Eleições municipais 2020: Belo Horizonte e Vitória

POR SOFIA FERREIRA

 O presente texto objetiva dar continuidade a análise das eleições municipais de 2020 em Belo Horizonte – MG e Vitória – ES, procurando observar as causas e efeitos dos resultados obtidos na disputa eleitoral entre a direita e a esquerda em cada cidade.    

Para isso, observamos a apuração do primeiro e segundo turnos das eleições e o cenário político de cada cidade. Trabalhamos a hipótese de que a direita sairá fortalecida desse pleito, vide a reeleição de Alexandre Kalil (PSD) em Belo Horizonte no primeiro turno e a eleição de Lorenzo Pazolini (Republicanos) em Vitória no segundo turno. 

As fontes utilizadas para essa pesquisa foram o site do Tribunal Superior Eleitoral, jornais locais das cidades e jornais de grande circulação como o G1 e a VEJA.

Eleições Municipais em Belo Horizonte – MG 

Desde o início, o cenário político em Belo Horizonte apontava para a reeleição de Alexandre Kalil do PSD. Na primeira pesquisa Ibope publicada dia 2 de outubro, o candidato apresentava 58% das intenções de voto, e na última, publicada dia 14 de novembro, 72%.[1] Assim, sua eleição no primeiro turno, com 63,36% dos votos, já era esperada.[2]

A popularidade de Kalil (PSD) se manteve mesmo durante a pandemia, quando medidas mais rígidas de isolamento foram adotadas. Segundo pesquisa Ibope divulgada dia 9 de novembro, 76% aprovavam sua gestão e 65% a avaliavam como ótima ou boa.[3] Isso mostra que a tentativa do presidente de responsabilizar os prefeitos pelas catástrofes da pandemia não surtiu efeito em Belo Horizonte. 

Outro elemento importante sobre a reeleição do candidato é o discurso da não política. Tanto em 2016 quanto em 2020, Kalil (PSD) segue com a narrativa ‘nem de direita e nem de esquerda’, apresentando-se como o gestor da cidade e beneficiando-se da polarização quando necessário. 

No cenário eleitoral de Belo Horizonte, outro fato chama a atenção. Em 2020, legendas que costumavam liderar na linha de frente, como PT e PSDB, ficaram praticamente fora da disputa. Nilmário Miranda candidato do PT obteve 1,88% dos votos e Luisa Barreto do PSDB, 1,39%. Enquanto Bruno Engler (PRTB), candidato apoiado por Bolsonaro chegou ao segundo lugar com 9,95% dos votos. No que concerne à esquerda, a candidata do PSOL, Áurea Carolina, obteve 8,33% dos votos, sendo a quarta mais votada. 

Portanto, é possível concluir que as narrativas políticas ainda estão em disputa. A reeleição de Kalil (PSD) corrobora com a hipótese de que as eleições municipais representariam um fortalecimento da direita. Ademais, o fato de a candidata do PSOL ter obtido mais votos que o candidato petista, aponta para a consolidação da legenda na capital.

                                                                  Resultado 1° turno em Belo Horizonte

 
Alexandre Kalil (PSD)63,3%
Bruno Engler (PRTB)9,95%
João Vitor Xavier (Cidadania)9,22%
Áurea Carolina (PSOL)8,33%
Rodrigo Paiva (NOVO)3,63%
Nilmário Miranda (PT)1,88%

Eleições Municipais em Vitória – ES

Em Vitória, a conjuntura eleitoral é diferente. A disputa entre os candidatos João Coser (PT), Fabrício Gandini (Cidadania) e Lorenzo Pazolini (Republicanos) se mostrou acirrada desde a primeira pesquisa eleitoral. No entanto, a hipótese de que Gandini (Cidadania) protagonizaria a eleição municipal não se confirmou e o segundo turno, disputado entre o candidato petista e o candidato da direita bolsonarista, culminou na eleição de Lorenzo Pazolini (Republicanos) com 58,50% dos votos. 

Nas pesquisas eleitorais, Pazolini (Republicanos) foi quem demonstrou maior potencial de crescimento: na primeira pesquisa Ibope, possuía 10% das intenções de voto; na segunda, 18% e na última, divulgada um dia antes do primeiro turno, 27%.[4] Com 30,95% dos votos válidos o candidato concorreu ao segundo turno ao lado de João Coser (PT) que obteve 21,82% dos votos, apenas 0,7% a mais do que os 21,12% de Gandini (Cidadania).[5]

Observando o histórico eleitoral da cidade, percebe-se um favoritismo a candidaturas de esquerda e centro-esquerda. Em 2004, Coser (PT) foi eleito e depois, reeleito em 2008. Em 2012, Luciano Rezende (Cidadania) ganhou do PSDB e em 2016 foi reeleito. Ou seja, nas últimas quatro eleições municipais, a direita não conseguiu eleger seu candidato na capital. No entanto, nas eleições presidenciais de 2018, Bolsonaro foi eleito em Vitória com 63,12% dos votos[6], e, além disso, observou-se uma ascensão da ala conservadora desde 2017.[7]

