Quadro político de São Paulo – O avanço da direita para o segundo turno

Por Daniel Sousa

O presente texto objetiva o monitoramento dos campos políticos nas eleições municipais que ocorrerão na cidade de São Paulo em 2020. O período analisado foi marcado pela primeira rodada de debates e a estreia do horário eleitoral. Neste boletim, trabalharemos a hipótese de um possivel segundo turno composto tanto por um candidato de direita tradicional, na figura de Bruno Covas (PSDB), quanto por um candidato da direita bolsonarista, explicitada na figura de Celso Russomanno (Republicanos). Para isso, levamos em conta o engajamento dos candidatos nas redes sociais, bem como sua postura nos debates. Estabelecemos como fonte da pesquisa matérias jornalísticas e pesquisas de intenção de voto realizadas no período supracitado. O texto foi dividido de modo a introduzir os campos políticos nos debates e redes, subsequentemente a direita tradicional, direita bolsonarista e esquerdas. Logo após, apresentamos a conclusão, onde trabalharemos  nossa hipótese.

No debate e nas redes

Os debates, que ocorreram no dia 2 de outubro, fundamentalmente deram corpo às candidaturas da cidade paulista. O tom adotado ao longo do debate giraram em torno da possibilidade de repetir experiências passadas de gestões bem sucedidas, bem como foi o discurso dos candidatos Boulos (PSOL) e Jilmar Tatto (PT), tangenciando também uma postura mais combativa, como foi exemplificada com os candidatos Arthur do Val (Patriota) e Joice Hasselmann (PSL). Russomanno (Republicanos), por sua vez, possivelmente foi o candidato mais questionado, juntamente ao atual prefeito Bruno Covas (PSDB). Pautas como violência doméstica e racismo também ganharam notoriedade, visto que, no contexto da pandemia, diversas manifestações antirracistas ocorreram ao longo do Brasil e do mundo, concomitante ao aumento de índices de violência doméstica. O candidato Márcio França (PSB) foi indagado sobre algumas falas passadas, no que diz respeito à violência contra a mulher. No que lhe concerne, Orlando Silva (PC do B) ganhou destaque nas pautas raciais, em razão de que foi o único candidato negro no debate, onde ratificou o lema “nao vote em branco, vote em preto” ao abordar questões da negritude.

Já no âmbito das redes, segundo balanço[1] divulgado pelo Portal Veja, o candidato Guilherme Boulos (PSOL) obteve protagonismo em plataformas como Twitter e Instagram. O período analisado foi referente à primeira semana das eleições municipais. Em contrapartida, o candidato Bruno Covas (PSDB), no mesmo período analisado, não alcançou nem 500 novos seguidores. Joice Hasselmann (PSL), muito presente nas redes, também não alcançou a marca de 100 novos seguidores. Os tímidos avanços são associados, ainda que em um curto espaço de tempo, à falta de interesse no pleito municipal.

CandidatoIntenções de Voto
RussomannoREPUBLICANOS – 26 %
Bruno CovasPSDB – 21%
Guilherme BoulosPSOL – 8%
Marcio FrancaPSB – 7%
Vera LuciaPSTU – 2%
Antonio Carlos SilvaPCO – 1%
Andrea MatarazzoPSD – 1%
Arthur do ValPATRIOTA – 1%
Jilmar TattoPT – 1%
Levy FidelixPRTB – 1%
Orlando SilvaPCdoB 1%
Marina HelouREDE – 1%
Filipe SabaraNOVO – 1%
Branco/NuloBranco/Nulo – 20%
Não Sabe/Não respondeuNão sabe / Não respondeu – 8%

As pesquisas realizadas[2] pelo IBOPE indicam a força do candidato bolsonarista à medida que se delineia a considerável rejeição do atual prefeito Bruno Covas, que hoje é de 31%[3]. Ainda que o prefeito eleito em 2016 seja correligionário de Bruno Covas, a campanha fisiológica de João Doria imputou a imagem de político anti-sistema, punitivista.

Direita Bolsonarista

Nas palavras do cientista político, Antonio Lavareda, as disputas municipais “são nossas eleições “intermediárias”. Como em todo o mundo, refletem o pleito passado e apontam tendências para o próximo.”[4] Diferentemente das eleições que ocorreram em 2018, o pleito de 2020 não poderá apostar nas figuras de outsiders de forma tão incisiva, uma vez que parte deles encontram-se eleitos. A ruptura do presidente Jair Bolsonaro com seu ex partido – PSL – e a inaptidão em criar a Aliança pelo Brasil colaboram para esta direita difusa, e parcialmente desarticulada,   mobilizar-se no âmbito municipal. Levando em conta a conjuntura pandêmica, torna-se necessário abordar o desempenho nas redes sociais, uma vez que, para o pesquisador Mauricio Moura[5], esta será uma eleição “digital”. O pesquisador chama atenção para a queda de audiência de propagandas políticas na tv, e consequentemente o aumento no uso de plataformas digitais instrumentalizadas para práticas políticas.

