Democracia em quarentena: as eleições de 2020 e o Brasil da pandemia

POR JOSUÉ MEDEIROS

As eleições municipais de 2020 chegaram ao fim e o mapa de vitoriosos e derrotados já é amplamente divulgado pela grande mídia: são vitoriosos os partidos da direita tradicional – apresentados como moderados e centro – e saem derrotados os extremos, à direita e à esquerda. 

O monitoramento eleitoral do NUDEB vem, desde agosto, questionando esse diagnóstico. Já na pré-campanha o favoritismo da direita tradicional alimentou conclusões apressadas sobre o reestabelecimento do sistema político a partir de agremiações como DEM e PSDB, entre outras. 

Nosso questionamento se divide em três dimensões, uma relativa à extrema-direita; outra à direita tradicional; e, por fim, as esquerdas. 

 Bolsonarismo derrotado?

A primeira tarefa pós eleições é entender a gravidade do quadro para além das tabelas que mostram quantos prefeitos cada partido teve. Dois exemplos ilustrativos. 

Primeiro, Vitória. A capital do Espirito Santo será governada pelo Delegado Pazolini, do Republicanos. Trata-se de um quadro bolsonarista que, durante a pandemia, invadiu hospitais a mando do presidente com o objetivo de provar que havia exagero sobre o alcance da Covid-19. Além disso, esteve junto com a ministra Damares no criminoso esquema que tentou impedir o aborto em uma menina estuprada. Pazolini foi eleito com relativa facilidade, conquistando 59% dos votos contra o ex-prefeito João Coser, do PT. 

Segundo, Fortaleza: A capital cearense será governada pelo trabalhista Sarto Nogueira. Já no primeiro turno, o candidato do PDT contava com o apoio de Ciro Gomes e do prefeito Roberto Cláudio. No segundo turno, Sarto enfrentou o capitão Wagner do PROS, conhecida liderança da extrema-direita cearense que liderou o motim policial contra o governador no começo de 2020.  

Diante deste quadro, formou-se uma amplíssima frente a favor do pedetista, abarcando do PSOL ao DEM, passando pelo PT e PSDB. Apesar de tamanha unidade, Sarto venceu o pleito por apenas 40 mil votos, totalizando 51% contra 49% do bolsonarista. 

Podemos enumerar outros exemplos. Em São Gonçalo, segundo maior colégio eleitoral fluminense, o bolsonarismo conseguiu eleger um delegado citado na CPI das Milícias. E mais, a tônica do segundo turno de 2020 foi exatamente a mesma daquela que vivenciamos na reta final do primeiro turno de 2018 e no segundo turno da eleição que terminou com a vitória de Bolsonaro: trata-se de uma mobilização de reta final da extrema direita com uso das redes sociais, fake news e demonização do inimigo (petista, comunista, abortista) cujo resultado final é um crescimento do bolsonarismo que as pesquisas não captam, embora esteja longe de ser um movimento silencioso ou envergonhado. 

Enfim, ainda que “numericamente” derrotado, a eleição foi pautada por Bolsonaro do inicio ao fim. Da agenda política ao modo de angariar votos. Nesse sentido, o presidente foi bastante vitorioso. 

Direita tradicional vitoriosa?

A direita tradicional sai mais forte dessas eleições. MDB, DEM, PSD, PP, PSDB controlarão a maioria das prefeituras nos próximos quatro anos. 

Contudo, a história mostra que a relação entre vitória quantitativa no pleito municipal e bom desempenho na eleição nacional não é automática. Essa ressalva se faz necessária porque tanto no mundo político quanto nas análises da grande mídia o diagnóstico é que esse campo pavimentou seu caminho para conquistar a presidência em 2022. Comparando a dinâmica entre o pleito nas cidades e a eleição nacional conclui-se que a vitória em um não necessariamente conduz ao êxito na outra. 

Em 1989, os partidos da direita tradicional controlavam 80% das prefeituras. Mas ficaram de fora do 2º turno presidencial. Collor tinha 0,1% das prefeituras e Lula, em chapa com o PSB, tinha 1,8% das prefeituras. Em terceiro, Brizola. Seu PDT tinha 4,5% dos prefeitos.

Em 2018, O PSL de Bolsonaro tinha 0,5% das prefeituras. O PT de Haddad tinha 5%. Eles foram para o 2º turno deixando para trás todos os partidos da direita tradicional que saíram vitoriosos do pleito de 2016. 

“Ah, mas as eleições de 1989 e 2018 foram atípicas”. Será?

Em 2000, o PT conquista 3% das prefeituras. Em 2002, a chapa de Lula com o PL tem 7,5% das prefeituras. A chapa do ministro da Saúde José Serra (PSDB e PMDB) tinha 40% das prefeituras, o que não lhe garantiu a vitória. 

