Continuação do mapeamento nas capitais brasileiras das candidaturas que fazem alusão às forças de Segurança Pública 

POR ISABELLA CORREIA

No domingo (15/11), os brasileiros foram às urnas escolher os novos prefeitos e vice-prefeitos das principais capitais do país. O presente texto é parte da pesquisa de monitoramento eleitoral do NUDEB sobre as candidaturas que fazem alusão as forças de segurança nas grandes capitais brasileiras nas eleições municipais de 2020. No primeiro texto, postado no dia 20 de outubro de 2020, foi exposto que a cada eleição cresce o número de candidatos que fazem alusão às forças de segurança pública na política brasileira. Isso acontece devido a pautas de segurança pública, a necessidade de ter representantes desse grupo nas Câmaras Municipais e Assembleias, assim como também chefes do Executivo, e por influência da vitoria do Presidente Jair Bolsonaro nas eleições de 2018. Ao apresentarem uma narrativa que coloca os membros das forças de segurança pública como heróis do combate contra a corrupção e a violência, se acredita que só eles irão repor a ordem, a moral e os bons costumes, adotando, portanto, uma atitude conservadora. Não é por acaso que os personagens que conseguiram se destacar nas eleições municipais nas grandes capitais – e conseguiram chegar ao 2o turno – pertencem a partidos à direita e, principalmente, ao centro do espectro político. 

Em geral, em comparação às eleições de 2016, nota-se que houve um crescimento de 39% de candidatos a prefeito e vice-prefeito com esse perfil nos municípios dos Estados brasileiros que conseguiram se eleger. Entretanto, apesar desses fatores, percebe-se que foram poucas candidaturas pertencentes a esse grupo que conseguiram ganhar as eleições ainda no 1turno ou até mesmo chegar ao 2turno nas capitais. Dessa forma, nesse texto será analisado o histórico de cada candidato das capitais brasileiras, quais são as chances dele vencer as eleições municipais de 2020 e os possíveis fatores que contribuíram para a derrota desses personagens nas eleições.

Das 22 capitais que haviam prefeitos e vice-prefeitos com esse perfil e que foram analisadas anteriormente, a maioria dos candidatos desse grupo, conseguiram chegar aos 3 primeiros colocados. Mas somente em 8 capitais membros das forças de segurança pública conseguiram se destacar ao ponto de chegar ao 2o turno. Em Macapá, capital do Estado de Amapá, as eleições foram adiadas para o dia 6 de dezembro de 2020 em razão da crise de energia e falta de segurança, por isso, não há resultados sobre a situação da capital. Lembrando que foram consideradas candidaturas que fazem alusão aos membros de forças de segurança pública como aquelas em que o titular se identificou como bombeiro militar, membro das Forças Armadas, militar reformado, policial civil, policial militar e/ou nome na urna de cunho militar. À vista disso, há no total 9 candidaturas que possuem esse perfil e elas estão presentes nas capitais: Aracaju, Belém, Fortaleza, João Pessoa, Macapá, Rio de Janeiro, São Luís, Teresina e Vitória. Esse levantamento de dados sobre as candidaturas desses personagens aconteceu por meio dos portais de notícias do Grupo Globo, Folha de São Paulo, UOL, Estadão, noticiários regionais e, também, através das redes sociais de cada candidato. 

Falta de confiança da população sobre os membros das forças de segurança pública e o enfraquecimento de Jair Bolsonaro

Muitos candidatos desse grupo sustentaram o discurso de “lei e ordem”, sem tentar, de fato, se conectar com os eleitores. Especialistas explicam que os candidatos que fazem alusão às forças de segurança pública se limitavam no discurso conservador de salvar a população de uma suposta ameaça “comunista”, de “ideologia de gênero”, corrupção e violência urbana, o que não garante suas vitórias nas urnas. Muitos rostos desse perfil que se candidataram eram considerados novos, por isso os eleitores preferiram eleger aqueles que já conheciam. Não basta apenas adotarem discursos que todos os brasileiros já conhecem, tal qual do problema da segurança pública. É necessário conquistar a simpatia dos eleitores para conseguir se eleger, o que muitos não conseguiram. Além disso, houve um enfraquecimento do presidente Jair Bolsonaro, devido a sua postura na pandemia e também em relação às políticas públicas de recuperação econômica. Por isso, poucos candidatos que ele mostrou apoio, conseguiram se destacar nessas eleições municipais. Isso reforça a ideia de que só se sustentar em um discurso conservador não é o suficiente para se eleger. 