Todavia, o avanço de Russomanno nas pesquisas de intenção de voto pode indicar que, ainda que enfraquecida, o movimento da direita bolsonarista ainda tem fôlego para disputar as eleições na cidade paulista. O candidato, tanto nos debates, quanto em suas propagandas, faz questão de reforçar seus laços de amizade com Bolsonaro, acenando que contará com seu apoio. Mais uma vez, no debate que foi exibido pela TV bandeirantes, o candidato adotou um tom de apelo a eleitores de camadas mais populares da sociedade. O gesto, num contexto político mais genérico, pode sinalizar a mudança de base também do presidente, que vem buscando maior adesão em camadas populares.

No âmbito da direita mais radical, a candidata Joice Hasselmann(PSL) fez um mea culpa no debate ao afirmar não ter rompido diretamente com Bolsonaro, mas sim com seus filhos, almejando, assim, não cultivar a imagem de antibolsonarista. Arthur Do Val (Patriota), por outro lado, emulou uma postura de antipolítica, “diferente de tudo que está aí”, assim como em 2016 e 2018, investindo em convites para acompanhar suas propostas mais a fundo em lives após o debate em suas redes sociais.

Direita Tradicional

O candidato Bruno Covas, nas últimas pesquisas, demonstra-se como o mais forte candidato da direita tradicional paulista, ainda que dispondo de índice relativamente alto de rejeição, girando em torno de 31%. Andrea Matarazzo (PSD), por outro lado, segue com índice baixíssimo de adesão, o que pode indicar o discurso de baixo apelo às massas e a deterioração da imagem de político tradicional cultivada nos anos de maior atividade da Lava Jato.

Esquerdas

O candidato, Guilherme Boulos, seguido de Márcio França, divide o campo com Orlando Silva e Jilmar Tatto. Nestas eleições, Guilherme e Márcio estão em terceiro e quarto lugar nas intenções de voto. É interessante lembrar que em 2018 o candidato do PSOL obteve 1,21% dos votos na capital paulista. Ainda assim, Boulos vem mostrando força política e midiática dentre a juventude. No entanto, sua propaganda de TV foi denunciada pela equipe de Joice Hasselmann por ter supostamente descumprido regras eleitorais ao mostrar a locução de Wagner Moura por mais tempo que o permitido. “Wagner Moura aparece no vídeo menos de 25% do tempo da peça, o que é permitido pela legislação, enquanto o restante é locução – também permitida por lei. Isso só mostra a preocupação dos nossos adversários com o crescimento da candidatura de Boulos e Erundina nas pesquisas eleitorais, mesmo tendo apenas 17 segundos no horário eleitoral”, disse a campanha, em nota.[6] De acordo com a CNN. No entanto a postagem foi compartilhada milhoes de vezes nas redes sociais, ocasionando efeito streisand. Já Márcio França, no pleito de 2018, dispos de 22,16% dos votos para governador, ficando em segundo lugar. A coligação de França engloba o PDT de Ciro Gomes,  que na cidade paulista, dispôs de 14,83% dos votos no primeiro turno.

Conclusão

Destarte, o avanço da direita bolsonarista na capital paulista encaminha-se para o segundo turno. Ainda que o presidente não tenha se declarado oficialmente como cabo eleitoral, Russomanno conta com o apoio de classes importantes que elegeram Bolsonaro na cidade. Por sua vez, Covas encontra-se na tríade de prefeitos com alto índice de rejeição para reeleição. No entanto, seu tempo de TV devido às coligações pode vir a ser decisivo no processo de  lhe encaminhar para o segundo turno. Guilherme Boulos e Márcio França disputam o pódio da esquerda. Tatto e outros candidatos  permanecem sem grandes avanços ou recuos. Por fim, a cidade paulista apresenta-se como peça fundamental para entendimento da dimensão de ruptura ou continuidade no discurso de candidatos bolsonaristas para o pleito de 2022.


[1]https://veja.abril.com.br/blog/radar/na-primeira-semana-de-campanha-boulos-e-o-que-cresce-nas-redes/

[2] A pesquisa Ibope foi registrada no TSE sob o nº SP-09520/2020. Foram entrevistadas 805 pessoas entre os dias 30 de setembro e 1º de outubro. A margem de erro é de três pontos percentuais. O nível de confiança estimado é de 95%. Os contratantes foram a TV Globo e o jornal “O Estado de S. Paulo”.

[3]https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2020/10/11/ibope-com-alta-rejeicao-prefeitos-de-capitais-se-distanciam-de-reeleicao.htm

[4]https://eleicoescomlavareda.com.br/2020/10/09/a-direita-avanca/

[5]Maurício Moura e CEO do IDEIA Big Data e pesquisador da Universidade George Washington

[6]https://www.cnnbrasil.com.br/politica/2020/10/09/justica-eleitoral-suspende-propaganda-de-boulos-com-o-ator-wagner-moura

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