Eleições municipais no Rio de Janeiro: mapeamento das tendências do eleitorado e conteúdo das candidaturas

Por Maria Luiza de Freitas

O presente texto está encarregado de realizar um mapeamento das tendências do eleitorado na capital carioca, na tentativa de antecipar certos resultados. Objetivando estabelecer comparações, dados de pleitos anteriores na capital do Rio de Janeiro – eleições municipais de 2012 e 2016 e eleições presidenciais e estaduais de 2018 – serão aqui mobilizados.

Além disso, objetiva-se analisar o conteúdo das candidaturas por nós consideradas relevantes desde o primeiro boletim eleitoral[1] – Marcelo Crivella (Republicanos), Eduardo Paes (DEM), Martha Rocha (PDT) e Renata Souza (PSOL). Ocupando o quarto lugar na recente pesquisa divulgada[2], Benedita da Silva (PT) será agora também incluída em nosso mapeamento do campo de esquerda.

Nesse sentido, a hipótese por nós levantada em um primeiro momento – de que a disputa no campo da esquerda se daria entre as candidatas Martha Rocha e Renata Souza – parece não estar em vias de ser confirmada.

No entanto, em razão do histórico eleitoral da capital – em que o candidato do Partido Socialismo e Liberdade apresentou resultados consideráveis nos pleitos anteriores (2012 e 2016) – faz-se necessário seguir acompanhando os desdobramentos desta candidatura.

Sobre a direita liberal: será uma vez mais preferida pelos eleitores da capital?

Com 27% das intenções de voto, segundo os dados divulgados pelo IBOPE[3] e 30% das intenções, segundo a pesquisa realizada pelo Datafolha[4], Eduardo Paes ocupa com vantagem o primeiro lugar e parece ser, de fato, a escolha preferencial dos eleitores na capital do Rio de Janeiro.

Ainda que este primeiro resultado isolado seja insuficiente para projeções definitivas sobre o pleito, quando somado a uma análise retrospectiva de disputas passadas – vide as eleições estaduais de 2018, em que Paes concorreu ao cargo de governador[5] – este dado pode se configurar como relevante para pensar possíveis tendências no comportamento do eleitorado carioca.

Apesar de ter perdido a disputa pelo cargo de governador para Wilson Witzel (PSC) no estado, Paes saiu vitorioso entre os eleitores da capital do Rio de Janeiro[6]. Com uma vantagem de pouco mais de 100.000 votos válidos, o candidato do partido Democratas e representante de uma direita mais clássica foi preferido em detrimento do candidato bolsonarista.

Nesse sentido, considerando que na esfera municipal a disputa no campo da direita se dará entre Eduardo Paes (DEM) e Marcelo Crivella (Republicanos) repetindo, de certo modo, o arranjo do 2º turno das eleições estaduais (direita liberal x direita bolsonarista), é razoável projetar que o eleitorado carioca pode vir a optar uma vez mais pelo candidato da direita tradicional.

Ademais, cabe também citar a entrevista concedida pelo candidato ao jornal O GLOBO[7] como um dado significativo para a análise do conteúdo de sua campanha. Em uma postura conciliadora, Eduardo Paes evidencia a necessidade de trabalhar em parceria com Jair Bolsonaro até 2022, ainda que reforce que sua preocupação é com a cidade e não com temas nacionais.

Tendo Bolsonaro obtido um contingente significativo de votos na capital[8] (66,35% dos votos válidos), a atitude de Paes evidencia que o candidato sabe que não pode se declarar abertamente como anti-bolsonarista, postura que poderia limitar a conquista de novos votos. A utilização dessa estratégia política fica evidente nos discursos e no conteúdo da campanha do ex-prefeito, que evitam quaisquer enfrentamentos diretos com a figura do atual presidente.

Sobre a direita bolsonarista: a virada virá com Bolsonaro?

Em 24 de setembro, o atual prefeito e candidato à reeleição Marcelo Crivella foi julgado pelo Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ)[9]. A acusação refere-se ao suposto abuso de poder político (ou conduta vedada[10]) na campanha de 2018, quando funcionários públicos da Comlurb foram levados, em carros oficiais, para participar de um encontro em apoio ao seu filho, então candidato a deputado federal.

Apesar de ter sido declarado, por unanimidade, inelegível até o ano de 2026[11], Crivella pode ainda manter sua candidatura até que todos os recursos cabíveis se esgotem – brecha que possibilita a continuidade de sua participação na disputa eleitoral[12]. Nesse sentido, até que seja, de fato, indeferida, sua campanha segue sendo relevante para nosso mapeamento.

No que se refere aos números divulgados pelas pesquisas do IBOPE e Datafolha, Crivella aparece em segundo lugar na disputa com, respectivamente, 12% e 14% das intenções de voto. Além disso, o candidato possui também o maior índice de rejeição registrado no país[13], em que 57% dos entrevistados alegam não votar, de maneira nenhuma, no atual prefeito.

