A vitória da direita tradicional em São Paulo

POR DANIEL SOUSA

O presente texto se propõe a analisar o primeiro e segundo turno das eleições municipais que ocorreram no dia 15 e 25 de novembro de 2020 na cidade de São Paulo, com objetivo de compreender os impactos para o pleito de 2022. A disputa que concedeu a vitoria para o candidato da direita tradicional, Bruno Covas (PSDB), contra o candidato de esquerda, Guilherme Boulos (PSOL). Ademais, o período analisado foi marcado pelo derretimento do candidato, Celso Russomanno no primeiro turno nas pesquisas de opinião e de candidatos bolsonaristas no legislativo, além da vitória do candidato Democrata nos Estados Unidos.

Dito isso, neste boletim, trabalharemos a hipotese de que o recrudescimento da direita tradicional implica em mudanca de estrategia por parte de Bolsonaro, que se verá na necessidade de aglutinar sua base política à partidos de direita tradicional. Na esfera da esquerda, nossa hipotese é de que a projeção nacional alcançada por Boulos, aponta uma ruptura da atuação da esquerda no ambito digital, concomitante a possibilidade da criação de uma  frente de esquerda, que nesse caso, serviu como balão de ensaio contra Bolsonaro para 2022. 

Para isso, realização deste estudo, utilizamos como fonte, o resultado das eleições no âmbito legislativo, além fontes jornalísticas.

O texto foi dividido de modo a apresentar o resultados referente ao desempenho obtido no primeiro turno da direita tradicional, bolsonarista e esquerdas. Em um segundo momento, apresentamos o resultado do segundo turno e conclusão, onde laboraremos nossas hipóteses.

Diferentemente do que apontavam pesquisas de opinião, o período analisado, foi marcado pela deterioração da imagem do candidato bolsonarista, Celso Russomanno (REPUBLICANOS). Assim como diversas cidades ao redor do Brasil, candidatos alinhados ao discurso bolsonarista-antissistema, enfrentaram nas urnas, consequências do imponderado discurso. Atrelamos essa derrota não só, mas também, às particularidades das eleições municipais, sendo elas “locais”, a tangibilidade do discurso se atrela às necessidades da vida cotidiana. Isto é, a gestão da pandemia, neste caso, inicialmente se mostrou mais atrativo que os impropérios promulgados por candidatos mais radicais.

                                     Direita bolsonarista

Resultado do primeiro turno
CandidatosVotos Válidos Porcentagem
Celso Russomanno – (REPUBLICANOS)560.66610.50%
Arthur do Val – (PATRIOTA)522.2109,78%
Joice Hasselmann (PSL)98.3421,84%
Levy Fidelix10.9600,22%

Assim como nas eleições à prefeitura de 2012 e 2016, Russomanno começou a campanha na frente das pesquisas, mas acabou ficando de fora do segundo turno. O candidato viu sua candidatura degringolar em meio a falas de que moradores de rua tinham imunidade à Covid-19 porque não tomavam banho, e no seu pouco tempo de TV. 

No dia das eleições, o presidente Jair Bolsonaro (Sem partido) chegou a compartilhar e apagar uma publicação onde declarava seu apoio a outros candidatos, dentre os quais, Russomanno  estava presente. A publicação foi após a apuração dos votos indicar que quase nenhuma das indicações do presidente foram para o segundo turno. Nos bastidores, o partido de Russomanno atribui o mal resultado ao próprio candidato, já que a rejeição do presidente na capital chega a 50%, segundo o instituto Datafolha. No mais, no segundo turno das eleições, Russomanno juntamente a Matarazzo manifestaram apoio a Bruno Covas  para o segundo turno. 

Já a candidata Joice Hasselmann, eleita em 2018 como deputada federal, elencou 1 milhão de votos na época. Naquela ocasião, foi a mulher mais votada do estado. Hoje, com um total de 98.342 – 1,84% dos votos válidos. Levy Fidelix (PRTB), partido do Hamilton Mourão, com 0,22% dos votos. Arthur do Val, conseguiu 533.210 dos votos representando 9,78% dos votos válidos. 

No âmbito do legislativo, a família da deputada bolsonarista Carla Zambelli desempenhou resultado pífio no pleito, não conseguindo eleger nenhum vereador. 

