O resultado final das eleições municipais nas capitais da Região Nordeste

POR ISABELA NEVES, ISABEL UCHOA E RENATA SANTIAGO

O presente boletim tem como objetivo analisar o quadro eleitoral das nove capitais da região Nordeste, sendo estas: Teresina – PI, São Luís – MA, Fortaleza – CE, João Pessoa – PB, Recife – PE, Natal – RN, Salvador – BA, Aracajú – SE e Maceió – AL. Para isso, analisaremos o resultado das eleições municipais ocorridas em 15/11/2020 e 29/11/2020, e utilizaremos, também, dados referentes ao pleito de 2016, de forma a identificar rupturas e continuidades. 

Nos boletins anteriores, defendemos a hipótese de que a direita tradicional utilizou-se de estratégias políticas do bolsonarismo para estabelecer-se na disputa eleitoral. Afirmamos que o bloco estava fortalecido na região, sendo esperado um bom desempenho para as eleições de 2020. Para isso, apresentamos pesquisas de intenção de voto e delimitamos o perfil de cada candidato a partir de suas participações nos debates eleitorais. Buscamos investigar neste boletim se a hipótese levantada se confirma nos resultados do pleito.

Iniciaremos nossa análise abordando como se configurou a distribuição das cadeiras para a Câmara dos Vereadores destas capitais. Em seguida, abordaremos a disputa pela prefeitura, apresentando os resultados do primeiro turno, as pesquisas de intenção de voto para a segunda etapa do processo eleitoral, e o resultado final. 

As fontes usadas foram os portais de notícias nacionais como G1, O Imparcial, O Globo, Correio Braziliense e Verdes Mares, Bahia Econômica, Gazeta do Povo, A tarde UOL, Jornal da Paraíba, Jornal da Cidade, UOL Notícias e sites como Wikipedia.

Salvador e a continuidade do domínio da direita tradicional: a eleição do DEM no primeiro turno 

Ficou a cargo do boletim passado explicar a força dos diferentes campos políticos em salvador. Destacamos que havia uma divisão dos candidatos, que se dava entre: os apoiados pelo governador Rui Costa (PT) e Bruno Reis (DEM) que era o candidato de Antonio Carlos Magalhães Neto. 

Iniciaremos analisando o predomínio – ou declínio -desses partidos pelo resultado das eleições para vereador da capital em 2020, comparando-as à 2016, a partir da tabela abaixo:

Número de vereadores em Salvador por partido em 2016[1] e 2020[2]

20202016
PartidosCadeirasPartidosCadeiras
DEM7DEM6
PT4PV4
PATRIOTA3PHS4
PSDB3PSDB3
REPUBLICANOS3PTN3
MDB2PMDB3
PL2PRB3
PODEMOS2PT3
PTB2PSC3
PC do B2PC do B2
PDT2PDT1
PSC1PTB1
AVANTE1PSB1
CIDADANIA1PMB1
SOLIDARIEDADE1SOLIDARIEDADE1
PV1PSD1
DC1  
PSL1  
PSD1  
PSB1  
PSOL1  
PMN1  

Assim sendo, através desses dados podemos perceber que a polaridade DEM-PT ocorria também na votação para vereador desse ano. Já que o PT aparece como o segundo partido com mais cadeiras, logo após o DEM. Houve ainda um aumento de uma cadeira a mais para o PT, de 2016 para cá. Partidos do chamado centrão, ou direita tradicional, entraram numerosamente em ambas as eleições, assim como MDB/PMDB e PSDB. Contudo, ainda nesse âmbito mostra-se mais uma vez a influência política do DEM.

Dito isto, deve-se recapitular o que foi falado no boletim passado, que expressa o êxito político do DEM, nesse momento manejado principalmente por ACM Neto. Este político vinha conquistando a prefeitura da cidade desde 2012. Em 2016 ele foi eleito logo no primeiro turno. Destacamos que sua força se devia muito ao fato dele pertencer a uma família tradicional da política baiana.

O chamado carlismo[3] que vigorava na Bahia refere-se ao domínio político de Antônio Carlos Magalhães (ACM), e os grupos que se associam a ele, que é avô de ACM Neto. Sua trajetória política como Prefeito de Salvador começou durante a Ditaduta Militar quando obteve o cargo ao ser indicado. Participou dos movimentos contrários ao Governo João Goulart, e filiou-se ao ARENA, indo mais recentemente para o DEM. Seu governo tinha como características a tecnocracia, o clientelismo e o controle dos meios de comunicação. Com seu falecimento em 2007 houve um enfraquecimento do carlismo. Ao longo do tempo esse grupo adotou um discurso mais moderado até mesmo para disputar com candidatos petistas, haja visto que o partido (PT) começou a obter forte influência na Bahia.

 Há um argumento que associa a figura de ACM Neto a uma volta do domínio carlista na Bahia. Isto não é de se descartar, pois mais uma vez a força desse político  ficou explícita pela eleição de seu candidato, Bruno Reis (DEM), logo no primeiro turno, com 64,20%[4], como mostra a tabela abaixo, onde também aparecem os resultados dos demais candidatos:

CandidatoPartidoVotos em %
Bruno ReisDEM64,20%
Major DenicePT18,86%
Pastor Sargento IsidórioAVANTE5,33%
Cezar LeitePRTB4,65%
OliviaPC do B4,49%
Hilton CoelhoPSOL1,39%
BacelarPODEMOS0,92
Celcinho CotrimPROS0,13%
Rodrigo PereiraPCO0,04 %

O candidato Bruno Reis já vinham aparecendo em pesquisas de intenção de voto como eleito no segundo turno. Na pesquisa[5] Ibope que analisamos no boletim passado, que foi realizada no começo de outubro, o político vinha com 42% das intenções de voto. No final do mês , dia 30, o Ibope divulgou outra pesquisa, nesta Bruno vencia já no primeiro turno, com 61% dos votos. Uma pesquisa[6], do início de novembro, as vésperas do primeiro turno, mostrava uma vitória também logo neste, de 66% dos votos.

Conquanto, a estratégia do petista[7] (que é governador do estado há dois mandatos) foi apoiar três candidatos, articulando suas bases de apoio (PSB, PSD, PP) em cada uma das candidaturas. O PT, com a candidata Major Denice formou uma chapa PT-PSB. O vice de Sargento Isidório, do Avante, teve como vice Eleusa Coronel, do PSD. E Olívia Santana do PC do B formou chapa com Joca Soares do PP, partido do vice governador da Bahia. Contudo, mesmo com hipóteses que diziam que Rui estaria inclinado a apoiar o Sargento Isidório, haja visto sua boa colocação nas primeiras pesquisas de intenção de voto, isso não se consolidou. O político declarou que participaria apenas da candidatura de Denice[8].

