Lideranças evangélicas nas eleições municipais de 2020: Resultados dos pleitos

POR RENNAN PIMENTAL

O presente texto é parte da pesquisa de monitoramento eleitoral do NUDEB sobre o pleito municipal de 2020 e tem por objetivo analisar a influência das lideranças evangélicas na política. Para isso, nesse quarto número , analisamos os resultados das eleições em todas as capitais brasileiras para identificar as candidaturas evangélicas vitoriosas e derrotadas. Este artigo analisará também as motivações que levaram as campanhas aos respectivos resultados.

Nossa hipótese é que os candidatos evangélicos -que em sua grande maioria estão posicionados à direita do espectro político- reivindicaram o identitário Bolsonarista, porém não foram capazes de aglutinar votos suficientes para se elegerem. Para tal estudo, foram analisadas matérias publicadas em noticiários regionais e as pesquisas eleitorais publicadas no site: g1.globo.com

O ambiente político na campanha eleitoral

As eleições municipais de 2020 acontecem em um momento atípico no Brasil e no mundo: A pandemia da Covid-19. A maior crise sanitária global da história recente já infectou mais de  55 milhões de pessoas em todo o mundo e levou à morte mais de 1 milhão e 300 mil. No Brasil especificamente, o vírus Sars-CoV-2 contaminou quase 6 milhões de pessoas, do qual, 167 mil foram à óbito . O vírus, além de letal, evidenciou ainda mais questões como desigualdade social, racismo, fragilidade dos sistemas de saúde e incapacidade de determinados governos em implementar medidas assertivas para controlar o avanço da pandemia. Sendo assim, a pandemia foi combustão para revoluções e reivindicações sociais.

O governo Bolsonaro foi diretamente afetado por esse fenômeno. A pandemia evidenciou ainda mais a incapacidade de gestão do governo federal. Relativizou-se a gravidade da doença, demorou na execução de programas para minimizar o impacto da doença na economia e produziu diversos problemas sociais, como desemprego, aumento da pobreza, desvalorização do real e aumento do preço dos alimentos. O presidente se envolveu em diversas polêmicas como descrença na doença, críticas a China, críticas aos governadores, descredibilizou a vacina, relativizou mortes e produziu frases que geraram indignação na sociedade, das quais algumas foram: ‘gripezinha’, ‘E daí?’, ‘País de maricas’, ‘Mais uma que Jair Bolsonaro ganha’, ‘Vacina obrigatória só aqui no (cachorro) Faísca’, ‘Cobre do seu governador’, ‘Vamos todos morrer um dia’, dentre outras.  Todo esse repertório de polêmicas e ingerência podem diretamente ter afetado sua influência eleitoral .

A nível internacional, vemos a retomada do MAS ao poder na Bolívia. Um ano após o golpe contra Evo Morales, os bolivianos voltaram às urnas em outubro e elegeram Luis Arce, do Movimento ao Socialismo, em primeiro turno, com uma vitória esmagadora impulsionada pelos movimentos sociais, pondo fim a qualquer projeto de retomada à política neoliberal . No Chile, o povo deu seu apoio massivo (78% dos votos da plebiscito) a uma nova Constituição, uma das principais demandas dos manifestantes que ocupavam as ruas do país no últimos meses que estavam insatisfeitos como papel residual ao Estado na prestação de serviços básicos imposto pela Constituição de 1980, uma herança do regime militar de Pinochet . Nos EUA, a eleição presidencial foi influenciada pelos movimentos sociais, principalmente pelo blacklivesmatter e pela má gestão de Trump no combate à pandemia. Este fator promoveu uma alta adesão popular na eleição conduzindo o partido democrata novamente ao poder, rompendo com a tradição de reeleição do presidente e ascendendo ao poder, pela primeira vez, uma vice presidente mulher, afro-americana e filha de imigrantes.