O candidato Bruno Engler (PRTB), de Belo Horizonte, chegou a participar de uma das lives feitas pelo presidente da República e se viu derrotado pelo Alexandre Kalil (PSD), que conseguiu se reeleger. O presidente também apoiou a candidatura da Delegada Patricia (Podemos) de Recife, que terminou em 4º lugar no 1º turno, com 14,06% dos votos. No Rio, Marcelo Crivella (Republicanos) apesar de ter conseguido chegar ao 2º turno, possui poucas chances de se reeleger. Já em Fortaleza, o Capitão Wagner (PROS), está no 2º turno, e conquistou no 1º turno 33,32% dos votos. Em Manaus, o candidato apoiado por Bolsonaro, Coronel Menezes (Patriota), ficou de fora. 

Analise de cada candidato 

Aracaju

Danielle Garcia, ou Delegada Danielle, é candidata à prefeitura de Aracaju pelo partido Cidadania e conseguiu alcançar o 2º turno com 21,31% dos votos válidos contra 45,57% do seu adversário, Edvaldo (PDT). Ela ganhou notoriedade, em Sergipe, em sua carreira de delegada, principalmente no combate à corrupção. Segundo a pesquisa do Ibope publicada no dia 26/11/2020, ela possui o percentual de intenção de votos válidos de 38%. A margem de erro é 4 pontos percentuais para mais ou para menos, mostrando que a candidata tem poucas chances de vencer a corrida eleitoral. No domingo, 29/11/2020, Delegada Danielle foi derrotada na eleição municipal da capital de Sergipe com 42,14% dos votos válidos. 

Belém

O ex-delegado federal Everaldo Eguchi, que nas urnas se apresenta como Delegado Federal Eguchi (Patriota), terminou em segundo lugar no 1º turno, com 23,06% dos votos válidos. Ele não se enxerga como “candidato de Bolsonaro”, apesar de possuir apoio do atual presidente. Além disso, ao longo da campanha, mostrou que concorda com as ideias do presidente. Segundo a pesquisa do Ibope publicada no dia 28/11/2020, o candidato possui 42% dos votos válidos contra 58% do seu adversário, Edmilson (PSOL). A margem de erro era de 4 pontos percentuais, o que mostra que, até essa data, os dois estavam empatados tecnicamente e havia chances do candidato apoiado pelo presidente se eleger. Entretanto, na noite do domingo, 29/11/2020, Delegado Federal Eguchi perdeu com 48,24% para seu oponente.

Fortaleza

Até a pesquisa eleitoral do Ibope postada no dia 14/10/2020, o candidato Capitão Wagner (Pros) era o preferido das urnas. Ele recebeu apoio do presidente, entretanto, nunca buscou abraçar o apoio de Jair.  “O deputado federal Capitão Wagner (Pros) foi um dos poucos candidatos que receberam explicitamente o apoio de Jair Bolsonaro. Ele terminou o 2º turno com 33,32% dos votos válidos, contra 35,72% do seu adversário, Sarto (PDT). E, pelas pesquisas, Wagner arrisca não ter êxito no próximo turno. O Ibope, no dia 28/11/2020, apontou 61% das intenções de votos válidos para Sarto e 39% para o Capitão Wagner. A margem de erro é de 3 pontos percentuais para mais ou para menos. No dia 29/11/2020, Capitão Wagner perdeu as eleições municipais com 48,31% dos votos válidos.

João Pessoa

O candidato Nilvan Ferreira (MDB) à Prefeitura de João Pessoa chegou ao segundo turno com 16,61% dos votos válidos. Ele entra nessa analise pois seu candidato a vice-prefeito é Eduardo Milanez, ou Major Milanez, (MDB). Segundo a pesquisa do Ibope publicada no dia 28/11/2020, o candidato se encontra com 42% dos votos válidos, contra 58% do seu adversário Cícero Lucena (PP). A pesquisa possui a margem de erro de 4 pontos percentuais para mais ou para menos, mostrando que Nilvan tem poucas chances de se tornar prefeito em João Pessoa.  No domingo 29/11/2020, Nilvan Ferreira perdeu as eleições com 46,84% dos votos válidos. 

Macapá

Devido à crise de energia e falta de segurança, as eleições de Macapá foram adiadas para o dia 6/12/2020. No dia 11/11/2020, Patrícia Ferraz, candidata à prefeitura de Macapá pelo partido Podemos, segundo a pesquisa do Ibope, possui 18% de intenção de votos. Ela entra nessa analise, pois seu candidato a vice-prefeito é o tenente bombeiro militar Juracy Picanço, do mesmo partido. 