Sobre o conteúdo de sua campanha, Crivella tem cada vez mais apostado na aproximação e vinculação de sua figura como o representante direta e exclusivamente alinhado ao presidente Jair Bolsonaro. Aqui, novamente os dados das eleições presidenciais, na capital do Rio de Janeiro, devem ser mobilizados de modo a justificar tal postura.

Sabe-se que, apesar de a capital carioca ter elegido Jair Bolsonaro como presidente da República, também em 2018, na escolha estadual, o eleitor optou pela direita liberal representada por Eduardo Paes. Nesse sentido, a associação entre Crivella e Bolsonaro – também refletida no material imagético[14] da campanha – pode ser entendida como uma estratégia, na tentativa de angariar o eleitor que, ao menos na disputa presidencial, optou pelo ‘bolsonarismo’.

Sobre a esquerda: entre o recuo do psolista e o avanço da candidatura petista

No campo da esquerda, diferente do que por nós era esperado, Renata Souza (PSOL), segundo os recentes números divulgados, não aparece como protagonista na disputa interna[15]. Esse resultado, quando comparado com os dados de outros pleitos, evidencia que a atual candidatura se encontra abaixo do patamar das anteriores.

Em 2012, a primeira pesquisa de intenção de votos[16] mostrava Marcelo Freixo, então candidato do Partido Socialismo e Liberdade, com 12%. Já em 2016, também segundo os dados da primeira investigação[17], o candidato psolista possuía 12% das intenções de voto.

Hoje, ainda longe do segundo lugar da disputa, Renata aparece tecnicamente empatada com candidaturas absolutamente distintas da sua (Rede e Pros), indicando que suas proposições não parecem bem recebidas ou conhecidas pelo eleitor. No entanto, cabe ressaltar a possibilidade de crescimento quando a relação entre a sua candidatura e Marcelo Freixo[18] ficar mais clara para o eleitorado.

Martha Rocha (PDT) aparece em terceiro nas pesquisas, com 10% das intenções de voto e com 8% de rejeição. Esse quadro, quando comparado com as eleições de 2018, resguardadas as devidas especificidades de cada um pleitos, pode se desenvolver em uma possível tendência de recuo do PSOL frente ao PDT. Tendência já observada nas eleições presidenciais de 2018, quando Ciro Gomes obteve um resultado consideravelmente mais expressivo que o de Guilherme Boulos na cidade do Rio de Janeiro (até então um polo de expressivas votações para candidatos do PSOL).

Por fim, sobre Benedita da Silva, que ocupa o quarto lugar nas pesquisas, cabe seguir monitorando seus resultados na tentativa de compreender e analisar se sua candidatura funcionará como aquela que galvanizará os votos ‘de esquerda’ do eleitorado carioca, no cenário em que a frente ampla não é mais uma possibilidade.

CONCLUSÃO

Este texto objetivou ampliar o mapeamento das candidaturas que vêm protagonizando a disputa para a prefeitura na capital do Rio de Janeiro. Revendo nossa primeira hipótese, a candidatura de Benedita Silva (PT) foi também incluída em nosso monitoramento, em virtude de seus resultados na primeira pesquisa de intenção de votos.

 Para fins comparativos, dados do período antecedente aos pleitos passados, assim como resultados eleitorais anteriores foram mobilizados, na tentativa de construir um histórico informativo e situar os resultados, até o momento divulgados, no interior deste panorama mais amplo.

No campo da direita, com a postura conciliadora e a possível repetição da antiga disputa direita bolsonarista x direita tradicional, Eduardo Paes parece seguir como escolha preferencial do eleitorado carioca. Marcelo Crivella, por sua vez, intensifica sua aproximação com o bolsonarismo, na tentativa de conquistar votos daqueles que, em 2018, elegeram, na capital, Jair Bolsonaro.

Já no campo da esquerda, a candidatura de Renata Souza aparece abaixo do patamar que o partido costumava ter na cidade do Rio de Janeiro (2012 e 2016), o que parece indicar um movimento de recuo do PSOL frente a ouros partidos de esquerda. Além disso, a candidatura petista parece avançar como representante do campo de esquerda,  indicando uma possível volatilidade do voto que anteriormente havia sido depositado no PSOL.


[1] NUDEB. Eleições municipais no Rio de Janeiro: entre o possível recuo da esquerda e o avanço da disputa entre ‘as direitas’. Disponível em: https://nudebufrj.com/2020/08/18/eleicoes-municipais-no-rio-de-janeiro-entre-o-possivel-recuo-da-esquerda-e-o-avanco-da-disputa-entre-as-direitas/ Acesso em: 08 de outubro de 2020.

[2] G1. Pesquisa IBOPE no Rio de Janeiro: Paes, 27%; Crivella, 12%; Martha, 8%; Benedita, 7%. Disponível em: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/eleicoes/2020/noticia/2020/10/02/pesquisa-ibope-no-rio-de-janeiro-paes-27percent-crivella-12percent-martha-8percent-benedita-7percent.ghtml Acesso em: 08 de outubro de 2020.