Um aspecto que mudou ao longo da campanha foi a posição de Sargento Isidório (Avante) e Major Denice (PT). Na pesquisa divulgada no boletim anterior, do dia 5 de outubro, pelo ibope, Isidório era segundo colocado, delineando um quadro político onde se houvesse segundo turno, iria ser disputado entre Avante – que embora seja o antigo PT do B, hoje se declara um partido de centro[9] – e DEM.

Contudo, em pesquisa divulgada em 30 de outubro, pelo Ibope Sargento Isidório aparecia com 5 % da intenção dos votos, atrás não somente da candidata do PT, mas também de Olívia Santana do PC do B, embora os três candidatos estivessem empatados pela margem de erro.

 Com o resultado, Isidório ficou com 5,33% dos votos, o terceiro melhor votado dos candidatos, somente atrás de Bruno e Denice com 18,86% dos, abarcando em um quadro já conhecido na Bahia, a polarização PT – DEM, que nesse momento tem como representantes Rui Costa e ACM. Obviamente, apesar de haverem vestígios dessa polarização, o futuro prefeito se saiu numericamente muito na frente da candidata. 

Assim, Salvador continua sendo governado pelo DEM, e este quadro fortalece ainda mais ACM, que poderá tentar o governo do estado em 2022

O resultado da disputa em Aracaju

O quadro eleitoral de Aracaju evidencia uma preferência por vereadores de partidos como PSD e PDT, sendo o segundo do atual prefeito Edvaldo, e o primeiro do atual governador do estado, Belivaldo Chagas. A tabela abaixo demonstra o número de candidatos por partidos que entraram para a Câmara Municipal:

Número de vereadores em Aracaju por partido em 2016[10] e 2020[11]

20202016
PartidosCadeirasPartidosCadeiras
PSD3PSD2
PDT3PDT2
REPUBLICANOS2PMDB2
PSC2DEM2
PP2PSB2
CIDADANIA2PC DO B2
PSOL1PMB1
PATRIOTA1PTB1
DEM1PRTB1
PROS1PRB1
REDE1REDE1
PC DO B1PSDB1
PT1PT1
SOLIDARIEDADE1PEN1
PODEMOS1PHS1
PMN1PPS1

A partir dessa tabela constatamos a continuidade de uma influência política em torno dos partidos PDT e PSD, havendo até aumento do número de cadeiras para ambos nesse ano. Entraram também muitos partidos que não apareciam em 2016, como o Solidariedade, Republicanos, Cidadania e o Podemos. De 24, 9 foram os candidatos reeleitos, sendo que Linda Brasil foi a mais votada, pelo PSOL. 

Nesta capital, há uma quantidade considerável de partidos de esquerda e centro-esquerda que conseguiram entrar para a Câmara, no entanto, isto não significa que esse campo está consolidado na região

Assim como, mesmo Edvaldo, eleito para prefeitura a primeira vez pelo PC do B, afirmou querer fazer aliança  com o centro e a centro direita. Ele justificou sua mudança do PC do B para o PDT dizendo que este segundo buscava unir a esquerda e setores amplos[12].

Aracaju teve em seu primeiro turno um resultado muito fiel a pesquisa apresentada no boletim anterior, realizada entre o dia 7 e 9, pelo Ibope. Edvaldo Nogueira, o atual prefeito do PDT que está tentando uma reeleição, já aparecia em primeiro lugar nessa pesquisa, seguido da Delegada Danielle, do Cidadania. Foram exatamente esses dois candidatos que foram para o segundo turno, sendo que o primeiro obteve 45,57%, enquanto a delegada obteve 21,31% dos votos. Como mostra a tabela abaixo, das percentagens de votos que cada candidato obteve:

CandidatoPartidoVotos em %
EdvaldoPDT57,87%
Delegada DanielleCIDADANIA42,14%
Davi DavinoPP25,17%
Márcio MacedoPT9,57%
Lúcio FlávioAVANTE4,88%
GeorliseTelesDEM4,10%
Alexis PedrãoPSOL3,39%

Não houve debate entre os candidatos para a prefeitura de Aracaju no primeiro turno. No segundo, mesmo com o debate já acertado, houve ausência de Edvaldo tendo sito substituído por uma entrevista a delegada.

A pesquisa Ibope[13] realizada entre os dias 18 e 20 de novembro já apontavam a reeleição de Edvaldo com a chapa PDT-PSD, com 55% dos votos, enquanto Danielle estava com 31%. Mencionamos ainda que a rejeição de Edvaldo era 13% maior que Danielle. No entanto, em uma nova pesquisa do Ibope[14], de 22 de outubro, é mostrado um aumento da rejeição dela, fazendo com que Edvaldo estivesse apenas com 3% a mais de rejeição que Danielle. A popularidade dele também se deveu, entre outras coisas, ao apoio do atual governador Belivaldo Chagas, do PSD assim como sua vice.

Assim, o resultado final, do segundo turno, também ocorreu conforme sugeriam as pesquisas, Edvaldo conseguiu se reeleger com 57, 86 % dos votos.

A cidade foi uma das que obtiveram um grande número de abstenções, que chegou a 25%. Bem como Salvador que obteve 26%[15]. Esse quadro pode apontar para um descontentamento com a política, junto com o contexto de pandemia que ocasionou essa diminuição do número de votantes.

Portanto, em Aracajú as forças tradicionais, que são os partidos como PDT e PSD, não foram enfranquecidos. Embora Edvaldo não tenha sido eleito com uma diferença tão grande de Danielle, esta foi maior entre os dois do que nas eleições de 2016, onde ele venceu com 52,11% dos votos. Ao mesmo tempo que isto pode confirmar seu favoritismo, tem que ser lavado em conta que o número de abstenções pode representar uma insatisfação com os candidatos que foram ao segundo turno.

Como ficaram as eleições em Maceió 

Maceió tem um quadro eleitoral onde a direita se mostra forte, e a esquerda tem baixa capilaridade. Esse panorama se repete desde as eleições de 2016, como nos mostra a tabela abaixo:

Número de vereadores eleitos em Maceió por partido em 2016[16] e 2020[17]

20202016
PartidosCadeirasPartidosCadeiras
MDB5PSDB5
PSB3PMDB4
PODEMOS3PP3
PSC3PR2
PSD3PV1
PP2PRB1
DEM1DEM1
REPUBLICANOS1PPL1
PSDB1PSDC1
PRTB1PEN1
PTC1PTN1
PT1  

Através da tabela podemos observar que partidos de direita se elegeram numerosamente em ambas as eleições. A disposição por cadeiras na câmara é muito homogênea entre os dois anos, e aponta para uma baixa adesão da esquerda, o que pode explicar por exemplo o fato de Bolsonaro ter sito vitorioso na cidade, em 2018. Deve ser levado em conta também que o número de vereadores que podiam ser eleitos mudou de 2016 para 2020. Em 2016 este número era  21 vereadores, em 2020 mudou para 25. 