Pazolini (Republicanos) é o candidato da direita bolsonarista, porém a estratégia de sua campanha foi enfatizar projetos para transformar Vitória em uma cidade de paz e tranquilidade, além do debate acerca da segurança pública e ataques ao adversário. O candidato contou com o apoio de partidos da direita tradicional como o DEM, indicando uma aliança entre o bolsonarismo e a direita tradicional, reforçada pela manifestação de apoio da candidata Neuzinha do PSDB[8] e do candidato Mazinho do PSD[9]. Ademais, o candidato contou com apoio do grupo conservador e figuras como o pastor Silas Malafaia.[10] Nesse contexto, Gandini (Cidadania) optou por se manter neutro durante as campanhas do 2° turno, porém, alguns de seus correligionários como Denninho Silva (Cidadania), vereador mais votado em Vitória, e Luiz Emanuel Zouain (Cidadania) declararam apoio a Pazolini (Republicanos).[11]

No que concerne à esquerda, uma dificuldade central para o candidato petista foi o alto índice de rejeição. Nas três pesquisas Ibope, divulgadas antes do primeiro turno, João Coser (PT) manteve 35% de rejeição enquanto Pazolini (Republicanos) oscilou entre 14% e 18%.[12]

Coser (PT) contou com o apoio de figuras da esquerda em suas redes sociais como Marcelo Freixo (PSOL), Marina Silva (REDE), Eduardo Suplicy (PT) e o ex-presidente Lula (PT), além do PSB, partido do governador do estado, Renato Casagrande (PSB).[13]  O segundo turno serviu como um termômetro para a capacidade de mobilização do partido, demonstrando que a estratégia de lançar candidatos que já possuíam uma trajetória, foi efetiva na cidade.[14] Porém, não foi o suficiente em um contexto de polarização política, ascensão do conservadorismo e desgaste do partido que ainda sofre com as consequências da Lava Jato.

Logo, a eleição de Lorenzo Pazolini do Republicanos e a derrota de João Coser do PT corroboram com a hipótese de que a direita sairia fortalecida das eleições e 2020.

                                                                        Resultado 1° turno em Vitória 

  
Delegado Pazolini (Republicanos)30,95%
João Coser (PT)21,82%
Fabrício Gandini (Cidadania)21,12%
Capitão Assumção (Patriota)7,22%
Mazinho (PSD)6,65%
Neuzinha (PSDB)4,61%

                                                                      Resultado 2° turno em Vitória

  
Delegado Pazolini (Republicanos)58,50%
João Coser (PT)42,50%

Conclusão 

Conclui-se que apesar de o discurso da extrema direita ainda mobilizar um número considerável de pessoas, no âmbito municipal não é tão efetivo. A eleição de Kalil (PSD) mostra que prevalece a imagem do político gestor e do distanciamento da política, o que beneficia a direita tradicional e a centro-direita. Enquanto em Vitória, a eleição de Pazolini (Republicanos), apoiado pelo DEM e PSDB confirma a hipótese do fortalecimento da direita. Considerando esses aspectos, entende-se que a direita tradicional saiu fortalecida do pleito de 2020 com a reeleição de Kalil (PSD) em Belo Horizonte e a eleição do delegado Pazolini (Republicanos) em Vitória.


[1] https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/eleicoes/2020/noticia/2020/11/14/pesquisa-ibope-em-belo-horizonte-votos-validos-kalil-72percent-joao-vitor-xavier-9percent-aurea-6percent-engler-4percent.ghtml

[2] https://resultados.tse.jus.br/oficial/#/eleicao;e=e426;uf=mg;mu=41238/resultados

[3] https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/eleicoes/2020/noticia/2020/11/10/pesquisa-ibope-veja-avaliacao-de-kalil-romeu-zema-e-bolsonaro-em-belo-horizonte.ghtml

[4] https://g1.globo.com/es/espirito-santo/eleicoes/2020/noticia/2020/11/14/pesquisa-ibope-em-vitoria-votos-validos-delegado-pazolini-27percent-gandini-26percent-joao-coser-26percent.ghtml

[5] https://resultados.tse.jus.br/oficial/#/eleicao;e=e426;uf=es;mu=57053/resultados

[6] http://especiais.g1.globo.com/politica/eleicoes/2018/mapa-da-apuracao-no-brasil-presidente/2-turno/

[7] https://veja.abril.com.br/blog/noblat/o-xadrez-politico-nas-eleicoes-em-vitoria-es-por-alexandre-caetano/

[8] https://www.agazeta.com.br/es/politica/em-vitoria-coser-vai-a-casagrande-neuzinha-fecha-com-pazolini-e-mazinho-fica-neutro-1120

[9] https://www.instagram.com/p/CIEAtJlj1dR/

[10] https://www.agazeta.com.br/colunas/vitor-vogas/malafaia-declara-apoio-a-pazolini-e-pede-para-vitoria-dizer-nao-ao-pt-1120

[11] https://es360.com.br/secretarios-de-casagrande-declaram-apoio-a-coser-em-vitoria/

[12] https://g1.globo.com/es/espirito-santo/eleicoes/2020/noticia/2020/11/14/pesquisa-ibope-em-vitoria-votos-validos-delegado-pazolini-27percent-gandini-26percent-joao-coser-26percent.ghtml

[13] https://pt.org.br/coser-amplia-apoios-com-o-psb-e-acelera-a-virada-em-vitoria/

[14] https://www.google.com.br/amp/s/oglobo.globo.com/brasil/eleicoes-2020/pt-deixa-renovacao-de-lado-aposta-em-veteranos-na-disputa-municipal-1-24644184%3fversao=amp

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