O desempenho das candidaturas evangélicas nas eleições municipais de 2020

Como apresentado no boletim de outubro, as candidaturas evangélicas cresceram robustamente e em sua maioria estavam no espectro político mais à direita alinhada ao discurso bolsonarista. Estavam presentes em 24 das 26 capitais (Florianópolis e João Pessoa foram as únicas que não apresentaram este quadro), num total de 47 candidaturas. Os candidatos evangélicos buscam repetir o fenômeno que consagrou e elegeu Bolsonaro em 2018 postulando-se como fieis ideários do Bolsonarismo, apresentando programa político ligado à moral religiosa e à segurança pública, porém essa estratégia não foi suficiente para aglutinar votos para se elegerem.  Todavia, foi possível observar que na maioria das capitais o apoio evangélico pulverizou-se entre os candidatos, descaracterizando a identidade traçada no pleito de 2018. Desse modo, a transposição esperada do apoio agregado dos evangélicos a um candidato não aconteceu na maioria dos pleitos analisados.

Como os resultados das eleições já é sabido por todos, decidimos sintetizar os resultados em formato de mapa:

Como se pode observar no mapa, das 24 capitais com candidaturas evangélicas, apenas 1 (uma) foi vitoriosa em 1º turno, Campo Grande, Capital do Mato Grosso do Sul e 7 (sete) concorreram ao 2º turno (Amazonas, Maranhão, Maceió, Goiânia, Cuiabá, Rio de Janeiro e Vitória), porém, vale lembrar que em Florianópolis, os candidatos não se declaram evangélicos, mas receberam forte apoio da Igreja Universal -que controla o Republicanos, partido do vice-prefeito, porém não farão parte desta contagem. Das 7 candidaturas evangélicas que concorreram ao 2º turno, 4 delas saíram vitoriosas, que é o caso de Goiânia, Maceió, Manaus e Vitória. Das derrotas, destaque para o Rio de Janeiro, no qual o atual prefeito, Marcelo Crivella, não conseguiu se reeleger. A última vez que um prefeito no Rio não conseguiu se reeleger, foi há 20 anos com Luiz Conde, que perdeu a prefeitura para Cesar Maia.  

Sendo assim, apesar das diversas derrotas, visto ao elevado número de candidaturas deste seguimento no pleito, o resultado das eleições, de certa forma, foi positiva para o grupo evangélico, uma vez que ampliaram de 4 capitais em 2016 para 5 capitais conquistadas este ano. 

Conclusão

Conforme evidenciado nas pesquisas, as candidaturas evangélicas, em sua grande maioria, reivindicaram a pauta bolsonarista em suas campanhas, apresentando programa político ligado à moral religiosa, defesa da família e à segurança pública na tentativa de repetir o feito que elegeu Bolsonaro em 2018, porém no pleito deste ano esta tática se mostrou inexitosa tanto no 1º turno quanto no 2º turno.

As candidaturas evangélicas estiveram presentes em todas as regiões do país e apareceram de forma expressiva no Centro-Oeste, que tradicionalmente elege candidatos protestantes. Em Campo Grande, o candidato Marquinho Trad (PSD) foi eleito ainda no 1º turno e em Goiânia, Maguito Vilela levou melhor na disputa com outro candidato também evangélico. Já em Cuiabá, virada de mesa, Abílio Junior perde apoio da ala evangélica na reta final e Emanuel Pinheiro é eleito com apoio de 30 lideranças religiosas da região. Além do Centro-Oeste, tivemos candidaturas vitoriosas em Manaus, com David Almeida (Avante), Vitória com Delegado Pazolini (Vitória) e em Maceió, um movimento peculiar, o prefeito eleito foi um evangélico progressista, João Henrique Caldas (PSB). Em Florianópolis, apensar do prefeito eleito não ser evangélico, recebeu forte apoio da ala, uma vez que o vice era do partido Republicanos. Assim, constata-se que a ala evangélica comandará pelo menos uma capital de cada região do Brasil a partir de 2021.