Ainda, 14 dos 25 veredores eleitos esse ano são novos na Câmara, e 11 se reelegeram. O candidato mais votado foi do PSB, e o segundo mais votado do MDB. Este aspecto atenta para uma influência política desses dois partidos na cidade, o que também ficou explicito para as eleições para a prefeitura.

Para o caso da eleição para prefeitura da cidade, como previam as pesquisas divulgadas no boletim anterior, o segundo turno foi disputado pelos candidatos Alfredo Gaspar Mendonça (MDB), que obteve 28,87% dos votos, e JHC (PSB), logo atrás com 28,56% dos votos. Ambos já apareciam muito próximos nas pesquisas anteriores. Inclusive, nas primeiras pesquisas colocavam JHC como primeiro colocado, apesar de Alfredo aparecer como mais votado em pesquisas mais recentes. Podemos observar o resultado do primeiro turno na tabela abaixo:

CandidatoPartidoVotos em %
Alfredo Gaspar de MendonçaMDB28,87%
JHCPSB28,56
Davi Davino FilhoPP25,51%
Josan LeitePATRIOTA6,27%
Valeria CorreiaPSOL3,55%
Cícero AlmeidaDC2,59%
Ricardo BarbosaPT2,33%
Lenilda LunaUP1,28%

No boletim passado, a pesquisa do Ibope, realizada de 7 à 10 de outubro, mostrava uma diferença de 1% de JHC para Alfredo. Na pesquisa[18] mais recente do dia 11 de novembro, Alfredo aparecia com 26% dos votos, enquanto JHC tinha 22%.

Ainda, como também mostramos no boletim passado, Rui Palmeira é o atual prefeito da cidade, tendo governado por dois mandatos pelo PSDB e atualmente está sem partido. Renan Filho, do MDB, foi eleito governador em 2014 se reelegeu em 2018. Ambos apoiavam Alfredo Gaspar. Entretanto, foi JHC que saiu vitorioso no segundo turno com 58, 64% dos votos válidos, junto com seu vice Ronaldo Lessa, que já foi governador de Alagoas por dois mandatos e prefeito de Maceió.

A diferença da rejeição entre eles não era muito significativa no último boletim, com os dados da pesquisa realizada de 7 a 9 de outubro pelo Ibope: JHC tinha 21% de rejeição, contra 17% de Alfredo Gaspar. Em outra pesquisa de 11 de novembro, este quadro se inverte: JHC tem apenas 18% de rejeição e Alfredo Gaspar possui 22% dos que não votariam de jeito nenhum nele.

O primeiro debate[19] foi realizado somente no dia 12 de novembro. Foram sete os candidatos que participaram: Alfredo Gaspar (MDB), Cícero Filho (PCdoB), Davi Davino Filho (Progressistas), JHC (PSB), Josan Leite (Patriota), Ricardo Barbosa (PT) e Valéria Correia (PSOL). Ao final do debate, foi pedido aos candidatos para que fizessem considerações finais. Nestas Alfredo optou por referendar seus apoios, argumentando, no entanto, que possuiria uma independência, alegação reforçada por sua fala que dizia que no cargo de sua cidade estaria “o mesmo Alfredo de sempre”. Já JHC decidiu finalizar destacando sua experiência na política, como forma de se opor a Alfredo, que tenta o seu primeiro cargo político.

No segundo turno, o debate foi marcado para dia 20 de novembro na TV Pajuçara, no entanto JHC não compareceu, gravando um vídeo em sua rede social alegando que o debate seria uma armação planejada pelo prefeito Rui Palmeira, para beneficiar seu candidato Alfredo Gaspar, disse ainda que o pmdbista já sabia das perguntas que iriam ser feitas durante o debate.

Como o histórico eleitoral da cidade nos indica que a direita tradicional é muito forte, a vitória de JHC, mesmo com uma diferença entre os percentuais de votos muito pequena, parece algo significativo na política da alagoana. Contudo, alguns posicionamentos de JHC são contraditórios com a história do PSB (historicamente à esquerda) como o apoio ao impeachment, sua anterior filiação a partidos que não posicionavam-se nesse campo político, os elogios a Damares, ministra do governo Bolsonaro, em suas redes, além de já ter aparecido em fotos na Câmara ao lado de Eduardo Bolsonaro e aparecer em sua campanha usando o verde e amarelo.

Alfredo Gaspar,  obviamente, não é muito diferente, já postou em seu instagram uma foto ao lado de Eduardo [20]Bolsonaro elogiando-o. Assim, o tema sobre a ligação dos candidatos com o atual presidente foi, ao longo da campanha, um tabu para ambos. Houve um medo de um possível erro de cálculo que dava-se na esfera de ou fazer críticas ao presidente e acabar perdendo um eleitorado, levado em conta a vitória dele na cidade, ou perder um outro público ao associar-se a ele.

Partidos mais a esquerda não são eleitos para a capital ou para o estado há muito tempo. E mesmo para a ida ao segundo turno, foi em 2010 a última vez que um candidato de esquerda, do PDT, conseguiu votos suficiente para disputa-lo. Sendo que, para prefeitura, a última vez que um partido de esquerda conquistou o pleito foi em 2004, com Cícero Almeira pelo PDT, no entanto, o candidato, após se filiar a vários partidos da direita tradicional, tentou novamente a candidatura só que por um partido de extrema direita: o DC.

Conclui-se então que a direita, principalmente tradicional, em Maceió está bem consolidada, e que mesmo um candidato de um partido de esquerda utilizou-se de artifícios bolsonaristas, além de não fazer críticas ao presidente como se espera de candidatos de partidos a esquerda ou centro-esquerda.

Os resultados eleitorais de João Pessoa(PB)

Nas eleições do ano de 2020, 27 vereadores foram eleitos na capital da Paraíba, sendo entre estes, 13 novos vereadores, como mostra a tabela abaixo:

20202016
PartidoCadeirasPartidoCadeiras
AVANTE3PSB4
PP3PSDB3
PV3PP2
CIDADANIA3PT do B2
PATRIOTA3PMN2
MDB2SD1
PMB2PSL1
REPUBLICANOS1PRB1
PROS1PSC1
PL1PHS1
PSL1PSD1
PT1PTB1
PRTB1PRTB1
PSDB1PR1
PDT1PC do B1
  PPS(Cidadania)1
  PSDC1
  PMDB1
  PT1

Na tabela, é possível ver uma comparação no números dos candidatos eleitos de cada partido em 2020 e em 2016. Enquanto em 2016 o PSB era o partido com maior número de cadeiras na Câmara, em 2020, com exceção do PV, o centrão tomou a liderança com vários partidos: AVANTE, PP, CIDADANIA e PATRIOTA. Além disso, é notável como que em 2016 a esquerda tinha mais presença na Câmara do que em 2020. Entretanto, é preciso ressaltar que, apesar de o PSB ser o partido com maior número de vereadores eleitos em 2016, a direita e o centrão ainda se faziam bastante notáveis. 

