%———————-

Conclusões

O cenário da região Sul é complexo em sua operação e nos apresenta grandes contradições, visto a vitória de Jair Bolsonaro com enorme vantagem na região. As primeiras pesquisas eleitorais realizadas pelo Ibope confirmam as três grandes teses do Nudeb apresentadas no último boletim.

A primeira é que a disputa nas capitais do Sul seria dominada em sua maioria pela direita liberal tradicional. O sentimento antipolítica nas eleições anteriores e o discurso bolsonarista da “renovação” não encontram tanto apelo no contexto municipal, onde os agentes da “velha política” não somente disputam, mas estão entre os favoritos. O sentimento é de “vida que segue” para esses candidatos e partidos.

A segunda representa a potencialidade da esquerda disputar de maneira mais efetiva, chegando ao segundo turno, está diretamente ligado à sua fragmentação eleitoral. Esse prognóstico se mantém correto até o momento. Curitiba, cenário mais fragmentado da esquerda, nenhumas das campanhas do campo progressista se aproxima do segundo turno, com exceção do PDT. Santa Catarina, o cenário mais unido, apresenta uma candidatura de esquerda unida, mas que mantém o apelo de eleições anteriores, até mesmo pelo grande resistência histórica da região a partidos de esquerda. Será necessário ver se ao longo da campanha essa frente será capaz de superar o seu público já conquistado. Porto Alegre  reproduz nessa eleição a fragmentação, que pode ser consequência de seu cenário de forte potência da esquerda. A figura de Manuela D’Ávila também é essencial para o sucesso até então da campanha. Por outro lado, é improvável que a chapa PCdoB – PT vença a eleição, não somente pelo suposto antipetismo, mas também pelo próprio limite do apelo da esquerda na cidade.

A terceira e última é o fator bolsonarismo que acreditamos estar envolto num contexto de desorganização. Apesar da figura do presidente estar sendo mencionada em determinados contextos, é interessante perceber que nos casos de Curitiba e Florianópolis, o Democratas – um partido do Centrão – tem absoluto favoritismo, até mesmo quando oferecido uma alternativa bolsonarista, seja no discurso, seja no apelo. Apesar dessa desorganização, proponho, que o efeito de Bolsonaro como cabo eleitoral ainda não aconteceu de maneira definitiva nos três cenários. Podemos pensar, que na ausência de candidaturas de pessoas com ligações pessoais com o presidente, a repetição do mesmo cenário da ida de Wilson Witzel para o segundo turno em 2018 tem chances de repetição. O apoio bolsonarista pode vir a entrar em ação muito depois na campanha. O cenário desse apoio é incerto como detalhado em um comentário no G1 “Qual é o cara do Bolsonaro?”. Possível que nem Bolsonaro saiba ainda.

Finalizando, gostaria de trazer para discussão a importância que será nessas eleições, além da mobilização das bases, a construção de um sentimento de pertencimento político, que possivelmente não será aceso. Nos últimos pleitos, a região teve altos índices de abstenções e os votos brancos/nulos também foram altos. Apesar de estarem, de certa maneira, estáveis nessas primeiras pesquisas, comparadas ao último pleito, é provável que esse número aumente especialmente no segundo turno. Convencer as pessoas a votarem pode ser um fator tão determinante quanto a mobilização dos apoiadores. Caso o pertencimento não seja mobilizado na campanha eleitoral, o fenômeno que irá se repetir será a vitória eleitoral, no contexto limitado à parcela da população, que optou por votar – os chamados “votos válidos” -, do que de uma verdadeira maioria absoluta.


[1] https://g1.globo.com/pr/parana/eleicoes/2020/noticia/2020/10/06/pesquisa-ibope-em-curitiba-greca-47percent-francischini-6percent-goura-5percent.ghtml

[2] https://pt.wikipedia.org/wiki/Elei%C3%A7%C3%A3o_municipal_de_Curitiba_em_2016#Resultados 

[3] https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2020/10/08/candidatos-em-curitiba-criticam-ibope-francischini-entra-com-acao-judicial.htm

[4] https://pt.wikipedia.org/wiki/Elei%C3%A7%C3%A3o_municipal_de_Florian%C3%B3polis_em_2016#Resultados

[5] https://g1.globo.com/sc/santa-catarina/eleicoes/2020/noticia/2020/10/05/pesquisa-ibope-em-florianopolis-gean-loureiro-44percent-angela-amin-15percent-pedrao-9percent-professor-elson-7percent.ghtml

[6] https://eleicoes.datapedia.info/eleicao/2016/RS/88013

[7] https://pt.wikipedia.org/wiki/Elei%C3%A7%C3%A3o_municipal_de_Porto_Alegre_em_2016#Pr%C3%A9-candidaturas

[8] https://pt.wikipedia.org/wiki/Elei%C3%A7%C3%A3o_municipal_de_Porto_Alegre_em_2016#Resultados

[9] https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/eleicoes/2020/noticia/2020/10/05/pesquisa-ibope-em-porto-alegre-manuela-24percent-fortunati-14percent-melo-11percent-marchezan-9percent.ghtml

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