As capitais do Sul: entre figurões e ausentes

POR WANDERSON DE MELLO

Continuando a nossa série de boletins sobre a Região Sul, esse texto tem por objetivo apresentar, mas também analisar os resultados dos dois turnos das eleições municipais de 2020. Para alcançar esse objetivo, as fontes mobilizadas foram: a wikipédia, datapédia, o TSE e portais de notícia como G1.

  Os pleitos de 15 e 29 de novembro consolidaram o que foi proposto até então pela equipe Nudeb: o protagonismo das eleições no Sul foi das forças “tradicionais” da política. O bolsonarismo não foi um agente mobilizador significativo no Sul, onde a disputa eleitoral girou em torno de figuras conhecidas da região. A esquerda em Curitiba surpreendeu, apesar de ainda não apresentar uma competitividade efetiva. Florianópolis, a frente única progressista não conseguiu superar a performance eleitoral anteriores na cidade. Porto Alegre, a candidatura de Manuela D’Ávila conseguiu passar para o segundo turno, apesar da relativa fragmentação das esquerdas, mas perdeu no segundo turno para o MDB.

A outra tese proposta pelo Nudeb no nosso último boletim foi o fenômeno das abstenções. Como esperado as ausência aumentaram em torno de 10% em todas as três capitais e esse fenômeno foi essencial para Curitiba e Florianópolis que tiveram um resultado logo no primeiro turno.

Curitiba

Conforme proposto pelos nosso boletins anteriores, toda a disputa eleitoral na capital paranaense seria dominada pelos partidos de direita, com o foco principal no Democratas do atual prefeito e já reeleito no primeiro turno. Rafael Greca (DEM), que agora irá para o seu terceiro mandato como prefeito de Curitiba, consolidou a sua vitória já no primeiro turno atingindo 499.821 votos (59,74%). Apesar do incontestável favoritismo e vitória de Greca, foi interessante perceber os resultados da esquerda no berço da Lava-Jato. Goura (PDT) atingiu 13,26%, conseguindo superar o candidato pelo PSL, Fernando Francischini com (6,26%)[1].

O cenário de fragmentação das candidaturas de Curitiba foi o mais crítico das capitais da região Sul totalizando dezesseis candidatos para o cargo de prefeito. As candidaturas de esquerda enfrentaram o mesmo problema com candidaturas do PT, PSOL, PCdoB, entre outros. Não é de se suspeitar que nesse contexto de fragmentação, as esquerdas não foram capazes de chegar ao segundo turno. Interessante questionar também, até onde essas candidaturas encontram resistência na cidade de Curitiba, que na história recente tem se construído como um um símbolo contra a corrupção que foi materializada na figura da esquerda? Mesmo com toda essa carga simbólica, o PDT foi capaz de reunir apoio popular significativo. 

Florianópolis

A capital de Santa Catarina passava por um contexto similar ao de Curitiba com um prefeito extremamente popular com possibilidade de reeleição já no primeiro turno.  Como haviam demonstrado as pesquisas, o pleito foi decidido logo no primeiro turno com a vitória de Gean Loureiro (DEM) com 53,46% dos votos válidos[2].

A grande novidade de Florianópolis foi a construção de uma frente única de esquerda encabeçada pelo PSOL, com a candidatura de [Professor] Elson Pereira que conseguiu 18,13% dos votos válidos. A candidatura de Elson, no entanto, perdeu 2 pontos percentuais, comparado com as eleições de 2016. Como já sugerimos nos nossos boletins sobre a região Sul, o limite de apelo das esquerdas pode ter sido atingido. A performance da candidatura do PSOL se inscreveu num eleitorado já familiarizado e já confortável em votar em candidatos de esquerda[3]

Esse resultado comprova a nossa análise do cenário em Florianópolis, como algo que não era de grandes esperanças de uma “virada para a esquerda”, considerando a história da própria cidade, mas novamente consolida o PSOL, ao invés do PT, como agente liderante da esquerda na capital catarinense. 

Porto Alegre

Porto Alegre tem um cenário mais complexo. A sua disputa marcada por reviravoltas. Manuela D’Ávila, que manteve a liderança durante todo o processo, chegou a atingir 40% das intenções de voto na pesquisa Ibope do 14/11/2020[4]. Essa marca não foi atingida pela candidata do PCdoB – ficando com 29,00% dos votos válidos -, além disso Sebastião Melo (MDB), que disputava com o atual prefeito Nelson Marchezan Junior (PSDB) pelo segundo lugar, foi capaz de virar o jogo com 31,01% dos votos válidos[5]

A análise proposta para o primeiro turno foi que propomos para a capital gaúcha vai na direção do abandono da candidatura de José Fortunati (PSD), que teve que encerrar sua participação devido a impugnação da candidatura de seu vice, por razões de registro[6]. Fortunati não estava muito longe de Marchezan e Melo com 13% das intenções de voto[7]ao anunciar sua renúncia da candidatura, também declarou apoio a Sebastião Melo[8].