Ao relacionarmos as eleições para vereadores de ambos os anos com as eleições para prefeito dessas respectivas datas, podemos perceber ligações. Já era possível perceber a ascensão da direita e do centrão no município em 2016, fato que se fez ainda mais forte em 2020.               Além disso, houve uma troca de partido por parte do prefeito: em 2016, Luciano Cartaxo foi reeleito prefeito da cidade pelo PSD. Anteriormente, Cartaxo era prefeito de João Pessoa pelo PT. Atualmente, ele é membro do PV. 

Para a campanha eleitoral municipal de 2020, o prefeito Cartaxo havia indicado a candidata Edilma Freire(PV), enquanto que o governador do estado da Paraíba João Azevedo(CIDADANIA) declarou seu apoio ao candidato a prefeito Cícero Lucena(PP), que tem chapa com o partido do governador. Além destes, outros 12 candidatos concorreram pelo cargo de prefeito da capital paraibana, sendo eles: Nilvan Ferreira(MDB), Ricardo Coutinho(PSB), Wallber Virgolino(PATRIOTA), Ruy Carneiro(PSDB), Raoni Mendes(DEM), Anísio Maia(PT), João Almeida(SOLIDARIEDADE), Camilo Duarte(PCO), Carlos Monteiro(REDE), Ítalo Guedes(PSOL), Rafael Freire(UP) e Rama Dantas(PSTU).

No dia 15 de novembro ocorreu o primeiro turno das eleições municipais, que confirmou a pesquisa Ibope divulgada no dia 5 de outubro que apontava Cícero Lucena(PP) em liderança, seguido por Nilvan Ferreira(MDB). Assim, o resultado do primeiro turno das eleições se deu como mostra a tabela abaixo: 

CandidatoPartidoVotos em %
Cícero LucenaPP20,72%
Nilvan FerreiraMDB16,61%
Ruy CarneiroPSDB16,37%
Wallber VirgolinoPATRIOTA13,92%
Edilma FreirePV12,93%
Ricardo CoutinhoPSB10,68%
Raoni MendesDEM4,27%
João AlmeidaSOLIDARIEDADE1,73%
Anísio MaiaPT1,49%
Italo GuedesPSOL0,66%
Carlos MonteiroREDE0,26%
Rafael Freire UP0,24%
Rama DantasPSTU0,09%
Camilo DuartePCO0,02%

Além disso, tiveram 16.109(3,92%) votos brancos e 30.189(7,34%) votos nulos. Portanto, a disputa do segundo turno se deu entre as direitas: Cícero Lucena e Nilvan Ferreira. 

O preferido do primeiro turno, Cícero Lucena, como já foi apresentado em boletins eleitorais, já ocupou o cargo de prefeito de João Pessoa de 1997 à 2005. Durante a campanha em 2020, o candidato usou como forte estratégia comparações entre a atual gestão da cidade e as suas gestões. Além disso, é relevante dizer que quase um terço da bancada de vereadores eleitos aderiram a Cícero após sua vitória no primeiro turno.[21]

Em contrapartida, Nilvan Ferreira era um apresentador de TV que entrou para a vida política construindo uma identidade a partir da ideia de que a TV “chega aonde o Estado não consegue” no que diz respeito ao combate à pobreza. 

De fato, são candidatos bastante opostos, ainda que ambos sejam parte das direitas, pois enquanto Cícero Lucena já ocupou o papel de prefeito da capital, Nilvan Ferreira é um novo rosto na política, de modo que, para muitos, isso significa uma “nova política”, um sentimento de “anticorrupção”.

A pesquisa Ibope para o 2o turno apontou os dois candidatos como tecnicamente empatados, considerando a margem de erro[22]. Cícero Lucena apresentava 44% de intenção de voto, enquanto Nilvan Ferreira, 36%. O resultado previsto se confirmou no 2o turno: Cícero Lucena venceu as eleições com 53,16% de votos, enquanto Nilvan Ferreira obteve 46,84%. 

É possível perceber que ambos os candidatos são membros de dois dos partidos com maior números de vereadores eleitos em 2020, o que demonstra uma ascensão da direita liberal e do centrão em João Pessoa.

Apesar de ambos os candidatos terem adotado, em certa medida, mecanismos bolsonaristas para esta eleição, principalmente Nilvan Ferreira(com o discurso da anti-corrupção, por exemplo), os candidatos que se utilizaram de estratégias bolsonaristas de forma mais explícita não tiveram uma boa expressividade nos votos, como o candidato Wallber Virgolino, por exemplo. 

O resultado das eleições de Recife(PE)

Como já apresentado em boletins eleitorais anteriores, o quadro político eleitoral de Recife é liderado pela esquerda desde a última década, com quatro governos seguidos do PT e  dois do PSB na cidade, enquanto que no estado de Pernambuco o PSB está no poder desde o ano 2006. Além disso, o PT venceu na cidade as eleições presidenciais de 2002 à 2018. 

Dessa maneira, é possível notar a crescente força do PSB na cidade a partir da tabela abaixo a respeito da quantidade de vereadores eleitos por partido em 2020 e 2016. O PSB conseguiu aumentar ainda mais o seu número de cadeiras na Câmara, alcançando o relevante número de 12 cadeiras em 2020.

20202016
PartidoCadeirasPartidoCadeiras
PSB12PSB8
PP4PP3
PSC3PSC3
PT3PRTB3
PSOL2PT2
PODEMOS2PEN(PATRIOTA)2
SOLIDARIEDADE2PMDB2
PC do B2PRB2
AVANTE2PSDB2
MDB1PSDC1
REPUBLICANOS1PCdoB1
CIDADANIA1PTC1
PRTB1PSD1
DEM1PRP1
PROS1PSOL1
PSL1PSL1
  PPS(CIDADANIA)1
  SD1
  PTB1
  PROS1
  PDT1

A disputa para prefeito de Recife se deu entre 9 candidatos: João Campos(PSB), Marília Arraes(PT), Mendonça Filho(DEM), Delegada Patrícia(PODEMOS), Coronel Feitosa(PSC), Carlos Lima(PSL), Charbel Maroun(NOVO), Thiago Santos(UP) e Claudia Ribeiro(PSTU). Marco Aurélio, do PRTB, apesar de ter tido seu nome nas urnas, decidiu retirar sua candidatura. Além disso, Victor Assis(PCO) teve sua candidatura indeferida pela Justiça Eleitoral e não pôde participar das eleições municipais.

