Eleições municipais no Rio de Janeiro: a disputa entre ‘as direitas’ e a vitória da direita liberal

POR MARIA LUIZA DE FREITAS

Este texto pretende encerrar o acompanhamento, que vem sendo realizado desde agosto[1], das eleições municipais de 2020, na capital do Rio de Janeiro. Após a definição do pleito no último domingo (29), objetiva-se analisar e discorrer sobre as causas, assim como os possíveis efeitos dos números obtidos pelos candidatos, analisando os resultados desde o 1º turno.

De início, serão aqui analisados os primeiros números obtidos por Eduardo Paes (DEM) e Marcelo Crivella (Republicanos), quando escolhidos para disputarem o 2º turno[2]. Ademais, os resultados de Martha Rocha (PDT), Benedita da Silva (PT) e Renata Souza (PSOL) também serão considerados. 

Posteriormente, os números do 2º turnos serão mobilizados. Tais análises objetivam demonstrar quais hipóteses, por nós levantadas, se confirmaram (ou não) com o fim da disputa entre ‘as direitas’ na capital carioca.

Consolidada a disputa entre a direita liberal e a direita bolsonarista no 2º turno

Com 37,01% dos votos válidos contra 21,90% de seu adversário, Eduardo Paes foi, preferencialmente, escolhido pelo eleitorado carioca para disputar o segundo turno. Em concordância com os dados divulgados pelas pesquisas de intenção de voto, o representante de uma direita liberal e não diretamente vinculada à Jair Bolsonaro, liderou a disputa com vantagem de quase 400.000 votos[3].

Assim, aparenta ser possível pensar na confirmação da hipótese levantada no último boletim eleitoral[4]. Quando a disputa se consolida no campo político da direita, ou seja, entre um representante liberal e um outro bolsonarista, os eleitores da capital tendem, majoritariamente, a optar pelo representante mais tradicional – assim como o ocorrido nas eleições estaduais de 2018[5].

Cabe também reforçar a contribuição do conteúdo das campanhas para a determinação dos resultados. Enquanto Paes se manteve cauteloso em sua vinculação/aproximação com Bolsonaro, Marcelo Crivella apostou fortemente que sua virada se daria por meio dessa aliança – outra hipótese que parece ter se confirmado. Logo após realizar seu voto, o candidato do Republicanos elogiou a coragem do presidente em apoiá-lo desde o início[6], enfatizando seu vínculo direto com o bolsonarismo. 

Como a capital carioca elegeu Jair Bolsonaro, em 2018, essa estratégia de vinculação se mostrou eficaz. Nesse sentido, apesar de sua gigantesca rejeição, 62% segundo a última pesquisa DATAFOLHA[7], é a consolidação de sua campanha enquanto parte da estrutura bolsonarista que explica a chegada do atual prefeito ao 2º turno do pleito. 

Os dilemas da fragmentação do campo progressista

Em consonância com as colocações apresentadas pelas última pesquisa de intenção de voto[8] que antecedeu o 1º turno, Martha Rocha (PDT) terminou a disputa em terceiro lugar, enquanto Benedita da Silva (PT) ficou em quarto. Renata Souza (PSOL), por sua vez apresentou um resultado bem inferior às candidaturas anteriores de seu partido, terminando em sexto lugar, com apenas 3,24% dos votos.

A partir desses dados, uma outra hipótese pôde ser, então, confirmada: na capital carioca, parece ter havido um recuo do PSOL frente ao PDT. Dentre as possíveis explicações para tal encolhimento podemos aqui listar: a desistência de Marcelo Freixo, a pouca difusão de Renata como candidata do ex-candidato psolista e a utilização do argumento sobre “voto útil” por parte do Partido Democrático Trabalhista.

 Desde o 1º turno, após a retirada da candidatura de Marcelo Freixo[9], a construção de uma frente ampla de esquerda se apresentou como utopia inalcançável. Consequentemente, o campo progressista se organizou em candidaturas pulverizadas, fato que facilitou a ida de dois candidatos de direita ao 2º turno. Nesse cenário, difundiu-se a argumentação do “voto útil” na candidata Martha Rocha[10], que vinha ocupando o terceiro lugar nas pesquisas. 

No entanto, cabe ressaltar que as contingencias determinantes do voto extrapolam considerações meramente racionais, estando também pautadas em identificação ideológica. Com uma gama maior de candidaturas na disputa, era de se esperar que os votos se dissipassem, o que torna pouco consistente o argumento da utilidade – que também se apresenta como uma argumentação que impossibilita/afasta a construção de alianças.

Ademais, por fim, cabe também comentar o desempenho obtido por Benedita da Silva (PT). Como avaliado no último boletim, sua candidatura galvanizou, de certo modo, parte do eleitorado de esquerda – que também nesse pleito, se afastou do Partido Socialismo e Liberdade. Mesmo com um índice de rejeição considerável (29%), a candidata amplificou a participação do Partido dos Trabalhadores no pleito carioca, tornando-a notável e significativa, apesar da fragmentação.

Sobre a vitória da direita liberal na capital carioca

Com 64,07% dos votos válidos, Eduardo Paes (DEM) foi eleito prefeito do Rio de Janeiro[11]. No entanto, as quase 100.000 abstenções[12] evidenciam o caráter crítico desta vitória. Contando com o apoio (crítico) de partidos de esquerda – PSOL e PT –, o voto no candidato democrata se consolidou como a única alternativa para impedir uma nova gestão de Marcelo Crivella, uma vez que nenhum candidato/coligação progressista chegou ao 2º turno.