[3] G1. Pesquisa IBOPE no Rio de Janeiro: Paes, 27%; Crivella, 12%; Martha, 8%; Benedita, 7%. Disponível em: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/eleicoes/2020/noticia/2020/10/02/pesquisa-ibope-no-rio-de-janeiro-paes-27percent-crivella-12percent-martha-8percent-benedita-7percent.ghtml Acesso em: 08 de outubro de 2020

[4] G1. Pesquisa Datafolha no Rio de Janeiro: Paes, 30%; Crivella, 14%; Martha, 10%; Benedita, 8%. Disponível em: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/eleicoes/2020/noticia/2020/10/08/pesquisa-datafolha-no-rio-de-janeiro-paes-30percent-crivella-14percent-martha-10percent-benedita-8percent.ghtml Acesso em: 08 de outubro de 2020.

[5] G1. Wilson Witzel e Eduardo Paes disputam o segundo turno para o governo do RJ. Disponível em: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/eleicoes/2018/noticia/2018/10/07/witzel-e-paes-disputam-o-segundo-turno-para-o-governo-do-rj.ghtml Acesso em: 08 de outubro de 2020.

[6] G1. Apuração por zona eleitoral – governador. Disponível em: http://especiais.g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/eleicoes/2018/apuracao-zona-eleitoral-governador/rio-de-janeiro/2-turno/ Acesso em: 08 de outubro de 2020.

[7] O GLOBO. Entrevista com Eduardo Paes: ‘Não faria a ciclovia Niemeyer, é óbvio’. Disponível em: https://www.google.com/search?q=entrevista+paes+o+globo&oq=entrevista+paes+o+globo&aqs=chrome..69i57j69i59l2j69i60l4.2817j0j7&sourceid=chrome&ie=UTF-8 Acesso em: 08 de outubro de 2020.

[8] G1. Apuração por zona eleitoral – presidente. Disponível em: http://especiais.g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/eleicoes/2018/apuracao-zona-eleitoral-presidente/rio-de-janeiro/2-turno/ Acesso em: 08 de outubro de 2020.

[9] FOLHA DE SÃO PAULO. Tribunal forma maioria para tornar Crivella inelegível já nesta eleição. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/09/tribunal-forma-maioria-para-tornar-crivella-inelegivel-ja-nesta-eleicao.shtml Acesso em: 09 de outubro de 2020.

[10] Ato de ceder ou usar bens da administração pública em benefício de candidatura política.

[11] FOLHA DE SÃO PAULO. Crivella é declarado inelegível por 8 anos, mas deve manter campanha. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/09/crivella-e-declarado-inelegivel-por-oito-anos-mas-deve-disputar-reeleicao-com-recursos.shtml Acesso em 09 de outubro de 2020.

[12] FOLHA DE SÃO PAULO. Recursos são brecha para Crivella manter campanha caso TER o torne inelegível. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/09/recursos-podem-ser-brecha-para-crivella-manter-campanha-mesmo-apos-tre-torna-lo-inelegivel.shtml?utm_source=folha&utm_medium=site&utm_campaign=topicos Acesso em: 09 de outubro de 2020.

[13] EXTRA. IBOPE: Crivella tem o maior índice de rejeição do país. Disponível em: https://extra.globo.com/noticias/rio/ibope-crivella-tem-maior-indice-de-rejeicao-do-pais-24684451.html Acesso em: 09 de outubro de 2020.

[14] CRIVELLA, Marcelo. “Me diga com quem tu andas, que te direi quem tu és.” Rio de Janeiro, 27 de setembro de 2020. Facebook: marcelocrivella Disponível em: https://www.facebook.com/marcelocrivella/posts/3562027750487116 Acesso em: 08 de outubro de 2020.

[15] G1. Pesquisa IBOPE no Rio de Janeiro: Paes, 27%; Crivella, 12%; Martha, 8%; Benedita, 7%. Disponível em: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/eleicoes/2020/noticia/2020/10/02/pesquisa-ibope-no-rio-de-janeiro-paes-27percent-crivella-12percent-martha-8percent-benedita-7percent.ghtml Acesso em: 08 de outubro de 2020

[16] G1. Paes tem 54%, e Freixo, 10%, indica pesquisa Datafolha no Rio. Disponível em: http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/eleicoes/2012/noticia/2012/07/paes-tem-54-e-freixo-10-indica-pesquisa-datafolha-no-rio.html Acesso em: 12 de outubro de 2020.

[17] G1. Crivella tem 27%, Freixo, 12%, e Bolsonaro, 11%, diz Ibope no Rio. Disponível em: http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/eleicoes/2016/noticia/2016/08/crivella-tem-27-freixo-12-e-bolsonaro-11-diz-ibope-no-rio.html Acesso em: 12 de outubro de 2020.

[18] Marcelo Freixo, Twitter post, 6 de outubro, 2020, 09:11, https://twitter.com/MarceloFreixo/status/1313451855805063170

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