O primeiro turno das eleições de Recife lançou João Campos(PSB) na liderança, seguido por Marília Arraes(PT), como mostra a tabela abaixo:

Candidato PartidoVotos em %
João CamposPSB29,17%
Marilia ArraesPT27,95%
Mendonça FilhoDEM25,11%
Delegada PatríciaPODEMOS14,06%
Carlos LimaPSL1,74%
Coronel FeitosaPSC1,18%
Charbel MarounNOVO0,48%
Thiago SantosUP0,15%
Claudia RibeiroPSTU0,15%

Além desses dados, 45.448(4,90%) dos votos foram brancos e 82.928(8,94%) dos votos foram nulos. Dessa maneira, a disputa do segundo turno se deu entre os primos João Campos(PSB) e Marília Arraes(PT). 

João Campos é filho de Eduardo Campos, que foi candidato à presidência em 2014 e governador de Pernambuco por dois mandatos. Além disso, João é bisneto de Miguel Arraes, a maior liderança histórica da esquerda pernambucana. O candidato em 2020 tentou mais um mandato do PSB em Recife, junto com sua vice do PDT. A maior estratégia eleitoral de Campos foi a valorização dos governos anteriores de seu partido. 

Marília Arraes, por sua vez, é deputada federal e neta de Miguel Arraes. Sua campanha contou com o apoio de Lula, Dilma e Haddad, como já citamos no último boletim eleitoral. Durante o período de campanha, o tom era de ataque aos “verdadeiros adversários”, fazendo referência aos candidatos de direita. Entretanto, após o primeiro turno, o embate entre os dois candidatos da esquerda se fez mais forte.

A pesquisa Ibope para o 2o turno fortaleceu ainda mais esse embate entre os candidatos. A pesquisa mostra um empate entre Campos e Marília: ambos apareceram com 50% de intenção de voto . Com relação aos levantamentos anteriores do Ibope, divulgados em 18 de novembro e em 25 de novembro, João Campos apareceu com 47%, subiu para 51% e, nas vésperas do 2o turno, possuía 50%. Marília Arraes, por sua vez, tinha 53% de intenção de voto, decresceu para 49% e, nas vésperas do última dia de eleições, obtinha 50%. Fica claro, portanto, a força da esquerda em Recife, com essa disputa tão grande entre personalidades com uma história tão forte para a esquerda pernambucana. 

No segundo turno, após uma pesquisa de intenção de voto tão acirrada, João Campos foi o vencedor com 56,27% dos votos, enquanto Marilia Arraes obteve 43,73%. É relevante ressaltar a importância que essa vitória de Campos teve para a força do PSB na região. A força do partido o elegeu, e a sua eleição trará ainda mais poder ao PSB. 

Nesta eleição de 2020, como a primeira tabela sobre Recife mostra, o PSB não saiu apenas vitorioso nas eleições para prefeito, mas também para vereadores. Dessa maneira, é um momento de liderança do PSB na cidade. Com a vitória de João Campos, o partido irá para o seu terceiro mandato seguido na prefeitura de Recife.

Os resultados eleitorais de Natal(RN)

Como já apresentado no boletim eleitoral de outubro, o Rio Grande do Norte se caracteriza como a região mais forte para a direita no nordeste. A capital Natal não é uma exceção dentro do estado: um grande exemplo da força da direita na região é a vitória de Jair Bolsonaro já no primeiro turno nas eleições presidenciais em 2018. 

Apesar do poder da direita na região, a cidade tem um histórico de alternâncias entre gestões de esquerda e direita. O atual prefeito Álvaro Dias(PSDB), por exemplo, era vice de Carlos Eduardo Alves, do PDT. Este, sucedeu Ney Lopes Souza(DEM). Portanto, nas últimas eleições para vereador da cidade, a distribuição de cadeiras na Câmara entre os partidos pareceu bastante dividida entre as esquerdas e as direitas, apesar da liderança do PDT nos dois anos, como a tabela aponta:

20202016
PartidosCadeirasPartidosCadeiras
PDT5PDT4
PT3SD(SOLIDARIEDADE)3
PSDB3PMB3
PL2PMDB2
PSD2PT2
PTB2PEN(PATRIOTA)2
SOLIDARIEDADE2PROS1
PSB2PR1
REPUBLICANOS1PSDC1
PP1PRB1
AVANTE1PSDB1
MDB1PMDB1
PCdoB1PT do B1
PV1PSB1
PROS1PSL1
PSOL1PSOL1
  PTB1
  PSD1
  PTN1
  PHS1

A eleição municipal na capital potiguar se deu com a participação de 13 candidatos: Alvaro Dias(PSDB), Senador Jean(PT), Delegado Leocádio(PSL), Kelps Lima(SOLIDARIEDADE), Hermano Morais(PSB), Coronel Helio Oliveira(PRTB), Coronel Azevedo(PSC), Afrânio Miranda(PODEMOS), Carlos Alberto(PV), Nevinha Valentim(PSOL), Fernando Freitas(PC do B), Rosália Fernandes(PSTU), Jaidy Oliver(DC). 

A eleição de Natal obteve seu resultado final já no primeiro dia de eleições: Álvaro Dias(PSDB) foi eleito com 56,58% dos votos(194.764 votos) no primeiro turno.

CandidatoPartidoVotos em %
Álvaro DiasPSDB56,58%
Senador JeanPT14,38%
Delegado LeocádioPSL10,22%
Kelps LimaSOLIDARIEDADE5,87%
Hermano MoraisPSB3,38%
Coronel Helio OliveiraPRTB2,73%
Coronel AzevedoPSC1,90%
Afrânio MirandaPODEMOS1,64%
Carlos AlbertoPV1,38%
Nevinha ValentimPSOL1,15%
Fernando FreitasPCdoB0,41%
Rosália FernandesPSTU0,26%
Jaidy OliverDC0,11%

Houve 18.515(4,59%) votos brancos e 40.220(9,98%) votos nulos na capital. 

Álvaro Dias(PSDB), o candidato eleito, é o atual prefeito de Natal que buscou(e alcançou) sua reeleição, ao lado de sua candidata a vice-prefeita do PDT. O centro de toda sua campanha foram os feitos de sua atual gestão, principalmente sobre as medidas que foram tomadas a respeito da pandemia do novo Coronavírus. O resultado não foi uma surpresa para quem acompanhou os dados da capital: o prefeito tinha aprovação de governo de 63%, de acordo com uma pesquisa Ibope, divulgada pela Inter TV Cabugi no mês de outubro, como mostramos no último boletim eleitoral. Além disso, Álvaro Dias obtinha pouca rejeição entre a população: o prefeito aparecia em terceiro lugar no índice de rejeição dos candidatos. Dessa maneira, pode-se dizer que se tratava de uma vitória da reeleição garantida para o prefeito da capital do Rio Grande do Norte. 