Logo após a divulgação dos resultados, em seu primeiro pronunciamento, Eduardo Paes complementou o conteúdo de seu discurso, adicionando elementos que durante a campanha não estiveram diretamente presentes. O candidato vitorioso reforçou a necessidade de trabalhar em parceria com o Governo Federal e disse que espera contar com a ajuda do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos). 

Ou seja, a nacionalização de seu discurso, que não ocorreu durante a campanha de forma explícita, parece agora construir a tônica da nova gestão[13]. Além disso, Paes reforçou que o apoio do atual presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM) é imprescindível para que o diálogo com todas as forças políticas seja construído, de modo a trazer resultados a cidade a partir de sua gestão[14]

Ademais, em virtude da pandemia, o tempo de transição entre as duas gestões ficou encurtado. Sobre isso, Eduardo Paes comentou que espera que o atual prefeito colabore para que a transição ocorra de modo efetivo. Em seu pronunciamento, Marcelo Crivella declarou que a transição será pacífica[15], mas não parabenizou seu adversário.

Apesar disso, o líder do Republicanos na Câmara já declarou que o partido apoiará o novo prefeito, que poderá contar com o voto unido dos sete vereadores eleitos. Apesar das divergências constitutivas da disputa, não se pode esquecer que o embate se deu apenas entre ‘as direitas’. Nesse sentido, passado o pleito, a base de apoio se organizará com os partidos que compõe esse campo político, cabendo ao campo progressista, novamente, o lugar de oposição.

CONCLUSÃO

O presente texto objetivou analisar os resultados obtidos pelas candidaturas por nós consideradas relevantes no 1º turno do pleito municipal, assim como os números finais do pleito decisório. Nesse sentido, a análise esteve principalmente voltada para os candidatos escolhidos para o 2º turno: Eduardo Paes (DEM) e Marcelo Crivella (Republicanos).

A disputa entre ‘as direitas’ (liberal e bolsonarista) se consolidou, apesar da aproximação de Crivella com Jair Bolsonaro e sua estrutura e de sua alta rejeição somada à aparente preferência do carioca pela direita mais tradicional, representada pela figura de Paes. Ademais, assumindo uma postura anti-bolsonarista, parte do eleitorado progressista apostou nesse último, na tentativa de consolidar a “derrota” do bolsonarismo na capital do Rio de Janeiro.

 Sendo assim, apesar de em seu primeiro pronunciamento oficial após a vitória, Eduardo Paes reforçar que sua gestão trabalhará em parceria com o Governo Federal, a vitória do candidato democrata coloca a capital carioca novamente sobre a responsabilidade da direita mais clássica e não-bolsonarista – ao menos à primeira vista.


[1] https://nudebufrj.com/2020/08/18/eleicoes-municipais-no-rio-de-janeiro-entre-o-possivel-recuo-da-esquerda-e-o-avanco-da-disputa-entre-as-direitas/

[2] https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2020/11/15/paes-e-crivella-disputarao-o-segundo-turno-das-eleicoes-no-rio.ghtml

[3] https://especiaisg1.globo/politica/eleicoes/2020/mapas/apuracao-no-brasil/1-turno/?_ga=2.58632616.300885651.1605557953-3390029794.1596049525

[4] https://nudebufrj.com/2020/10/20/eleicoes-municipais-no-rio-de-janeiro-mapeamento-das-tendencias-do-eleitorado-e-conteudo-das-candidaturas/

[5] http://especiais.g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/eleicoes/2018/apuracao-zona-eleitoral-governador/rio-de-janeiro/2-turno/

[6] https://veja.abril.com.br/politica/crivella-diz-que-bolsonaro-teve-coragem-gigantesca-ao-apoia-lo/

[7] https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/11/paes-amplia-vantagem-para-crivella-que-tem-62-de-rejeicao-mostra-datafolha.shtml

[8] https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/eleicoes/2020/noticia/2020/11/14/pesquisa-datafolha-no-rio-votos-validos-paes-40percent-crivella-18percent-martha-13percent-benedita-10percent.ghtml

[9] https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/05/freixo-comunica-ao-psol-que-desistiu-de-concorrer-a-prefeitura-do-rio.shtml

[10] https://valor.globo.com/politica/noticia/2020/11/10/se-houver-voto-util-no-rio-sera-em-martha-rocha-diz-chefe-do-ibope.ghtml

[11] https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/eleicoes/2020/resultado-das-apuracoes/rio-de-janeiro.ghtml

[12] https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/eleicoes/2020/noticia/2020/11/29/numero-de-abstencoes-supera-votacao-do-prefeito-eleito-do-rio-eduardo-paes.ghtml

[13]  https://veja.abril.com.br/brasil/paes-confirma-favoritismo-sobre-crivella-e-e-eleito-prefeito-do-rio/

[14] https://www.band.uol.com.br/eleicoes/noticias/paes-descarta-lockdown-no-rio-e-diz-que-espera-contar-com-apoio-do-governo-federal-16317593

[15] https://www.band.uol.com.br/eleicoes/noticias/paes-descarta-lockdown-no-rio-e-diz-que-espera-contar-com-apoio-do-governo-federal-16317593

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