Se por um lado, a influência evangélica cresceu em algumas capitais, no Rio de Janeiro, 2ª maior capital do país, fora diferente, o atual prefeito, o ex-bispo Marcelo Crivella não conseguiu se reeleger. A influência deste grupo na capital fluminense foi pulverizada e apresentaram-se para o pleito 4 candidatos declaradamente evangélicos, a saber: Marcelo Crivella (Republicanos) da Igreja Universal, Benedita da Silva (PT) da Igreja Assembleia de Deus, Clarissa Garotinha (Pros) da Igreja Presbiteriana e Glória Heloísa (PSC) da Comunidade Batista do Rio. Porém, um declarado apoio maciço das lideranças evangélicas oriundo do panorama político de 2018 não foi sentido por nenhum dos candidatos. Nem mesmo Crivella, apesar do alinhamento à figura de Bolsonaro como principal apoio de sua campanha, foi exitoso ao tentar reunir sobre si o eleitorado religioso, pois pelo elevado número de candidaturas evangélicas no 1º turno na capital, não foi possível aglutinar o voto de todos os evangélicos em apenas um representante.

Além dessa pulverização do voto evangélico, visto as diversificadas candidaturas deste segmento que se apresentaram nas capitais, em especial no Rio de Janeiro, é preciso compreender as motivações que levaram a um certo enfraquecimento da influência das lideranças evangélicas nas eleições de 2020 que apresentaram um resultados bem diferentes do imaginado. Esta questão está diretamente ligada ao desempenho de Bolsonaro na gestão do país e de alguns prefeitos -como o caso de Crivella-, dada a frustração das demandas geradas e não sanadas, provocando a perda de consenso dos eleitores.

Outro fator importante a se considerar é o perfil dos eleitores evangélicos, que em sua maioria, são de pessoas das classes C, D e E, passaram a buscar candidatos que além de um alinhamento ideológico, sobretudo, apresentem propostas para melhores condições sociais. E a exemplo disso, foi o voto em Crivella em 2016. O slogan da campanha da campanha era: “É hora de cuidar das pessoas”, construindo um discurso direcionado ao eleitor de classe baixa que historicamente é mais onerado com a falta de políticas públicas. Assim, é possível perceber nas eleições municipais de 2020 do Rio de Janeiro e das demais capitais, uma vertente diferente de 2016. O eleitor, além de possuir mais opções de candidatos evangélicos, também direcionou seu voto em busca de resultados sociais estruturais mais tangíveis, uma vez que, na eleição anterior, o candidato eleito por afinidade ideológica não apresentou resultados na gestão que sanasse as problemáticas da cidade. Sendo assim, apesar da afinidade religiosa com candidatos declaradamente evangélicos – muitos deles alinhados ao bolsonarismo -, o eleitor preferiu votar em postulantes tradicionais, gestores e com propostas viáveis de transformação da cidade. Este posicionamento é percebido no resultado das eleições municipais de 2020, onde das candidaturas evangélicas em 24 capitais apenas uma ganhou em 1º turno (Campo Grande) e sete foram para o 2º turno (Amazonas, Maranhão, Maceió, Goiânia, Cuiabá, Rio de Janeiro e Vitória), nas demais capitais, o eleitor optou por candidatos tradicionais e certa forma, o alinhamento ideológico religioso não foi primordial.

Desse modo, a pulverização do apoio evangélico nas candidaturas das eleições municipais do primeiro turno de 2020, especificamente do Rio de Janeiro, podem ser compreendidas por três principais condições: a primeira, evidenciada pela quantidade de candidaturas declaradamente evangélicas superior à de 2016. O aumento de candidatos que se declararam do segmento evangélico é um dificultador para combinação dos grupos religiosos que não conseguem se mobilizar em torno de uma única candidatura e por isso, acabam votando em núcleos de acordo com a doutrina protestante que mais assemelham-se a do candidato. A segunda está na migração de votos do eleitor evangélico das classes mais baixas a candidatos que são apresentados como exímios gestores, ditos de “centro direita”, que reúnam projetos ligados à urbanização, geração de empregos, transporte e saúde, mais claramente definidos e explorados nas campanhas eleitorais, onde o eleitor está buscando resultados para a cidade. E a terceira, e talvez mais notória quando comparados os cenários políticos anteriores de 2016 e 2018, é a constatação da falta de um “inimigo” comum a todos os evangélicos. No Rio de Janeiro, por exemplo, em 2016, havia a candidatura de Marcelo Freixo (PSOL), apontado como claro inimigo comum. Nas eleições de 2018, o congregado de lideranças religiosas foi construído com um único objetivo: desidratar qualquer possibilidade de uma possível vitória do Partido dos Trabalhadores (representante de um imaginário formulado ao redor de fake news), e de uma ruptura com os valores conservadores. Assim, não havendo um claro hostil representante antagônico à moral cristã nas eleições municipais no primeiro turno, a organização do corpo evangélico foi pulverizada.  