É interessante notar que, ao contrário das últimas eleições, não houve uma alternância de poder entre esquerda e direita. Em 2020, a direita se manteve no poder da prefeitura. Este fato indica uma maior inclinação de Natal à direita, principalmente depois da vitória de Bolsonaro na capital, em 2018. Entretanto, apesar da vitória do presidente na região, os eleitores da cidade não tiveram preferência por Delegado Leocádio,  um candidato declaradamente bolsonarista, e sim por um candidato da direita tradicional, Álvaro Dias. 

A eleição em São Luís

Na tabela abaixo, figuram os partidos e a quantidade de vereadores eleitos por cada legenda nas eleições de 2016  e 2020.

20202016
PartidoCadeirasPartidoCadeiras
PODEMOS4PDT4
PCdoB4PCdoB3
PDT3PR2
PMN3PSL2
DEM2PEN (PATRIOTA)2
REPUBLICANOS2PP2
PL2PSDB2
AVANTE1PRTB2
DC1PHS (PODEMOS)2
PSL1DEM1
PRTB1PROS1
PTC1PSB1
PSC1PPS (CIDADANIA)1
PTB1PT1
PSD1PSC1
PATRIOTA1PTC1
PT1PSD1
PSB1PTB1
  PMDB (MDB)1

Ao analisarmos a tabela, percebe-se que das 31 vagas na Câmara ludovicense, 15 pertencem ao centrão (Patriota, Republicanos, Avante, Podemos, PL, PTB, PSD, PTC, DEM), a mesma quantidade verificada em 2016. Já o PSDB, que antes ocupava duas vagas na câmara, não elegeu nenhum vereador em 2020. Pelo lado progressista, o PDT perdeu uma cadeira, e o PCdoB elegeu um vereador a mais comparado ao pleito passado. PT e PSB mantiveram-se com uma cadeira cada. Entre os 5 vereadores mais votados, 3 são do PDT, e apenas Rosana da Saúde, a 4ª colocada na lista, tem alguma ligação com o bolsonarismo. Rosana é representante da Igreja Universal.

Em relação a disputa pela prefeitura, apresentamos no boletim passado a pesquisa Ibope divulgada em 21/9, que apontava um segundo turno entre Eduardo Braide (Podemos) e Duarte Jr (Republicanos). O resultado previsto se confirmou, como demonstrado na tabela de votos abaixo:

CandidatoPartidoVotos em %
Eduardo BraidePodemos37,81%
Duarte Jr.Republicanos22,15%
Neto EvangelistaDEM16,24%
Rubens Jr.PcdoB10,58%
Bira do PindaréPSB4,30%
Silvio AntonioPRTB3,14%
Jeysael MarxRede2,76%
Dr. Yglésio PROS1,92%
Franklin DouglasPSOL0,68%
Hertz DiasPSTU0,42%

Na pesquisa que apresentamos no último boletim, Braide possuía 43% das intenções de voto, Duarte Jr. figurava com 14%, Neto Evangelista com 10% e Bira do Pindaré aparecia como 4º colocado, com 5% [1]. Na última Ibope antes do primeiro turno, divulgada em 13/11, Braide figurava com 41% dos votos válidos, enquanto Duarte Jr. e Neto Evangelista apareciam empatados com 19% [2]. O resultado apresentou um declínio de Braide e crescimento de Duarte Jr., ambas oscilações, no entanto, previstas na margem de erro de 4%. 

Em relação às intenções de voto para o segundo turno, Braide aparecia com 54% dos votos válidos contra 46% de Duarte Jr. na pesquisa Ibope divulgada em 27/11, mantendo os números verificados na pesquisa anterior, deste mesmo instituto, divulgada em 20/11 [3]. O resultado do pleito, portanto, com vitória de Braide por 55,53% dos votos contra 44,47% de Duarte, esteve em consonância com o esperado, com pequena oscilação prevista na margem de erro.

Braide se colocou na disputa eleitoral como o representante da oposição. Desde que recebeu o apoio do PSDB, o nome do Podemos procurou distanciar-se ao máximo da figura do governador maranhense, Flávio Dino. Como já explicitado no boletim anterior, Dino iniciou a disputa provando sua força política na capital, tendo 4 dos candidatos do 1º turno ligados a sua base eleitoral. No entanto, os eventos que marcaram a disputa de segundo turno representaram uma reviravolta nesse quadro. Neto Evangelista (DEM), ex-secretário do governador, se posicionou a favor do candidato do Podemos [4], enquanto Dino decidiu apoiar Duarte Jr. (Republicanos)[5]. Neto recebeu 16,24% dos votos no 1º turno, e a transferência de parte de seus votos foi determinante para a vitória de Braide, somada a vantagem que o candidato do Podemos já possuía na primeira etapa do pleito. A direção municipal do PDT, por sua vez, descumpriu a recomendação da legenda por neutralidade e também optou por apoiar Braide. [6]

Portanto, a vitória da oposição, com o apoio de um candidato apadrinhado pelo governador e de um partido da esfera progressista que também apoiou Dino nas últimas eleições, representa um racha na base aliada do governador. Apoiado por Roseana Sarney, a eleição do candidato do Podemos também evidencia a força da tradicional família maranhense na política local. Roseana perdeu a disputa pelo governo do estado para Dino em 2016, mas se fortalece com o resultado da eleição na capital.  O PCdoB-MA, por sua vez, apresentou um declínio de 46 prefeituras em 2016 para 22 em 2020. [7]. Essa queda de poder político pode ser determinante para a eleição estadual em 2022 e para a capacidade de Dino de eleger um sucessor..

A disputa eleitoral em Teresina

A tabela abaixo apresenta a distribuição das 29 cadeiras da Câmara de Vereadores de Teresina, separados por sigla, e comparados ao resultado obtido em 2016:

20202016
PartidosCadeirasPartidosCadeiras
PSDB4PSDB4
MDB3PMDB (MDB)2
PDT3PSL2
PT3PT2
PP3PEN (PATRIOTA)2
DEM2PP2
PSD2PRP2
PSL2PTC2
SOLIDARIEDADE1PHS (PODEMOS)1
REPUBLICANOS1PDT1
PL1PPS (CIDADANIA)1
PATRIOTA1SOLIDARIEDADE1
PV1PSD1
AVANTE1PV1
PTB1PRB (REPUBLICANOS)1
  PCdoB1
  PSDC (DC)1
  PTdoB (AVANTE)1
  PMB1

Historicamente forte no estado, o PSDB conseguiu manter suas 4 cadeiras na capital. Na eleição de 2016 os dois candidatos mais votados eram do partido, o que não se repetiu em 2020. Jeová Alencar, mais votado em 2016, também foi o preferido em 2020, porém sob a sigla do MDB. A segunda melhor votação foi de Evandro Hidd, do PDT.

O centrão, que elegeu 16 vereadores em 2016, manteve suas cadeiras no pleito de 2020. O lado progressista, por sua vez, contou com 2 assentos a mais pelo PDT, e um a mais para o Partido dos Trabalhadores. O PCdoB, no entanto, não conseguiu eleger deputados.