Já no segundo turno, esperava-se que os candidatos que não conseguiram avançar para o segundo turno seguissem um caminho de apoio a Sebastião Melo, com exceção das candidatas do PSOL e do PDT. Essa previsão se confirmou. Isso marcou o favoritismo do emedebista. A vitória de Melo se confirmou hoje com 54,63% dos votos válidos. Por um lado, isso apresenta um fenômeno que já era esperado: a grande dificuldade, por parte da campanha de Manuela, de conseguir derrotar a união dos candidatos da direita, inclusive com a aproximação de Sebastião Melo com o bolsonarismo. Por outro,  é de se notar o grande apelo atingido por Manuela (45,37%).

O cenário apresentado nas urnas mostra, como já vínhamos falando, o cenário de imprevisibilidade na cidade. A proximidade nas intenções de voto, entre os dois candidatos, que disputaram o segundo turno, mostraram uma cidade relativamente dividida, apesar de não ter atingido os 40% dos votos válidos,  a candidata do PCdoB teve muita musculatura para disputar de igual para igual com o emedebista. Com a virada de Sebastião Melo, a disputa se tornou mais complicada para Manuela que tinha pouca possibilidade de expansão de seu apoio, por meio de alianças. A possibilidade de uma vitória da esquerda dependeu somente da capacidade de Manuela de conseguir virar votos e de trazer pessoas para as urnas. Ela foi bastante bem sucedida no primeiro, porém esse somente não foi suficiente para a vitória.

O caso das abstenções

Como propomos no nosso último boletim sobre a região Sul, parte estratégica da disputa seria de não somente mobilizar as bases e os apoiadores, mas também de mobilizar a população em geral a votar. Meses antes das eleições já estávamos propondo a possibilidade de abstenção recorde nas capitais do Sul. A pandemia e um processo de desânimo com a política podem ser atribuídos a esse aumento. Curitiba teve 30,18%[9] de abstenções comparados com 20,12%[10] em 2016. Florianópolis teve 28,65%[11], em 2016 as abstenções atingiram 16,18%[12]. Em Porto Alegre,  as abstenções no primeiro turno chegaram 33,08%[13], onde nas últimas eleições municipais chegaram a 25,26%[14].No segundo turno as abstenções ficaram em 32,76%[15]

O aumento de em torno de 10 pontos percentuais das abstenções não são números ignoráveis e podem ter contribuído, em especial no exemplo de Florianópolis, para a rápida conclusão da disputa. A pergunta que ficou foi: como as abstenções vão influenciar o pleito de Porto Alegre, no segundo turno, que geralmente tem maior abstenção, agora somado com a possibilidade de uma segunda onda da COVID-19? As abstenções na capital gaúcha recuaram 00,30%, o que não representa uma mudança significativa. Essas abstenções que podem representar os idosos – um grupo geralmente mais conservador -, por sua vez uma grande limitação para o aumento do apoio de Sebastião Melo, por outro lado, era um grupo estratégico de grande importância para um tentativa de virada para Manuela. 

Conclusão

Nos nossos boletins sobre a região Sul foi uma tendência a nossa interpretação de um fenômeno contraditório: o grande sucesso de Jair Bolsonaro e de seus aliados nas eleições de 2018 com uma eleição em 2020 predominantemente liderado por forças da política “tradicional”. O Democratas, o MDB, o PP, partidos que incorporaram o “Centrão”, os partidos de esquerda que disputam de forma efetiva as eleições, esses foram os grandes agentes e protagonistas das eleições municipais de 2020.  Existe sim a possibilidade que o bolsonarismo, não somente por sua desorganização, mas também pelo aumento da rejeição da figura do presidente nas capitais, não foi capaz de mobilizar novamente a busca pela “renovação bolsonarista”. Apesar de alternativas conservadoras de direita, foi a centro-direita liberal, que manteve sua hegemonia na Região. Candidatos que podem ser associados ao bolsonarismo como Fernando Francischini (PSL), Marisa Lobo (Avante) ambos de Curitiba, Helio Bairros (Patriotas) de Florianópolis e  João Derly (Republicanos) de Porto Alegre não performaram tão bem.

Nos casos de Curitiba e Florianópolis, essa alternativa se deu pela confiança novamente na figura de partidos da direita liberal e em figurões da política local, como o reeleito Rafael Greca, que já ocupou o cargo de prefeito (1993 – 1996) – também foi vereador, deputado estadual constituinte, deputado federal e ministro do Esporte e Turismo[16].