Dito isso, o baixo desempenho nas urnas tranforma-se em necessidade de mudança de tática para o presidente, que na iminência de 2022, não conseguiu emplacar o Aliança pelo Brasil. Interlocutores indicam que o presidente cogita se filiar a algum partido de direita tradicional para tentar centralizar sua base. Os mais cotados são Progressistas, PSD ou Patriotas.  

Direita tradicional

Resultado primeiro turno.
CandidatosVotos Válidos Porcentagem
Bruno Covas – (PSDB)1.754.01332,85%
Andrea Matarazzo – PSD83.7531,55%

Após a derrota no primeiro turno, o candidato Russomanno manifestou apoio a Bruno Covas. “O partido entende que a moderação e o equilíbrio são fundamentais para que a cidade possa avançar e que Bruno Covas é a pessoa mais preparada para isso”, diz uma nota assinada em conjunto pelo Republicanos e pelo próprio Russomanno. O prefeito Bruno Covas recebeu apoio mais cedo de Andrea Matarazzo, do PSD no primeiro turno. 

As eleições nos Estados Unidos que ocorreram antes do primeiro turno na cidade paulista, podem indicar uma mudança de comportamento que diz respeito a preferência política voltada mais ao centro. Certamente as eleições municipais de 2020 sai da direita reacionária e se desloca para o centro-direita, ou direita tradicional. Ou seja, fortalecimento das forças da direita tradicional como opção viável aos discurso extremados. 

A falta de fôlego de candidatos abertamente bolsonaristas podem estar atreladas a algumas das hipóteses que listamos. A primeira hipótese é de uma desorganização partidária. Se por um lado isso promoveu uma maior liberdade do presidente em indicar aliados, não se mostrou como estratégia efetiva, por tanto passível de revisão, como os movimentos que já tem feito para se filiar a algum partido mirando em 22. 

A segunda hipótese é de que a direita reacionária está perdendo fôlego. Um exemplo prático pode ser compreendido nas eleições presidenciais dos EUA. Ainda que o debate entre uma direita radical e tradicional não estão se restringem ao âmbito brasileiro. As eleições americanas, semelhantemente à brasileira, não demonstraram uma derrota avassaladora de Donald Trump – representante da direita radical -, mas apontam para o apaziguamento, ao menos momentâneo da ascensão extremista. Assim como no Brasil, a direita reacionária, ou bolsonarista questiona a legalidade do processo eleitoral, pondo em xeque sua eficácia, o discurso bolsonarista, paulatinamente ganha capilaridade como prognóstico para 2022. 

Outro exemplo que corrobora para nossa análise são as movimentações que figuras como, Sérgio Moro ou Luciano Huck estão fazendo em se mostrar como candidatos ao centro. 

Desta forma, após o presidente criar seu partido, compreenderemos se ainda tem ou não força política para ir com força para o pleito de 2022. De acordo com a vitória de Covas em São Paulo e Eduardo Paes no Rio, ambas com acenos de Rodrigo Maia, a direita reacionária tem de repensar estratégias para se oxigenar novamente. O mesmo serve para a esquerda, do qual abordaremos mais adiante.

                                                                        As esquerdas 

Resultado primeiro turno
CandidatosVotos Válidos Porcentagem
Guilherme Boulos (PSOL)1.080.73620,24%
Márcio França (PSB)725,44113,64%
Jilmar Tatto (PT)461.6668,65%
Orlando Silva (PCdoB)12.2540,23%
Vera (PSTU)3.0520,06%
Antonio Carlos (PCO)6300,01%

No âmbito legislativo, o PSOL elegeu uma vereadora trans, Erika Hilton e triplicou sua presença, se tornando a terceira maior bancada no Legislativo municipal. Eduardo Suplicy (PT), por sua vez, foi o vereador mais votado do país, com mais de 167 mil votos. No total, a esquerda conseguiu emplacar 16 dos 55 vereadores, representando 29.09% das cadeiras na Câmara dos Vereadores, isto é, comparativamente a 2016, O PSOL aumentou de 2 candidatos eleitos para 6, enquanto o PT diminuiu de 9 para 8, em paralelo ao PSB que caiu de 2 para 3. Por outro lado, Márcio França, terceiro colocado no pleito, distinto dos outros candidatos do campo,  fez voto de neutralidade no primeiro turno, apoiando Boulos apenas no segundo .