Para o cargo de prefeito de Teresina, o resultado do primeiro turno se configurou dessa forma:

CandidatoPartidoVotos em %
Dr. PessoaMDB34,53%
Kléber MontezumaPSDB26,70%
Gessy FonsecaPSC12,14%
Fabio NovoPT11,50%
Fábio AbreuPL7,02%
Major DiegoPatriota3,11%
Simone PereiraPSD2,12%
Lucineide BarrosPSOL2%
Fabio Servio PROS0,47%
Mario RogerioCidadania0,19%
Pedro LaurentinoUP0,11%
Gervásio SantosPSTU0,06%

O resultado do pleito, com exceção dos nomes que disputariam o segundo turno, contrasta com a pesquisa apresentada no último boletim (divulgada 22/9) ao analisarmos o desempenho dos demais postulantes. Fábio Abreu (PL), o candidato bolsonarista, figurava à frente de Montezuma, com 20,17% e 13,88% respectivamente[8]. Fábio apresentou uma queda significativa, e não estabeleceu-se nem ao menos como a 3ª maior votação, sendo substituído por Gessy Fonseca, candidata do PSC que, apesar de cristã, possui um discurso bem mais moderado e voltado sobretudo ao empresariado. Major Diego, o outro nome da ala bolsonarista, tampouco obteve um resultado expressivo.

Em pesquisa de intenção de voto para o segundo turno, Dr. Pessoa aparecia com 68%, enquanto Kléber Montezuma (PSDB) detinha 34% na pesquisa Ibope divulgada em 28/11[9]. O resultado da disputa eleitoral, com a eleição do candidato do MDB com 62,31% dos votos contra 37,69% do nome da situação, apresentou uma diferença levemente superior à prevista na margem de erro de 4%. Dr. Pessoa, aliado ao PSB e ao PRTB do vice-presidente Hamilton Mourão, já era o candidato preferido no primeiro turno, mas o apoio de Gessy Fonseca [10] para a segunda etapa do pleito lhe possibilitou uma transferência vantajosa de votos e lhe conferiu ampla vantagem. O nome do MDB, portanto, conseguiu reunir os votos dos insatisfeitos com a última gestão tucana e do eleitorado cristão. Após 7 vitórias consecutivas, o PSDB sai fortemente derrotado da disputa municipal, perdendo sua hegemonia na capital piauiense. 

O pleito em Fortaleza

A distribuição das 43 vagas para a Câmara de Vereadores de Fortaleza, separada por partido e em comparação com a eleição de 2016, figura da seguinte forma:

20202016
PartidosCadeirasPartidosCadeiras
PDT10PDT11
PROS5PRTB4
PSB3PR4
PT3PPL (PCdoB)3
CIDADANIA3SOLIDARIEDADE2
PSOL2PSD2
PSC2PTC2
PP2PEN (PATRIOTA)2
PSD2PRP (PATRIOTA)2
PL2PT2
PMB2PPS (CIDADANIA)2
REPUBLICANOS2PRB (REPUBLICANOS)1
DEM1PCdoB1
PSDB1PSL1
REDE1PTN (PODEMOS)1
PODEMOS1PSDC (DC)1
PSL1PSDB1
  PMDB (MDB)1

Percebe-se que o PDT manteve sua hegemonia, apesar de haver perdido uma cadeira. 7 dos 10 vereadores mais votados são do partido. O resultado foi, em geral, positivo para a esfera progressista: o PSOL, que antes não possuía representação na Câmara de Fortaleza, elegeu 2 vereadores; este é o mesmo caso do PSB, que elegeu 3 vereadores. O PT, por sua vez, agregou uma cadeira à sua bancada.

O centrão agora ocupa 18 cadeiras, em comparação aos 20 vereadores eleitos por partidos do bloco em 2016. O bolsonarista Ronaldo Martins (Republicanos) – pastor da Igreja Universal – foi o vereador mais votado, enquanto o segundo foi Lúcio Bruno, do PDT. Este dado evidencia a polarização entre a esquerda e o bolsonarismo, que também se reflete na disputa pela prefeitura, em consonância com o contexto político nacional.

A tabela abaixo apresenta os resultados do primeiro turno:

CandidatoPartidoVotos em %
SartoPDT35,72%
Capitão WagnerPROS33,32%
Luizianne LinsPT17,76%
Heitor FerrerSolidariedade4,93%
Célio StudartPV3,54%
Renato RosenoPSOL2,68%
Heitor FreirePSL1,66%
AnízioPCdoB0,18%
Samuel BragaPatriota0,14%
Paula ColaresUP0,07%
José LouretoPCO0,01%

Sarto (PDT), que no último boletim ainda disputava com Luizianne Lins (PT) para ir ao segundo turno, se consolidou como o candidato mais votado. Wagner (PROS), obteve apenas 2% a menos que o primeiro colocado, e como uma das estratégias para o segundo turno, tentou se desvencilhar da imagem de Bolsonaro. Este posicionamento também foi apontado no último boletim, uma vez que o candidato não fez menções a Bolsonaro em sua campanha. Eduardo Girão, seu coordenador de campanha, negou vínculos com o presidente [11], apesar de Bolsonaro ter expressado repetidamente o apoio ao postulante [12].

Luizianne Lins (PT) optou pela neutralidade no segundo turno, opondo-se à decisão de sua sigla por apoiar a candidatura do pedetista. A posição da postulante reflete o embate travado entre a petista e Sarto na disputa de primeiro turno, que envolveu, inclusive, processo na justiça por direito de resposta a fake news divulgadas na campanha do candidato cirista. O desempenho de Sarto, no entanto, consolidou a hegemonia do PDT pela esfera progressista na política cearense. 

Para o segundo turno, a pesquisa Ibope divulgada em 28/11 previa a eleição de Sarto com ampla vantagem: 61% frente a 39% do candidato do PROS [13]. O resultado, no entanto, foi decidido com uma diferença de menos de 3% entre os dois postulantes. Era esperado que Capitão Wagner não pudesse contar com grandes transferências de votos para o segundo turno, visto que as demais candidaturas à direita não receberam uma votação expressiva, e os votos da petista deviam migrar para Sarto, conferindo-o ampla vantagem. No entanto, o nome do PROS, de forma surpreendente, foi capaz de disputar a prefeitura em uma votação acirrada, contrapondo-se à maior potência política local. O candidato dos Ferreira Gomes foi eleito prefeito com 51,69% dos votos contra 48,31% de Capitão Wagner. Apesar da vitória progressista, o resultado do pleito evidencia o fortalecimento de uma oposição à direita na disputa eleitoral.

Conclusão

Ao analisarmos a disputa eleitoral nas nove capitais supracitadas, percebe-se que, no geral, os partidos da direita tradicional saíram vitoriosos do pleito.