Rio de Janeiro

Marcelo Crivella (Republicanos) é o candidato que recebeu apoio do presidente Jair Bolsonaro. O atual prefeito do Rio de Janeiro tem em sua chapa a tenente-coronel Andréa Firmo (Republicanos), primeira mulher do Exército a comandar uma base militar em missão da Organização das Nações Unidas (ONU), na África. Crivella tem poucas chances de derrotar seu adversário, Eduardo Paes (DEM), nas urnas. No 1º turno, Crivella acabou em segundo lugar, com 21,90% dos votos válidos. A pesquisa eleitoral feita pelo Ibope e divulgada no dia 28/11/2020, mostrava que o atual prefeito do Rio de Janeiro tinha 32% dos votos válidos, contra 68% dos votos a favor de Paes. No dia 29/11/2020, Crivella perdeu em todas as zonas eleitorais, ficando apenas com 35,93% dos votos válidos. 

São Luís

Eduardo Braide (Podemos) é um candidato constantemente elogiado pelo presidente. Ele representa a oposição ao governo de Flávio Divo (PCdoB). Sua candidata a vice-prefeita é a policial militar Esmênia Miranda. Em sua campanha, apesar de Eduardo Braide ser critico ao governador Flávio Dino, se apoiou em um perfil ameno, onde evitou colocar suas diferenças contra seus adversários e contra o governador de lado. Nas entrevistas e nos debates, Braide preferiu elencar emendas que se reverteram em obras e equipamentos na capital maranhense. Ele teve um bom desempenho nas urnas no 1º turno, onde conseguiu 37,81% dos votos válidos contra 22,15% do seu oponente, Duarte (Republicanos). A pesquisa eleitoral feita pelo Ibope e divulgada no dia 27/11/2020 apontou os seguintes percentuais de intenção de votos válidos para o segundo turno das Eleições 2020, sendo 54% para Braide e 46% para Duarte. No domingo, 29/11/2020, Braide venceu as eleições municipais com 55,53% dos votos válidos.

Teresina

Kleber Montezuma (PSDB) possui um projeto conservador e se apoiou, principalmente, ao discurso fundamentalista religioso. O candidato a vice-prefeito na chapa é o sargento R. Silva (Progressistas). Ele obteve no primeiro turno 26,70% dos votos válidos. E segundo a pesquisa eleitoral divulgada no dia 27/11/2020, ele possui 32% dos votos válidos, perdendo para seu oponente, Dr. Pessoa (MDB), que tem 68%. No domingo, 29/11/2020, a derrota se confirmou e o resultado foi 62,31% para Dr. Pessoa e 37,69% para Montezuma.

Vitória

O Delegado Lorenzo Pazolini (Republicanos) conseguiu no primeiro turno 30,95% dos votos válidos, se posicionando em primeiro lugar. Ele é um dos representantes da ala conservadora e atualmente é deputado estadual em seu primeiro mandato. Pazolini conquistou os holofotes por sua atuação contra pedófilos enquanto foi delegado. Apesar de projetos conservadores e estar ligado a ministra Damares, não se considera um candidato do Bolsonaro. Ele se enxerga como centro-direita. Em sua chapa, a Capitã Estéfane se encontra como vice. Segundo a pesquisa do Ibope publicada no dia 28/11/2020, ele se encontra empatado com seu adversário, João Coser (PT), com 50% dos votos válidos. No dia 29/11/2020, Pazolini ganha a eleição com 58,50% dos votos válidos.

Considerações Finais

Em resumo, nota-se que os candidatos que fazem alusão aos membros das forças de segurança pública migraram, em sua maioria, para partidos pertencentes ao centro do espectro político, para tentar se afastar dos “extremismos”. Entretanto, percebe-se que essas pessoas que conseguiram se destacar nas eleições municipais de 2020 nas capitais brasileiras ainda possuem projetos conservadores, defendem a política de “lei e ordem” e possuíam o apoio do atual presidente da República, Jair Bolsonaro. 

Em 2020, houve um aumento da candidatura de personagens com esse perfil nas eleições municipais, principalmente, graças à vitória do Presidente Jair Bolsonaro em 2018. E de fato, houve um encorajamento para que essa classe tenha uma participação nas eleições municipais e, também, na política brasileira como um todo.  As candidaturas de pessoas que fazem alusão às forças de segurança pública, então, apresentaram novas configurações políticas que se destacaram nos pleitos municipais. Mas especialistas indicam que ter apoio do Bolsonaro pode ter sido a causa da derrota dos outros candidatos analisados. Por conta da postura diante a pandemia e da crise econômica, Bolsonaro vem se enfraquecendo e isso influenciou a opinião do eleitorado em relação às candidaturas apoiadas por ele. Além disso, os eleitores demonstraram preferência em candidatos que eles já conheciam, tornando difícil para aqueles que são novatos conquistar a atenção do eleitorado, já que a maioria dos candidatos também apresentavam discursos de salvação em relação à educação, saúde e segurança pública. Por isso, mesmo que alguns candidatos desse perfil tenham se destacado no primeiro turno, não foi o suficiente para alcançarem a vitória no segundo turno.

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