Em 2004, o PT tem 7% das prefeituras. Zé Alencar, o carismático vice de Lula, vai para o PRB, um partido sem prefeitura. Já o então governador de São Paulo Geraldo Alckmin do PSDB e em chapa com o PFL tinha 30%. Terminou derrotado. 

Em resumo: em 1989, 2002, 2006 e 2018 ter muitas prefeituras não se traduziu em vitória presidencial. A correspondência positiva entre eleição municipal se manifestou em 1994 e 1998 (PSDB e PFL controlavam 40% das cidades) e 2010 e 2014, com a aliança PT e PMDB

E como será em 2020 e 2022?

A direita tradicional vitoriosa em 2020 tem muitos problemas a resolver até 2022. Parte do eleitorado de direita irá com Bolsonaro. Quanto disso? Não sabemos ainda. Mas a direita tradicional ajuda o presidente quando se confunde com o governo na defesa das “reformas estruturais”. 

O problema de nomes que esse campo apresenta para 2022 – Dória, Huck, Moro, Mandetta, Maia, ACM Neto – expressa na verdade um dilema programático da direita tradicional brasileira. 

Qual é afinal sua visão de país? Em que é diferente de Bolsonaro? Até aqui, no parlamento, na economia, na segurança, na política social, em nada.

Mesmo em questões que parecem unificar a opinião pública nacional e a comunidade internacional contra Bolsonaro não sabemos qual é a alternativa proposta por esse campo. Por exemplo, no criminoso crescimento do desmatamento e queimadas de biomas tais como a Amazônia e o Pantanal. O que o PSDB faria no lugar? Ou o DEM? Ou mesmo Huck e Moro, que não têm partido? Ninguém sabe a resposta. Como então convencer o eleitor de direita a largar o presidente? Difícil, muito difícil.

As esquerdas e o enigma: para além do PT com o PT e não contra o PT 

O balanço das esquerdas é mais complexo de ser feito. Caminham lado a lado um sentimento de derrota que resulta da perda de prefeituras por todos os partidos desse campo, com exceção do PSOL, que passou de 2 para 5 (sendo uma capital, Belém); e uma onda de esperança com a renovação do legislativo e com campanhas majoritárias que empolgaram, tais como Guilherme Boulos em São Paulo e Manuela Davilla em Porto Alegre.  

O que temos então é um retorno do padrão das esquerdas dos anos 1980/1990. A esquerda se saía bem no legislativo pelo papel “fiscalizador” e ia mal no executivo porque suas propostas não eram “sérias”. Era algo do tipo “vocês são muito bons em apontar os problemas, mas não servem para resolve-los”. 

O crescimento da esquerda no final do século XX se deu justamente quando convenceu as pessoas de que podia governar. E não foi nada fácil. Pesou muito a não existência de 2º turno em 1988, o que viabilizou vitórias em São Paulo, Porto Alegre e Belo Horizonte. 

O sucesso dessas prefeituras virou o jogo. 

Hoje tem 2º turno. E tem novamente a imagem de que a esquerda não serve para governar. Por isso é fundamental combater a fragmentação. A divisão ou inviabiliza a esquerda no 1º turno ou prejudica o desempenho no 2º turno. E isso porque a transferência de votos não é automática. São raros os casos como o de Leonel Brizola que, em 1989, transferiu 100% dos seus votos para Lula no segundo turno. 

Vários fatores pesam contra a transferência: corpo mole dos derrotados, mágoas da disputa no 1o turno, rejeições consolidadas e que o curto tempo do 2o turno não permite reverter. E a própria energia que se gasta combatendo o adversário do mesmo campo poderia ser direcionada para, por exemplo, diminuir o número de abstenções, votos nulos e brancos. 

Manu e Boulos, por exemplo, teriam mais chances de vitória se fossem já no primeiro turno candidatos de unidade. 

De todo modo, mesmo derrotados, eles saem como muita autoridade política para liderar uma renovação da esquerda que vá para além do PT, apresentando um progressismo novo para o Brasil do bolsonarismo, mas que não seja contra o PT, como faz Ciro Gomes do PDT, o que termina por isolá-lo no campo da esquerda. 

A isso soma-se a renovação no legislativo municipal. O perfil parlamentar mudou: saem operários, bancários, professores (sindicalismo) que eram representativos na época e entram feministas, movimento negro, LGBT, que são representativos hoje. Essa nova representatividade é fundamental para revigorar a esquerda. 

Outra questão chave é a coordenação: nos anos 1980/1990, havia um sentido de unidade muito mais forte. No último período, imperou o cada um por si que dificulta muito a construção de projetos majoritários e unidade. Que as novas lideranças nos tragam de volta os sentidos coletivos sem os quais a vida do Bolsonaro será facilitada no governo e nas eleições.                                         

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