Embora algumas forças políticas locais – PSDB no Piauí, Flávio Dino no Maranhão e o Cirismo no Ceará tenham se mostrado enfraquecidas ou ameaçadas, outras como em Salvador, com o carlismo, ou o PDT em Aracaju com Edvaldo, somente explicitaram um fortalecimento.

Braide, do Podemos, obteve o apoio de Roseana Sarney e da ala bolsonarista do PSL; Dr. Pessoa, do MDB, teve apoio do vice-presidente Hamilton Mourão e do PRTB; e Capitão Wagner, do PROS, apesar de ter evitado durante toda a campanha a vinculação de seu nome ao do presidente, catalisou os votos do eleitorado bolsonarista na capital cearense, superando as expectativas expressas nas pesquisas de intenção de voto. Vimos também, que em Maceió ambos os candidatos que foram para o segundo turno tiraram fotos ou elogiaram pessoas ligadas ao bolsonarismo, no entanto no debate e campanha dos dois, não houveram avaliações positivas ou negativas ao presidente. JHC, que saiu vitorioso, inclusive disse que mesmo fazendo parte de um partido de esquerda não faria um discurso anti-Bolsonaro, já que seria preciso ter um diálogo com o governo federal.

Sendo assim, os resultados das eleições municipais de 2020 confirmam nossa hipótese: o perfil dos candidatos evidencia a força crescente de uma direita que busca diferenciar-se do bolsonarismo, mas que é fortalecida por essa esfera política e utiliza de diversas estratégias da mesma. Os postulantes que adotaram posicionamento mais moderado, voltado ao empresariado, à recuperação da economia pós pandemia e a pautas da segurança pública, saem desta disputa eleitoral com desempenho significativo. Em contraposição, a esfera progressista esteve ausente na maioria das disputas de segundo turno analisadas nesse boletim. O mesmo ocorreu com os nomes expressamente vinculados ao presidente, que adotaram um discurso armamentista e ultraconservador: Silvio Antonio (PRTB), candidato à prefeitura de São Luís e Fábio Abreu (PL), postulante a prefeitura de Teresina, foram rejeitados pelo eleitorado nordestino e obtiveram votações pouco expressivas. É possível notar, portanto, que o centrão e a direita tradicional estão preenchendo essa lacuna da bipolaridade entre esquerda e extrema-direita, que teve seu ápice nas eleições de 2018. Muitos candidatos nas eleições municipais de 2020, como já mostramos em boletins anteriores, tentaram se aproveitar de estratégias bolsonaristas. Entretanto, os eleitores não se mostraram interessados na polarização que antes tomava conta do cenário político brasileiro. Portanto, o centrão utilizou diversos mecanismos bolsonaristas de forma moderada e obteve êxito, enquanto a extrema-direita também se utilizou de métodos e estratégias bolsonaristas, mas o fizeram de uma maneira que, para os eleitores, fomentava a polarização entre extrema-direita e esquerda, o que pareceu não interessar ao eleitorado nordestino.


[1] http://g1.globo.com/bahia/eleicoes/2016/noticia/2016/10/veja-como-ficou-composicao-da-camara-municipal-de-salvador.html

[2] https://g1.globo.com/ba/bahia/eleicoes/2020/resultado-das-apuracoes/salvador.ghtml

[3]https://pt.wikipedia.org/wiki/Carlismo_(Brasil)#:~:text=Carlismo%20%C3%A9%20o%20termo%20utilizado,dos%20mais%20influentes%20do%20Brasil.

[4] https://g1.globo.com/ba/bahia/eleicoes/2020/resultado-das-apuracoes/salvador.ghtml

[5] https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2020/10/05/ibope-em-salvador-bruno-reis-tem-42-pastor-sargento-isidorio-10.htm

[6] https://www.gazetadopovo.com.br/eleicoes/2020/pesquisa-eleitoral/prefeito-salvador-ba-ibope-14-novembro-2020/

[7] https://bahiaeconomica.com.br/wp/2020/09/28/eleicao-para-prefeito-de-salvador-a-estrategia-de-rui-e-acm-neto/

[8] https://atarde.uol.com.br/politica/noticias/2139161-rui-destaca-que-so-ira-participar-da-campanha-de-denice-santiago

[9]https://pt.wikipedia.org/wiki/Avante#:~:text=Disputa%20as%20elei%C3%A7%C3%B5es%20brasileiras%20desde,um%20partido%20de%20centro%2Desquerda.

[10] http://g1.globo.com/se/sergipe/eleicoes/2016/noticia/2016/10/confira-nova-composicao-da-camara-municipal-de-aracaju.html

[11] https://www.otempo.com.br/hotsites/eleicoes-2020/apuracao/aracaju-se/vereador

[12] http://jornaldacidade.net/politica/2020/02/315794/edvaldo-quer-uniao-com-centro-e-centro-direita.html

[13] https://g1.globo.com/se/sergipe/eleicoes/2020/noticia/2020/11/20/pesquisa-ibope-para-2o-turno-em-aracaju-edvaldo-55percent-delegada-danielle-31percent.ghtml

[14] https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2020/10/22/ibope-em-aracaju-candidato-a-reeleicao-edvaldo-nogueira-pdt-tem-34.htm

[15] https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2020/eleicao-em-numeros/noticia/2020/11/16/14-capitais-registram-abstencao-acima-de-25percent-todas-tem-nao-comparecimento-m

[16] https://www.gazetadopovo.com.br/apuracao/resultados-eleicoes-2016-primeiro-turno/maceio-al/vereador/

[17] https://g1.globo.com/al/alagoas/eleicoes/2020/noticia/2020/11/16/14-dos-25-vereadores-eleitos-sao-novatos-na-camara-municipal-de-maceio.ghtml

[18] https://g1.globo.com/al/alagoas/eleicoes/2020/noticia/2020/11/11/pesquisa-ibope-em-maceio-alfredo-gaspar-26percent-jhc-22percent-davi-davino-filho-19percent.ghtml

[19] https://g1.globo.com/al/alagoas/eleicoes/2020/noticia/2020/11/13/debate-a-prefeitura-de-maceio-reune-sete-candidatos.ghtml

[20] http://g1.globo.com/se/sergipe/eleicoes/2016/noticia/2016/10/confira-nova-composicao-da-camara-municipal-de-aracaju.html

[21] https://www.jornaldaparaiba.com.br/eleicoes-2020/cicero-lucena-tem-777-da-bancada-de-vereadores-eleitos-em-joao-pessoa.html

[22] https://g1.globo.com/pb/paraiba/eleicoes/2020/noticia/2020/11/24/pesquisa-ibope-para-2o-turno-em-joao-pessoa-cicero-lucena-44percent-nilvan-ferreira-36percent.ghtml

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