Já no campo progressista, Curitiba enfrentou grande fragmentação das candidaturas de esquerda, mas representa novidade a recuperação de parte do eleitorado com a performance do PDT, lembrando que o mesmo partido já chegou a governar Curitiba em coligação com PT em 2012[17]. Florianópolis, a união de uma frente única não foi somente uma vitória, mas também uma necessidade prática. Mesmo durante a hegemonia do Lulismo, nenhuma candidatura de esquerda chegou a entrar no segundo turno. A união foi uma necessidade objetiva de uma cidade que resiste historicamente às esquerdas[18]. Apesar disso, a união foi sucedida em de mobilizar seu eleitorado cativo, tornando real a possibilidade disputa no segundo turno. As abstenções podem muito bem ter impedido essa conquista. 

Em Porto Alegre – um reduto de esquerda na região – a disputa foi acirrada. O atual prefeito que buscava a reeleição, Marchezan Junior (PSDB), também não conseguiu mobilizar o apoio de uma direita mais radicalizada, mesmo com um vice do PSL. Enquanto, o triunfo eleitoral, em comparação com as eleições de 2016, experimentado pela esquerda na cidade, se resume até o momento na popularidade de Manuela D’Ávila. A união das esquerdas no segundo turno, mobilizou e virou parte dos votos dos canditados de direita, que concorreram contra a Chapa PCdoB-PT, mas não foi o suficiente. Uma estratégia que buscasse reduzir as abstenções, talvez fosse mais bem-sucedida.

Com os pleitos finalizados em Curitiba e Florianópolis, e agora em Porto Alegre. Podemos observar, que em uma tradicional disputa esquerda x direita, Sebastião Melo mobilizou parte da narrativa conservadora e tentou se aproximar do bolsonarismo. Enquanto, Marchezan Júnior não foi bem sucedido no primeiro turno com essa tática, ainda assim teve expressiva votação (21,07%), Sebastião conseguiu a vitória. O desafio para esquerda em Porto Alegre foi grande. Acredito que as abstenções em Porto Alegre podem ter sido o grande definidor da disputa.


[1] https://resultados.tse.jus.br/oficial/#/eleicao;e=e426;uf=pr;mu=75353/resultados/cargo/11

[2] https://resultados.tse.jus.br/oficial/#/eleicao;e=e426;uf=sc;mu=81051/resultados

[3] https://eleicoes.datapedia.info/eleicao/2016/SC/81051

[4] https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/eleicoes/2020/noticia/2020/11/14/pesquisa-ibope-em-porto-alegre-votos-validos-manuela-40percent-melo-25percent-marchezan-17percent.ghtml

[5] https://resultados.tse.jus.br/oficial/#/eleicao;e=e426;uf=rs;mu=88013/resultados/cargo/11

[6] https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/eleicoes/2020/noticia/2020/11/13/jose-fortunati-oficializa-renuncia-de-candidatura-a-prefeitura-de-porto-alegre-na-justica-eleitoral.ghtml

[7] https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/eleicoes/2020/noticia/2020/10/29/pesquisa-ibope-em-porto-alegre-manuela-27percent-marchezan-14percent-melo-14percent-fortunati-13percent.ghtml

[8] https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/eleicoes/2020/noticia/2020/11/11/apos-renuncia-de-fortunati-ptb-confirma-apoio-a-sebastiao-melo-para-prefeitura-de-porto-alegre.ghtml

[9] https://resultados.tse.jus.br/oficial/#/eleicao;e=e426;uf=pr;mu=75353/totalizacao

[10] https://pt.wikipedia.org/wiki/Elei%C3%A7%C3%A3o_municipal_de_Curitiba_em_2016#Resultados

[11] https://resultados.tse.jus.br/oficial/#/eleicao;e=e426;uf=sc;mu=81051/totalizacao

[12] https://pt.wikipedia.org/wiki/Elei%C3%A7%C3%A3o_municipal_de_Florian%C3%B3polis_em_2016#Resultados

[13] https://resultados.tse.jus.br/oficial/#/eleicao;e=e426;uf=rs;mu=88013/totalizacao

[14] https://pt.wikipedia.org/wiki/Elei%C3%A7%C3%A3o_municipal_de_Porto_Alegre_em_2016#Resultados

[15] https://resultados.tse.jus.br/oficial/#/eleicao;e=e427;uf=rs;mu=88013/totalizacao

[16] https://g1.globo.com/pr/parana/eleicoes/2020/noticia/2020/11/15/rafael-greca-dem-e-reeleito-prefeito-de-curitiba.ghtml

[17] https://nudebufrj.com/2020/09/22/sul/

[18] https://nudebufrj.com/2020/09/22/sul/

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