Outra questão que se destacou é o fato de apresentar-se como candidato evangélico bolsonarista não influenciou na escolha do eleitor e é visível que o presidente Bolsonaro não consegui transferir votos para seus aliados. Entretanto, isso não representa um verdadeiro enfraquecimento do Bolsonarismo e consigo o apoio dos evangélicos neopentecostais ao grupo. As eleições municipais apesar de ser um aquecimento para as eleições majoritários de 2022, elas são muito regionalizadas, onde o eleitor busca o candidato que diretamente irá influenciar na vida local, uma vez que o prefeito executa medida de nível micro e o presidente a nível macro. 

Analisar os resultados desta eleição é de suma importância para se pensar em 2022. O grande vitorioso deste peito foi a centro-direita (referindo-se a MDB, PP, PSD, PSDB e DEM) com seus candidatos tradicionais, indicando uma tendência eleitoral ao centro do espectro político. Pode-se afirmar, em particular, que o Democratas – DEM (antigo PFL) foi o grande protagonista. O partido foi o que mais cresceu se comparado a 2016, do qual saiu de 268 prefeituras no último pleito para 458 este ano. Esse crescimento foi percebido nas capitais, onde ampliou significativamente sua influência ganhando já no primeiro turno, 3 capitais (Curitiba, Salvador e Florianópolis) e no 2º turno conquistou a capital fluminense com Eduardo Paes (DEM), assim, emplaca 4 capitais, sendo uma delas a 2ª maior do Brasil, o Rio de Janeiro . Observar o crescimento do DEM é interessante, em 2016 era um partido “pequeno” e hoje está no centro do debate político, uma vez que além do sucesso neste pleito, o partido também controla o Senado Federal e a Câmara dos Deputados.  Assim, pode-se inferir que o DEM pode chegar forte para negociar uma chapa majoritária para 2020, porém sem um nome expressivo para a disputa. O fato é, tanto Bolsonaro quanto a direita tradicional com PSDB e MDB, precisarão conceder mais vantagens caso queiram o partido na coligação, como por exemplo, a indicação do vice-presidente da chapa.

Outro ponto interessante é um “aceno” da retomada da esquerda no debate político, que saiu vitoriosa em Belém, Fortaleza, Aracajú, Recife e Maceió e mostrou a força de Boulos e Manuela D’avila, mesmo não vencendo no 2º turno.

Factual, as eleições municipais deste ano foram menos polarizadas e mostraram o brasileiro com voto menos ideológico e mais pragmático, onde a falta de um inimigo comum a ser combatido foi o fator deste resultado.   Ademais,  o resultado evidenciou que para se sair vitorioso em 2022, o oposição com candidato de direita/centro-direita ou de esquerda, será necessário apresentar propostas contundentes de melhorias econômicas e sociais, se aproximar de diferentes grupos, sejam eles, religiosos, políticos ou sociais, além de apresentar um política que convirja de certa forma ao centro.

Fechando esse boletim, é importante destacar aqui que não há problema em um candidato ser evangélico, o problema está quando este coloca a religião a frente da política ou da coisa pública. É preciso atuar com distinção entre as relações públicas (exercício do mandado) e privadas (crenças/religião). A partir do momento que o político baralha estas questões, temos um grave problema à vida democrática.

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