PageNetworkTotal Reactions Comments, SharesEngagement
Boulos INSTAGRAM7.347.71420.34%
Boulos TWITTER4.927.02715.81%
Boulos FACEBOOK4.564.75219.06%
Bruno CovasINSTAGRAM320.9675.92%
Bruno CovasFACEBOOK184.9626.14%
Bruno CovasTWITTER13.3090,9%

Em consonância com nosso último boletim, segundo o levantamento divulgado pelo Data Analyst, Pedro Barciela , nas Redes Sociais, os números dos últimos 28 dias – anteriores o primeiro turno – referentes ao engajamento nas redes sociais, confirma o forte empenho de Guilherme Boulos. Em contraste a 2018, onde as tecnologias foram recebidas com espanto por grande parte das esquerdas. Nesse sentido, no ambito das esquerdas, mais especificamente o PSOL, o cenário que se delimita é de uma maior capacidade para concorrer às próximas eleições, servindo de exemplo para toda a esquerda. 

Resultado das eleições no segundo turno.
CandidatosVotos Válidos Porcentagem
Bruno Covas (PSDB)3.169.12159,38%
Guilherme Boulos (PSOL)2.168.10940.62%

No segundo turno, o discurso antisistema não prevaleceu, quem copiou a estratégia de Bolsonaro, salvo em algumas regiões, não foi bem sucedido. Por sua vez, o que promoveu maior liberdade ao mandatário, também o enfraqueceu pela incapacidade de criar um pólo gravitacional em torno de si por meio de um partido. A tônica das eleições no segundo turno foi baseada, por Covas, na imputação da ideia de que Boulos era inexperiente. No pós-eleições, antagônicos ao presidente, Maia aparece com Covas, correligionário de Dória e Eduardo Paes (DEM) . O gesto pode ser entendido como uma possível aliança PSDB-DEM para o pleito de 2022 almejando a criação de uma frente de “direita moderada” contra o atual presidente. Além do gesto, Maia diz que quer ampliar as forças e chegar até Ciro, Huck. “algum nome do PSB”  ou Molon para uma frente-ampla. 

Por outro lado, a frente de esquerda, de acordo com o resultado das eleições, impulsiona o PSOL para projeção nacional, isto é, seu desempenho sinaliza uma oxigenação da esquerda a viabilizando para 2022. Nesse sentido, demonstrou a possibilidade da esquerda funcionar em bloco. 

O PSOL, mesmo comparativamente menor do que o PT, apresentaram uma renovação nas estratégias virtual, além da capacidade de abertura de diálogo com figuras como Marina silva (REDE), que nao se posicionava apoiando candidaturas de esquerda desde 2016, Ciro Gomes (PDT), que nas eleições de 2018 impulsionou uma candidatura com forte sentimento antipetista e Flávio Dino (PCdoB), que almeja uma frente ampla com nomes para além da esquerda como Luciano Huck.  

O PT de Tatto, foi importante catalisador de votos de Russomanno em sua derrocada ajudando o PSOL a chegar no segundo turno, demonstrou que há um árduo caminho para se demonstrar competitivo para 2022. No mais, em Sao Paulo, Partido dos Trabalhadores obteve seu pior desempenho de votos em toda sua história.  

Conclusão

A direita tradicional vem se mostrando como alternativa aos discursos extremados do bolsonarismo que não consegue atender a concretude das demandas políticas reais fora do âmbito ideológico. Os resultado nas urnas indicaram a ineficácia do método extremado. Acompanharemos no decorrer dos anos o sucesso ou insucesso das práticas na administração do pós pandemia.

Por outro lado, no âmbito da esquerda, a compreensão de Boulos nas Redes Sociais, atreladas ao canal de diálogo estabelecido entre as esquerdas nacionais, surtiram efeito mediante ao detrimento da imagem de Russomanno, que despencou no resultado nas urnas. 

Comparativamente à 2018, em São Paulo, podemos dizer que houve uma rejeição do espírito extremista. Em outras palavras, a tônica antissistema foi interinamente sublimada do pleito. Resta mensurar e entender se esse discurso se viabilizará para disputa de novas eleições, uma vez que parte da direita tradicional apresenta-se altamente fisiológica, podendo ser refém de outras “ondas” como Huck, Moro ou Dória, por exemplo. 

Por fim, a derrota de Bolsonaro nas urnas indica que haverá trabalho para recompor a base a corrida presidencial de 2022 buscando se filiar a um partido. 

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